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10/03/2017

O Aviador (Conto), de Florbela Espanca


O Aviador

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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No veludo glauco do rio lateja fremente a carícia ardente do Sol; as suas mãos doiradas, como afiadas garras de ouro, amarfanham as ondas pequeninas, estorcendo-as voluptuosamente, fazendo-as arfar, suspirar, gemer como um infinito seio nu. Ao alto, os lenços claros, desdobrados, das gaivotas, dizendo adeus aos que andam perdidos sobre as águas do mar... Algumas velas no rio, manchazinhas de frescura no crepitar da fornalha. Mais nada.

Um óleo pintado a chamas por um pintor de gênio. As tintas flamejam ainda úmidas: são borrões vermelhos as colinas em volta; doirado, o indistinto turbilhão da casaria ao longe.

A vida estremece apenas, pairando quase imóvel, numa agitação toda interior, condensada em si própria, extática e profunda. A vida, parada e recolhida, cria heróis nos imponderáveis fluidos da tarde.

Os homens, saindo de si, borboletas como salamandras que a chama não queimara, abrem os braços como asas... e pairam! Acima do óleo pintado a chamas por um pintor de gênio ascende... o quê? Outra gaivota?... Outra vela?... O Sol debruça-se lá do alto e fica como uma criança que se esquecesse de brincar no trágico assombro do nunca visto! Outra gaivota?... Outra vela?...

Tudo em volta flameja. O pincel de gênio dá os últimos retoques ao cenário de epopeia. As tintas têm brilhos de esmaltes. São mais vermelhas as colinas agora, mais doirada a cidade distante.

Os filhos dos homens, cá embaixo, deixam cair nos campos a enxada que faz nascer o pão e florir as rosas; os pescadores largam os remos audaciosos que rasgam os mares e os rios, e os filhos dos homens mais duramente castigados, os que habitam o formigueiro das cidades, param nas suas insensatas correrias de formigas, e todos voltam a face para o céu.

O que anda sobre o rio? Outra gaivota?... Outra vela?...

Lá em cima, a formidável apoteose desdobra-se no meio do pasmo das coisas. É um homem que tem asas! E as asas pairam, descem, redopiam, ascendem de novo, giram, latejam, batem ao sol, mais ágeis e mais robustas, mais leves e mais possantes que as das águias. É um homem! A face enérgica, vincada a cinzel, emerge, extraordinária de vida intensa, na indecisão dos contornos que lhe fazem, vagos e pálidos, um vago pano de fundo; a face e as mãos. É um Rembrandt pintado por um titã.

Os músculos da face adivinham-se na força brutal das maxilas cerradas. Nos olhos leva visões que os filhos dos homens não conhecem. Os olhos dele não se veem; olham para dentro e para fora; são de pedra como os das estátuas e veem mais e mais para além do que as míseras pupilas humanas. São astros. 

É um homem! Deixou lá embaixo todo o fardo pesado e vil com que o carregaram ao nascer; deixou lá embaixo todas as algemas, todos os férreos grilhões que o prendiam, toda a suprema maldição de ter nascido homem; deixou lá embaixo a sua sacola de pedinte, o seu bordão de Judeu Errante, e, livre, indômito, sereno, na sua mísera couraça de pano azul, estendeu em cruz os braços que transformou em asas!

Não há uma sombra de nervosismo, uma crispação, naquele perfil de medalha florentina, naquela face moldada em bronze, um bronze pálido que lateja e vibra; não há uma ruga naquele olímpico modelo de estatuária antiga, recortado no ouro em fusão da tarde incendiada. O seu coração, ao alto, é mais uma onda do rio, embaladora, rítmica, na sensualidade da tarde; é uma voz que sussurra, que ele sente sussurrar em uníssono com outra voz que sussurra mais áspera, mais rude —, a voz do coração de aço que, sob o esforço das suas mãos, palpita e responde.

O Sol ascende mais ao alto, vai mais para além, tem agora um fulgor maior, e, sobre o bronze vibrante das mãos — triunfantes, vai pôr a mordedura da sua boca vermelha. São brutais aquelas mãos, formidáveis de esforço, assombrosas de vontade! Esqueceram as carícias e os beijos, o frêmito dos contatos inconfessáveis, o trêmulo tatear das carnes moças e cobiçadas; deixaram lá embaixo os gestos de doçura e piedade, o aroma das cabeleiras desatadas, a forma dos rostos desejados moldados nas suas palmas nervosas, todas as posses onde se crisparam e os desejos para que se estenderam; perderam as curvas harmoniosas, a tepidez dolente e macia de preciosos instrumentos de amor! Contraíram-se em garras e, no alto, crispadas sobre a presa, são elas que algemam, são elas que escravizam, que subjugam as asas cativas!

E, lá no alto, o homem está contente. Como quem atira ao vento, num gesto de desdém, um punhado de pétalas, atira cá para baixo uns miseráveis restos de ouro que levou; do seu ouro de lembranças de que se tinha esquecido. O homem está contente.

E a apoteose continua. O pintor de gênio endoideceu; atira sem cambiantes, sem sombras, sem esbatidos, traços como setas que se cravam; arroja brutalmente todos os vermelhos e os ouros da sua paleta, e pinta como quem esmaga em gestos tumultuosos de demente. Donde vem tanto ouro? Prodígio! Miragem! Deslumbramento! Até as velas sangram e as asas, peneiradas de cinza, das gaivotas se encastoam de rutilantes pedrarias raras. É irisado agora o veludo glauco do rio; o sol atira-lhe a rir, como um menino, pródigo e inconsciente, as suas últimas gemas. As colinas, em volta, são mãos abertas de assassino, e o casario, chapeado de luz, é um manto de púrpura rasgado, cujos farrapos vão prender-se ainda nas labaredas do horizonte a arder. O homem está contente. Atira as asas mais ao alto, escalando os cimos infinitos, já fora do mundo, na sensação maravilhosa e embriagadora de um ser que se ultrapassa! Sente-se um deus! As mãos desenclavinham-se, desprendem-se-lhe da terra onde as tem presas um derradeiro fio de ouro... e cai na eternidade.

Tanto azul!... As filhas dos deuses, ondinas, sereias, nereidas, princesas encantadas, acodem todas pressurosas. Há um remoinho de cabeleiras de ouro; os braços são remos de marfim abrindo as águas; trazem nos seios nus a curva doce das ondas, no riso os misteriosos corais das profundidades; arrastam mantos verdes tecidos de algas, como rendas, onde se prendem estrelas; todo o luar prateado que à noite faz fulgir o rio, trazem-no em diadema nos cabelos.

Falam todas a um tempo: Que foi?... Que aconteceu?... e a fala é um arrepio de ondas...

Em volta das asas mortas, são como flores desfolhadas em redor de um esquife negro. E olham...

— É mais um filho dos homens? — pergunta uma, estendendo o braço como uma grinalda de açucenas.

Mas a de cabeleira mais fulva, onde o ouro foi mais pródigo e se aninhou mais vezes, responde num sussurro:

— Não. Não vês que tem asas?

— É então um filho dos deuses? — pergunta outra.

— Não. Não vês que sorri?

E cercam-no, contemplam-no, vão mais perto, quase lhe tocam...

Há um remoinho mais febril nas cabeleiras de ouro; gemem mais fundo, mais melodiosas, as vozes miudinhas, e os mantos, como serpentes, em curvas donairosas, enlaçam-se uns nos outros.

— Tem os cabelos negros como aquele que tombou no mar do Norte...

A de cabeleira mais fulva, onde o ouro foi mais pródigo e se aninhou mais vezes, acerca-se ainda mais... estende o braço a medo... ousa tocar-lhe num gesto mais leve, mais brando que um suspiro... abre-lhe as pálpebras descidas, no ar recolhido de quem abre duas violetas...

Em volta fremem mais fundo as ondas dos seios; as mãos abrem os dedos como faúlhas de estrelas; uma lânguida sereia, divinamente branca, eleva o veludo branco dos braços como duas ânforas cheias.

— Que tem dentro? — pergunta Melusina.

— Estrelas? — diz uma filha de rei.

— Não; duas gotas de água verdes, límpidas, translúcidas, serenas. Venham ver...

Num turbilhão, entrelaçando as rendas sutis dos mantos roçagantes, confundindo os raios de sol nascente das cabeleiras fulvas, debruçam-se todas, e, no fundo, no seio translúcido das duas gotas de água, veem redopiar as palhetas de ouro das cabeleiras de ouro, veem fulgir os raios luarentos dos diademas, e todas as gotas de água dos seus olhos vogam no fundo, como estrelinhas, tão límpidas, claras, serenas elas são.

Olham-se extáticas todas as deusas das águas; faz-se mais brando o ciciar das vozes; os gestos são finos como hálitos; os mantos verdes empalidecem, são cor das pupilas agora.

Uma segreda:

— Vamos deitá-lo lá no fundo, naquele leito de opalas irisadas que o mar do Oriente nos mandou...

Diz outra:

— Vamos pô-lo naquela urna de cristal que é como um túmulo aberto donde se avista o céu...

— Vamos envolvê-lo na mortalha daquele farrapo de luar de agosto que as ondas nos trouxeram da planície... — murmura outra.

E há vozes, escorrendo como um óleo divino, que ciciam:

— Vamos espalhar sobre ele, como pétalas de ouro, os nossos cabelos loiros...

— Vamos selar-lhe a boca com o coral cor-de-rosa das nossas bocas em flor...

— Dêmos-lhe, para ele descansar a cabeça, as brandas vagas dos nossos seios nus...

— Para o deitar, eu sei de um sítio onde desabrocham, entre espumas de neve, rosas mais pálidas que as que eu tinha no meu palácio distante — diz uma filha de rei.

— Eu sei de um túmulo de areia onde a areia é de prata...

— Eu descobri a gruta toda em pérolas cor-de-rosa, onde fica a madrugada... As ondas ali não cantam, poderá dormir descansado...

