sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Pele de urso (Conto), dos Irmãos Grimm


Pele de urso

Coligidos por: Henrique Marques Júnior. Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Em épocas bastante afastadas houve um rapazito que sentou praça e desde então mostrou heroicidade, sendo o primeiro a avançar ao chover das balas. Enquanto durou a guerra, tudo lhe correu às mil maravilhas; mas assim que se assinaram as pazes, o nosso soldado recebeu a soldada que lhe cumpria e o comandante da coluna, a que o mancebo pertencia, disse-lhe que fosse para onde lhe aprouvesse, pois no regimento já não era preciso. Os pais haviam morrido, e o infeliz, nestas condições, não tinha pátria. Não sabendo a quem recorrer, foi ter com os irmãos pedir-lhes albergue enquanto não havia novo rompimento de hostilidades. Ora, como os irmãos eram muito ruins responderam-lhe:

— Em que poderemos empregar-te? Em nada nos poderias ser útil! Trata de te arrumar algures.

Ao pobre soldado só ficara a espingarda; pô-la ao ombro, e resolveu correr mundo. Depressa chegou a uma charneca, onde vegetava um número de árvores muito limitado. Sentou-se cabisbaixo à sombra e começou a matutar na triste situação a que se via reduzido.

— Estou sem dinheiro — pensou — só conheço o ofício das armas, e agora que estão feitas as pazes, este ofício de nada me pode servir, e o meu fim é morrer de fome.

De repente, ouviu um ruído; voltou-se e viu, defronte de si, um desconhecido, com um casaco verde; estava vestido com esmero, mas tinha pés-de-cabra.

— Eu sei o que te falta — disse-lhe o estranho personagem — Conceder-te-ei tantas riquezas quantas queiras, mas é necessário que não sejas medroso, pois nesse caso não estou para tentar fortuna.

— Soldado e medo são coisas que não se casam — respondeu o rapaz — Podes tentar.

— Nesse caso, olha para traz! — tornou o diabo feito homem.

O soldado olhou e viu um enorme urso que avançava para ele urrando.

— Ah! ele é isso?! Espera lá que já te vais calar de vez! — e o soldado assim falando apontou e fez fogo tão certeiro que a bala entrou no focinho do pesado animal que caiu redondo, sem um gemido.

— Está provado que não te falta coragem! Falta ainda outra condição para o contrato.

— Desde o momento em que não seja coisa alguma contraria à minha saúde, estou disposto a tudo o que quiseres.

— A condição é esta: durante sete anos não te lavarás, nem farás a barba, nem te pentearás, nem cortarás as unhas e, por último, nem rezarás. Se te agrada a proposta, dou-te um fato e um manto que não tirarás senão ao cabo desses sete anos. Se morreres entretanto, cairás em meu poder; se, pelo contrário, viveres muito tempo, conquistarás a liberdade e serás rico o resto de teus dias.

O soldado refletiu no perigo que corria, mas, como várias vezes havia afrontado a morte, decidiu-se a arriscar a vida na empresa, e aceitou o alvitre. O diabo despiu o casaco verde, que fez vestir ao soldado, acrescentando:

— Desde que vistas este casaco não te há de faltar dinheiro; mete a mão na algibeira e verás que te não minto.

Dito isto tirou a pele ao urso morto e presenteou com ela o soldado a quem disse:

— Este é que é o teu manto; servir-te-á de cama, porque não te é permitido deitar-te sob lençóis. Como consequência deste nosso contrato todos te chamarão "Pele de urso".

Ao terminar a indicação, o demo sumiu-se.

O soldado vestiu o casaco, meteu a mão à algibeira e achou o que o estupendo personagem lhe dissera; em seguida, envolvendo-se na pele de urso, pôs-se a caminho, mostrando-se sempre e em toda a parte bondoso e esmoler. O primeiro ano correu bem, mas ao segundo ano já era um monstro; o cabelo tapava-lhe os olhos completamente; a barba parecia um grosseiro bocado de feltro; os dedos afuselavam-se em garras e o rosto estava tão sujo que se houvesse semeado nele qualquer planta, esta não deixaria de se desenvolver. A sua presença afugentava toda a gente; como, porém, por todos os lugares em que passava, ele distribuía esmolas aos pobres, pedindo-lhes que orassem por ele, a fim de que não morresse antes de sete anos, e como usava pagar depressa e bem, nunca ficara ao relento, e tinha sempre quem lhe desse dormida.

