quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A filha do Pajé (Conto), de Marques de Carvalho


A filha do Pajé
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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I
No rio Negro.
Das margens, nenhum som da vida animal perturbava a tranquilidade das coisas. A pino, o sol mordia as densas vegetações sombrias, fustigava tenaz uma ou outra borboleta vagabunda sobre os nenúfares exaustos. O rio seguia monótono, num esvaimento; apenas pelo meio, lá ao largo, a correnteza fervia em cachões, borbulhava entre escumas alaranjadas, depurava-se de todos os resíduos que acarreta a grande artéria aquática.
Pela beirada, aproveitando o remanso, ia subindo vagarosa, impelida pelo remo de pá, a canoa de pai Francisco, o velho pajé de Curralinho.
Vinha de longe, o solitário viajante. Empreendera a operosa navegação, que almejava fosse a sua última ascensão para o centro, em busca do absoluto sossego onde pudesse sondar a sua dor e dar largas ao pranto que não secava há seis meses. Fugia do lugar onde fora feliz e poderoso. Além, no mistério das florestas intactas, na grandiosidade da natureza virgem, havia de encontrar o lenitivo para as amarguras da alma lacerada.
Uma ternura afagava-lhe o espírito, onde renasciam vislumbres de esperança. Esquecer o passado, não o desejava. Seria buscar o impossível. A que ousava aspirar, numa humildade de supersticioso, era à pacificação circundante, para rever a seu gosto agridoces saudades, ressuscitar as reminiscências, fruir as meigas recordações dolorosas dos tempos idos. Era isto querer em demasia?
Remava sempre, seminu ao centro da embarcação, com o dorso exposto à soalheira, suarento, a cabeça ora para diante, ora erguida, no movimento dado ao remo. Nada via do lado da terra. A vegetação crescia opulenta, emaranhara glaucas barreiras invencíveis de raízes, troncos, ramagens e lianas. Por cima de tudo isto, palmeiras carregadas de tratos trapejavam brandamente e dos galhos, dentre maciços mais claros de folhagens tenras, pendiam as orquídeas, na gala aristocrática dos seus caprichosos matizes.
Às vezes, adiante da canoa, pinchava um peixe assustado, levantava inúmeras gotas, achamalotava de arrepios fugitivos a negrura do remanso. Mas o velho quedava-se impassível, remando sempre, fixo na ideia de fugir de Curralinho. O aspeto exterior do mundo não o interessava; debatiam-se-lhe tumultuosamente no espírito milhares de pensamentos retrospectivos, um só dos quais era bastante para dominar-lhe a atenção inteira.

II
Era simples a história desse homem.
Nascera e crescera em Curralinho. Filho de um antigo cabano, fizera-se pajé quando lhe morrera o pai.
Desconhecido ao princípio, teve de esperar paciente que os seus feitos o acreditassem na população, trazendo a pouco e pouco o êxito que tamanha fama lhe granjeou depois. Ao chegar à idade madura, — estava definitivamente consolidada a sua reputação. De muitas léguas ao redor, vinham durante o ano centenas de pessoas recorrer-lhe ao talento com a fé cega dos supersticiosos e dos crentes.
Uns, — a nata da gente culta de Curralinho, — tinham-no na conta de brejeiro especulador. Mas a parteira Eudóxia proclamava convicta o sincero devotamento de pai Francisco àquilo a que ela, com um pouco menos de propriedade na expressão, chamava o seu sacerdócio. Levava mesmo o espírito justiceiro a assegurar, com a responsabilidade do testemunho evidente de cem pessoas, que, para resolver uma situação difícil de puerpério, mais valiam as imposições cabalísticas da destra do apregoado pajé, do que toda a sua longa prática, dela depoente insuspeita, associada à infalível interferência de São Raimundo Nonato.
Especulador ou convicto, — não vem a pelo esmerilhar o fundo daquele caráter. Talvez mesmo tivesse ela as duas qualidades que são, quase sempre, o acúleo do seu e de idênticos misteres. O que havia de positivo era a adoração que sentia pela filha, — um encanto de caboclinha rechonchuda e capitosa, que lhe dera a companheira, momentos antes de morrer. Fora essa a única vez que falhara a sua ciência de mago. Será verdadeiro o aforismo de que santos de casa não fazem milagres? — perguntava, benzendo-se três vezes, a velha Eudóxia.
Toda a vila conhecia e estimava a repariguita. O pai tinha-a fora de casa, com a gente de um amigo íntimo. Ia vê-la todos os dias e passavam longas horas sem que ele interrompesse o afetuosíssimo colóquio, que tão deliciosamente banhava de inenarráveis venturas o seu singelo coração.
Que glória valia a de ser pai de semelhante criatura?

