sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Aventuras de João Pequeno (Conto), dos Irmãos Grimm


Aventuras de João Pequeno

Coligidos por: Henrique Marques Júnior. Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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No tempo em que Deus andava pelo mundo, estava um pobre lavrador aquecendo-se à lareira enquanto se lastimava à mulher, que perto dele fiava, desgostoso por não ser contemplado com filhos.

— Que sossego — acrescentou — vai nesta casa enquanto que em outras então tanto barulho há causado pela alegria e pelos risos da pequenada!

— Tens razão — apoiou a mulher, suspirando. — Oxalá tivéssemos um só, embora tão pequenino que quase se não visse. Isso me bastaria para nos alegrar e querer-lhe íamos de todo o coração.

A boa mulher, alguns dias passados, principiou a andar doente, e ao cabo de sete meses foi mãe de um menino tão bem formado que se dissera de todo o tempo, mas muito pequenino. Ao vê-lo, a mãe não se conteve que não dissesse:

— É exatamente como nós o havíamos desejado; não deixa, apesar de mais pequeno do que um dedal, de ser o nosso filhinho.

Por via disso toda a parentela lhe ficou chamando João Pequenino. Criaram-no tão bem quanto puderam; não cresceu mais, ficando sempre do mesmo tamanho em que nascera. Era muito vivo, muito esperto; e tinha uns olhitos muito brilhantes; e bem cedo mostrou o tino e atividade suficientes para levar a bom-efeito qualquer empresa a que se abalançasse.

O camponês, certo dia, aprontava-se para ir cortar madeira à mata vizinha e disse para consigo:

— Bem precisava eu de quem me conduzisse a carroça.

— Pai— gritou João Pequenino — eu guio a carroça, se quer; não se assuste que chegará a tempo.

O homem desatou a rir:

— Isso é impossível! Se és tão pequenino, como hás de segurar a rédea ao cavalo?

— Isso não faz ao caso, pai! Se a mãe vai atrelar o cavalo, eu meto-me na orelha do cavalo e ensino-lhe o caminho a seguir.

— Pois então, experimentemos.

A boa da mãe meteu o cavalo à carroça, e introduziu João Pequenino na orelha do animal; e o João-ninguém gritava todo o caminho: Vá, cavalo! mas tão distintamente que o animal andava como se na realidade o guiasse algum carroceiro; desta maneira chegou a carroça à mata, indo pelos melhores caminhos.

No momento em que a carroça torneava uma sebe, e se ouvia a voz do rapazinho: vá, cavalo! passaram dois indivíduos desconhecidos que exclamaram estupefatos:

— É célebre! Uma carroça que anda à voz de um carroceiro que não se vê!

— Alguma coisa há de extraordinário; sigamos o veículo para ver onde para!

Continuou a carroça no caminho que levava até parar no sítio onde havia árvores caídas. Assim que João Pequenino avistou o pai, gritou:

— Então, pai, guiei ou não guiei a carroça? Agora põe-me no chão.

O lenhador, segurando com uma das mãos a rédea, serviu-se da outra para tirar de dentro da orelha do cavalo o rapazito a quem pôs no chão; o rapazinho sentou-se num feto.

Os dois desconhecidos, ao verem João Pequenino, não sabiam que imaginar, de tal maneira ficaram estáticos com o raríssimo fenômeno. Falaram em segredo e resolveram:

— Este exemplar pode trazer-nos uma fortuna, se quisermos expô-lo a troco de alguns cobres em qualquer povoação; não será mau comprá-lo.

Em seguida encaminharam-se para o camponês, e propuseram-lhe:

— Quer vender-nos esse anãozinho sob a condição que cuidaremos muito dele?

— Não,— respondeu o interrogado — é meu filho e por dinheiro algum eu me desfaria dele.

João Pequenino, porém, que percebera e ouvira bem toda a conversa, trepou pelas pernas do pai à altura do ombro e segredou-lhe:

— Pai, aceite a proposta, que eu em breve estarei de volta.

Ante esse conselho de João Pequenino, o pai cedeu-o aos homens por uma valiosa moeda de ouro.

— Onde queres tu colocá-lo? — perguntaram entre si.

— Ora, ponham-me na aba do chapéu; assim posso ver tudo quanto se passa em volta de mim e não há meio de me perderem — alvitrou João Pequenino, acrescentando: — Mas, cuidado, não me deixem cair.

Os homens assim fizeram; João Pequenino despediu-se do pai, e foram-se embora com o rapazinho. Fartaram-se de caminhar até ao cair da tarde; nessa ocasião o bocadinho de gente gritou-lhes:

— Parem, que preciso de descer!