— Levemo-lo para aquele berço em forma de caravela que destas praias partiu e se perdeu no mar das Tormentas...

O frêmito das vozes fazia-se maré alta... as pálpebras violetas palpitavam...

Foi então que uma delas, que tinha no olhar um pouco da nostálgica tristeza humana, que mostrava ainda sinais de algemas nos pulsos de seda branca, que trazia nos cabelos uma vaga cinza de crepúsculo, murmurou, enquanto num gesto, onde havia ainda esfumadas reminiscências de gestos maternais, lhe aconchegava ao peito a mísera couraça de pano azul:

— Deixem-no... Talvez lhe doam as asas quebradas...

Silêncio...

E aquele que tinha sido um filho dos homens ficou a dormir na eternidade como se fora um filho dos deuses. 

A Morta (Conto), de Florbela Espanca


A Morta

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

"A Morta" (Conto), de Florbela Espanca

Isto aconteceu.

A Morta ouviu dar a última badalada da meia-noite, ergueu os braços, e levantou a tampa do caixão. Desceu devagarinho, circunvagou em redor os olhos de pupilas sem luz; os outros mortos, bem mortos, dormiam pesadamente. Puxou para si a porta do jazigo que dava para a noite. O vestido branco manchou o negrume das sombras. Fúnebres ciprestes, almas de tísicos bailavam numa clareira uma macabra dança de roda. Avançou lentamente pela avenida soturna, voltando para eles os glóbulos vítreos dos seus olhos sem luz. Parou um momento, clarão no meio de sombras, a ver um pequenino, nu e branco como um mármore grego, que piedosamente se entretinha a encher de lágrimas uma urna partida, onde as pombas viriam beber de dia. Um suicida, escavando a terra com as unhas, procurava o seu sonho, porque se tinha perdido.

As estátuas descansavam das suas atitudes contrafeitas. A saudade alisava as roupagens roçagantes, e sentava-se com a face entre as mãos, olhando vagamente a noite. Uma musa de curvas sensuais, num túmulo de poeta, cerrava languidamente os olhos e fazia com a boca o gesto de quem beija. Um sapo enorme, de olhos magníficos como estrelas, lançava a sua nota rouca, refastelado num fofo leito de lírios. 

A Morta caminhava num passo de morta, um ciciar de brisa na folhagem; os sapatinhos de cetim branco mal pousavam nas pedras do caminho; as pupilas sem luz não tinham olhar, e viam. A Morta sabia aonde ia.

A Morta ia a lembrar-se, que os mortos também se lembram; na solidão do túmulo há tempo e sossego para lembrar; é lá que as virgens tecem as mais preciosas lhamas dos seus sonhos. Para quem saiba ouvir, há vibrações de carnes mortas nos túmulos brancos das que morreram puras, como que um frêmito brando de erva a crescer...

A Morta ia a lembrar-se:

Sentira num êxtase sobre-humano, num assombroso sair de si, numa prodigiosa transfiguração de todas as fibras do seu ser, a pressão de uns dedos quentes que lhe desciam as pálpebras sobre as pupilas paradas. Uma boca, que ela nunca sonhara tão macia e fresca, roçara-lhe a macieza e a frescura da sua, em beijos miudinhos, cariciosos, castos como aquelas gotas de chuva que nas tardes de Verão, infantilmente, recolhia nas suas duas mãos estendidas.

Vestiram-na de branco, ungiram-na de branco, envolveram-na numa nuvem de branco. Era branca a almofada de rendas onde lhe pousaram a cabeça, devagarinho, no gesto sagrado de quem pousa uma relíquia três vezes santa nas rendas de um altar. Brancos, os sapatinhos de cetim, aqueles mesmos que mal roçavam agora as pedras do caminho. Branca, a grinalda de rosas de toucar que lhe prenderam à seda dos cabelos. Branco, o vestido, o seu último vestido do seu último baile. Brancos, os cachos de lilás, as rosas e os cravos que eram como asas de pombas a cobri-la. Branca, a caixinha de sete palmos pequeninos onde a mãe a deitou como a deitara anos a fio na brancura do berço.

E agora, as cartas do noivo, o retrato do noivo, as dulcíssimas recordações do noivo. E, piedosamente, cuidadosamente, não fosse esquecer alguma pétala de flor, algum fiozinho dos seus lindos cabelos pretos, algum pedacinho de papel onde as queridas mãos morenas lhe tinham traçado o nome, tudo lhe levaram, como uma divina oferta a um ser divinizado. Tudo levou. Parecia que se tinha tornado de repente mais pequenina, mais imaterial, mais acolhedora, para que tudo lá coubesse, para que nada esquecesse, para que nada ficasse a gelar lá fora no frio glacial da indiferença deste mundo que transe as almas e as coisas. Que lhe pusessem tudo, o caixão não pesaria mais por isso... Todo o ouro a jorros das suas misteriosas quimeras, todos os fúlgidos brocados tecidos dos preciosos metais, semeados das gemas cintilantes das suas miragens de amor, todas as altas torres brancas dos seus sonhos, tudo era tão leve, tão leve, que a caixinha de sete palmos pesava menos que uma pena de colibri.

Depois, a tampa da caixinha tombou brandamente entre o ciciar dos soluços, e toda a brancura se apagou; uma noite de luar que se cerrasse em sombras...

E já foi... Desceu os degraus da escada, baloiçada no seu esquife branco, com a cabeça, tonta do perfume das flores e dos seus sonhos de amor encerrados com ela, como se lá tivessem encerrado, numa suprema oferta, todas as primaveras que no mundo tinham de florir depois dela.

E lá a deixaram. A vaga que a levara, quebrara-se de encontro à praia, e o esquife, barco sem velas, dormia no porto ao abrigo dos vendavais, das medonhas invernias desencadeadas, das outras vagas maiores que se quebravam ao longe, num marulhar incessante, no mar alto da vida. A Morta podia dormir, a Morta podia sonhar.

Silêncio. Um silêncio feito de fluidos rumorosos, do vago rastejar de um perfume, de um leve vapor de incenso pairando. Silêncio como um vago clarão de fogo-fátuo, como o rasto, a poalha de um desejo imaterial, silêncio em torno da vasta catedral de sombras onde as sombras vestidas de branco pontificam pelas noites.

Os outros mortos, ao lado, dormiam pesadamente, descansadamente. Um dia tinham pendido os braços num gesto de fadiga e tinham ficado assim pelos séculos dos séculos. A Morta viu-os a todos e de nenhum se lembrou; o mundo ficava longe.

Começou depois o encantamento. Todas as tardes, à hora em que o crepúsculo, todo vestido de glicínias, descia com a doçura dumas pálpebras que se fechassem, o perfume das rosas, dos cachos de lilás, das suas recordações de amor encerradas com ela, fazia-se mais denso, corporizava-se, tornava-se nuvem, unguento divino que a inundava, que a aromatizava toda. Os passos, letras de um poema que ela sabia de cor, mal se ouviam, perdidos ainda no coração da cidade, gritante, alucinada cidade dos vivos... mas, agora, vinham mais perto, distinguiam-se melhor, eram mais arrastados, tateavam o chão, tomavam posse das pedras do caminho da silenciosa cidade dos mortos.

Os sete palmos brancos onde as flores dormiam de encontro à carne branca da virgem eram como um enxame de abelhas de ouro: zumbiam lá dentro todas as litanias de amor, batiam desvairadamente os corações dos cravos, abriam-se sedentas as pequeninas bocas das mil florinhas de lilás, aos seios pálidos das rosas aflorava uma onda levíssima de carmim.

A mão do noivo empurrava a porta do jazigo. Os outros mortos, ao lado, não o sentiam entrar; braços pendentes num gesto de fadiga, tinham ficado assim pelos séculos dos séculos. 

Entre o vivo e a morta o diálogo era de uma sobre-humana beleza.

Essência de almas, as almas tocavam-se e era tão cândido e tão profundo aquele choque, que as misteriosas forças desse fluido criavam outros fluidos, sopros, hálitos de almas, desses que os predestinados sentem às vezes passar como asas invisíveis roçando um rosto na escuridão. Diálogo em que as bocas ficavam mudas, em que os sons eram imateriais e os gestos intangíveis e o perfume, que é a alma dos sentimentos, não era mais pesado que uma essência de perfume.

O vivo e a morta falavam, e o que eles diziam não o podem entender os vivos nem talvez mesmo os outros mortos, aqueles que ao lado dormiam pesadamente, braços pendidos num gesto de fadiga pelos séculos dos séculos.

O perfume agora era mais brando, narcisava-se, palpitava ainda como um rufiar de asas cansadas ao chegar ao ninho... A mão do noivo puxava para si a porta do jazigo... os passos perdiam-se ao longe na silenciosa cidade dos mortos, depois na alucinante cidade dos vivos, e tudo se aquietava. Aproximava-se o silêncio, que trazia pela mão, devagarinho, não fosse tropeçar, a noite cega.

Mas, uma tarde, a Morta esperou em vão, e esperou outra e outra e outra ainda em infindáveis horas de infindáveis tardes. Na caixinha de sete palmos onde os cravos e os lilases eram viçosos e frescos ainda, como se uma eterna madrugada os banhasse de orvalho, começaram a enlanguescer os perfumes, a desmaiar os seios nus das rosas; as cartas de amor amareleciam; os braços da virgem iam esboçando já o gesto de fadiga dos outros mortos que ao lado dormiam pesadamente.

Foi então que uma noite mais cega ainda que as outras todas que o silêncio trazia pela mão, uma noite em que ela sentia gotejar lá fora as lágrimas de todo um mundo de que se tinha esquecido, foi então que ela ergueu os braços, levantou brandamente a tampa do caixão, e desceu devagarinho... foi então que ela puxou para si a porta do jazigo que dava para a noite.

