sábado, 16 de setembro de 2017

Sempre amigos (Conto), de Fialho de Almeida

Sempre amigos

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Joana tinha já dois pequenos. O Ricardo, de cinco anos, fulvo como um novilho, e o João, pequerrucho de peito. Era uma rapariga alta, músculo duro e sobrancelha espessa, cujos punhos podiam amassar sem cansaço alqueires e alqueires de pão, e cujos quadris agitados na marcha, sob as saias de baetilha avivadas de azul, revelavam a sólida enformatura montanhesa das primitivas mulheres, tostadas e laboriosas. Casara havia seis anos com o Jerolmo, por uma vindima mais fértil. E ambos pobres, ela filha mais nova de um maioral do conselheiro e ele ganhão da herdade de Valparaíso, tinham gostado um do outro, bailando depois nas romarias do Verão, procurando-se instintivamente nas ceifas e mondas e aos domingos à hora da missa conventual. Não estava arrependida de haver casado, não. O Jerolmo era trabalhador incansável e sadio; Joana começara por namorar-lhe o peito cabeludo e trigueiro e a forte caixa de pulmões dilatada a cada esforço de trabalho; cativara-a além disso, depois, a sua mansa maneira de dizer as coisas, sem notas altas na voz e sem impaciências nervosas de bilioso, a sua vida toda regulada por hábitos e a condescendência tida para os velhos. 

De uma vez vira-o erguer-se de punho cerrado e olho torvo a desancar numa malta que primeiro o espicaçara de bestialidades. Até ali, todos de boa saúde, louvado Deus! Seis anos de ventura decorrida sem atributos e sem nuvens. E os dois rapazitos!... Lembrava-se dos terrores do primeiro parto e das alternativas de humor características, os suores dorsais e frios, a dorzinha vaga primeiro e intensa depois, em toda a região dilatada. 

Em certos momentos, um mundo de fantasias, projetando-se-lhe do fantoscópio da mente, inundava-a de fotosferas de luminosa essência — se seria um pequeno valentão capaz de ajudar o pai, se seria uma rapariga de calcanhar quadrado e dentes sólidos, que enchesse de cantigas e de atividade o ninho!... Todas as noites, à hora da ceia, o casal acumulava e destruía planos, fazendo e desfazendo receios — perdidas evocações desse primeiro tempo de esposa!... Mirando a casita e as cadeiras de Évora da casa de fora, as prateleiras de louça e as quatro garrafas de vidro branco em simetria, olhando no quintalório a meda de azinho para os lumes do Inverno e o bácoro para a fartura do ano, Joana sentia, no meio dos filhos e dos labores constantes da sua vida azafamada, um bem-estar de consciência satisfeita, um como júbilo Íntimo. O seu trabalho caseiro luzia: viam-lhe sempre o ladrilho varrido e as cadeiras arrumadas, um esteirão algarvio ao canto para as visitas, cobertas de retalhos lançadas sobre a mesa e dorsos dos baús, o pequeno espelho pendendo ao lado de um Francisco José, de Épinal, brancas as paredes com rodapé de almagre em torno, e a cinza do lume constantemente varrida do lar. Dando largas à sua iniciativa de negociante, criara, além disso, no quintal um exército de galinhas e gansos, cujos ovos o Ricardo ia vender toda as manhãs em altos pregões, pelas ruas da vila. 

Manhã clara, era a primeira a erguer-se na rua e a encetar a labuta inquebrantável e voluntariosa.

Paredes meias vivas a Francisca, casada com o Estragado, um bêbedo. 

Joana tinha amizade a essa pobre mulher macilenta e sofredora, semanalmente espancada pelo marido, que para mais lhe impunha o sacrifício de fomes e farrapos.

Dissera muitas vezes, vendo-a passar para o prego com trouxas de roupa à cabeça, envelhecida e estúpida pelo contágio das misérias e brutalidades sofridas, com o filho seminu agarrado às saias e o enjeitadinho ao peito: 

— Não sei como vossemecê pode, coitadinha! 

A outra não se queixava; tinha as miseráveis resignações de uma cadela expulsa; com um jeito de ombros e a voz sumida retrucava sempre: 

— Então, paciência! Deus não quis...

E a Francisca era reconhecida à vizinhança, que bastantes vezes a livrara das brutalidades do bêbedo e das frequentes penúrias da casa.

A Joana, comparando a sua sorte à da pobre engelhada, sentia da comparação exaltar-se a sua felicidade, abençoando a hora em que lhe nascera o primeiro impulso para o Jerolmo. Quando este chegava do trabalho, com largo e velho chapéu braguês deitado para a nuca, a manta e a enxada ao ombro, ceifões, já pelados pelo convívio dos ásperos atritos, o burro e o borrego atrás, fartos de erva e alegres da jornada, Joana não se continha sem lhe referir os sofrimentos da pobre mulher e a pancadaria do Estragado. 

O marido então encolhia egoistamente os ombros, farto da eterna lamúria e repetindo:

— Deixa-os lá. Que se avenham. 

O Estragado era dos seus tempos de rapaz, pudera seguir-lhe a vida ponto a ponto e observar-lhe a predisposição fatal para a vadiagem e para o vício. Aquela índole de desordeiro repugnava-lhe, que sentia um tédio pelos que não tinham como ele a infatigável atividade produtiva e a repousada consciência dos deveres cumpridos. Àquela hora os trabalhadores recolhiam em bando dando santas-noites; uma poeirada sufocante erguia-se na ladeira sob os grossos sapatos cardados dos cavadores e das patas dos jumentos, carregados de alforjes e feno: a tarde morria, enlaivecendo de um ouro fulvo o poente; pelos campos fora os grilos, as rãs, os ralos e os mochos preludiavam a longa sonata noturna, enquanto em frente da casa o Ricardo mais o filho da vizinha, descalços e ferozes, jogavam os touros, rolando na relva com um vasto prazer inexaurível. 

— Sabes o que me convinha? — disse de uma vez o Jerolmo para a mulher. — Ir pra feitor de uma casa. Não anda uma pessoa a estragar-se pr'aí a cavar desde manhã à noite, e sempre ganha algum vintém melhor. 

— Pois está visto que era o que te convinha! Um homem de trabalho como és...