III
Criara-a ele próprio, desde os primeiros dias da dupla viuvez do seu corpo e da sua alma. Descrever toda a série de cuidados, de atenções, esperanças e sustos desenvolvidos por pai Francisco, seria traçar o poema de um heroísmo comum no bendito solo amazônico.
Fora ele a sua ama seca, — mas disvelado como nenhuma. Tinha um jeito especial para amimar a pequenita criatura, apaparicá-la com terna bondade, que era um gosto espreitá-lo no desempenho dessa função providencial. Havia, assim, naquele estranho ser, duas entidades heterogêneas, uma dualidade admirável, que tão profundo contraste estabelecia entre o terrível feiticeiro abracadabrante e o pai melífluo, de olhos deslavados em sorrisos de adorável meiguice.
Quedava-se o caboclo, a cada instante, longo tempo a rever na face inexpressiva da criancinha as feições de um ente estremecido, para sempre entregue à dissolvência definitiva, no sombreado cemitério da vila. O seu afeto fazia ricochete na muralha da morte e volvia inflorado de carinhos, fúlgido de enternecidas esperanças, a formar a aureola transcendente que exalçava o futuro da criancinha.
Felícia chamara-a, num augúrio de ventura. Quantas horas não ficava absorto, à beira rio, sonhando acordado mil felicidades para o enlevo da sua alma solitária, para a filha idolatrada que ali medrava a seu lado, na força da vida ao ar livre, sem peias físicas a entorpecer-lhe a pujança da infância?
Vieram, mais tarde, outros cuidados. Necessário se tornava dar forma a um espírito vivo, a uma inteligência ágil e vigorosa. Já não bastavam as atenções materiais. A ama seca devia tornar-se num educador perfeito e ele soube sê-lo com êxito, no seu meio, nos limites da própria visualidade espiritual. Não têm as almas, ainda as mais simples, um mundo de ideias sãs, um tesouro de sentimentos puros, tão eficazes na compreensão dos deveres morais?
A filosofia do pajé de Curralinho era singela como a simplicidade da sua existência, vigorosa como a pujante natureza circundante.
Mas a criança da véspera tornara-se mulher. Novos sobressaltos para o pai. Não lhe bastava a convicção de lhe haver insuflado à alma os mais sãos conselhos. Uma nuvem de desconfiança lhe entenebrecia o coração. Os sustos perseguiam-no sempre, mesmo no meio dos sonos agitados. A sua preocupação constante era esta: amparar a filha contra o assalto da concupiscência. Se houvesse necessidade de compará-lo a algum personagem do romantismo, nenhum vulto era mais adequado ao símile do que o do apaixonado truão de Francisco I.
Pusera-se de má catadura, encanecera, tornara-se ríspido e intolerante com todo o mundo. Em cada individuo via um ladrão da sua felicidade. E, nos diálogos com a filha, ao luar, ao longo da ribanceira, dominando o Amazonas, tinha encantadoras expressões de meiguice, frases cariciosas como ósculos de criança amimada, — admiráveis esforços para prender e enlear definitivamente um afeto que ele receava — ou adivinhava? — perder um dia. Esta única ideia lhe dava febre. Era, então, numa languidez voluptuosa e pura, que recebia os beijos filiais da virgem, perfumada a periperioca, agitada numa ternura reconhecida.