E a Morta lá foi pela soturna avenida, no seu passo, de manto a roçagar. Empurrou a porta apenas encostada — para que se há de fechar a porta aos mortos?... — e saiu... e na cidade adormecida foi uma flor de milagre que os vivos sentiram desabrochar. Foram mais ternos os beijos das noivas; as mães sentiram mais calmos os sonhos dos filhos como se a bênção do céu descesse misericordiosa sobre os berços; os braços das amantes ampararam melhor as cabeças desfalecidas, e os que estavam para morrer tiveram pena da vida.

Atravessou ruas ermas, estradas solitárias povoadas de sombras mais vãs e fugidias que ela era; procurou com as suas pupilas sem luz o clarão que as acendera, estendeu os braços a todos os gritos, andou de porta em porta, subiu a todos os lares, revolveu todas as agonias, debruçou-se em todos os abismos, penetrou o mistério de todos os sonhos. E cada vez as sombras eram mais vãs e fugidias, e os clarões iam-se apagando, estrelas-cadentes no negrume cerrado daquele Gólgota. Nada!

Foi então que lhe chegou aos ouvidos um ciciar brandinho... Seriam passos?... Rufiar de asas?... Folhas de Outono tombando?...

E a Morta parou.

Marulho de ondas pequeninas. O rio.

Na taça de prata, cinzelada a traços de maravilha pelas mãos dos gênios das águas, erguida ao alto por mãos misteriosas e invisíveis, dormia todo o azul do infinito. O seu vestido branco aureolou-se de sonho, teve tons azulados de nácar e madrepérola, claridades fosforescentes de fogo-fátuo; como se lhe batesse de chapa todo o luar dos céus longínquos, lembrou um manto de Virgem; as mãos, num gesto de graça, foram duas minúsculas conchas azuis. Era ali.

Debruçou-se... Marulho de ondas... E a morta foi mais uma onda, uma onda pequenina, uma onda azul na taça de prata a faiscar...

Isto aconteceu.

De manhãzinha, quando as pombas sedentas vieram beber as lágrimas na urna quebrada, quando o sapo, de magníficos olhos como estrelas, deixou o seu fresco leito de lírios, e a saudade se enrodilhou de novo no suntuoso túmulo de mármore, a soluçar, quando a musa de curvas sensuais moldou a boca que toda a noite dera beijos na imobilidade rígida das linhas austeras e frias, quando enfim as sombras se esvaíram na silenciosa cidade dos mortos, um caixão foi encontrado vazio, uma caixinha branca de sete palmos pequeninos, onde cartas de amor amareleciam e flores deixavam pender as pálidas cabeças desmaiadas.

Os mortos não voltam (Conto), de Florbela Espanca


Os mortos não voltam

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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— Tenho a certeza de que os mortos não voltam.

O velho e simpático Dr. X, quebrando o silêncio em que se tinha emparedado toda a noite, fez esta estranha afirmação num tom tão peremptório, com uma tal firmeza de acentuação, com uma tão grande autoridade, que a sua frase, balde de água gelada na exaltação do grupo, fechou a discussão como por encanto.

— Os mortos não voltam — repetiu.

Todos os olhares convergiram para ele. Impassível, eixo da curiosidade geral, puxou mais a cadeira para o vão da janela aberta de par em par sobre a noite cálida e estrelada de agosto. Sacudiu a cinza do cigarro, aspirou uma lufada de ar carregado dos aromas dispersos do jardim e do mar, e continuou tranquilamente:

— Eu explico a minha afirmação... e o tom em que a proferi — acrescentou, com um dos seus belos sorrisos, de cujo encanto tinha o segredo e que eram talvez a mais clara explicação dos seus repetidos triunfos na vida. — Se a nossa discussão, meus senhores, não é uma discussão ociosa, o que é muito provável, se semelhante coisa pode entrar tanto quanto possível no domínio dos fatos experimentais, se tudo isto que acabamos de dizer não é metafísica pura, a minha afirmação de há pouco tem valor, e eu vou dar-lhes a sua explicação. A minha certeza é o fruto de uma experiência que o acaso preparou magistralmente, numa época em que estes problemas apaixonavam os intelectuais, problemas que deram origem aos soberbos trabalhos de Gurnay, primeiro, e, logo a seguir, de Crooks, Lodge, com o seu célebre Raymond, trabalhos que suscitaram todas as curiosidades no mundo pensante. Nessa época, já relativamente afastada e por assim dizer ainda de ontem, que a época trepidante dos sem-fios e dos aviões destronou, não se falava noutra coisa: alucinações telepáticas, visões, lucidez, pressentimentos, aparições objetivas, etc., fenômenos ocultos, misteriosos, discutidos entre a zombaria e a incredulidade de uns e a credulidade medrosa de outros — eis o assunto de toda a conversação de uma ordem mais elevada ou com pretensões a tal. Eu lia tudo quanto se publicava sobre o caso, e hesitante, balouçado entre a dúvida e a certeza, intuitivamente crédulo e refletidamente descrente, preso deste indefinido mal-estar que nos avassala perante os fatos desconhecidos, fora do nosso conhecimento imediato, não conseguia firmar uma opinião, ver esboçar-se o prelúdio de uma vaga certeza.

Até que um dia, ou antes uma noite, o meu espírito sossegou, apoiado a uma absoluta convicção que os fatos até hoje não vieram desmentir.

Não, meus senhores, os mortos não voltam. Nada faltou à preparação da magistral experiência que o acaso me fez presenciar: campo experimental, cenário, ambiente particular, emoção elevadíssima, tudo! E, nessa noite, depois das rápidas parcelas de segundo de um voo para além dos limites do consciente, a alma pousou de novo no domínio da vida material sem ter visto, sem ter sentido nada.

O Dr. X. fez uma pausa, olhou a noite recamadinha de estrelas, e pareceu escutar a voz soturna das ondas, rezando o seu cantochão de eterna ansiedade.

— Foi em casa da Senhora L. — principiou ele.

— Você conhece, Veiga — disse, voltando-se para um rapaz alto e loiro, de monóculo —, a deliciosa velhinha que possui, num cenário de maravilha, le dernier salon ou l’on cause. Faz agora anos por estes dias. Festejava-se num jantar íntimo a saída, do colégio, da neta, a endiabrada garota que hoje é mãe não sei já de quantos taludos bebês. Estávamos todos no terraço, depois de jantar, naquele lindo terraço todo em mármore cor-de-rosa, janela escancarada sobre o mar, que parece ter sido idealizado por um paxá das Mil e Uma Noites. Estava eu, a dona da casa, Madame V., os dois irmãos Grey, o Ravara de Melo e aquela linda rapariga que o ano passado professou num convento de Segóvia e que você também conheceu muito bem, Lídia de Vasconcelos. Lembro-me como se o caso se tivesse passado ontem. Não sei que poder evocador se desprende desta noite, da melopeia destas ondas, que misteriosos eflúvios traz consigo o ar que entra por esta janela aberta, o certo é que preciso fazer um esforço para me convencer que isto não se passou ontem, que tantos anos não dispersaram já toda esta gente que evoco. Influência do cenário igual, da noite igual da discussão, talvez...

Os Estoris enchiam-se de pontos luminosos; o céu, de estrelas miudinhas. O Monte lembrava um presépio, como agora, sobre o mar a escurecer, a preparar o mistério das suas bodas com a Lua que vai surgir toda de branco.

Discutia-se um caso de telepatia narrado pelo mais novo dos Grey, aquele místico Robert de uma psicologia tão curiosa. Tinha visto, segundo ele dizia, a mãe entrar no seu quarto, depois de ter atravessado um comprido corredor que levava diretamente à alcova onde meses antes expirara. O caso levantou, como calculam, enorme celeuma. Na mesa ninguém se entendia; falavam todos a um tempo, faziam-se comentários, cada um expunha a sua opinião, contava um caso da sua vida. Houve risos, blagues, e, quando saímos para o terraço, deixando os dançarinos no salão, o Robert continuava, impassível, a garantir a autenticidade da sua história, e nós todos engalfinhados a discuti-la.

Parece-me estar ouvindo o Ravara de Melo, o cético elegante, rir com os seus espirituosíssimos paradoxos a escultural Madame V., aquela loira Madame V. de quem a Lila dizia que trazia a arder na cabeça todas as fogueiras de São João, o tom de máscula impassibilidade do Robert afirmando, a voz já apagada e tão doce da Senhora L.

O Dr. X. interrompeu o que estava a dizer para acender outro cigarro, rito praticado sempre com um raro deleite de sibarita, precursor do raro prazer de se intoxicar, operação que levava a cabo metodicamente, desde os Paxás da sua adolescência até aos preciosos Abdulas de agora.

— Que linda noite! — murmurou, como se falasse consigo próprio, e, em voz alta, continuando:

— Era uma noite assim; a pouco e pouco fomos adoçando as vozes para não quebrar a harmonia da hora, daquela hora de uma sobrenatural e mágica beleza que todos nós sentimos ser uma pausa na nossa vida brutal, um momento digno de deuses na nossa feia vida de homens, uma hora feita de envolventes bruxedos, tão pesada de perfumes, tão embebida de doçura que, maquinalmente, as mãos quase esboçavam o gesto de se estender para agarrar a hora maravilhosa que sentíamos fugidia e já perdida nos momentos que passam. O riso de Madame V., num dado momento, quase nos chocou como uma falta de tato, uma inconveniência, como se ela se lembrasse de aparecer nua diante de nós todos. De repente, elevou-se no salão a voz da Lila cantando a Balada do Rei de Tule.

Houve outrora um rei em Tule...

A voz profunda e pastosa entrava na noite como um punhal numa ferida: dilacerava-a. A pungente melodia fez-me subir as lágrimas aos olhos, e ao coração uma turba de recordações que eu julgava perdidas no mar da vida como a taça lendária sobre as águas do mar.