— Diz que o conselheiro precisa. Fui-me a falar com ele, mas há pretendentes. Mal sabes quem, mulher? 

— Alguma alma ruim... — disse a Joana. 

— Aqui o nosso vizinho Estragado, nem mais nem menos. Oh senhores, que eu ri de maior quando o Galante me contou!

— Aquilo, que nem lhe chega o tempo para as tropelias que arma à pobrezinha da mulher... Excomungado, o Senhor me perdoe! Mas é só esse que pedincha? 

— Só! Fiquei de ir ter esta noite com o conselheiro. Talvez se arranje a coisa. 

— Era grande fortuna, homem. Casa farta, boa paga, ele uma bela pessoa. Mas o Estragado!... Ora não vi!

Estavam na cozinha. O Jerolmo, à cancela, limpava da lama as polainas de saragoça e o ferro da enxada, enquanto a Joana, de avental, refogava a ceia e ia pondo a mesa, ao fresco, no quintal. Sentiram passos na casa de fora, a Joana foi ver. Era o Estragado que saía sorrateiramente.

— O vizinho é bem confiado, não há dúvida — disse a Joana toda zangada. — Não há maior atrevimento! Quem escuta de si ouve, e é bem certo. 

— Diga ao seu marido que mas não fica a dever. 

— Deixa-o lá — disse pachorrentamente o marido. — Está bêbedo, coitado. Deixo-o ir! 

Cearam; o Jerolmo, à cabeceira da banca, vigiava o filho, advertindo-o a cada partida do garoto. Entre os dois ficava o cão. Da outra banda a Joana, com o pequenito adormecido no regaço, migava sopas na malga.

Por cima, o céu um pouco escurecido e todo picado de estrelas, tinha um arfar de penumbras profundas, em que os olhos se perdiam, divagando. Um ventinho fresco, impregnado de fenos, fazia agitar com murmúrios finos as folhas metálicas da figueira verdeal. O bácoro no chiqueiro ressonava espapaçado no charco. Tempo das eiras. Puseram-se a falar nos trigos; as searas tinham fundido bem, mas os tremeses menos. Então o Jerolmo contou as suas esperanças no trigo ribeirinho que semeara na courela das Taipas — um palmo de terra que valia um milhão, segundo ele.

— E estava lindo, aí pelo tempo da fava! — disse a Joana. 

— Do que precisávamos era de uma vinhita — tornou o Jerolmo após um momento de pausa. E partia o pão trigueiro em grandes pedaços. 

— Nada como a vinha pra render. 

— Apesar das moléstias. 

— Com alguns sobranos tínhamos aí um ou dois milheiros. Estava a calhar.

— Ou mesmo bacelo que pusesses... 

Ele então enumerou projetos de futura prosperidade — comprar um carro com parelha de mulas na feira de Vila Viçosa, ter vinhas e olivais, a abundância de uma horta com águas correntes e noras rumorosas, num pedaço de vale profundo, com a sua barraquita sob nogueiras verdes. 

E para se animar citava de memória os casos de fortuna acumulada pinto a pinto por homens ativos e poupados; o Sr. Joaquim das Nogueiras que estava podre de rico, o Fandango, que o seu pai conhecera a carregar estrume, o Baleizão, que fora da tropa e até estivera preso. Não havia muito que visitara o monte do compadres Nazaré.

— O meu padrinho! — gritou Ricardo. E a cada passo interrompia: 

— Ele é meu padrinho, não é, pai? 

— Pois senhores — continuava Jerolmo —, aquilo é que é lavoura, aquilo é que se chama seara! — E dilatado acumulava pormenores: — Quarenta moios nos celeiros, roças de palha do tamanho das torres da igreja, juntas de bois mais gordos que eu sei lá! E as carretas da vindima, as tapadas, a casa dos arados, o moinho sobre rochas e dependurado no Guadiana — um encanto! 

— Casa que é um ovo! — argumentava Joana embalando o pequerrucho nos joelhos.

— Pois mulher, há trinta anos não passava de um ganhão do Francisco do Cabo. E honrado, honrado como Deus!

— O que se quer é saúde, deixa lá. Deus ajuda quem trabalha — resumia a mulher.

E entre risos: 

— Muito me havia de rir se ainda vinha a ser a senhora lavradora! 

— Eu cá hei de ter uns sapatos e andar a cavalo — exigiu o Ricardo, que molhava os punhos da véstia de cotim na malga ratinha da ceia. 

— A dizer a verdade não temos sido dos mais infelizes.

— Está de ver que não — apoiou Joana. — E deixa correr! Este ano talvez se peça pouco emprestado. Para o ano que vem já se pede menos, para o outro nada, e depois toca a juntar prá fazendinha. 

— Pois vou-me ao conselheiro, a ver o que decide. 

— Até logo. 

À porta voltou-se e disse a rir: 

— O que tinha graça era agora o amigo Estragado fazer-me uma espera e armarmos de garreia.

— De tudo quanto há de ruim ele será capaz, o carga de ossos. Peste! 

Apenas saiu, o Ricardo pulou logo a parede para o quintal da vizinha à cata do Manel, que tasquinhava pão seco de pança para o ar. 

— Vamos pró adro, o pai abalou. 

Não foi preciso mais. 

Foram ambos às carreiras. No quintal, a Francisca roía o seu pão seco e negro, de semanas. A amassadura por pagar, uns fiados na loja do Vieira, trapos por toda a banda... Ao chegar a casa, o Estragado atirara-lhe um soco ao vazio, pedindo o jantar para que não tinha dado féria. E cobri-a de injúrias obscenas diante dos filhos, exprobrando-lhe a fealdade e fraqueza. 

Puxara-lhe até pelos cabelos, gritando com voz avinhada de cobarde: 

— Grandessíssima porca! grandessíssima bêbeda! 

Dera-lhe bofetadas com a áspera mão ignóbil de assassino, clamando que estava farto, que seria até capaz de a matar a punhaladas! A pobrezinha, abatida e com o gesto errante, nem podia chorar. Aquela vida de vilezas e insultos roubara-lhe até o refúgio das lágrimas, embotando-lhe pouco a pouco a razão. Abria os olhos sobre o bêbedo num pasmo trêmulo, dizendo baixinho: 

— Não me batas mais, pelo amor de Deus, não me batas mais! 