No meado do quarto ano, chegou a uma estalagem, mas o estalajadeiro recusou-se a dar-lhe gasalhado; este homem nem mesmo consentiu que o estranho hóspede fosse dormir para a estrebaria, receoso de que a presença de semelhante exemplar da espécie humana lhe espantasse os cavalos. Contudo Pele de urso meteu a mão na algibeira, tirando um punhado de dinheiro, e o estalajadeiro à vista do diabólico imã curvou-se à imperiosa ambição e consentiu que o estranho viandante ficasse num péssimo quarto interior, e ainda sob condição de que não se mostraria a pessoa alguma, temendo sempre que a casa, por aquele dever de hospitalidade, perdesse os créditos.

Enquanto Pele de urso, sentado sozinho no humilde casinholo, pensava tristemente na lentidão dos anos que ainda tinha a passar sob aqueles medonhos trajes, ouviu queixumes e suspiros que partiam de um quarto próximo. Como era dotado de bom coração — e sem se lembrar do pedido do hospedeiro — abriu a porta e viu um velho que chorava a bom chorar e que, dolorosamente, punha as mãos na cabeça. Pele de urso acercou-se do companheiro de estalagem que se ergueu subitamente querendo fugir. Ao ouvir, porém, a voz da estranha criatura, serenou, e a sua conversa amável fê-lo animar a confiar-lhe as mágoas que o afligiam. Os seus recursos iam diminuindo a olhos vistos; as filhas e ele estavam sujeitos a sofrer as maiores privações, e tão pobre era que não podia pagar hospedagem ao estalajadeiro, razão pela qual o iam prender.

Se outro não é o vosso cuidado, consolai-vos — disse Pele de urso ao ouvir a narrativa do velho — A mim não me falta dinheiro.

Chamou o estalajadeiro e pagou-lhe tudo o que o velho lhe devia, entregando a este uma bolsa recheadinha de ouro.

Quando o velho se viu tão facilmente livre de apoquentações, não teve palavras para exprimir o seu grande reconhecimento; ao cabo de algum tempo, disse a Pele de urso:

— Siga-me; as três filhas que possuo são perfeitas maravilhas de beleza; autorizo-o a escolher uma para mulher. Assim que souberem da boa-ação que praticou em meu favor, serão as primeiras a aceder ao meu desejo. Realmente, o seu aspecto é esquisito e pouco atraente, mas a que escolher saberá disfarçar a primeira impressão que é, decerto, desagradável.

A proposta agradou a Pele de urso, que de muito boamente acompanhou o velho. Apesar de afastados de casa, a primeira filha ao vê-lo fugiu, transida de medo, aos gritos. A segunda — valha a verdade — não fugiu senão depois de o ter bem examinado dos pés à cabeça.

— Como posso eu aceitar por marido um ser que não tem aspecto humano? Marido por marido, então antes preferia o urso pardo que ultimamente se pelas ruas, que dava ares de homem, vestindo um rico manto e de luvas calçadas! Era feio, mas facilmente me habituaria a vê-lo.

Quando coube a vez da mais novinha esta disse:

— Meu pai, este homem deve ter um bom coração, pois que dúvida alguma teve em livrá-lo de apuros; se, para lhe provar a gratidão de que está possuído para com ele, lhe prometeu noiva, não se dirá que a sua palavra se não cumpre.

Que alegria não transpareceria no rosto do pobre soldado, se não estivesse tão velado pelo cabelo! O seu coração rejubilou ao ouvir as boas palavras da linda moça! Tirou do dedo um anel que trazia, partiu-o em duas metades e deu uma das partes à rapariga, tendo antes disso o cuidado de escrever o nome na parte que deu à prometida e o dela na metade com que ficou. Feito isto, despediu-se dos seus novos conhecimentos, dizendo-lhes:

— Tenho ainda de correr mundo durante três anos; se voltar ao cabo desse tempo casamos; se não tornar, a sua palavra está desligada do compromisso, pois é prova segura de que morri; rogue a Deus para que me conserve a vida.

A infeliz namorada vestiu-se toda de negro, e sempre que se lembrava do seu prometido as lágrimas corriam-lhe abundantes. As irmãs não se cansavam de a motejar e escarnecer.