Calamo-nos todos, a ouvir. O ruído das ondas acompanhava em surdina a voz maravilhosa que subia e se espalhava na noite, que parecia concentrar-se e compreender como uma alma. Julguei naquele momento ouvir um soluço abafado, como se uma onda se tivesse quebrado ali mais perto de nós; voltei-me negligentemente como para pousar o cigarro numa mesinha que estava atrás de mim; não vi ninguém, a não ser a Lídia de Vasconcelos que tranquilamente mordiscava um cravo branco. Quando a voz se calou no arrastar dos últimos versos:

E a taça lá vai boiando
Por sobre as águas do mar...

fez-se um silêncio que nenhum de nós ousava ser o primeiro a quebrar. Sobressaltou-nos, numa impressão desagradável, a voz roufenha, monótona, do Robert, que num tom peremptório, num tom todo britânico, teimosamente preso à sua ideia, reatava o fio da discussão interrompida: “Os mortos voltam.”

A doce Senhora L. não pôde conter um sorriso. Aquele sorriso, naquela ocasião, vinha sublinhar a sua opinião sobre os Ingleses, opinião que eu conhecia e que achava de uma injustiça flagrante; mas vão lá convencer as mulheres da injustiça de uma opinião que elas criaram sozinhas!

A discussão acendeu-se outra vez. Ravara deitou novamente fogo às peças de artifício do seu espírito brilhante. O riso de Madame V. ecoou mais cristalino na noite pura...

Foi então que, de novo, chegou aos meus ouvidos o eco abafado de um soluço. Não havia dúvida, tinha sido um soluço. Voltei-me rapidamente. A Lila continuava a mordiscar o seu cravo branco, mas, olhando-lhe as mãos, compreendi tudo num relance: tremiam como as asas de uma avezinha presa.

O coração apertou-se-me cheio de uma imensa piedade por aquele tristíssimo destino da rapariga. “Vocês sabem a história... talvez”, disse ele voltando-se para o grupo que o escutava, e, a um sinal negativo do rapaz de monóculo: “Não? A Lídia estava noiva de um seu camarada, Álvaro Bacelar”, disse ele a um oficial da Armada que o ouvia, com uma grande atenção, de pé, encostado ao peitoril da janela; “não, você não pode lembrar-se; isto passou-se há anos, ainda você não tinha entrado sequer na Naval; de um seu camarada que morreu, vítima de um desastre no mar, oito dias antes do marcado para o casamento. O cadáver, apesar de incansáveis pesquisas, nunca mais apareceu. Era um esplêndido rapaz, dotado das mais fortes e sérias qualidades, de uma beleza viril que se impunha. Lembro-me muito bem da cara dele, principalmente dos olhos; tinha um olhar duro, um estranho olhar que nos penetrava como uma verruma, que afirmava, que insistia; mas, quando nos pressentia o vago mal-estar de uma alma que se sente vasculhada, adivinhada até aos seus mais recônditos esconderijos, o olhar mágico dulcificava-se, aveludava-se, transformava-se na suavidade de um olhar quase feminino, lânguido e caricioso. Era realmente um belo rapaz. Lembro-me muito bem dele e da tragédia da sua morte. Nos primeiros dias houve sérios receios de que a noiva enlouquecesse. Eu fui vê-la nessa ocasião; depois, esteve numa casa de saúde na Alemanha, viajou pelo Oriente, foi a Jerusalém. Voltou, passados dois ou três anos, curada, segundo parecia. Reatou os seus hábitos interrompidos, viram-na de novo, mais linda do que nunca, os salões mais chiques da capital, e começaram, é claro, a fazer-lhe a corte. Nova, bonita, rica, por que não? O mundo é dos vivos, os mortos têm o seu à parte. Era natural que a pobre rapariga esquecesse, fizesse por viver, tentasse de novo fundar um lar, desejasse filhos, não é verdade? As mãos geladas de um cadáver não têm o direito de prender eternamente o coração de uma rapariga de vinte anos que crê na vida, mas as decepções, na turba cada vez mais numerosa dos pretendentes, foram-se multiplicando; Lídia de Vasconcelos atendia benevolamente todos, mas não se decidia a escolher nenhum. Vocês compreendem, um morto é um temível rival, um competidor seriíssimo que tem por si as mil vantagens que a ausência e a saudade lhe emprestam. A morte é o Reutlinger das recordações; na objetiva do coração foca-as para sempre em beleza imutável e única. Quando, naquela noite, lhe vi tremer as mãos pequeninas que, num jeito cheio de ansiedade, seguravam o cravo branco, quando a vi olhar num olhar de inexprimível desalento aquele mar, mortalha imensa de um ente que para todos era há muito apenas uma recordação diluída e que para ela era a única realidade existente, tive a impressão nítida de que o seu único, o seu obcecante desejo, naquela ocasião, seria o impossível prodígio de poder erguer, com as suas mãozinhas que tremiam, a ponta daquela mortalha, a dobra daquele grande lençol, e contemplar um minuto, um só minuto, os olhos estranhos, inolvidáveis, do morto. Senti que aquelas mãos só tinham forças para pedir ao destino aquela esmola. O seu vestido de rendas prateadas, na claridade leitosa da Lua, que se elevava acima das ondas, vestia-a de espuma a faiscar. O grande diamante do seu anel de noivado parecia grande e pesado demais para o seu dedo miudinho e frágil de bebê. Naquele terraço, quase às escuras, fez-me pensar numa imaterial aparição; parecia mais uma onda que tivesse galgado o terraço e que se imobilizasse na expectativa de um prodigioso e inefável milagre.” A voz aguda e trocista de Madame V., respondendo à frase do Robert, sobressaltou-me como uma pessoa que, no melhor do seu sono, é acordada brutalmente para a realidade da vida. “Oh Robert, que candura a sua! Estes Ingleses!... Você teve muito simplesmente uma má digestão, coisa que acontece a muita gente. Será você sonâmbulo?” acrescentou a rir. Robert abanou gravemente a cabeça, o irmão sorriu com o seu frio, com o seu cortante sorriso saxônio. Vocês não podem fazer uma ideia: nunca vi sorrir um inglês, que não ficasse irritado. Aqueles sorrisos nus e ao mesmo tempo complicados, onde parece não haver nada e onde se adivinha tanta coisa, espicaçam-me como um aguilhão. Ia para responder; não tive tempo. A voz da Senhora L., que naquele momento se elevou, foi um unguento, um calmante no prurido da minha cólera absurda; serenou-me como por magia. Ela dizia, abanando tristemente a cabeça branca, que parecia de prata ao luar:

Não, Robert, os mortos não voltam e é melhor que assim seja... Que vergonha se voltassem! Onde há por aí uma alma de vivo que se tivesse mantido digna de semelhante prodígio?... Eles vão, e a gente fica e ri e canta e deseja e continua a viver! Mutilados, amputados, às vezes do melhor de nós mesmo, a gente é como estes vermes repugnantes que, cortados aos pedaços, criam novas células, completam-se e continuam a rastejar e a viver! É uma miséria, é, mas é assim!” “A voz da Senhora L. perdeu-se num murmúrio, casada ao murmúrio surdo das ondas, lambendo os rochedos da praia. No salão dançava-se animadamente um charleston em voga. Foi então que, na noite pura, na noite silenciosa talhada em horas de imperecível beleza, estalou o grito sobre-humano, o grito que, passados tantos anos, trago ainda nos ouvidos, que foi como que o comentário à margem de todas as minhas dúvidas e incertezas, que consubstanciou em si, no arrastar das suas notas trágicas, a resposta às minhas interrogações em frente ao formidável mistério da morte. Lídia de Vasconcelos tinha-se erguido na cadeira e, voltada para o mar, lívida, irreconhecível, estendera os braços, e soltara num grito, como um arranco, como um desgarrar de fibras, o nome querido: “João!” 

Àquele brado de angústia, àquele chamamento, àquele apelo desesperado, a própria noite se enrodilhou cheia de medo e de assombro e todos nos entreolhamos à espera que das ondas surgisse o morto, novo Lázaro a um novo Surge et ambula. Foi um segundo de emoção como nunca tinha vivido, como nunca mais poderei viver. Foi um momento. Lídia tornou a cair na sua cadeira como um triste farrapinho branco, numa crise de soluços que a sufocava; todos se levantaram para a socorrer. Eu fiquei a olhar para o mar, o mar impiedoso que guardava a sua presa, que se espreguiçava molemente como uma fera que tem sono. Não, meus senhores, os mortos não voltam. Se voltassem, haveria um que naquela noite teria voltado, quando o chamaram.

O Dr. X. calou-se. Atirou para o jardim o cigarro meio consumido, e ficou pensativo, a olhar o mar, com os olhos rasos de água.

O resto é perfume (Conto), de Florbela Espanca


O resto é perfume

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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— Nesta época dolorosa da minha vida — prosseguiu a minha amiga —, sabe você aonde vou buscar o mais benéfico consolo, o analgésico mais seguro contra estas crises que me assaltam de vez em quando, de repente, no meio de uma frase, de um riso, crises que me fazem lembrar um cobarde assalto, pelas costas, numa praça iluminada e cheia de gente?

A minha amiga, no terraço da sua linda casa, uma romântica casa, meio cottage, meio palacete, que dava para o mar, formulava-me esta estranha pergunta à queima-roupa, naquele ar de maliciosa seriedade que lhe era habitual e que lhe dava um tão estranho encanto.