Resumia-se para ela tudo na sova e na escravidão muda do martírio. Não tinha já mãe nem pai, tinham-lhe morrido os parentes. — Sua irmã fora assassinada pelo marido numa azinhaga sinistra e de noite para os lados do Moinho Branco. Era a última representante de uma raça de vergastados incapazes de resistência e não sabendo na vida outro fim mais que a obediência ao algoz e a procriação animal das marrãs de montado.

— Vizinha — gritou a pobre mulher do quintal, para a Joana, que acabara de levantar a mesa.

A outra subiu à lenha para debruçar-se na parede, sobre o quintal do Estragado.

— Que é?

A esse tempo já a Francisca trepara do outro lado, com o xale de baetilha pela cabeça. E disse num tom choroso: 

— Perdoe-me pelo amor de Deus, que não me esqueço de quem me faz bem. É a minha desgraça, aquele homem, a minha vergonha... 

— Houve pancadaria de mouro, aposto! 

— O costume. O nosso Senhor nos ajude. E se fosses só isso... 

— Então que mais temos? 

— O meu homem não entrou na sua casa há pouco? 

— Entrou, para escutar o que cada um está dizendo na sua casa! foi pró que ele entrou! Mas ouviu-a toda! 

— Ai, filha. Veio de lá como uma fera. Puxou-me pelos cabelos, quebrou os cântaros da água, bateu no rapaz com uma corda; que eu é que tinha a culpa, que ia tudo a tiro, que tinham de saber quem era Joaquim Antônio. Perdoe-me pelo amor de Deus, perdoe-me tanta mortificação. Pelos modos ouviu falar no lugar do feitor do conselheiro... E está com a pinga!

— Sempre gostava de saber se é pecado cada um agenciar a sua vida! O meu homem vai falar com o fidalgo; o seu quer o lugar — que vá também. O outro escolhe, e ninguém tem que se ficar queixando. Esta é a razão! 

— Tudo lhe disse, vizinha, tudo lhe disse! Homem, o vizinho Jerolmo não lhe parece mal que tu queiras ser feitor e pretendas o mesmo nicho que ele! Vai e falas. Falando é que uma pessoa se entende. Agora o vereis! Ainda me deu mais. Vizinha, perdoe-me pelo amor de Deus, mas eu queria dizer-lhe... é que... Olhe, estou a tremer que nem varas verdes, nem me tenho nas pernas, veja lá. Mas é que ele saiu com más intenções, que se havia de pagar, que ia dar cabo dele... Perdoe-me, filha, perdoe-me por alma do seu pai, mas ele é mau e capaz de fazer alguma, em estando bêbedo. Não deixe sair o seu marido esta noite, não o deixe sair. 

— Mas se ele foi agora mesmo! — disse a Joana, de súbito abalada. 

Dum pulo saltou da lenha, deitou pela cabeça a pobre saia de chita azul, sem mais pensar no Ricardo, que brincava no adro, e com o pequeno ao colo deitou a correr para casa do conselheiro. Eram mais de nove horas. Os homens estavam nas eiras, fora da vila; aqui e além, deitados ao fresco junto das portas escancaradas e escuras, alguns vultos dormiam. A penumbra da noite, picada de estrelas, errava nas embocaduras, em cones movediços de uma indecisão fantástica. O campo dormia, e somente a espaços, no como silêncio absorto dos restolhos, latia um cão, ou tilintava a esquila de algum jumento de trabalho. A casa do fidalgo ficava no outro extremo da vila, isolada dos casebres por uma alameda de freixos enormes. À roda era a horta, e por detrás dos laranjais o olival sem fim. Joana corria quanto lhe era possível, arrastada por pressentimentos funestos e cheia da ideia do seu homem que era o seu deus. 

Nos casinholos daquela banda tudo dormia já; a alameda em frente escancarava a boca de trevas, que à menor lufada de vento parecia ficar ruminando alguma coisa penível, num segredar entrecortado. A casa do conselheiro mal aparecia ao fundo, com a sua linha de grandes janelas morgadiças, cujas pesadas cimalhas avultavam numa faixa confusa de granito. Em outra ocasião Joana não teria ousado atravessar o caminho àquela hora — que errava por ali o vulto do doutor Soisa à procura do seu inimigo. Muita gente lhe tinha já ouvido os brados roucos, depois de corrido o sino da câmara, e contava-se que um homem o encontrara havia anos, perdendo a fala no mesmo instante.

À entrada do arvoredo Joana deteve-se a escutar junto de um tronco. Estalavam as ramas por cima, com ruídos secos. Aplicando o ouvido, sentia-se na horta o correr da água no tanque. Ninguém estava ainda em casa do conselheiro. Joana resfolegou mais tranquila: não tinha havido nada! E rápida, aconchegando a criança, percorreu a alameda e foi puxar a sineta do portão que deu um som vibrante no silêncio do edifício. Perguntou pelo marido; não tinha lá ido ainda. Fecharam-lhe a porta com fracasso sem mais resposta. Joana então ficou hirta e muda, encostada à ombreira, com as fontes latejando. 

Onde estava então o Jerolmo, não estando a falar com o fidalgo? Não era homem de súcias, nunca fora visto em tabernas, não trabalhava nas eiras, não era cantador noctívago... Era a primeira vez que ela ignorava o seu destino; que fazer? Então relanceando a vista à roda sentiu um calafrio, dos rins à nuca; à força de perscrutar a sombra, as imagens falsearam-lhe, deslocando-se-lhe à vista desvairada; parecia que os troncos iam e vinham rojando caudas de folhagem como espectros evocados de campas; os estalidos abriam num murmúrio de risinhos sofreados; ondulavam sem nexo bandos de formas estranhas e o rumor da água era de uma conspiração sinistra...

Joana sentia no peito o coração em sobressaltos e um zumbido pérfido enchia-lhe os ouvidos. E cheia de um medo álgido, olho atrás olho adiante, como se legiões de gênios maus a seguissem, percorreu a alameda arrumada aos troncos e cosida com a sombra. A meio caminho deteve-se. Vira da outra banda um corpo mover-se. Escondeu-se por detrás de um tronco, com os olhos fitos no ponto em que a forma bulira. Julgava já ter-se enganado. Mas o vulto tornou a aparecer, cortando em transversal o caminho. Bem depressa passou por diante de Joana, que, tomada de pavor, não fazia um movimento, de colada ao freixo.

