terça-feira, 3 de outubro de 2017

A paixão de Manuel Garcia (Conto), de Florbela Espanca


A paixão de Manuel Garcia

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Manuel Garcia, o pobre canteiro da Rua das Silvas, quando soube que Maria del Pilar ia casar-se, matou-se.

Um drama encerrado em duas linhas, numa escassa dúzia de palavras, um drama que levou anos e anos a desenrolar-se, que teve o seu primeiro capítulo numa doce manhã de maio e o seu epílogo num modestíssimo quarto de uma casinha de pobres.

Como é difícil sondar os corações humildes, as histórias das vidas simples! E a história de um coração que nunca se interrogou em desoladoras horas de spleen, em inquietas noites de insônia, que nunca pretendeu perscrutar os complicados mistérios do Além, é uma história simples, uma humilde história que leva a contar uns rápidos minutos e cabe toda dentro de sete palmos de pinho... bem medidos, que Manuel Garcia era um rapagão! Alto, moreno, ombros largos, musculoso, tinha contudo um coração de colegial de quinze anos; no forte arcabouço daquele operário inculto e simples vivia, não se sabe porque estranhas transmigrações, a alma de um poeta romântico. Quem o diria?!... Só a mãe, talvez... As mães adivinham sempre, não sei por que miraculosa intuição, o mistério que no mistério das suas entranhas foi gerado, e nunca se enganam! Quando, naquele úmido crepúsculo de Novembro, o sangue salpicou a parede muito branca de cal, ao lado da cama, no modestíssimo quarto da sua casinha de pobres, quando as morenas mãos crispadas, que revolveram a chaga na angústia suprema da morte, foram manchar de vermelho a pobre colcha branca, muito lavadinha, o seu orgulho de dona de casa — quando ela entrou e viu a história leu-a ela inteira, dentro da sua triste alma de mãe dolorosa; foi como se a lesse toda, linha a linha, capítulo por capítulo, naquele funesto segundo em que o destino lhe punha diante dos olhos, brutalmente, para que ela o lesse, o seu sinistro epílogo de morte.

O candeeiro aceso iluminava com a sua luz fria e clara o conhecido cenário do pequeno quarto: duas cadeiras, uma coluna com um bustozinho de criança em pedra, o lavatório de ferro, uma mesinha e, ao fundo, a cama revolta, o revólver no chão, e o filho morto. Em cima da mesa, coberta com um debotado pano de chita de ramagens, uma carta, e nessa carta um nome, um lindo nome de mulher: Maria del Pilar.

Não gritou, não disse nada; os pobres não gritam. A morte faz parte do seu lúgubre cortejo de amigos, tem um cantinho no seu leito e um lugar à sua mesa; quando chega, pode levar tudo; quando transpõe a porta, aberta de par em par, com a sua presa, não vê à sua volta, a escoltar-lhe o fatídico vulto negro, senão cabeças curvadas num gesto de resignação, braços caídos, braços de quem deu tudo, de quem não tem mais nada para dar. A dor dos pobres é resignada e calma; traz às vezes consigo as aparências da revolta mas, no fundo, é cheia de um imenso, de um infinito desapego por tudo. Os pobres vêm ao mundo já sem nada; o pouco que a vida lhes deixa é emprestado. Que lhes hão de tirar que seja deles?! Aos pobres toda a gente chama desgraçados. Havia muitos anos que aquela pobre, aquela desgraçada, sentia a morte rondar-lhe a porta. Ouvira-lhe, por muitas vezes, os passos ao longe, depois mais perto, mais perto ainda até pararem à porta... e a morte entrava. Levou-lhe a mãe, o pai, dois filhos pequeninos, uma filha de vinte anos, o marido, e por último entrara-lhe assim em casa, de repelão, sem prevenir, e fizera-lhe do coração um frangalho. A sua alma andara, como o seu corpo, sempre vestida de crepes; não se lembrava de a ter visto de branco. E resignada, doce, trazia no rosto fatigado, nas pálpebras sempre descidas sobre os olhos cansados de chorar, na pálida boca dolorosa, o fatalismo dos que o destino marca para os não poupar durante uma vida inteira. Adivinhara há muito o doido segredo do filho, o segredo daquela paixão que o crucificara em vida, que o empurrara aos vinte e dois anos para o negrume da cova. Nunca dissera nada a ninguém. Para quê? Quando naquele aziago anoitecer de novembro transpôs o limiar do quarto e viu o filho morto, não gemeu, não gritou. Para quê?...