Estávamos sós, naquela quente tarde de Agosto, face ao mar, abrigados do vento, que naquele pedaço de costa é quase constante, pelo toldo às riscas vermelhas e brancas que nos separavam do resto do mundo, comodamente estendidos em cômodas cadeiras de vime; à mão, em cima de uma elegante mesinha também de vime, um grande ramo de sécias, desgrenhadas e finas como crisântemos, o Bouddha Vivant de Mor and com a faca de marfim marcando a página interrompida, e a mancha verde, gritante, de um novelo de lã: o seu trabalho, o seu inseparável trabalho de crochet. Bastas vezes me tinha dado que pensar aquele seu eterno crochet, os velhos dedos sempre agitados numa lida incessante. Verão e Inverno, os seus íntimos não se lembravam de a ver um instante imóvel, estendida na sua cadeira, posição que, à primeira vista, pareceria calhar como uma luva àquela estranha e dolorosa imaginativa. Quem sabe? Talvez aquela incessante agitação dos dedos, que ela tinha brancos e delgados, de miudinhas unhas de bebê, lhe ajudasse a compor melhor as complicadas sinfonias das suas meditações, onde havia de tudo em afinado desconcerto, se a frase pode arriscar-se... — gritos de revolta, dulcíssimos gemidos, grotescas gargalhadas de escárnio.

Amodorrado pelo calor, e por esta indolência, por este desprendimento cheio de beatitude, por esta incapacidade de esforço intelectual ou físico que nos ataca às primeiras horas da tarde e depois de uma boa refeição, olhei para ela sem responder.

— Às palavras de um doido — rematou ela, simplesmente.

Desconcertante e bizarra, com ela nunca a gente sabia aonde iria parar; as suas premissas chegavam sempre a conclusões fantásticas; através dos seus argumentos, os fatos chegavam-nos irreconhecíveis, tomavam as atitudes mais ambíguas, nas contorções do seu espírito escarnecedor e singular. Nela, parecia andar um Mark Twain de braço dado com um Edgar Poe.

Todos nós, que aqui estamos, conhecemos mulheres que em épocas dolorosas da sua vida procuraram um consolo, um analgésico, como ela dizia, na religião, esse maravilhoso unguento que faz sarar todas as chagas, no cumprimento do dever, o mais rígido, no amor, no sacrifício mesmo pelos seus ou pelos estranhos, na prática da caridade, na arte; mas uma mulher que se agarre, como à única tábua de salvação que a pode fazer boiar à tona de água, às palavras de um doido, qual de vocês conhece essa mulher? Pois bem, conheci-a eu, e vou dizer-lhes o que ela me disse, o que lhe ouvi e que nunca mais me esqueceu, naquelas primeiras horas de uma quente tarde de agosto.
Pode ser que a algum de vocês faça bem... Tudo é possível.

***

— Conheci-o numa pequena vila, nessa linda província alentejana que tão pouca gente conhece, onde toda a paisagem, em certas horas, toma ares extáticos de iluminados, onde a alma das coisas parece falar através da imobilidade das formas.

“Era um velho muito alto, muito limpo, sempre muito bem vestido, com uma grande cabeleira branca ondulada, que ele tinha o costume de alisar de vez em quando, com a mão, quando falava. Era de boa família, de origem fidalga, dizia-se. O pai tinha aparecido ali, um belo dia, vindo não sei donde, e ali tinha morrido anos depois. Eu não cheguei a conhecê-lo, é claro. Lembro-me vagamente de um pormenor curioso acerca da sua vida: levantava-se ao escurecer e deitava-se só às primeiras horas do dia; fazia toda a sua vida de noite. Lia quase constantemente os poetas gregos e latinos; era muitíssimo culto e não falava com ninguém. O filho, bizarro como ele, caíra com a idade, a pouco e pouco, numa completa loucura; mas, muito calmo, muito doce, muito bem educado, não incomodando ninguém, deixaram-no à vontade, e ninguém o incomodava.

“Eu fiz dele o meu único confidente, a minha grande afeição; ele era ao mesmo tempo o meu cão, o meu livro, a minha amiga íntima, o inseparável companheiro dos meus longos passeios solitários pela planície.

“Caminhávamos horas a fio pelas estradas fora, calados, a olhar avidamente tudo o que nos cercava. A minha família, principalmente o meu pai, não se conformava com semelhante esquisitice, e a princípio lutou desesperadamente contra mais aquele disparate, aquela tola mania de fazer de um doido o meu maior amigo; mas, como já estava habituado às bizarrias do meu caráter e como eu, segundo eles diziam, não fazia nada como a outra gente, acabaram por me deixar em paz a mim e ao meu amigo doido. Nunca tive outro assim... e hoje, as suas palavras que eu evoco são, como já lhe disse, o meu mais benéfico consolo, o meu analgésico mais seguro contra as crises que me assaltam de vez em quando, no meio de uma frase ou de um riso.

Parece-me, se fechar os olhos, que foi ontem a última vez que o vi. As nossas conversas eram sempre um longo monólogo: ele falava, eu ouvia. Nunca li nos livros frases mais belas, ideias mais tragicamente consoladoras, de uma maior e mais elevada espiritualidade. A palavra dele era como a água: gotinha a cair numa raiz abrasada, regato que vai segredando profecias às ervas do chão, torrente impetuosa que tudo arrasta, que tudo leva à sua frente.

A planície estendia-se até aos confins do horizonte, de cambiantes inverossímeis. A estrada poeirenta, quase reta. Charnecas bravias, de um e doutro lado. Aqui e ali, a rara mancha escura de uns torrões lavrados que mais tarde fariam o grande sacrifício de, mortos à sede, darem pão. Sob a serenidade austera da minha terra alentejana, lateja uma força hercúlea, força que se revolve num espasmo, que quer criar e não pode. A tragédia daquele que tem gritos lá dentro e se sente asfixiado dentro de uma cova lôbrega; a amarga revolta de anjo caído, de quem tem dentro do peito um mundo e se julga digno, como um deus, de o elevar nos braços, acima da vida, e não poder e não ter forças para o erguer sequer! Ah, meu amigo! o gênio que, com o grotesco vocabulário humano, pudesse fazer vibrar a nossa sensibilidade, estorcer os nossos nervos de encontro à trágica e mentirosa insensibilidade da minha dura terra alentejana! Nem Fialho, nem nenhum! Que mar alto de desolação e de força possante a perder de vista... e o Sol a abrasar tudo, incendiário sublime a deitar fogo a tudo! E quando a chuva cai!... O misto de inefável êxtase e de sofredora humildade com que a mísera e amarga erva rasteira recebe a água fresca do céu! Moisés no monte Sinai, recebendo as palavras divinas...

Outras vezes, íamos para o lado dos olivais, campos tão tristes, tão tristes, que toda a atmosfera parece impregnada de tristeza; até a luz é triste. Oliveiras salpicadas de cinza, sobre terras barrentas que parecem empapadas em sangue. Não se vê um vulto humano... não se ouve uma voz... Tem-se a impressão de se estar fora do mundo e em comunicação com ele, dentro da vida e fora dela, no estranho e triunfal inebriamento de agitar perdidamente as asas no espaço e no profundo desânimo de as sentir presas ainda! A terra é tão triste, tão triste, que a gente até tinha pena de lhe pôr os pés em cima; nos nossos passos, ao pisá-la, arrastávamos o remorso e a dor de quem um dia escarneceu um pobre! As nossas mãos esboçavam sem querer o gesto de a levantar, de a erguer devagarinho até à altura dos nossos lábios; sentíamos uma profunda e dolorosa vergonha de a adivinharmos humilde e boa, pobrezinha a dar misericordiosamente todo o bem que tem, a despojar-se de todas as suas escassas galas de pobre envergonhado, inesgotavelmente, nas mãos abertas dos ricos soberbos.

“Muitas vezes, confundíamos os arrastados crepúsculos de Verão com as claras noites de lua cheia. Estávamos longe; vínhamos para casa noite fechada. Na charneca, o luar inundava tudo, os rosmaninhos e os alecrins, as estevas e as urzes, todas as moitas sequiosas, que o bebiam como água límpida que um cântaro a transbordar entornasse lá do alto. Às vezes era tão branco, tão imaterial, de uma tão pura religiosidade, que a planície alagada fazia lembrar uma grande toalha de altar onde tivessem espalhado hóstias.

“Nos olivais era ainda mais lindo. O meu amigo doido sorria apaziguado. O luar entrava sorrateiro, em bicos de pés, não fosse alguém pô-lo lá fora... E as árvores, as tristes oliveiras de há pouco?!...

Ao passar pelo meio delas, dava vontade de lhes perguntar: “E os vossos vestidinhos de burel cinzento? Que lhes fizeram, princesinhas de lenda?... Onde está o teu vestido e o teu negro capuz, Peau d’Ane? E o teu, Cendrillon?” Todas vestidas de prata, toucadas de diamantes, recamadas de opalas, turquesas e safiras, calçadas de brocado, com os pés num tapete tecido a fios de ouro semeado de rubis, são princesas, filhas de reis, belles au bois dormant à espera do Príncipe Encantado.

Quando estávamos cansados, ao cair da tarde, sentávamo-nos no tronco carcomido de uma oliveira, nas pedras de um muro esboroado ou em qualquer talude de estrada poeirenta. Ele estendia o braço para o horizonte longínquo que se diluía nas sombras do crepúsculo, alisava a sua longa cabeleira branca, e começava a falar. Eu, de mãos no regaço, imóvel, ouvia.

Uma tarde, em Abril, tínhamo-nos sentado no muro de uma propriedadezinha à beira da estrada, perto da minha casa. Lembro-me tão bem! Parece-me ver desenhar-se na minha frente, no cimo daquelas ondas, sempre as mesmas e sempre diferentes, o humilde décor: um muro, um lilás todo florido e, a animar a cena, ele e eu.

Naquele dia esteve sempre muito agitado, dir-se-ia que a fada Primavera não se tinha esquecido de trazer também para ele o seu quinhão de seiva a tumultuar que nos troncos velhos, como nos novos, quer subir e dar flores. Apesar de há muito estar habituada à sua esquisita maneira de se expressar, não entendi completamente o sentido das suas palavras, nessa tarde. Por muito tempo, não consegui adivinhar a razão porque as trazia gravadas no cérebro como misteriosos símbolos, palavras de encantamento e de magia a que só depois penetrei o sentido. Primeiro, foi preciso sofrer e chorar. Tinha de fazer delas, com o correr dos tempos, o meu estranho viático para as horas dolorosas; tinha de encerrar dentro delas todo o meu sentido da vida. O que durante anos inteiros procurara nas páginas dos livros, conseguira extrair de ideias condutoras no estudo das mais variadas filosofias, o que adivinhara em mim de misterioso e de grande, tudo o doido, no seu falar incoerente, conseguiu meter dentro daquele dulcíssimo crepúsculo de abril.

