quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Paráfrase oceânica (Conto), de Marques de Carvalho


Paráfrase oceânica

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Ó bela, ó sedutora Malvina, sai do teu refúgio noturno, desce do rochedo sinistro onde o vento-norte ruge em torno de ti. Acerca-te de mim.

Inflamados sulcos os fantasmas dos mortos traçam sobre as nossas torrentes. Ouço-os passar no meio dos turbilhões e suas vozes fanhosas são os únicos sons a perturbar o majestoso sossego das trevas.

Ó tu, cuja mão branca e delicada desferia melancólicos gemidos nas harpas de Luta, tenta ainda consolar-me com teus hinos poéticos e dolentes. Desperta essas cordas adormecidas, canta, ó Malvina, e reaviva o meu gênio, cuja chama foi sopitada pelos anos implacáveis.

Vem a mim, ó Malvina gentil, na obscuridade desta longa noite que entristece-me. Porque privaste-me da meiguice de teus cantos! Quando o regato cai na colina e rola, depois do furacão, sob a luz radiante do sol, o caçador escuta-lhe com prazer os suaves murmúrios, sacudindo a úmida cabeleira.

Assim a tua sonorosa voz, Malvina, encanta o amigo dos finados heróis. Infla-se meu peito; o meu coração palpita. Delineia-se a meus olhos o passado. Vem, ó Malvina, não divagues mais no meio das tênebras!

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