Olhou-o longamente, profundamente, sem se atrever a entrar; por fim, nuns passos lentos e hirtos de sonâmbula, aproximou-se. Passou-lhe a mão pela cara intacta, acariciou-lhe os cabelos, levantando-os, descobrindo-lhe a testa num gesto de uma infinita doçura; depois, com um dedo, meigamente, seguiu-lhe os contornos da boca mole, a linha do nariz afilado, o queixo, como que para gravar melhor na mente, e para sempre, a imagem carnal do que tinha sido um filho, a bênção de um filho. Fechou-lhe bem os olhos, como quando ele era pequenino e adormecia com os olhos entreabertos. Devagarinho, devagarinho, não lhe fosse doer, num levíssimo gesto de piedade e amor, tateou-lhe a ferida sangrenta no meio do peito como uma chaga. O sangue tingiu-lhe os dedos; pôs-se a olhá-los, e só então as lágrimas, lágrimas silenciosas, verdadeiras lágrimas de pobre, lhe correram em fio pelas rugas das faces.

Ter um filho novo, robusto, belo, e vê-lo ir, vê-lo partir um dia para nunca mais, romeiro perdido num caminho de desgraça! Ficar só, velha e pobre, sem o calor de um afago — que triste sorte, mais triste que tudo neste mundo! O filho das suas entranhas, que das suas dores nascera, que aos seus peitos se criara, que ainda podia acalentar, deitar no colo, beijar, começava já a ser, na solidão daquele quarto, uma saudade, uma recordação da sua vida solitária. 

Lavou-lhe as mãos ensanguentadas, vestiu-lhe, sozinha, com um jeito de mãe que veste o filho pequenino, o seu fato novo, o seu bonito fato preto dos domingos, calçou-o, penteou-o. Quando o avô chegou, o pobre velho de setenta anos que queria àquele único neto, ao filho do seu filho morto, como às meninas dos seus olhos, viu-o assim, já pronto a partir para a suprema ausência, que não tem regresso Abanou a cabeça toda branca e desatou a soluçar nuns soluços miudinhos de velho, num choro sem lágrimas que fazia dó. A mãe, nos últimos arranjos, de um lado para o outro no quarto, parava de vez em quando para enxugar com a ponta do avental de chita preta as lágrimas que continuavam a cair-lhe em fio pela cara abaixo e que a cegavam.

A carta, em cima da mesa, atraiu-lhe o olhar com a sua brancura imóvel e fria; a carta parecia o selo sem esperança daquele túmulo, o selo maldito que a sorte aziaga imprimira a fechar, para a eternidade, aquela vida ardente e moça. A mãe pegou nela docemente. Tremiam-lhe as mãos ao levantá-la de cima da mesa como se não pudessem com ela, com aquele fardo, como se a carta fosse assim como uma cruz de ferro onde o destino lhe crucificara o filho. Estava fechada; e então a mãe, ao lindo nome de mulher que as mãos morenas do filho tinham traçado na última hora da sua vida, acrescentou mentalmente o resto do nome que lá não estava e que o seu triste coração de mãe adivinhara: Calderon de Ataíde.

Sim, o louco segredo do filho, do pobre operário canteiro era aquele. A Maria del Pilar, a quem gritara de longe o seu doido amor, a sua cega paixão de romântico, não era, como à primeira vista poderia imaginar-se, a priminha afastada que de terras de Espanha viera há meses e que por aqui ficara, presa como andava a uns escuros olhos portugueses. Não era a costureirinha gentil com quem poderia ter criado um lar, um doce lar de pobres, como um ninho suspenso num beiral, a cabeça a tocar o teto, o teto quase ao pé do céu. Não, não era a moreninha espanhol, não era a andaluza de rosto tostado como o de uma gitana que andava pelas ruas com o xalinho traçado e os cabelos ao vento. Era a outra, a outra Maria del Pilar, a filha de uma nobre espanhola e de um grande fidalgo português, era a loira princesinha, a fada dos seus sonhos de poeta, que um dia, dia aziago e fatal, avistara por entre as grades doiradas do seu jardim distante.