“O cenário, como vê, nada tinha de extraordinário: um muro, um lilás em flor, o horizonte a esbater-se nas cinzas abrasadas do crepúsculo... Vocês, os romancistas, precisam de muito mais... Pois bem! daquele muro, daquele lilás, com o horizonte, opala a fundir-se num largo oceano de sombras, por pano de fundo, fez o meu doido um grande tratado de Filosofia para uso das almas simples e sofredoras; com aquele pouco, compôs ele os dogmas da minha futura religião.

Vês? apontava ele para o horizonte longínquo. Não, tu não podes ver! à tua compreensão só pode chegar a percepção dos objetos que os teus misérrimos sentidos te apresentam e tal como eles te os apresentam. Lês isso em qualquer cartapácio de Filosofia.

O bom do Kant passou a vida a pregá-lo. O que os teus dedos tateiam são as ilusões dos teus olhos e dos teus ouvidos. Árvores! Que são árvores?... Pedras? Poeira? Que é isso? É o mundo!... E tu vês o mundo! Os homens criaram o mundo! De uma árvore fizeram uma floresta, de uma pedra um templo, deitaram-lhe por cima um pozinho de estrelas, e pronto... fizeram o mundo! E não há árvores, não há pedras e não há florestas, nem há templos, e as estrelas não existem. Não há nada, digo-te eu. Tu não sabes nada. Os mortos é que sabem. Os vivos chamam-lhes sombras. Os vivos metem as sombras dentro de um caixão, fecham-no à chave, pregam-no bem pregado, soldam-no, afundam-no na terra, muito fundo, e a sombra lá vai... fica o resto.

São eles que por aí andam, são eles que tu sentes. Não há árvores, não há pedras, não há nada: há mortos. Os mortos é que fazem a vida; dentro dos túmulos não há nada. Eu queria agora dizer-te o que vejo, o que os mortos veem, mas não posso. As palavras não vão além do que tu vês e ouves; as palavras são túmulos: estão vazias. Olha! — e apontava as primeiras estrelas que se acendiam na abóbada do céu, “aquilo são estrelas, dizem os homens... e porque não há de ser o pó doirado que tombou de uma grande asa de borboleta? Eu queria dizer-te agora o que é a vida dentro do mundo. Os mortos sabem. Eu sei. Os mortos pousaram as pontas das suas miríades de dedos sobre os meus olhos, enterraram-nos para dentro de mim, e mandaram — me ver... eu vi. Aparecem, de séculos a séculos, vivos que veem. Os homens chamam-lhes santos, profetas, artistas, iniciadores. Os homens escrevem em léguas e léguas de traços e borrões as suas histórias... e explicam-nos, comentam-nos, decifram-nos! Oh, miséria, deixa-me rir!! Joana d’Arc... Pascal... Savonarola... João Huss... Vinci... Oh, miséria! Tu vives, mas não sabes a vida. Estes sabiam-na, mesmo com os olhos fechados, mas dentro da vida. Os outros mortos também a sabem. Olha”, e, arrancando abruptamente um cacho de lilás, deu-mo a cheirar, “é perfume! A vida é este cacho de lilás... Mais nada... O resto é perfume...”

***

— O resto é perfume... — repetiu lentamente a minha amiga, olhando o mar que as primeiras velas sulcavam. 

E, mãos no regaço, vi-a pela primeira vez imóvel, esquecida de mim e de tudo.

A paixão de Manuel Garcia (Conto), de Florbela Espanca


A paixão de Manuel Garcia

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Manuel Garcia, o pobre canteiro da Rua das Silvas, quando soube que Maria del Pilar ia casar-se, matou-se.

Um drama encerrado em duas linhas, numa escassa dúzia de palavras, um drama que levou anos e anos a desenrolar-se, que teve o seu primeiro capítulo numa doce manhã de maio e o seu epílogo num modestíssimo quarto de uma casinha de pobres.

Como é difícil sondar os corações humildes, as histórias das vidas simples! E a história de um coração que nunca se interrogou em desoladoras horas de spleen, em inquietas noites de insônia, que nunca pretendeu perscrutar os complicados mistérios do Além, é uma história simples, uma humilde história que leva a contar uns rápidos minutos e cabe toda dentro de sete palmos de pinho... bem medidos, que Manuel Garcia era um rapagão! Alto, moreno, ombros largos, musculoso, tinha contudo um coração de colegial de quinze anos; no forte arcabouço daquele operário inculto e simples vivia, não se sabe porque estranhas transmigrações, a alma de um poeta romântico. Quem o diria?!... Só a mãe, talvez... As mães adivinham sempre, não sei por que miraculosa intuição, o mistério que no mistério das suas entranhas foi gerado, e nunca se enganam! Quando, naquele úmido crepúsculo de Novembro, o sangue salpicou a parede muito branca de cal, ao lado da cama, no modestíssimo quarto da sua casinha de pobres, quando as morenas mãos crispadas, que revolveram a chaga na angústia suprema da morte, foram manchar de vermelho a pobre colcha branca, muito lavadinha, o seu orgulho de dona de casa — quando ela entrou e viu a história leu-a ela inteira, dentro da sua triste alma de mãe dolorosa; foi como se a lesse toda, linha a linha, capítulo por capítulo, naquele funesto segundo em que o destino lhe punha diante dos olhos, brutalmente, para que ela o lesse, o seu sinistro epílogo de morte.

O candeeiro aceso iluminava com a sua luz fria e clara o conhecido cenário do pequeno quarto: duas cadeiras, uma coluna com um bustozinho de criança em pedra, o lavatório de ferro, uma mesinha e, ao fundo, a cama revolta, o revólver no chão, e o filho morto. Em cima da mesa, coberta com um debotado pano de chita de ramagens, uma carta, e nessa carta um nome, um lindo nome de mulher: Maria del Pilar.

Não gritou, não disse nada; os pobres não gritam. A morte faz parte do seu lúgubre cortejo de amigos, tem um cantinho no seu leito e um lugar à sua mesa; quando chega, pode levar tudo; quando transpõe a porta, aberta de par em par, com a sua presa, não vê à sua volta, a escoltar-lhe o fatídico vulto negro, senão cabeças curvadas num gesto de resignação, braços caídos, braços de quem deu tudo, de quem não tem mais nada para dar. A dor dos pobres é resignada e calma; traz às vezes consigo as aparências da revolta mas, no fundo, é cheia de um imenso, de um infinito desapego por tudo. Os pobres vêm ao mundo já sem nada; o pouco que a vida lhes deixa é emprestado. Que lhes hão de tirar que seja deles?! Aos pobres toda a gente chama desgraçados. Havia muitos anos que aquela pobre, aquela desgraçada, sentia a morte rondar-lhe a porta. Ouvira-lhe, por muitas vezes, os passos ao longe, depois mais perto, mais perto ainda até pararem à porta... e a morte entrava. Levou-lhe a mãe, o pai, dois filhos pequeninos, uma filha de vinte anos, o marido, e por último entrara-lhe assim em casa, de repelão, sem prevenir, e fizera-lhe do coração um frangalho. A sua alma andara, como o seu corpo, sempre vestida de crepes; não se lembrava de a ter visto de branco. E resignada, doce, trazia no rosto fatigado, nas pálpebras sempre descidas sobre os olhos cansados de chorar, na pálida boca dolorosa, o fatalismo dos que o destino marca para os não poupar durante uma vida inteira. Adivinhara há muito o doido segredo do filho, o segredo daquela paixão que o crucificara em vida, que o empurrara aos vinte e dois anos para o negrume da cova. Nunca dissera nada a ninguém. Para quê? Quando naquele aziago anoitecer de novembro transpôs o limiar do quarto e viu o filho morto, não gemeu, não gritou. Para quê?...

Olhou-o longamente, profundamente, sem se atrever a entrar; por fim, nuns passos lentos e hirtos de sonâmbula, aproximou-se. Passou-lhe a mão pela cara intacta, acariciou-lhe os cabelos, levantando-os, descobrindo-lhe a testa num gesto de uma infinita doçura; depois, com um dedo, meigamente, seguiu-lhe os contornos da boca mole, a linha do nariz afilado, o queixo, como que para gravar melhor na mente, e para sempre, a imagem carnal do que tinha sido um filho, a bênção de um filho. Fechou-lhe bem os olhos, como quando ele era pequenino e adormecia com os olhos entreabertos. Devagarinho, devagarinho, não lhe fosse doer, num levíssimo gesto de piedade e amor, tateou-lhe a ferida sangrenta no meio do peito como uma chaga. O sangue tingiu-lhe os dedos; pôs-se a olhá-los, e só então as lágrimas, lágrimas silenciosas, verdadeiras lágrimas de pobre, lhe correram em fio pelas rugas das faces.

Ter um filho novo, robusto, belo, e vê-lo ir, vê-lo partir um dia para nunca mais, romeiro perdido num caminho de desgraça! Ficar só, velha e pobre, sem o calor de um afago — que triste sorte, mais triste que tudo neste mundo! O filho das suas entranhas, que das suas dores nascera, que aos seus peitos se criara, que ainda podia acalentar, deitar no colo, beijar, começava já a ser, na solidão daquele quarto, uma saudade, uma recordação da sua vida solitária. 

