terça-feira, 26 de setembro de 2017

Os parricidas, de Raul Pompeia


Os parricidas

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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De um livro de M. Fornari, Professor de Filosofia Hermética de Milão.

Atufado no grande leito, grande e suntuoso como um catafalco, do sombrio aposento, eu revia, na indecisão imaginativa que precede o sono, os incidentes da festa, meditando a legenda de mistério que envolvia o castelo, que o fazia negro, mais do que os anos, sobre os alcantis da encosta.

A câmara a que me tinham conduzido ficava situada num dos ângulos mais afastados do edifício. Era uma espécie de cela enorme de abadia, paredes de pedra, ladrilhada de pedra e cheia da atmosfera especial dos lugares fechados e baixos. Do teto, construído em abóbada de um mosaico colossal de madeira, pendia fixamente uma lâmpada de ferro. Apagada. Os clarões da lareira divagavam pelas imensas paredes, escuras de umidade, adamascadas de mofo, e, batendo por baixo as vergas de talha dos portais, formavam sinistras esculturas e lances de sombra que subiam obliquamente.

As cortinas do leito defendiam-me em parte da grandeza lúgubre do dormitório; mas era impossível que não sofressem as ideias do influxo daquela encenação.

Pelo menos a isso quis atribuir a impertinência de pesadelo com que me perseguia uma lembrança.

Correram, entretanto, animadíssimas as bodas e parecia voltar para sempre a alegria à vivenda principesca, por tanto tempo adormecida no encerramento secular e no silêncio, abrindo então as janelas incendiadas de luz, acima da massa de arvoredo da planície, esturgindo ao clamor festivo das músicas e dos brindes.

Pelos salões, a jovem noiva distribuía-se, feita a graça, o encanto, o movimento do prazer de todos. O noivo, o altivo de Sainville, distinto, correto, era apontado ao passar, e passava sobre um tapete de comentários amáveis. E bem certo merecia a sorte venturosa de possuir o coração e o futuro da criatura adorável que desposara.

Uma coisa, porém, observei que envenenava para mim a cordialidade das expansões: a expressão do rosto de Vildac, o senhor do castelo e pai da noiva. Mau humor talvez de hipocondria; era, contudo, insuportável aquele retraimento da testa, crispada de pequeninas rugas verticais, geralmente fixas, às vezes móveis como víboras, aquele olhar, relâmpago acerbo fuzilando a espaços, percorrendo a casa como a brisa da meia-noite nas festas macabras. Dir-se-ia odiar a alegria, aquele homem. A própria filha, a cândida noiva, não escapava à irradiação do olhar satânico detido mesmo sobre ela frequentemente, como um auspício de maldições.

Bailava-me ainda no espírito o turbilhão dos pares sob os lustres, vertigem de cores e pedraria iluminada; mas a impressão dominante na memória era o olhar, aquele olhar duro e cruel.

As condições do aposento, vasto, onde os reflexos do fogão perdiam-se como fantasmas, frio, que mal podiam aquecer os toros em brasa, frio da umidade das lájeas, crescendo do chão, transpirando das paredes, ilimitado para cima com o teto de trevas donde a lâmpada saía como solta no ar, o pavor templário que eu sentia fora dos cortinados fazia avultar a indisposição nervosa que me criara a maneira fisiognomônica do estranho hóspede.

Pesava-me felizmente o sono e breve repousaria da obsessão incômoda.

Esquecia-me já a acompanhar visões mais raras, mais calmas, extintas e difusas, que me falavam ao ouvido a voz carinhosa da noiva, que desmanchavam coroas brancas, coando sorrisos num véu, que desfilavam silenciosas, parecendo-me ver a procissão austera dos antigos habitadores do solar, velhos fidalgos mortos, um depois de outro lívidos e majestosos, um depois de outro, infinitamente, cada vez mais vagos.

Ia adormecer, quando um rumor despertou-me. Excitação nervosa sem dúvida, julguei.

Não. Era por cima do leito, dentro da abóbada de madeira. Acentuava-se sensivelmente. Prestei ouvidos com a respiração suspensa.

Exatamente sobre o teto de meu aposento ficava a torre grande do castelo.