Viu um homem de barrete preto e em mangas de camisa caminhar aos solavancos. Bêbedo por força; falava só, com palavras entrecortadas e torvas. 

— Outro que fosse — regougava — outro que fosse... Quero lá saber! Tudo se paga. Arre!

Mais além já, parou um instante cantarolando: 

Nesta rua cheira a sangue, 
Alguém nela se sangrou: 
Dizem que foi meu amor, de uma sova que levou.

Essa voz rouca e difícil, como coada por uma garganta sem cordas, fez tremer Joana. Era o Estragado. Vinha do conselheiro? Mas se o Jerolmo não fora lá, que recear? O bêbedo ia já longe, quando a pobre mulher se resolveu a abandonar o esconderijo. Apressou o passo; era tarde e talvez que o Jerolmo estivesse em casa já... se estivesse, bom Deus! Esta esperança dissolveu-lhe um pouco os terrores, que era animosa como uma filha de herdade. Mentalmente prometeu logo uma missa à Senhora da Boa Morte se nada tivesse havido. Saltou do valado para a estrada e, receosa de magoar o pequenito, apoiou-se num pedregulho, mas a mão teve um contato úmido e mole que cedeu, ao pousar. Joana agarrou naquilo: era uma farrapo de lenço; puxou, e uma coisa dura caiu dando na pedra um som metálico. 

Era uma navalha cheia de sangue. Perdeu completamente a cabeça; o seu coração dilatou-se efervescente de agonias e, ourada de lúgubres evocações, a sua imaginação bolçou pressentimentos funestos. Pôs-se a correr sem destino pelas ruas da vila, clamando em altos gritos contra o Estragado, contra Deus, contra a sua desgraça! Na calada do povo adormecido a sua voz ressoava com uma sonoridade alta e rápida a que o desvairamento imprimia uma nota febril e sincera, que comovia.

Alguns postigos abriram-se, por onde cabeças sonolentas e ávidas escutaram. Depois, sapatos ferrados bateram as pedras e os balcões das casas, e os vultos embuçados nas mantas foram seguindo Joana. Ela contava a quem vinha que o seu homem estava morto, que os filhos estavam sem pão, que fora o Estragado. Começava trinta vezes a narrativa ao último que chegava, com a voz velada de choros e estrangulada de soluços. Mas onde estava o Jerolmo? Um trabalhador que recolheu tarde dera, nas escaleiras do adro, com o Ricardo e o filho da vizinha Francisca, adormecidos um ao lado do outro. Vira a porta aberta e luz na casa de fora.

Então foram todos ver a casa do Jerolmo, batendo fortemente os sapatos do trabalho. Algumas mulheres, atemorizadas, de xale pela cabeça e em grande abatimento, seguiam Joana, resmungando lamentações. Em breve a terra estava em alvoroço, e quando a pobre rapariga chegou à soleira a rua ia já cheia. A casa estava vazia. Recomeçaram os gritos e os comentários, o prior veio saber o que era, com largo capote nos ombros e o chapeirão descido. Todos contavam; a algum pormenor menos fielmente emitido, vozes diziam: 

— Não foi assim! A coisa começou... 

E punham-se a dizer como tinha sido. 

— Mas lá por se encontrar a navalha suja de sangue não se segue que haja mortes — objetou o prior. E a sua voz de um timbre ingrato e cheia de autoridade fazia peso na roda. Muitos eram da opinião da sua Senhoria, concordando:

— Está bem de ver, está bem de ver. 

— O que devem é ir rebuscar bem a alameda e os meloais que ficam à roda da horta do conselheiro. Talvez até o Jerolmo esteja nas eiras. 

— De lá venho eu agora — disse um. — Não dei notícia dele. 

Vários trabalhadores então partiram a esquadrinhar a alameda.

— Se passarem lá por casa, digam à senhora Madalena que lhes dê uma lanterna — disse o prior.

A Joana quis também ir, mas as mulheres opuseram-se. E sentadas na casa de fora, embiocadas nos xales ou com saias pela cabeça, jaziam silenciosas e curvadas, como se um vento de assolação as vergasse. No silêncio lúgubre, os soluços de Joana vinham a espaços como um estribilho magoado. A um canto discutia-se o Estragado, com pormenores recentes. Segundo muito boas opiniões, enforcado devia ele estar havia muito tempo — peste ruim! Algumas tinham palavras de dó para a Francisca — que tinha o corpo como um fungão, da pancadaria. Ao fundo da rua, a voz avinhada ouviu-se:

Nesta rua cheira a sangue, 
Alguém nela se sangrou... 

Ao mesmo tempo a calçada soou do outro lado sob os pés de muitos homens. E pela porta da Joana quatro moços do campo entraram carregando uma escada, onde vinha estendido o corpo do Jerolmo. Toda a gente se tinha erguido fazendo um ruído indescritível de prantos; uma rapariga caiu com um flato, algumas fugiram para o quintal, aterradas do cadáver. Joana só, estendida nos ladrilhos e resistindo a todos os empuxões que lhe davam para a afastar dali, Joana só não tinha medo. Passara os braços ao pescoço do homem, enchendo-lhe de beijos a cara e a boca aberta, de que um sangue viscoso corria. Uma enorme paixão rebentava dela sobre aquele corpo, que arrefecia pouco a pouco, retesando-se, com um sinistro desenho, anguloso e lívido. Fora, o regedor conseguira agarrar o Estragado por um braço. Vozes clamavam rudemente:

— Está preso! enquanto retiniam nas pedras, com pompa de entremez, as espadas dos senhores cabos de polícia. A Francisca, que se interpusera, de cabelos soltos, arrastava-se abraçada aos joelhos do marido, pedindo clemência com a voz arrastada e baixa, em que havia um fundo de miséria e de dor. Os pulsos saíam-lhe das mangas da roupinha, tísicos e inabaláveis; por mais que fizessem não lhe arrancavam as mãos das calças do Estragado. Os maus tratos, as bestialidades e as fomes com que aquele homem a trucidara desde o primeiro dia de casados tinham enraizado no seu coração uma cega obediência, uma necessidade fatal daquele império torpe; mesmo assim gostava dele, pai do seu filho, o que partilhava o seu catre e lhe dera esse primeiro beijo, que é como a anunciação da maternidade à mulher virgem.