Quando a viu, endoideceu. Preso, embriagado, arrastado por aquela delirante paixão, nunca mais teve sossego nem descanso. A oficina de canteiro, propriedade do avô, era ao canto da rua; de lá avistava-se todo o jardim, a escadaria suntuosa, os amplos salões de baile no rés-do-chão, as inúmeras janelas dos aposentos particulares no primeiro e no segundo andar. Tinha ocasiões em que não tirava os olhos do palácio, via tudo quanto lá se passava, estava ao fato das saídas e entradas de toda a gente, espiava as idas e vindas dos criados e das visitas. Nas noites de baile, metia-se num canto sombrio do amplo portão da oficina, e ali passava a noite inteira a olhar as sombras que passavam ligeiras por detrás dos espessos cortinados de renda das janelas, como uma borboleta que a luz atraísse implacavelmente; só quando, de madrugada, via partir os últimos convidados, ou quando se apagava a última luz, é que ele se resolvia a voltar para casa, a passos lentos, transido de frio e com o coração num farrapo.

Outras vezes trabalhava, trabalhava febrilmente, sem descanso, o dia inteiro, numa exaltação de todos os seus nervos, numa ânsia de todo o seu ser, como se quisesse matar às marteladas qualquer ave de rapina que sentia roer-lhe as entranhas. E então fazia da pedra tudo quanto queria! O granito duro e informe parecia uma pasta mole, uma cera obediente, que ele talhava ao seu bel-prazer. Nesses dias, alheado de tudo, sem levantar a cabeça, enquanto a canção dos martelos ressoava alegre na oficina, fazia surgir de sob as suas mãos privilegiadas de artista, animadas por um mágico sopro de prodígio, as rendas mais sutis, as mais elegantes grinaldas, os mais complicados florões. Na figura, então, era assombroso e os corpos eram uma maravilha de graça. Ninguém dispunha com mais arte as pregas de um manto, ninguém era capaz de enrolar com mais elegância as curvas caprichosas, as ondulações envolventes das roupagens roçagantes, em volta de um corpo de mármore cor-de-rosa. Todos os simbólicos vultos dos túmulos, a Saudade, a Fé, as Musas e os Anjos, todos lhe saíam das mãos, não se sabia por que acaso, com o mesmo perfil finíssimo, o mesmo sorriso sinuoso, os mesmos contornos delicados de um rosto que o obcecava e que o trazia arredado do resto do mundo, com os mesmos corpos esbeltos de adolescentes puros talhados em linhas rígidas e hieráticas. Parecia que a pedra tinha a consciência da sua alta missão, o orgulho de bruta e informe, realizar um sonho, ser transformada, por um raro prodígio de amor, numa Maria del Pilar que a paixão de um pobre divinizara.

E assim passaram largos anos. O extraordinário é que ninguém deu por isso. Os companheiros de oficina, embora o achassem bizarro e com uma grande telha, como eles diziam, nunca imaginaram, nem por sonhos, uma coisa daquelas. A sua grande paixão passou despercebida aos olhos de toda a gente. 

A não ser a mãe, que as mães nunca se enganam, porque têm os olhos no coração, ninguém viu coisa alguma. Também o caso era de tal forma extraordinário! Um Ruy Blas, canteiro!... Tão grande era a loucura, que só outro louco a poderia conceber no seu cérebro delirante.

Quando Manuel Garcia viu pela primeira vez a princesinha loira, através das grades doiradas do seu jardim distante, teria quando muito dezessete anos e ela treze. Era uma rapariguita travessa e estouvada, alegre como um céu de abril; corria pelo jardim como uma corça selvagem, tranças loiras como uma cascata de ouro pelas costas; dava uns gritos agudos como um pardalinho novo que está contente com a vida mas que não sabe cantar; as suas gargalhadas eram frescas como o riso de um regato a descer um monte. Aos olhos de Manuel Garcia, Maria del Pilar, no seu jardim, no meio das amigas, era assim como um sol a iluminar os seixos escuros e desprezíveis das estradas. Que loucura!

E em tantos, tantos anos, nunca a loira fidalguinha olhara para ele. Não, ele não se lembrava de um só olhar, de sentir pousados nos dele uma só vez, de fugida, aqueles grandes olhos verdes-claros que o endoideciam de amor! Se ela tivesse olhado para ele ao menos uma vez na sua vida! Mas não... no seu mesquinho tesouro de apaixonado, não encontrava nada, por mais que procurasse, por mais que remexesse, que se assemelhasse ao doce fulgor de duas límpidas esmeraldas claras. Esse prodígio, esse milagre, não se dera nunca! Um olhar! Mas se ele tivesse achado, no seu mesquinho tesouro de apaixonado, um só olhar de Maria del Pilar, não estaria decerto ali rígido, inerte, gelado!