— Deixa-te estar no meu chapéu; não estejas com cerimônias, porque os passarinhos também me fazem isso muita vez!

— Não, não quero! — insistiu João Pequenino — ponham-me depressa no chão.

O homem pegou no João-ninguém e pô-lo no chão num relvado à beira-estrada; João Pequenino depressa alcançou umas moitas e de repente encafuou-se numa toca de rato que buscara de propósito.

— Boa viagem, meus senhores, continuem o caminho sem a minha companhia — lhes gritou, rindo. Quiseram agarrá-lo, fazendo cócegas na toca de rato com palhinhas — como é de uso fazer-se aos grilos, mas perderam o tempo e o feitio, pois que João Pequenino cada vez se metia mais para dentro da toca, e a noite vizinhava-se, de modo que foram obrigados a ir para casa, fulos e com as mãos a abanar.

Quando já iam longe, João Pequenino saiu do improvisado esconderijo. Arreceou-se de seguir viagem à noite, por meio de campos, porque partir uma perna não é difícil. Felizmente avistou uma cavidade no topo de uma árvore, exclamando:

— Louvado Deus, já tenho casa para dormir.

Quando ia a pegar no sono, ouviu a voz de três homens que abancaram por baixo da árvore, ceando e conversando:

— Como havemos de proceder para roubar a esse rico pároco toda a sua fortuna?

— Eu lhes digo! — dirigiu-se lhes a voz invisível.

— Quem está aí?! — gritou um dos ladrões verdadeiramente aterrorizado — Ouvi uma voz!

Calaram-se para escutar, quando João Pequenino se tornou a ouvir:

— Tomem-me à sua conta, que eu os ajudarei nessa piedosa tarefa.

— Onde é que estás?

— Procurem na árvore, no sítio de onde parte a voz.

Os ladrões encontraram-no por fim e exclamaram:

— Pedaço de gente, como é que tu nos podes ser útil!

— Ora, de um modo bem fácil: meto-me pelas grades da janela que há no quarto do pároco e vou-lhes passando tudo o que quiserem.

— Pois bem, seja! — acederam os ladrões — Vamos à experiência!

Assim que chegaram ao presbitério, João Pequenino introduziu-se no quarto, e em seguida começou a gritar com toda a força dos pulmões:

— Querem tudo o que está aqui?

Os ladrões amedrontados disseram-lhe:

— Fala mais baixo que acordas toda a gente!

João Pequenino fazendo ouvidos de mercador, cada vez gritava mais:

— O que é que vocês querem? É tudo isto?

A criada, que dormia no quarto pegado àquele em que o herói da historieta se encontrava, ouviu este ruído, levantou-se da cama e pôs-se de ouvido à escuta; os malfeitores haviam desaparecido, mas cobrando ânimo e, supondo que o rapazito só os queria amedrontar por mera brincadeira, voltaram à carga, e disseram-lhe devagarinho:
— Tem mais tento: passa-nos alguma coisa, anda! João Pequenino, se gritava até então, agora quase que berrava:

— Vou dar-lhes já tudo; aparem as mãos!

Desta feita, a criada ouviu tudo perfeitamente; saltou da cama e correu para a porta. Os gatunos ao pressentirem gente deram às de vila Diogo, como se o Diabo lhes tivesse dado azas; a criada, não ouvindo mais coisa alguma, foi acender uma candeia. Quando apareceu, João Pequenino, sem que ela o tivesse enxergado, foi esconder-se no palheiro. A criada, depois de ter pesquisado todos os cantos à casa sem que nada visse, tornou a deitar-se, supondo que tudo o que ouvira fora sonho.

João Pequenino tinha-se aninhado no feno, onde arranjara uma boa caminha em que contava dormir até manhã, indo em seguida para casa dos pais que a essa hora deviam estar em sobressaltos. Não pararam porém, aqui as aventuras deste ratão; havia de passar ainda por bem maus bocados. A criada ergueu-se ao luzir do buraco para dar ração ao gado. A primeira coisa que fez foi ir ao palheiro buscar forragem, de onde tomou uma braçada de feno com o infeliz João Pequenino lá metido muito ferrado no sono. E tão bem dormia que não deu por coisa alguma e quando despertou viu-se na boca de uma vaca, que o engoliu com um bocado de feno. A primeira impressão que sentiu foi a de se julgar caído num moinho de pisoeiro; mas depressa compreendeu onde é que realmente estava. Evitando o meter-se por entre os dentes, deixou-se escorregar pela garganta até ao estômago. O compartimento em que se encontrou parecia-lhe estreito, sem janela, e onde não havia sol, nem luz, nem sequer candeia! A casa em que morava desagradava-lhe bastante, e o que mais complicava a sua crítica situação, era a quantidade de feno que lá se armazenava, estreitando mais ainda o pouco espaço em que se continha. Por fim, não podendo mais suster-se do terror que dele se apossara, João Pequenino gritou o mais que pôde:

— Basta de feno, basta de feno que eu não posso mais... abafo!