Das escadas do adro então as duas crianças ergueram ao mesmo tempo as cabeças, despertando ao alarido dos prantos. 

— O que é aquilo? — disse o Ricardo. 

— Olha é muita gente. Não ouves a chorarem? — notou o Manei.

— Oh! vamos a ver! — insistiu o mais novo.

E, como o Manel cambaleava estremunhado de sono, o outro passou-lhe o braço ao pescoço a segurá-lo.

E com ares protetores dizia-lhe:

— Vê se partes as ventas, vê...

Todo abafado no casacão, o senhor prior, saciado das novidades fresquinhas, saía de casa da viúva, pensando que era ainda uma rica moçoila.

Por outro lado, a morte do Jerolmo irritava-o: fora depois de cinco anos o menajeiro das suas labutas vinícolas, o que lavrara ao seu gosto, o que fazia uva à siranda com mais desembaraço.

Não bebia, não fumava, não era exigente nos preços... Assim pensava Sua Senhoria quando deu com os pequenos, que iam a passinhos preguiçosos e esfregando os olhos com os punhos, em direitura ao tumulto. E ao vê-los tão unidos cresceu-lhe uma raiva de dentro, biliosa e vingadora. Separou-os com um safanão furibundo.

— Súcia de marotos, que os enforco!

E dirigindo-se ao Ricardo:

— Vossemecê não tem vergonha em andar com o filho do ladrão que matou o seu pai, hem?

E para o Manei, que chorava aterrado daquela agressão:

— A minha vontade era frigir-te, podengo!

E deu-lhe um puxão de orelhas, teso.

No dia seguinte foi o enterro. Era desses dias ardentes em que nos troncos das oliveiras as cigarras cantam, as rolas se abatem por dezenas sobre as últimas poças verde-negras dos ribeiros. Apenas o sino chamou a padres e o prior apareceu precedido do sacrista de cruz e caldeirinha, viu-se sair de casa de Joana o cortejo. Adiante o sacrista ia de cruz alta e campainha na mão — velho marau de sapateiro, de olho patife e calva luzidia, dos que sabem quantos escândalos usam acompanhar toda a gente do berço ao sepulcro.

Fora noviço de capuchos, adquirira hábitos de glutão e de bêbedo, aprendendo a negar a mulher decente. Rosnava-se um pouco das suas relações com a Sra. Madalena do prior, e temia-se em geral do seu cinismo correlacionado, segundo se afirmava, com o do diabo, pelo desfastio com que pisava rosários bentos e fatias de pão torrado. As beatas fulminavam contra ele exorcismos temerosos, porque à saída de uma missa de finados urinara na pia da água benta, estando bêbedo. De cruz alçada e opa escarlate, o Zé do O caminhava piscando o olho às mulheres, que, em saia de estamenha e sapatos de couro cru, viam da soleira marchar a procissão da morte, lacrimosas e trocando lamentos. A partir dele, duas filas de homens do campo seguiam com os fatos de áspera saragoça dos domingos, chapéus de Braga nos olhos, ornados de uma borla redonda, e os capotes de baetão das mulheres aos ombros. Alguns ainda novos, que tinham sido amigos do Jerolmo e como ele destinados sem resistência ou vacilação, de pequenos, para cavadores, iam com os olhos vermelhos voltando a cara, envergonhados de serem vistos em choro pelas mulheres que vinham às portas e às esquinas das ruas, rodeadas dos filhos descalços. Viam-se os altos pescoços curtidos pelas calmas do Estio e pelas ventanias do Inverno, no convívio dos trabalhos de picareta, de arado e de foice.

As mãos, de enormes dedos coriáceos e palmas rugosas de calos, tinham curvas unhas, disformes de marteladas e entalões. Nos dorsos, as veias de uma espessura considerável ramificavam-se-lhes em árvore saliente, pondo em pregas a epiderme de poros largos, de que saíam cabelos. Alguns eram já velhos e curvados, contando trinta, quarenta e cinquenta anos de labuta em charneca, nas lavouras, nas ceifas, nas ferras do gado, no corte dos azinhais e na recovagem de noite por caminhos terríveis, de matagal em matagal. Tinham as cabeças brancas e o passo vago, e olhavam com esse olhar vazio de quem nunca teve esperança, e de quem jamais teve fortuna. Tinham ganho toda a vida o mesmo salário, cobrindo-se de filhos constantemente e fazendo da fecundidade uma distração, a única, que lhes era dada, e que ainda assim caro pagavam. Dois ou três nunca tinham possuído um fato novo. Quase todos tinham andado descalços e rotos até aos vinte anos.

Havia nessas faces, mesmo fora dos enterros, o mesmo ar lúgubre e suspenso que ali mostravam; pareciam seguir como se aguardassem alguma coisa retardada de há muito, boçais e emparvoados, não dando pela cárie dos dentes e pelo espasmo de humildade que os ia bestificando. Próximo à tumba os irmãos da Joana e os tios do Jerolmo iam afetando grande mágoa com as golas dos capotes erguidas, cabeças baixas e amarradas em lenços. Depois o padre: era alto, possantes ombros de tambor-mor, a barba de cinco dias negrejando de espessa, um carrancudo alarve na face. Como a volta era apertada, o seu pescoço extravasava gordurento fazendo uma rosca de carne, que pendia, refletindo um rubor sobre a pele do queixo e da cara, donde o suor borbulhava. Tinha as orelhas de um guardião, ar imperativo e voz grossa, em que a nota surda dos desejos que se refreiam dominava. Era um pouco agricultor e um pouco músico e nas récitas da terra fazia papéis de tirano, esbracejando com fúria para todos os lados. A tumba ia por fim, aos ombros de quatro mendigos, e um rapaz após levava o banco de pinho para a fazer descer, nos responsos.