Lavou-lhe as mãos ensanguentadas, vestiu-lhe, sozinha, com um jeito de mãe que veste o filho pequenino, o seu fato novo, o seu bonito fato preto dos domingos, calçou-o, penteou-o. Quando o avô chegou, o pobre velho de setenta anos que queria àquele único neto, ao filho do seu filho morto, como às meninas dos seus olhos, viu-o assim, já pronto a partir para a suprema ausência, que não tem regresso Abanou a cabeça toda branca e desatou a soluçar nuns soluços miudinhos de velho, num choro sem lágrimas que fazia dó. A mãe, nos últimos arranjos, de um lado para o outro no quarto, parava de vez em quando para enxugar com a ponta do avental de chita preta as lágrimas que continuavam a cair-lhe em fio pela cara abaixo e que a cegavam.

A carta, em cima da mesa, atraiu-lhe o olhar com a sua brancura imóvel e fria; a carta parecia o selo sem esperança daquele túmulo, o selo maldito que a sorte aziaga imprimira a fechar, para a eternidade, aquela vida ardente e moça. A mãe pegou nela docemente. Tremiam-lhe as mãos ao levantá-la de cima da mesa como se não pudessem com ela, com aquele fardo, como se a carta fosse assim como uma cruz de ferro onde o destino lhe crucificara o filho. Estava fechada; e então a mãe, ao lindo nome de mulher que as mãos morenas do filho tinham traçado na última hora da sua vida, acrescentou mentalmente o resto do nome que lá não estava e que o seu triste coração de mãe adivinhara: Calderon de Ataíde.

Sim, o louco segredo do filho, do pobre operário canteiro era aquele. A Maria del Pilar, a quem gritara de longe o seu doido amor, a sua cega paixão de romântico, não era, como à primeira vista poderia imaginar-se, a priminha afastada que de terras de Espanha viera há meses e que por aqui ficara, presa como andava a uns escuros olhos portugueses. Não era a costureirinha gentil com quem poderia ter criado um lar, um doce lar de pobres, como um ninho suspenso num beiral, a cabeça a tocar o teto, o teto quase ao pé do céu. Não, não era a moreninha espanhol, não era a andaluza de rosto tostado como o de uma gitana que andava pelas ruas com o xalinho traçado e os cabelos ao vento. Era a outra, a outra Maria del Pilar, a filha de uma nobre espanhola e de um grande fidalgo português, era a loira princesinha, a fada dos seus sonhos de poeta, que um dia, dia aziago e fatal, avistara por entre as grades doiradas do seu jardim distante.

Quando a viu, endoideceu. Preso, embriagado, arrastado por aquela delirante paixão, nunca mais teve sossego nem descanso. A oficina de canteiro, propriedade do avô, era ao canto da rua; de lá avistava-se todo o jardim, a escadaria suntuosa, os amplos salões de baile no rés-do-chão, as inúmeras janelas dos aposentos particulares no primeiro e no segundo andar. Tinha ocasiões em que não tirava os olhos do palácio, via tudo quanto lá se passava, estava ao fato das saídas e entradas de toda a gente, espiava as idas e vindas dos criados e das visitas. Nas noites de baile, metia-se num canto sombrio do amplo portão da oficina, e ali passava a noite inteira a olhar as sombras que passavam ligeiras por detrás dos espessos cortinados de renda das janelas, como uma borboleta que a luz atraísse implacavelmente; só quando, de madrugada, via partir os últimos convidados, ou quando se apagava a última luz, é que ele se resolvia a voltar para casa, a passos lentos, transido de frio e com o coração num farrapo.

Outras vezes trabalhava, trabalhava febrilmente, sem descanso, o dia inteiro, numa exaltação de todos os seus nervos, numa ânsia de todo o seu ser, como se quisesse matar às marteladas qualquer ave de rapina que sentia roer-lhe as entranhas. E então fazia da pedra tudo quanto queria! O granito duro e informe parecia uma pasta mole, uma cera obediente, que ele talhava ao seu bel-prazer. Nesses dias, alheado de tudo, sem levantar a cabeça, enquanto a canção dos martelos ressoava alegre na oficina, fazia surgir de sob as suas mãos privilegiadas de artista, animadas por um mágico sopro de prodígio, as rendas mais sutis, as mais elegantes grinaldas, os mais complicados florões. Na figura, então, era assombroso e os corpos eram uma maravilha de graça. Ninguém dispunha com mais arte as pregas de um manto, ninguém era capaz de enrolar com mais elegância as curvas caprichosas, as ondulações envolventes das roupagens roçagantes, em volta de um corpo de mármore cor-de-rosa. Todos os simbólicos vultos dos túmulos, a Saudade, a Fé, as Musas e os Anjos, todos lhe saíam das mãos, não se sabia por que acaso, com o mesmo perfil finíssimo, o mesmo sorriso sinuoso, os mesmos contornos delicados de um rosto que o obcecava e que o trazia arredado do resto do mundo, com os mesmos corpos esbeltos de adolescentes puros talhados em linhas rígidas e hieráticas. Parecia que a pedra tinha a consciência da sua alta missão, o orgulho de bruta e informe, realizar um sonho, ser transformada, por um raro prodígio de amor, numa Maria del Pilar que a paixão de um pobre divinizara.

E assim passaram largos anos. O extraordinário é que ninguém deu por isso. Os companheiros de oficina, embora o achassem bizarro e com uma grande telha, como eles diziam, nunca imaginaram, nem por sonhos, uma coisa daquelas. A sua grande paixão passou despercebida aos olhos de toda a gente. 

A não ser a mãe, que as mães nunca se enganam, porque têm os olhos no coração, ninguém viu coisa alguma. Também o caso era de tal forma extraordinário! Um Ruy Blas, canteiro!... Tão grande era a loucura, que só outro louco a poderia conceber no seu cérebro delirante.

Quando Manuel Garcia viu pela primeira vez a princesinha loira, através das grades doiradas do seu jardim distante, teria quando muito dezessete anos e ela treze. Era uma rapariguita travessa e estouvada, alegre como um céu de abril; corria pelo jardim como uma corça selvagem, tranças loiras como uma cascata de ouro pelas costas; dava uns gritos agudos como um pardalinho novo que está contente com a vida mas que não sabe cantar; as suas gargalhadas eram frescas como o riso de um regato a descer um monte. Aos olhos de Manuel Garcia, Maria del Pilar, no seu jardim, no meio das amigas, era assim como um sol a iluminar os seixos escuros e desprezíveis das estradas. Que loucura!

E em tantos, tantos anos, nunca a loira fidalguinha olhara para ele. Não, ele não se lembrava de um só olhar, de sentir pousados nos dele uma só vez, de fugida, aqueles grandes olhos verdes-claros que o endoideciam de amor! Se ela tivesse olhado para ele ao menos uma vez na sua vida! Mas não... no seu mesquinho tesouro de apaixonado, não encontrava nada, por mais que procurasse, por mais que remexesse, que se assemelhasse ao doce fulgor de duas límpidas esmeraldas claras. Esse prodígio, esse milagre, não se dera nunca! Um olhar! Mas se ele tivesse achado, no seu mesquinho tesouro de apaixonado, um só olhar de Maria del Pilar, não estaria decerto ali rígido, inerte, gelado!

O seu mesquinho tesouro continha apenas as parcelas de ouro do seu riso, o encanto do seu alado pisar de alvéloa, a embriaguez do seu perfume, a cor dos seus vestidos, o deslumbramento da sua presença, da sua recordação intangível e sagrada, do seu ser, dela, Maria del Pilar, princesinha loira, que, com as suas mãos de boneca, o empurrara para a cova sem o saber, fizera do rapagão moreno e cheio de vida, que ele era, o trapo que ali jazia insensível e inútil.

De tangível e concreto, apenas uma rosa que ela deixara cair uma manhã na rua. Ia num grupo de rapazes e raparigas; vestida de branco, calçada de camurça branca, os cabelos, de fartos caracóis loiros, cingidos por uma larga fita branca, ia jogar o tênis a um palacete vizinho. Levava na mão uma soberba bryce elian, de um lindo róseo acarminado, acabada de colher, de passagem, no jardim. Com um golpe de raqueta atirou-a, de brincadeira, à cara de um rapaz alto e loiro que, desastrado, a não conseguiu agarrar. Quando se afastaram e o vestido dela não foi mais que uma mancha clara na estrada cheia de sol, o pobre canteiro foi apanhá-la à rua com o carinho de quem levanta do chão um bebê magoado, lavado em lágrimas e com o vestidinho sujo. Entrou na loja e, delicadamente, com uma paciência infinita, com mil cuidados, lavou-a pétala por pétala, tirou-lhe todo o pó, e guardou-a sem sequer se atrever a beijá-la.

Maria del Pilar, tão perto, estava longe, mais longe que as terras longínquas de além-mar, mais longe que uma estrela cadente, que nem o pensamento a pode seguir pelos céus fora, mas estava ali; não era dele, não, meu Deus! não a podia cobiçar sequer, mas não era de ninguém. Vaso sagrado por onde nenhuma boca matara a sede, templo que nenhuns passos tinham profanado ainda, torre de marfim do seu amor a que nenhum olhar subira, não era dele, não, mas era a Pura, a Intangível, era A que não era de ninguém.

E Manuel Garcia ia vivendo, talhando a pedra, sereno e mudo, numa castidade absoluta, como um monge ascético dentro da sua Cartuxa de sonhos, com a inconsciência de uma criança que vai, numa noite sem lua, costeando um abismo a rir e a cantar.