— Acautela-te ao estenderes-lhe a mão, não vá ele dar-te a pata! — dizia-lhe a mais velha.

— Sê prudente, pois os ursos são traiçoeiros, e ainda que lhe agradasses, pode muito bem ser que depois te devore! — fazia coro a segunda irmã.

— Tens de fazer-lhe todas as vontades, senão dá urros! — tornava a primeira.

E acrescentava a do meio:

— Sim, sim... e olha que a cerimônia deve ser bem divertida, pois os ursos dançam alegremente.

A pobre criatura conservava-se alheia aos motejos que lhe não faziam diminuir o sentimento que nutria pelo benfeitor de seu pai. Entretanto Pele de urso, percorrendo vários lugares, continuava praticando o bem e semeando dinheiro a rodo em esmolas, na esperança de que os mendigos rogariam por ele. Chegou finalmente o último dia dos sete anos de caminheiro.

Tomou o caminho da charneca e foi sentar-se no mesmo sítio em que se havia sentado sete anos antes. Pouco tempo esteve só, pois que, segundos depois, sentiu soprar o vento e viu na sua frente o diabo olhando-o tristemente; em seguida restituiu ao viandante o seu antigo traje, recebendo em troca o casaco verde que lhe cedera.

— Não te apresses — disse Pele de urso — primeiro tens que me arranjar convenientemente.

Se a lembrança agradou ou não ao demo é coisa que não podemos averiguar, mas o que é certo é que, com vontade ou sem ela, não teve outro remédio senão ir buscar água, lavar Pele de urso, cortar-lhe o cabelo e as unhas, penteá-lo e fazer-lhe a barba. Limpo e arranjado, Pele de urso voltou ao seu aspecto de soldado valente; nunca fora tão formoso.

Assim que se viu livre do diabólico personagem de uma vez para sempre, o herói do nosso conto sentiu-se leve que nem uma pena. Rápido se encaminhou para uma povoação próxima, comprou uma andaina de veludo, sentou-se numa elegante carruagem puxada a duas parelhas de cavalos brancos, e deu ordem ao cocheiro para se dirigir a casa da noiva. Pessoa alguma o reconheceu; e o futuro sogro, imaginando-o um alto personagem, fê-lo entrar para o gabinete em que permaneciam as filhas. Convidou-o a sentar-se entre as mais velhas que tiveram o cuidado de oferecer-lhe vinhos generosos, doces dos mais finos, enfim fizeram tudo o que puderam para lhe agradar, e dizendo em segredo, entre si, que nunca tinham contemplado personagem tão perfeito. Contudo a noiva, coberta de luto, permanecia sentada defronte dele; não erguia os olhos nem dizia palavra. Por fim, o desconhecido — para nós bem conhecido — pedindo ao velho se consentia ser esposo de uma das filhas, as duas mais velhas levantaram se como se mola as impelisse, e foram paramentar-se com os mais ricos vestidos que possuíam, pois qualquer delas estava crente de que era sobre si que incidia a escolha do desconhecido personagem. Ora, este apenas se viu só com a futura, tirou da algibeira metade do anel que conservara preciosamente, meteu-a num cálice que encheu de vinho generoso, apresentando-o à fiel menina que o aceitou e, depois de o beber, notou no fundo a metade do anel; sentiu pulsar o seu coração; tomou a outra metade que trazia pendente de um colar que lhe envolvia o pescoço, aproximou as duas e viu que se ajustavam perfeitamente. Por então o rapaz disse:

— Sou o teu noivo, o noivo que há três anos viste coberto com uma pele de urso, mas graças a Deus recobrei a minha forma primitiva.

Ao concluir, apertou-a nos braços, e beijou-a na testa. Nessa ocasião, entraram as duas irmãs muito tafulas nos seus vestidos, e ao verem que o personagem já estava comprometido com a mais moça, é que se lembraram de que não podia ser outro senão Pele de urso, de quem tão pouco haviam feito. Ficaram tão corridas de vergonha e de invejoso ciúme que fugiram do gabinete: uma deitou-se a um poço, e a outra enforcou-se na primeira árvore que encontrou.

À noite bateram à porta; o noivo foi abri-la e reconheceu pelo casaco verde o diabo que lhe disse:

— Fiquei sem a tua alma, é certo, mas em compensação apareceram-me duas!

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