Era um esquife de pau-preto com balaústres delgados, tendo o ar de um berço. Na vila causava horror. Era com que metiam medo às crianças; via-se-lhe pregada na cabeceira uma cruz preta, e um Cristo de ferro com resplendor de lata que tremia, agonizava, pessimamente fundido, mostrando os olhos vazios. No fundo via-se a enxerga coberta de paninho preto em farrapos, onde deitavam os cadáveres, havia muito. Esse pano tinha nódoas gomosas, à altura da cabeça. Os va-nu-pieds abatidos para a vala durante os últimos quinze anos tinham ali impresso o seu remember de muco sanguinolento, de que tresandava um fétido em baforadas. Era onde ia o Jerolmo, vestido no seu fato de saragoça, com sapatos de bezerro enormes nos pés, os dois pulsos unidos por uma tira de chita negra a premir as mãos cruzadas no peito, na atitude de uma imploração derradeira.

— Ainda ontem a estas horas estava são e vivo! — era o pasmo da vila, e vinha todo um volume de ponderações sobre a fraqueza da criatura de Deus.

Aos solavancos dos velhos que tinham desiguais alturas, o corpo pendera mais para uma banda: à menor anfractuosidade do caminho então, os sobrecarregados rogavam surdamente as pragas mais torpes — que nem valia apena levar um boi daqueles pelos seis vinténs da esmola.

O mais ratão dos quatro era um velhito baixo, que mostrava escarlate uma órbita sem olho e já caíra numa contramina de horta. Dizia ele com bela ênfase, todo sério:

— Como estas bestas morrem sem derreterem os toucinhos, senhores!

O garoto do banco escandalizou-se e resmungou:

— Vossemecê não tem vergonha em fazer mangação dos defuntos?

Os outros riram, e o mais alto:

— Caluda, filhote! Que ainda te havemos de levar adiante.

Mas o prior voltou-se, e da frente o sacristão veio correndo de cruz ao ombro, em ar de clavina, com a caldeirinha estendida para o responso. Os quatro da tumba pararam, o garoto estendeu o banco.

— Abaixo! — ordenou o prior enfastiado.

O esquife desceu. Uma vida fecundante de átomos impalpáveis vibrava na luz, metálica na irradiação da cúpula amplíssima. O enterro tinha parado e todos se voltavam para trás, olhando o prior que espargia água benta sobre o corpo do Jerolmo. Estava-se quase fora da vila, ao meio da rua última daquela banda, que entre filas de casebres caiados corria, corcovando-se bruscamente depois sobre a azinhaga.

Como o sol batia de chapa, os trabalhadores faziam teto com as mãos em arco, à altura das sobrancelhas, abrindo a boca e premindo as pálpebras, por uma contração inconsciente de músculos faciais. Sobre os balcões das portas, as mulheres olhavam alongando saudosamente os grandes olhos pretos, úmidos de lágrimas. Abaixo da orla das saias de chita viam-se os tornozelos de algumas, calçados em meia de linha azul. Muitas faziam meia, com os cabelos oleosos de azeite e a marrafa separando as madeixas em duas pastas simétricas e alisadas. Na terra das soleiras as crianças seminuas rolavam-se rindo; um fumo raso subia das chaminés. Na última porta tinham acabado de jantar e via-se a malga na mesa baixa, os garfos de ferro com três dentes apenas, restos de enorme pão da amassadura da semana, e em torno ainda sentada a família, onde o chefe, velho pastor de polainas altas e ampla calva, rezava de mãos postas e lábios mexendo, com o chapeirão nos joelhos.

O Jerolmo era muito estimado. Todos diziam — Coitadinho! — lacrimejando. E enumeravam as suas virtudes, o seu bom gênio, a sua economia, a sua temperança. — Os bons leva Deus, que são do céu — dizia uma velha. Mas a voz do prior ouviu-se imperativa e cheia de sabedoria em ruminação de latins, e fez-se um silêncio piedoso. Toda a gente ajoelhou, que ninguém ouvia latim noutra postura na vila. A recitação grave e numa língua estranha dava aos espíritos simples a profunda emoção de um fim próximo e a lembrança de almas que partem para as regiões serenas da bem-aventurança com o seu pecúlio de graças adquiridas e asas brancas da inocência. O pior ia dizendo:

— De profundis clamavi ad te Domine. Domine exaudi vocem meam; nec aspiciat me visus hominis. Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison! Pater noster...

E as vozes rezavam baixo, num coro murmurado, que ia como o som do vento numa fenda, alternadamente agonizando e subindo até se perder, à última aspersão de água benta do prior. De pescoço estendido, as mulheres, brancas de pavor, olhavam ao meio da rua o esquife envolto na luz, onde ia o corpo do trabalhador, retesado na rigidez que antecede a podridão. Descaíra-lhe a cabeça para trás por haver escorregado um pouco a cabeceira da enxerga, e o bordo da queixada, de uma linha parabólica, repuxava-lhe angustiosamente os tendões do pescoço esverdinhado, em que fazia corcova o nó da goela inútil.

Corria-lhe das ventas um fio de sangue negro, que os moscardos vinham beber zumbindo, e por entre os dentes, a espaços, na boca que se abrira na convulsão da última hora, gotas de gás podre faziam crepitar globozinhos, da íntima fermentação que progredia.

Os amigos doutro tempo tiraram então o lenço do bolso das véstias e saíam aos dois e aos três do seu lugar, para piedosamente virem limpar a cara e os lábios do Jerolmo.

— Bendito seja Deus! — diziam, apavorados pelo fervilhar da corrupção cadavérica, que a torridez do sol ativava prodigiosamente.

O prior tinha acabado o responso e abrira o seu enorme chapéu de sol.

— Carreguem — ordenou Sua Reverência aos quatro homens. E o enterro entrou na azinhaga que ia dar ao cemitério.

Cada qual, sentindo-se um pouco à vontade no campo, teve a necessidade de falar na sua vida, coisas alegres e capazes de afugentar os maus pesadelos da cova.

— Quem teve seara guapa foi cá o mariola! — ia dizendo um homenzarrão, e depunha os grossos dedos no ombro de um seco, de olho desconfiado.

— É pra que saiba. E ainda temos hoje um calcadouro de tremês.

— E quando chega esse casório? — quis saber um rapazola louro, riso boçal, de pobre diabo.

— Está pra tarde. Antes da vindima não — diziam.

O de olho desconfiado não dava palavra, deixando que respondessem por ele.

— E moça de estimação. Desenxovalhada e mais branca!... Seio de encher olho e golpenha, cos diabos!