O seu mesquinho tesouro continha apenas as parcelas de ouro do seu riso, o encanto do seu alado pisar de alvéloa, a embriaguez do seu perfume, a cor dos seus vestidos, o deslumbramento da sua presença, da sua recordação intangível e sagrada, do seu ser, dela, Maria del Pilar, princesinha loira, que, com as suas mãos de boneca, o empurrara para a cova sem o saber, fizera do rapagão moreno e cheio de vida, que ele era, o trapo que ali jazia insensível e inútil.

De tangível e concreto, apenas uma rosa que ela deixara cair uma manhã na rua. Ia num grupo de rapazes e raparigas; vestida de branco, calçada de camurça branca, os cabelos, de fartos caracóis loiros, cingidos por uma larga fita branca, ia jogar o tênis a um palacete vizinho. Levava na mão uma soberba bryce elian, de um lindo róseo acarminado, acabada de colher, de passagem, no jardim. Com um golpe de raqueta atirou-a, de brincadeira, à cara de um rapaz alto e loiro que, desastrado, a não conseguiu agarrar. Quando se afastaram e o vestido dela não foi mais que uma mancha clara na estrada cheia de sol, o pobre canteiro foi apanhá-la à rua com o carinho de quem levanta do chão um bebê magoado, lavado em lágrimas e com o vestidinho sujo. Entrou na loja e, delicadamente, com uma paciência infinita, com mil cuidados, lavou-a pétala por pétala, tirou-lhe todo o pó, e guardou-a sem sequer se atrever a beijá-la.

Maria del Pilar, tão perto, estava longe, mais longe que as terras longínquas de além-mar, mais longe que uma estrela cadente, que nem o pensamento a pode seguir pelos céus fora, mas estava ali; não era dele, não, meu Deus! não a podia cobiçar sequer, mas não era de ninguém. Vaso sagrado por onde nenhuma boca matara a sede, templo que nenhuns passos tinham profanado ainda, torre de marfim do seu amor a que nenhum olhar subira, não era dele, não, mas era a Pura, a Intangível, era A que não era de ninguém.

E Manuel Garcia ia vivendo, talhando a pedra, sereno e mudo, numa castidade absoluta, como um monge ascético dentro da sua Cartuxa de sonhos, com a inconsciência de uma criança que vai, numa noite sem lua, costeando um abismo a rir e a cantar.

Mas um dia — dia maldito aquele! — a notícia do casamento de Maria del Pilar rodopiou vertiginosa, como um súbito ciclone, arrastando tudo na sua pobre existência de simples, cheia, a transbordar, das migalhas de um sonho. Assombrou-o. Quando o soube, na oficina, ficou pregado ao chão, a tremer, na desvairada tremura de uma árvore velhinha sacudida pela nortada. À volta, os camaradas, o avô, comentavam tranquilamente o caso, continuando, indiferentes, a sua tarefa. A filha do fidalgo tinha sido pedida em casamento por aquele rapaz espanhol, D. João Manuel, que a acompanhava sempre por toda a parte. Um casamento de estrondo! Fidalgos, novos, ricos, bonitos... que lindo par! “Que lindo par!”, repetiu uma estranha voz de sonâmbulo. E os muros, as pedras, começaram a dançar-lhe, diante dos olhos esgazeados, a dança macabra do seu destino perdido. Pobre poeta! Com o brutal encontrão, acordou sobressaltado do êxtase de tantos anos e deu com os olhos na miséria da vida! Tinha adormecido criança, despertou homem feito e, espavorido, estendeu as mãos para agarrar toda a sua linda adolescência inverossímil e quimérica que lhe fugia. As estátuas, os companheiros, os blocos de pedra, tudo rodopiava em volta numa vertigem que não conseguiu vencer. Apoiou-se pesadamente à pedra que trabalhava, e, muito pálido, foi escorregando devagarinho até cair como um boneco a quem um bebê, curioso e azougado, tivesse cortado os fios da sua pobre existência de fantoche, que vivera de uma mentira uma vida que não passara de ilusão.