O rumor cresceu. Descia no interior da muralha de pedra. Era como passos por uma escada e um barulho de ferros ao mesmo tempo.

Instantes depois percebia mover-se uma porta. O ruído dos passos e dos ferros tornou-se distinto. Violenta horripilação sacudiu-me os membros. Levei instintivamente a mão à espada que deixara à cabeceira e esperei a visita.

A nesga do cortinado deixava-me ver. Naquele momento, acendiam-se pequeninas chamas na lareira perto da cama. Eu via adiantar-se um grande velho, descabelado, curvo, de barbas abundantes, sobre a nudez do peito espantosamente magro; o estômago fugia-lhe sob as costelas como um buraco, um andrajo inqualificável pendia-lhe dos rins. Trazia correntes nos pulsos e nos tornozelos. Pensei nas almas penadas.

O singular personagem, com um andar difícil, doloroso, acercou-se do braseiro, tiritando. Estendeu os braços para o fogo. Tinha frio o espectro.

— Ah! exclamou, este calor!... Há que tempo... Há que tempo não me aqueço!...

A voz cavernosa tremia-lhe como um gorjeio de sensualidade inexprimível, debilíssima voz que parecia vir da terra ou de longe, do fundo de um século.

Donde chegava, com efeito, aquele desgraçado? Ao meu primeiro abalo de temor sucedera a compaixão.

Vi-o olhar para o lado donde surgira sentidamente e longamente. Olhou depois para o chão, entregando-se a uma dor profunda. Ajoelhou-se e bateu muitas vezes com a fronte no ladrilho, soluçando como um louco.

— Meu Deus! meu Deus! repetia com angústia.

A um movimento que fiz no leito, houve um estalido. O velho ergueu-se.

— Quem está aí? gritou assustado. Há alguém nessa cama?

Respondi sentando-me e arredando bruscamente o cortinado:

— E quem me fala?

A minha presença foi de um efeito incrível.

Convulso, estrangulado pelos soluços, asfixiado pelas lágrimas, o velho ficou muito tempo impossibilitado de falar. Pediu-me com um gesto que esperasse. Faltava-lhe a voz.

— Sou, disse afinal, o mais desgraçado dos homens, o mais desgraçado... Nada mais devia dizer. Mas é tão bom falar... Há tanto tempo que não vejo ninguém... Ah! eu devia calar-me; mas é tão grande a ventura de falar a um dos meus semelhantes!...

Não é possível caracterizar o sentimento, a miséria daquelas palavras naquela voz hesitante e longínqua.

— Nada tema, disse-me. Venha sentar-se ao pé do fogo... Compadeça-se de mim, de um miserável. Seria um alívio ouvir-me os infortúnios.

Sem hesitação fui sentar-me à lareira, bem perto do velho. Esta prova de confiança comoveu-o. Tomou-me as mãos e cobriu-as de pranto ardente.

— Homem de coração... Por que veio dormir nesta sala onde ninguém habita?... E que rumores foram os desta manhã e desta noite?... Que músicas?... Que novidade houve hoje no castelo?...

Quando informei que fora o casamento da filha de Vildac, o velho ergueu os braços.

— Então Vildac tem uma filha?! E hoje casou?!... Grande Deus! fazei-a feliz para sempre e... que sempre o seu: pobre coração ignore o crime!...

Saiba agora quem sou... Eu sou o pai de Vildac!... do bárbaro Vildac... Mas terei direito de queixar-me? Ah! Não me cabe a mim acusá-lo...

— Como! exclamei com espanto. Como, pois?!... Vildac é seu filho e o monstro o conserva preso?... Sem falar a ninguém... carregado de ferros?!

— A cobiça! a cobiça! Ah! não sabe o que pode a cobiça... Nunca houve sentimentos no coração selvagem do meu desgraçado filho! Insensível à amizade, foi surdo até à voz da natureza. Para tomar-me a fortuna, carregou-me de ferros...

Foi um dia visitar um dos nossos vizinhos que perdera o pai. Achou-o no meio dos vassalos, muito atarefado a receber o produto das rendas e das safras. Um pensamento diabólico apoderou-se-lhe da vontade. Fechou-me o rosto. Notei-lhe uma transformação sombria. Um mês mais tarde, alguns homens mascarados agarraram-me brutalmente, à noite, e seminu trancaram-me na torre.