— Podes lá com uma vaca daquelas, meu poeta! — diziam-lhe. — Aquilo é mulher para te bater, ó Rato!

O de olho desconfiado ria, e disse pachorrentamente:

— Quatro mil cruzados em terras, está dourada que nem uma princesa, rica saúde e vinte e quatro anos. Um sobronho preto; que mais quero?

O louro conheci-a e o seu riso abria-se sensualizado, com uma reminiscência gulosa.

— Está bem de ver! Está bem de ver!

A calma picava. Sentia-se zumbirem os insetos, e ao longe nas oliveiras o ciciar das cigarras punha um ruído seco. Do outro lado discutia-se a Joana, ainda frescalhona; apesar dos dois filhos, aquilo vinha a casar ainda.

— Não seria eu que casasse com ela. Entrando só com o corpo e ter de aturar dois diabos! Olha a fartura!

— Cá para mim — dizia um barbado —, mulher que casa duas vezes é capaz de pregá-los ao marido.

— É a minha sistema! Mulher só pra um homem! O mais, cabras!

— Homem, que hão de elas fazer? — perguntava um benévolo.

— Mas a Joana fica mal, coitadinha. Eles não tinham fazenda. Têm o burro, as casitas, uma jeira de terra além às Taipas...

— Demais, o irmão do Jerolmo quer partilhas.

— Qual! — disse um viúvo, entendido. — Há filhos. Só se levar a cinza da lareira, que é boa para barrelas.

— Como há de a pobrezita governar os pequenos?

— Ora! Como? Como as mais, no campo. E a Rita Santinha e a Teresa do Mudo, não vivem? À monda, à empa, à vindima, à ceifa. Pois onde? Avezada a tudo como está, pode bem fazê-lo.

— E nada má — fazia surdamente um amarelento, com certo riso.

Os valados prolongavam agora a faixa da rua que findara, e eram ali altos os silvados e tão robustos os cachos de amoras que os rapazes mais novos saíram do renque pra fazer provisão. Estavam ao cimo da colina. O cemitério ficava a meia encosta, cintado em muros brancos, com uma cruz de ferro na fachada. Do ponto do caminho em que iam, a paisagem era da mais plena largueza de horizonte e da mais bela disposição de pormenores. Convergiam de ambos os lados as courelas ceifadas, sobre a garganta do vale, que ia perder-se a pouca distância junto do ribeiro e aos pés de uma antiga orla de choupos e faias. Das ouvielas dos ferragiais e das vinhas irrompiam secos os pastos, camomilas, malmequeres, grisandras, maravilhas e enormes cardos de cálices espinhosos. Para a esquerda ondulava num mar verde vivo quase sem gradações, fatigante e sadia, a região das vinhas. Figueiras gigantes abriam até ao chão para-sóis metálicos de largos folhedos, sobre que revoava a pardalada. Aqui e além as hortas abriam na grande sinfonia cromática uma cadência graciosa de tons bronze e verde-salsa; as nogueiras, junto dos tanques, ensombravam sofregamente as noras e cisternas, usurárias da frescura. À direita era olival, tristonho e abrasado. No ribeiro, à sombra dos canaviais, as lavadeiras batiam as roupas, cantando. O fio de água era tênue como de uma vida que pouco a pouco se desprende, e serpeando por baixo do arco da ponte, onde um tufo de eucaliptos novos bulia, ia expirar lentamente na areia, sob as raízes sequiosas das junças e escalrachos.

Era junto dos eucaliptos mesmo, que o Ricardo mais o Manel estavam à pesca das rãs, quando o enterro apareceu em cima. De entretidos nem deram por tal. Tinham conseguido, de manhãzinha logo, escapulir-se de casa enquanto as mães soluçavam e as comadres iam prodigalizando lamentações e consolos de momento.

— Não sabes o que a mãe disse, ó Manel?

— Que foi?

— Que em ela me vendo andar contigo me havia de dar sova.

— É mentira, deixa falar, é mentira.

— Olha, o pai morreu — disse o Ricardo. — Já não ralha, pois não?

— Nada que não! Em fazendo trovões.

— Olha, vamos brincar?

— Eu cá dispo a véstia. Peço um pedaço de pão à minha mãe e não apareço senão às trindades — expôs o Manel, todo resoluto da ideia.

— E eu cá também.

— Olha — disse o Manel abrindo os olhos espertos, que um embevecimento clareava — vamos às rãs?

— Oh, vamos!

As rãs eram a paixão dos dois, o seu sonho, a sua coisa mais ambiciosa na vida. Tinham construído sobre elas as lendas mais extraordinárias e feito, por cópia do que ouviram às mães, uma quantidade de promessas aos santos se um dia conseguissem apanhar uma viva, das grandes.

À tardinha, quando os olhos vigilantes da Joana por um instante os largavam, corriam logo para o ribeiro. A chegada dos dois as rãs saltavam de todos os lados, da espessura dos juncos e mentrastes, sobre a água dos charcos com um sonoro plhau! na profundeza dos pegos. Calavam-se logo, agachados no tufo de eucaliptos, esperando pacientemente a ocasião. Numa circunvolução do regato, pensando-se sozinhas, algumas das rãs coaxavam à flor da água, erguendo acima do nível tranquilo as chatas cabeças verdes, olhos estourados de íris cor de ouro, e a enorme boca semielíptica aberta ao ar numa espécie de sorriso extático e a fila de pequeninos dentes córneas um pouco curvos dispostos para a apreensão dos animálculos. Erguiam-se então com grandes precauções e sutilezas, acautelavam extraordinariamente o ruído das passadas, prometendo baixinho, na febre do desejo, dúzias de padre-nossos a Santo Antônio se fosse servido entregar-lhes algum dos animaizinhos que faziam a sua paixão e o seu desespero. Mas, precipitados como eram, não conseguiam jamais aprisionar os elegantes anuros e, caindo a noite das montanhas azuis alinhadas em decoração ao fundo da paisagem ridente, voltavam cheios de tristeza e cansaço para as ceias da família, acabando por adormecer um ao pé do outro. Na volta sentiam com surda raiva o coro de rãs uníssono e forte, magnificamente instrumentado de ironias, que parecia de propósito erguido para lhes saudar a retirada e escarnecer do desalento e pouca arte que empregavam na pescaria. Tal coro, na penumbra misteriosa e vasta dos campos, tinha a concentração harmônica e a poesia nubívaga de um trena — hino de liberdade de uma colônia que de súbito readquire a sua independência. O Manel, especialmente, embirrava com a troça. E, com mão rápida, fazia chover nas poças de água mais sonoras grandes pedras talhadas em cunha e seguidas de pragas adequadas ao caso e à solidão do lugar.