Quando voltou a si, circunvagou os olhos pelo quarto e viu a mãe, encostada à cabeceira da cama, fitando-o. Que estranho poder de videntes tem uns olhos de mãe! Manuel Garcia compreendeu que o seu segredo não era só dele, mas teve vergonha, corou, desviou os olhos. A mãe, com o pudor receoso de quem surpreende um mistério inquietante, calou-se, abafando um suspiro.

E a vida continuou. Manuel, cada vez mais encerrado no seu gelado mutismo, começara a viver uma vida desregrada. A sua casta mocidade afundava-se num lodaçal de vícios. De olhos fitos no topo do seu calvário distante, onde numa hora de suprema coragem encontraria a morte redentora, atolou-se, na medonha subida, em todos os charcos do caminho. Há quem suba a descer. Há almas privilegiadas e únicas que nada têm a ver com a lógica absurda das leis humanas. As turbas inconscientes e boçais lançam, à face de certos entes, anátemas que o céu, se o há, não deve perdoar. À gargalhada insultante deste mundo responde a infinita serenidade do que fica para além e que os olhos míopes não veem. Manuel subia a descer...

Quando o que lhe ficou para trás não foi mais que um ponto perdido no desapego de tudo a que chegara, quando conseguiu finalmente arrancar de si os pedaços irreconhecíveis do seu sonho desfeito, Manuel Garcia olhou face a face a vida, e sorriu. Oh, o sorriso de desdém dos que querem morrer! Quem foi que se atreveu a dizer alguma vez, quem foi que ousou traçar num papel as letras da palavra cobardia, falando de um suicida?! Oh, a medonha coragem dos que vão arrancando de si, dia a dia, a doçura da saudade do que passou, o encanto novo da esperança do que há de vir, e que serenamente, desdenhosamente, sem saudades nem esperanças, partem um dia sem saber para onde, aventureiros da morte, emigrantes sem eira nem beira, audaciosos esquadrinhadores de abismos mais negros e mais misteriosos que todos os abismos escancarados deste mundo! Quem foi que um dia ousou lançar a um papel as letras ultrajantes da palavra cobardia, essa suprema afronta, esse insultante escarro, à face dos que querem morrer?!

O que lhes foi preciso de coragem desdenhosa, de altiva serenidade, de profundíssimo desprezo, às almas que partiram por querer!

Manuel Garcia lutou um ano, e conseguiu vencer a vida, vencendo-se. Ao pavor do fim, ao medo do sofrimento, ao horror do gesto, daquele gesto que é ainda consciente e que vai deixar de o ser, o gesto para além do qual a nossa vontade, quebrada, não tem poder algum, que é o último antes do pavoroso mistério, a tudo isto, a todos estes fantasmas contra quem lutara um ano inteiro, respondeu ele, um dia, com um sorriso... e que sorriso!...

E foi assim que na penumbra fechada de um crepúsculo de novembro, Manuel Garcia meteu uma bala no peito, depois de escrever num papel frases de amor a uma princesinha loira, depois de lhe ter traçado o nome, o lindo nome que cheira a jardins de Espanha, num quadradinho branco, onde as últimas lágrimas dos seus olhos caíram e secaram.

No quarto do morto, agora, só se ouviam os soluços miudinhos do velho, sentado aos pés da cama. A mãe tornou a pegar na carta, cuja brancura, sobre o vermelho do pano de ramagens, a hipnotizava. Pensativa, olhou-a longamente, tornou a pousá-la. Foi à janela, abriu-a, e debruçou-se no abismo da noite. A rua era um poço sem fundo. A chuva, que até ali caíra delgada como uma bruma, começava a engrossar. O palácio dos Ataídes, lá embaixo, na volta para a estrada, faiscava de luzes. Eram dez horas. Começava o baile, o grande baile que os pais da noiva ofereciam a todos os grandes nomes da capital, pelo casamento da filha. Maria del Pilar tinha casado, doze horas antes, na capela do palácio.

A pobre mãe abafou um soluço, voltou-se, e olhou o morto. A débil chama das velas, que o vento tornava movediça, traçava-lhe no rosto sombras e clarões, tirando-o da imobilidade da morte para o lançar na animação fictícia da vida; a olímpica serenidade dos libertados transformava-se: a boca parecia sorrir num esgar de desdém, os olhos pareciam abrir-se e pestanejar como se lá dentro as pupilas quisessem ver. Ver o quê, meu pobre adolescente que morreste velho? Ver o quê?... A vida que numa grotesca ironia te fez nascer na casinha de um pobre, a ti, a quem o destino cego dera a alma coroada de rosas e verbenas de um grego doutros tempos?! Tudo em ti era beleza, poesia e graça... e tudo isso a vida, miserável e trocista, vestiu com o cotim do teu pobre fatinho da semana, com o teu ridículo e mesquinho fato novo dos domingos! Quem dirá a estes troçados da vida o porquê do seu destino, a razão do engano que os fez nascer pastores, filhos de reis!...