A moça do pároco, que nesse momento estava precisamente a mungir a vaca, ao ouvir a voz sem que visse quem falava, mas que reconhecia pela que a tinha acordado durante a noite, assustou-se tanto que saltou do banco em que estava sentada, entornando o leite. Foi de caminho, a toda a pressa chamar o pároco para lhe dizer:

— Senhor cura, a vaca fala!

— Tu ensandeceste, rapariga? — tornou o padre, enquanto que despreocupadamente se dirigia para o estábulo, para se certificar do que ouvira.

Não tinha ainda o pároco franqueado o portal quando João Pequenino gritou de novo:
— Basta de feno... que eu atabafo!

O terror apoderou-se então do padre, que supondo a vaca enfeitiçada, ou que tinha o diabo metido no corpo, disse que era preciso dar cabo dela. Abateram-na, e o estômago, onde o pobre João Pequenino se via prisioneiro, foi lançado para o estrume.

O rapazito viu-se em pancas para se desenvencilhar do malcheiroso sítio em que se conservava, e apenas conseguiu ter a cabeça desembaraçada, uma nova desgraça o veio ferir, uma aventura inesperada. Um lobo esfaimado atirou-se ao estômago da vaca, e, chamando-lhe um figo, engoliu-o de uma assentada. João Pequenino não descoroçoou.

— Talvez — pensou com os seus botões — este lobo seja sociável.

E de dentro da barriga, em que estava novamente preso, gritou-lhe:

— Bom lobo, vou ensinar-te o sítio onde há uma excelente presa.

— E onde fica isso? — perguntou o lobo.

— Nesta e naquela casa; pouco trabalho tens: basta-te deslizar pelo esgoto da cozinha; aí encontrarás bons bocados, como toucinho, chouriço à discrição; que mais queres? E olha que te não levo nada pelo conselho!

E assim o experto João Pequenino lhe deu os sinais certos da casa do pai.

O lobo não quis ouvir mais, nem se fez rogado, nem se quer foi preciso dar-lhe o recado mais de uma vez; meteu-se pela cozinha e comeu à tripa-forra. Quando, porém, quis sair, foi-lhe impossível. Tirou o ventre de misérias, de tal maneira que não houve meio de passar pelo cano. João Pequenino — que tudo previra começou a fazer um grande barulho no corpo do lobo, aos pulos e em altos gritos; o lobo pedia-lhe:

— Vê lá se estás quieto! Tu assim acordas meio mundo!

— Deixa-me cá... Tu comeste até que te regalaste; agora sou eu que me divirto a meu modo! — e continuou a gritar tanto quanto podia.

Acabou por acordar a família, que veio pressurosa olhar para a cozinha pelo buraco da fechadura. O pai e a mãe ao verem que estava ali um lobo, armaram-se: o pai com um machado e a mulher com uma foice.

— Fica para traz — aconselhou o marido à mulher quando entraram na cozinha, eu vou matá-lo com o machado, mas se o não matar de um só golpe, tu abres-lhe a barriga!

João Pequenino — ao conhecer a voz do pai— pôs-se a gritar:

— Sou eu, meu pai, sou eu que estou na barriga do lobo!

— Graças! — exclamou o pai louco de contente. — Ora até que enfim que o nosso filho foi encontrado!...

E disse logo à mulher que pusesse de parte a foice não fosse ferir o João Pequenino. Em seguida com faca e tesoura abriu a barriga do lobo de onde saltou lesto o nosso simpático João Pequenino.

— Não podes calcular, filho,— exclamou o pai— os sustos que temos tido com a tua sorte!
— Acredito, pai... mas olhe, eu fartei-me de correr mundo; felizmente que já vejo a luz do dia!

— Onde tens tu estado?

— Ora, onde tenho estado! Estive numa toca de rato, na cavidade de uma árvore, no feno, na barriga de uma vaca, no estrume e por fim na barriga de um lobo! Agora estou com os meus queridos pais!

— E nós não te tornaríamos a vender por dinheiro algum deste mundo! — disseram os pais abraçando-o e apertando-o contra o coração.

Deram-lhe de comer e vestiram-lhe outro fato, pois o primitivo vinha em estado lastimoso, o que é natural, atendendo aos sítios pouco limpos por onde viajara o nosso João Pequenino.

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