Tinham ouvido os rapazes que as pernas das rãs tinham uma carne excelente e branca, tenra e fina como a de galinha. Nenhum deles comera ainda: mas era magnífico! Tinha-lhes contado o Coxo, um idiota da terra, que uma vez apanhara uma rã muito grande. E vai abriu-a, e tinha na barriga um canivetinho de duas folhas, muito bonito. Para os dois pequenos, ter um canivete de duas folhas era uma opulência inestimável. E qualquer deles, nos dias de desavenças ou amuos, querendo fazer sombra ao outro, já dizia:

— Deixa estar que eu hei de ter um canivetinho de duas folhas e tu não!

— Hás de, uma figa torta! — dizia logo o outro. Porque traziam as rãs canivetezinhos na barriga? Não sabiam. Mas traziam, traziam!

O Manel, que era mais imaginoso, entrava a explicar que as rãs faziam buracos pelo chão, furavam, furavam... e iam ter à loja do Vieira para roubarem as navalhinhas. Então o Ricardo ria.

— Mentira!

E, com a vozita gaguejada, fantasiava pelo seu turno uma teoria sobre os canivetes. E ambos à borda das poças se interrogavam de vez em quando, surpresos:

— Mas como será que elas têm canivetes lá por dentro? Aquilo é coisa que engolem.

— Qual?!

Como o calor era intenso, os anuros andavam no fundo da água, por baixo de limos reticulados com a delicadeza de frocos. O tufo de eucaliptos lançava pois sobre o pego mais próximo da ponte uma sombra alongada: ali sentia-se coaxar. As duas crianças agachadas quedavam-se, à espreita:

— Que cantoria que fazem! — dizia baixinho o Ricardo.

— Deixa — resmungou o outro com ares fanfarrões. — Eu dou cabo daqueles diabos.

Piscava os olhinhos com intenção, tirando do bolso um pedaço de arame aguçado.

— Elas aparecem, eu vou com isto estendido e tancho-as por uma perna.

E com profundo desdém:

— Hoje não é cá preciso padre-nossos!...

Foram-se aproximando do pego, de gatinhas.

Viam-se os tornozelos do Ricardo, grossos e de ligamentos inabaláveis, e o pé polpudo e forte, bom para firmar o corpo.

Devia ser de estatura mediana e muito robusto, de rico sangue. Pela camisa aberta e rasgada via-se o contraste da carne branca do tronco com a epiderme fulva da cara e das mãos. Sólido como um novilho, devia ter a índole ingênua e boa de Jerolmo, como lhe herdara a enformação animal. O Manei era esguio e seco, anguloso de ossatura. Tinha os cabelos corredios e as mãos estreitas, com unhas que revestiam quase o dorso das falanges terminais. Era já teimoso e de nervos suscetíveis. A sua organização sensibilíssima, pressentida, daria mais tarde o tipo fisicamente inábil para a labuta da enxada e em construção perpétua de estratagemas. Tinha os olhos grandes e lúcidos como dois ônix molhados, e a linha do nariz sem proeminência, fazendo lembrar na cara olivâtre e comprida o que quer que era de masque egípcia. Àquele tempo, o sino da Misericórdia mandava o último dobre de finados. E o som badalado de quebrada em quebrada chegou às crianças.

O Ricardo parou, erguendo a cabeça. Alongava os olhos com essa tristeza vaga dos que de outra forma não conseguem formular uma comoção interior. Lembrava-lhe o pai morto que iam meter na cova. Como essas naturezas que a música enche de soluços e de invencível angústia, o sino, com aquela toada grave e preguiçosa — Tlão! Tlão!... Tlão! Tlão — dava-lhe como uma reminiscência lúgubre.

A esse tempo o Manel erguera-se também, esquecido da pesca. E os seus olhos deram com o enterro. O Zé do Ó ia entrando já pelo cemitério, a opa escarlate parecia de longe uma papoula cortada que o vento impele.

Na meia-laranja da porta depois, os homens de escuro apinhavam-se para deixar passar a tumba, muito alta, aos ombros dos velhos, em que o Jerolmo, de mãos postas, oscilava, penetrando os muros brancos. 

— É o teu pai — fez o Manel. 

— Vai pro céu, então não vai?

— Está visto.

— Ele não gostava do teu, então gostava? 

— Não gostava! O meu anda sempre bêbedo. É tão mau!... Dá com a corda.

— Ó Manei! Manei! 

— Que é? 

— A gente havemos de ser amigos sempre, não havemos? 

— Havemos.

— E brincar sempre, então não havemos? 

O outro não respondeu. Enquanto o Ricardo de gatas se adiantava para o pego com o arame na mão, os olhos do filho da vizinha acompanhavam de longe os movimentos da massa de gente negra que viera ao enterro. Toda a noite a mãe chorara, miseravelmente abatida sobre a enxerga que servia também para albardar o burro.

O pai fora levado entre cabos de polícia para a cadeia de Évora, com as mãos atadas nas costas e o fato roto. No puxão de orelhas e nas palavras desprezadas do prior sentira que estava filho de um assassino. Ouvia numa toada fatídica os sinos da Misericórdia. Então as suas narinas palpitaram, sentiu na garganta como um novelo que se engrossava para o estrangular. Uma coisa abateu-o todo, percorrendo-o de uma estranha galvanização de mágoas.

Entrou a chorar alto, com profundos soluços que num jogo brusco lhe alevantavam as pobres costelas esburgadas.

— Deixa — dizia o Ricardo, puxando-lhe as calças, deixa lá. — A mãe não ralha, não.

E, esquecidos, inocentes, recomeçaram a pescaria. Do outro lado da ponte as lavadeiras tinham cessado de bater roupa. As vozes cobriram de pragas o Estragado, assassino, bêbedo e ladrão, que Deus confundisse na outra vida e as justiças degredassem nesta, para casa do inferno. 

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