A mãe tornou a debruçar-se sobre o negrume da rua. A chuva, agora, caía em enxurrada, como se o céu quisesse lavar o mundo de todos os seus maus pensamentos e ações. Buzinas de automóveis... um grito... passos que se esvaíam na sombra... Ao longe, um cão perdido uivava a miséria de ter nascido sem dono. Com os olhos fitos nas luzes do palácio, na fila ziguezagueante dos autos donde desciam sem cessar vultos negros, que se sumiam no pórtico todo iluminado, como a entrada de um palácio de um conto de fadas, a cabeça reclinada sobre o rebordo da janela, a mãe pôs-se a cismar. Que dois mundos tão diferentes! A noite e o dia, a luz e as trevas... Aos seus lábios resignados subiu a revolta de uma blasfêmia; o coração esmagou-se-lhe, num arranco, de encontro ao seu magro peito de velha. Teve vontade de uivar como aquele cão sem dono, de se deitar na lama da rua, de bruços, com a boca na terra, rastejando, como um bicho, amortalhada na frescura daquela chuva que continuava a encharcar tudo, como se para além das quatro paredes daquele quarto o mundo acabasse num novo dilúvio. Ao seu coração subiu de repente o desejo, tenaz como uma ideia fixa, de catástrofes inauditas; os seus olhos traíram a visão de casas a desmoronar-se, de labaredas a flamejar, de mãos de assassinos e de incendiários abrindo todas as portas. As suas mãos estenderam-se também empunhando o facho incendiário, brandindo o punhal assassino nas sombras da noite. Que não ficasse pedra sobre pedra, que os campos fossem rasos, secos, rapados por todas as pragas que sobre eles caíssem em maldição! E a última visão do seu sonho criminoso e insensato foi a visão do mundo desaparecido, engolido pela vastidão de enormes oceanos e, à tona de água, a boiar, o esquife onde o filho dormia repousadamente, embalado em cadência pelo ritmo das ondas! 

Soltou um suspiro como se lhe arrancassem o coração. Todos os seus longos anos de renúncia e sacrifício vieram em procissão, das sombras da noite, acalmá-la, exorcizando os pássaros negros das suas trágicas alucinações, abatendo o pendão sangrento da revolta. Passou a mão pela testa, pela cabeça branca que a chuva molhara. De repente, lembrou-se da carta que estava em cima da mesa, da carta que o filho tinha escrito a uma Maria del Pilar que àquela hora, vestida de branco, dançava nos braços doutro. Pareceu-lhe ver nos olhos do filho uma lágrima; olhou atentamente, estremeceu e, numa súbita intuição, estendeu os braços para a cama onde o filho jazia, murmurando:

“Não, meu filho, não... Eu sei. Que loucura! A carta... eu sei, a carta não é para a Maria del Pilar que a esta hora dança, vestida de branco, nos braços doutro. Não... Eu sei. A carta vai ser entregue à outra, à pobrezinha por quem tu morreste. Eu sei. Cala-te. Não chores. Está sossegado.”

Pareceu-lhe então ver na boca do filho um eflúvio de sorriso. Sim, era isso, não a enganara a sua intuição; era isso que ele queria. A carta era para a costureirinha, para a morena andaluza, de rosto tostado de gitana; pois para quem havia de ser? Ele não conhecia outra Maria del Pilar!...

E, devagarinho, sempre a olhar a boca do filho onde o sorriso se acentuava mais luminoso e enternecido, foi à mesa, pegou na carta, tornou a pousá-la e, a tremer, escreveu o resto do nome que lá faltava, o nome plebeu e obscuro de uma triste costureirinha que passara a vida a amar sem nunca se julgar amada: Sánchez.

Pousou a pena, olhou o morto com uns olhos onde havia ainda uma sombra de inquietação, uns olhos interrogadores e tristes; a pouco e pouco, porém, o olhar foi-lhe tomando uma grande expressão de serenidade, e a sua boca pálida e triste de velhinha respondeu com um sorriso ao sorriso do filho. 

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