Mas um dia — dia maldito aquele! — a notícia do casamento de Maria del Pilar rodopiou vertiginosa, como um súbito ciclone, arrastando tudo na sua pobre existência de simples, cheia, a transbordar, das migalhas de um sonho. Assombrou-o. Quando o soube, na oficina, ficou pregado ao chão, a tremer, na desvairada tremura de uma árvore velhinha sacudida pela nortada. À volta, os camaradas, o avô, comentavam tranquilamente o caso, continuando, indiferentes, a sua tarefa. A filha do fidalgo tinha sido pedida em casamento por aquele rapaz espanhol, D. João Manuel, que a acompanhava sempre por toda a parte. Um casamento de estrondo! Fidalgos, novos, ricos, bonitos... que lindo par! “Que lindo par!”, repetiu uma estranha voz de sonâmbulo. E os muros, as pedras, começaram a dançar-lhe, diante dos olhos esgazeados, a dança macabra do seu destino perdido. Pobre poeta! Com o brutal encontrão, acordou sobressaltado do êxtase de tantos anos e deu com os olhos na miséria da vida! Tinha adormecido criança, despertou homem feito e, espavorido, estendeu as mãos para agarrar toda a sua linda adolescência inverossímil e quimérica que lhe fugia. As estátuas, os companheiros, os blocos de pedra, tudo rodopiava em volta numa vertigem que não conseguiu vencer. Apoiou-se pesadamente à pedra que trabalhava, e, muito pálido, foi escorregando devagarinho até cair como um boneco a quem um bebê, curioso e azougado, tivesse cortado os fios da sua pobre existência de fantoche, que vivera de uma mentira uma vida que não passara de ilusão.

Quando voltou a si, circunvagou os olhos pelo quarto e viu a mãe, encostada à cabeceira da cama, fitando-o. Que estranho poder de videntes tem uns olhos de mãe! Manuel Garcia compreendeu que o seu segredo não era só dele, mas teve vergonha, corou, desviou os olhos. A mãe, com o pudor receoso de quem surpreende um mistério inquietante, calou-se, abafando um suspiro.

E a vida continuou. Manuel, cada vez mais encerrado no seu gelado mutismo, começara a viver uma vida desregrada. A sua casta mocidade afundava-se num lodaçal de vícios. De olhos fitos no topo do seu calvário distante, onde numa hora de suprema coragem encontraria a morte redentora, atolou-se, na medonha subida, em todos os charcos do caminho. Há quem suba a descer. Há almas privilegiadas e únicas que nada têm a ver com a lógica absurda das leis humanas. As turbas inconscientes e boçais lançam, à face de certos entes, anátemas que o céu, se o há, não deve perdoar. À gargalhada insultante deste mundo responde a infinita serenidade do que fica para além e que os olhos míopes não veem. Manuel subia a descer...

Quando o que lhe ficou para trás não foi mais que um ponto perdido no desapego de tudo a que chegara, quando conseguiu finalmente arrancar de si os pedaços irreconhecíveis do seu sonho desfeito, Manuel Garcia olhou face a face a vida, e sorriu. Oh, o sorriso de desdém dos que querem morrer! Quem foi que se atreveu a dizer alguma vez, quem foi que ousou traçar num papel as letras da palavra cobardia, falando de um suicida?! Oh, a medonha coragem dos que vão arrancando de si, dia a dia, a doçura da saudade do que passou, o encanto novo da esperança do que há de vir, e que serenamente, desdenhosamente, sem saudades nem esperanças, partem um dia sem saber para onde, aventureiros da morte, emigrantes sem eira nem beira, audaciosos esquadrinhadores de abismos mais negros e mais misteriosos que todos os abismos escancarados deste mundo! Quem foi que um dia ousou lançar a um papel as letras ultrajantes da palavra cobardia, essa suprema afronta, esse insultante escarro, à face dos que querem morrer?!

O que lhes foi preciso de coragem desdenhosa, de altiva serenidade, de profundíssimo desprezo, às almas que partiram por querer!

Manuel Garcia lutou um ano, e conseguiu vencer a vida, vencendo-se. Ao pavor do fim, ao medo do sofrimento, ao horror do gesto, daquele gesto que é ainda consciente e que vai deixar de o ser, o gesto para além do qual a nossa vontade, quebrada, não tem poder algum, que é o último antes do pavoroso mistério, a tudo isto, a todos estes fantasmas contra quem lutara um ano inteiro, respondeu ele, um dia, com um sorriso... e que sorriso!...

E foi assim que na penumbra fechada de um crepúsculo de novembro, Manuel Garcia meteu uma bala no peito, depois de escrever num papel frases de amor a uma princesinha loira, depois de lhe ter traçado o nome, o lindo nome que cheira a jardins de Espanha, num quadradinho branco, onde as últimas lágrimas dos seus olhos caíram e secaram.

No quarto do morto, agora, só se ouviam os soluços miudinhos do velho, sentado aos pés da cama. A mãe tornou a pegar na carta, cuja brancura, sobre o vermelho do pano de ramagens, a hipnotizava. Pensativa, olhou-a longamente, tornou a pousá-la. Foi à janela, abriu-a, e debruçou-se no abismo da noite. A rua era um poço sem fundo. A chuva, que até ali caíra delgada como uma bruma, começava a engrossar. O palácio dos Ataídes, lá embaixo, na volta para a estrada, faiscava de luzes. Eram dez horas. Começava o baile, o grande baile que os pais da noiva ofereciam a todos os grandes nomes da capital, pelo casamento da filha. Maria del Pilar tinha casado, doze horas antes, na capela do palácio.

A pobre mãe abafou um soluço, voltou-se, e olhou o morto. A débil chama das velas, que o vento tornava movediça, traçava-lhe no rosto sombras e clarões, tirando-o da imobilidade da morte para o lançar na animação fictícia da vida; a olímpica serenidade dos libertados transformava-se: a boca parecia sorrir num esgar de desdém, os olhos pareciam abrir-se e pestanejar como se lá dentro as pupilas quisessem ver. Ver o quê, meu pobre adolescente que morreste velho? Ver o quê?... A vida que numa grotesca ironia te fez nascer na casinha de um pobre, a ti, a quem o destino cego dera a alma coroada de rosas e verbenas de um grego doutros tempos?! Tudo em ti era beleza, poesia e graça... e tudo isso a vida, miserável e trocista, vestiu com o cotim do teu pobre fatinho da semana, com o teu ridículo e mesquinho fato novo dos domingos! Quem dirá a estes troçados da vida o porquê do seu destino, a razão do engano que os fez nascer pastores, filhos de reis!...

A mãe tornou a debruçar-se sobre o negrume da rua. A chuva, agora, caía em enxurrada, como se o céu quisesse lavar o mundo de todos os seus maus pensamentos e ações. Buzinas de automóveis... um grito... passos que se esvaíam na sombra... Ao longe, um cão perdido uivava a miséria de ter nascido sem dono. Com os olhos fitos nas luzes do palácio, na fila ziguezagueante dos autos donde desciam sem cessar vultos negros, que se sumiam no pórtico todo iluminado, como a entrada de um palácio de um conto de fadas, a cabeça reclinada sobre o rebordo da janela, a mãe pôs-se a cismar. Que dois mundos tão diferentes! A noite e o dia, a luz e as trevas... Aos seus lábios resignados subiu a revolta de uma blasfêmia; o coração esmagou-se-lhe, num arranco, de encontro ao seu magro peito de velha. Teve vontade de uivar como aquele cão sem dono, de se deitar na lama da rua, de bruços, com a boca na terra, rastejando, como um bicho, amortalhada na frescura daquela chuva que continuava a encharcar tudo, como se para além das quatro paredes daquele quarto o mundo acabasse num novo dilúvio. Ao seu coração subiu de repente o desejo, tenaz como uma ideia fixa, de catástrofes inauditas; os seus olhos traíram a visão de casas a desmoronar-se, de labaredas a flamejar, de mãos de assassinos e de incendiários abrindo todas as portas. As suas mãos estenderam-se também empunhando o facho incendiário, brandindo o punhal assassino nas sombras da noite. Que não ficasse pedra sobre pedra, que os campos fossem rasos, secos, rapados por todas as pragas que sobre eles caíssem em maldição! E a última visão do seu sonho criminoso e insensato foi a visão do mundo desaparecido, engolido pela vastidão de enormes oceanos e, à tona de água, a boiar, o esquife onde o filho dormia repousadamente, embalado em cadência pelo ritmo das ondas! 

Soltou um suspiro como se lhe arrancassem o coração. Todos os seus longos anos de renúncia e sacrifício vieram em procissão, das sombras da noite, acalmá-la, exorcizando os pássaros negros das suas trágicas alucinações, abatendo o pendão sangrento da revolta. Passou a mão pela testa, pela cabeça branca que a chuva molhara. De repente, lembrou-se da carta que estava em cima da mesa, da carta que o filho tinha escrito a uma Maria del Pilar que àquela hora, vestida de branco, dançava nos braços doutro. Pareceu-lhe ver nos olhos do filho uma lágrima; olhou atentamente, estremeceu e, numa súbita intuição, estendeu os braços para a cama onde o filho jazia, murmurando:

“Não, meu filho, não... Eu sei. Que loucura! A carta... eu sei, a carta não é para a Maria del Pilar que a esta hora dança, vestida de branco, nos braços doutro. Não... Eu sei. A carta vai ser entregue à outra, à pobrezinha por quem tu morreste. Eu sei. Cala-te. Não chores. Está sossegado.”

Pareceu-lhe então ver na boca do filho um eflúvio de sorriso. Sim, era isso, não a enganara a sua intuição; era isso que ele queria. A carta era para a costureirinha, para a morena andaluza, de rosto tostado de gitana; pois para quem havia de ser? Ele não conhecia outra Maria del Pilar!...

E, devagarinho, sempre a olhar a boca do filho onde o sorriso se acentuava mais luminoso e enternecido, foi à mesa, pegou na carta, tornou a pousá-la e, a tremer, escreveu o resto do nome que lá faltava, o nome plebeu e obscuro de uma triste costureirinha que passara a vida a amar sem nunca se julgar amada: Sánchez.

Pousou a pena, olhou o morto com uns olhos onde havia ainda uma sombra de inquietação, uns olhos interrogadores e tristes; a pouco e pouco, porém, o olhar foi-lhe tomando uma grande expressão de serenidade, e a sua boca pálida e triste de velhinha respondeu com um sorriso ao sorriso do filho.