No outro dia, os sinos dobraram, por minha morte. Aqui, do meu cárcere, ouvi os cânticos fúnebres, as preces, ai de mim que pediam ao céu o descanso de minha alma...

Ah! Como me penetraram de tristeza aquelas cerimônias!... Ao menos os outros mortos não ouvem... De então por diante, eu não existia mais... E há vinte anos represento a triste comédia... Só não sei para que algemas... Os mortos não fogem...

— Não! disse eu possuído de indignação, não há de ser assim!

O velho prisioneiro interrompeu-me:

— Não desejo fugir... Quisera apenas dizer a meu filho duas palavras... Os que trazem a comida consideram-me um criminoso condenado a acabar nesta torre... E assim deve ser.

— Não! Há de deixar o cárcere... Fui destinado pelo céu... hei de salvá-lo... Partamos... Todos dormem... Serei o seu amparo, a sua defesa...

— Ah! meu bom senhor, mudaram-se muito os meus princípios e as minhas ideias nesta soledade em que vivo. Tudo é opinião... Agora, que me conformei com o que a situação tem de mais cruel, para que trocar por outra? Que iria eu fazer pelo mundo?... Está lançada a sorte...

— Reflita! reflita bem! O dia vai romper... Não sobra o tempo... Venha! vamos!...

— Comove-me este zelo, mas tão poucos dias tenho para viver... a liberdade já não tenta... De mais gozá-la fora desonrar o nome de meu filho...

— Ele é que se desonrou!...

— Mas essa inocente, que dorme agora nos braços do esposo... Eu iria cobri-la de infâmia... Ah! quanto preferia eu apertá-la ao peito, cobri-la de lágrimas. Por desgraça minha não hei de vê-la nunca!... Adeus, generoso amigo... Vai amanhecer... Podiam ver-nos... Eu volto à prisão.

— Impossível! protestei, detendo-o. Não posso consentir. A reclusão enfraqueceu-vos o cérebro... Eu darei ânimo... Mais tarde veremos se convém dar-se a conhecer... primeiro... Ninguém saberá; ocultarei ao mundo o crime de Vildac... Medo de quê?!

— Nada! Eu agradeço penetrado de reconhecimento... Eu o admiro; mas tudo é inútil. Não posso acompanhá-lo.

— Pois bem!... Escolha... Prefere que eu recorra ao governador da província. Revelarei tudo... Viremos arrancá-lo pelas armas à desumanidade de seu filho!

— Oh! não abuse jamais da minha revelação! Deixe-me morrer aqui...

E repentinamente, disforme, agitado, com uma voz medonha, concluiu:

— Saiba... Sou um monstro indigno da luz do dia! Há um crime, um crime que devo expiar... um crime infame... horroroso... Veja o chão... Está vendo essas pedras... têm manchas de sangue... as paredes também... Sangue por toda parte!...

Este sangue... é o sangue de meu pai... Eu o assassinei... Queria também como Vildac!!!... Ah! estou a vê-lo... ali! ali! Estende-me as mãos, os braços em sangue... Quer deter-me a fúria... Cai na pedra! Oh! visão horrível! Oh! desespero!...

O velho preso arremessou-se às lájeas, tirando punhados de cabelos brancos, contorcendo-se em convulsões de cólica, sacudindo o rumor tilintante dos elos. Não ousava mais encarar-me...

O terror aniquilou-me.

— Está agora horrorizado, disse o pai de Vildac, de pé, olhando-me atravessado. Adeus!...

E, com uma calma fantástica:

— Fuja de mim! Eu torno a subir para a torre...

Quando mais sereno busquei combinar as ideias e verificar se me iludira uma alucinação, o velho tinha desaparecido.

Ouvi ainda, mas quase imperceptível, na abóbada, o último rumor das correntes.

Clareavam-se as vidraças com a polidez azul das madrugadas de inverno.

Eu fugi do castelo, levando para toda a vida o espanto desta aventura sem nome.

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