IV
Este encanto durou pouco. Felícia amara, alfim, outro ser estranho, com um novo sentimento cuja diversidade reconheceu tão grande, que não teve ânimo para confessá-lo.
Ignorando tudo, o pajé contemplava satisfeito, na aparente tranquilidade da caboclinha, o são produto dos seus conselhos.
Um regatão de longe — lá das bandas de Macapá — fora o perturbador daquele singelo coração. Era moço, valente, um belo tipo de tapuia varonil. A simpatia da rapariga fez-se primeiro entusiasmo doidivanas, assumiu depois as proporções de violenta paixão.
Felícia não tinha já a mesma fixidez atenta no olhar quando a encarava o pajé. Distraída, opressa por vago mal estar, buscava a solidão, isolava-se por gosto. O pai atribuía esse estado a causas puramente físicas. Entretanto, quem surgisse, alta noite, por perto do copiar da casa onde vivia a moça, havia de enxergá-la nos braços do regatão, soluçante de amor, gemente de desejos.
Não podia prolongar-se o novo estado de coisas. Um dia, ao amanhecer, foi o pajé avisado que lhe fugira a filha. Por uma reveladora coincidência, desaparecera também do portozinho da vila a canoa do regatão.
O velho cambaleara, caíra sem sentidos. Três semanas esteve à morte, ardendo em febre, delirando entre pesadelos horríveis. Todo o povoado emocionou-se à narração de tamanha dor. Os mais endurecidos corações, aqueles que chamavam feiticeiro e perverso a pai Francisco, tiveram para ele um movimento de simpatia, uma pontinha de dó.
Eudóxia, entretanto, não ficara sossegada. Varonil, resoluta, organizou, com o auxílio de dois amigos que equivaliam a duas dedicações poderosas, uma expedição em busca de Felícia.
Alguém dissera que o regatão tomara o caminho de Gurupá. Na mesma direção seguiram a parteira e seus auxiliares. Dois meses depois — nem tanto, talvez — estavam de volta. Recebeu-os o velho num desânimo, com um sorriso triste, quase idiota, na face desfigurada.
Tudo inútil. Felícia morrera em viagem. Havia-a destruído a varíola. O regatão enterrara-a numa escarpa e ficara louco, ao abandoná-la para sempre à orla da floresta, sob uma chuva interminável de flores capitosas.
Pai Francisco manteve-se calado, imperturbável; só dois grandes fios de lágrimas deslizaram-lhe pelas faces, cortando o rictus que a imensa dor formava em cada comissura dos lábios.
Meia hora depois, ele também partia, sem despedidas, numa canoinha leve, subindo o Amazonas.
Eis porque, há pouco, o encontramos, lavado em suor, a cabeça ora para diante, ora erguida, no movimento dado ao remo. Há alguns meses já que saiu de Curralinho. Segue pela beirada, aproveitando o remanso do rio Negro.
Foge do lugar onde fora feliz. Não terá direito a aspirar ao lenitivo para a alma lacerada?
Como nenhum som de vida animal perturba a tranquilidade das coisas, está perscrutando a intensidade dos próprios pesares, sopesando a agonia do coração encarquilhado.
Vai sempre para o centro, numa ascensão dolorosa, mártir da boa fé. No espírito, afagado por indefinida ternura, renascem-lhe vislumbres de esperança. Não é que pretenda esquecer o passado. Busca apenas o sossego absoluto das florestas intactas, para dar largas ao pranto que não seca há seis meses.
Demais, no meio da pacificação circundante, não poderá ele rever a seu gosto agridoces saudades e convulsar baixinho, muito baixinho, com a sua querida Felícia, — não a fugitiva, — mas a outra, a pequenita, a que o preferia sempre, aquela que ele criara como ama seca e ainda conservava pura e infantil no fundo do amantíssimo coração?

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