quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Adega dos Solitários (Conto), de Salomão Rovedo



Adega dos Solitários

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“Sem os amigos o mundo não passa de um deserto”. 
(Francis Bacon)

O dia me pareceu igual a todos os dias de aposentado, cheio da calmaria silenciosa que essa fase da vida traz. Ontem, porém, tive a noite de sono agitado. Pesadelo, pressão alta, cabeça pesada (devo ter dormido de estômago cheio). De manhã ao levantar reparei o chinelo emborcado. Para completar sonhei que me caía um dente. Sinal de morte na família. Uma chatice! Minha dentadura dorme no copo d’água um sono melhor que o meu. Devo aprender a acordar como ela, sempre sorrindo lá do copo para mim. No entanto, para compensar a noite atribulada, o domingo amanheceu branco, translúcido, com o céu estupidamente azul.

Vamos vivendo sem a preocupação de mudar o ambiente de ócio puro nos fins de semana, porque afinal sábado é dia sagrado de vadiagem e domingo de descanso obrigatório, dia de coçar o saco. Segui o roteiro no ritmo de sempre: acordei, fiz meu cocozinho, botei a dentadura, tomei água de coco em jejum, mastiguei um comprimido de AAS infantil, caminhei até os jardins, fui à estação de trem, me benzi diante da igreja, cumprimentei a fauna matinal de andarilhos, retornei pela rua orlada de amendoeiras e desemboquei na Adega dos Solitários, já perto de dar meio-dia. Roteiro, claro, feito a meu gosto.

Como de praxe, ocupei a minha mesa, disposto a ler as notícias do jornal, mais as propagandas, incluindo os anúncios eróticos. Só não perco tempo lendo obituário nem fazendo palavras cruzadas, que é coisa de velho. A minha mesa fica encostada num cantinho desprezado da Adega dos Solitários, nas proximidades da porta, caminho obrigatório de todo mundo que entra e sai, ensejo para inevitáveis abraços, cumprimentos, tapinhas nas costas. De entremeio fico paquerando as mulheres que vão e vêm pelo ambiente. Existe coisa mais bonita que mulher? Ainda mais na flor da idade? Que beleza!

– Como vai? Saúde boa? Viu o Elísio por aí? Esse cabra anda sumido. 

– Tudo bem, vamos levando. O Elísio está zanzando por aí... Deve chegar a qualquer momento. 

É o garçom que chega com os cumprimentos habituais, inventando novidade. Traz a cerveja gelada, serve a tulipa, mas fica ali conversando fiado sobre a netinha, que já diz algumas palavras, que já anda, que faz peraltices, espiando volta e meia as manchetes do jornal. Entre uma frase e outra comenta conforme o assunto, a manchete do dia, os crimes, a fofoca política.

Em tempos de frio na Adega dos Solitários convém beber o vinho tinto seco, gostoso, cor de sangue. Outra opção é a cerveja escura (não a preta), a munchen – munique – ou bock. Mas no verão é insubstituível a loirinha servida espumante geladinha na tulipa. Ainda mais quando o corpo está agitado, puxado ao calor do passeio, o suor aflorando na pele, num cansaço morno. Nessa ocasião desce maravilhosamente bem goela abaixo a cervejinha gelada!

Ao se aproximar a velhice é uma das poucas vantagens que a gente tem. Os amigos tratam com carinho às vezes até excessivo, procuram fazer companhia, chegam para o bate-papo ligeiro, apresentam orgulhosos os rebentos, filhos, netos. Tanta gentileza me deixa encolhido no meu reduto constrangido, mas no fundo orgulhoso de ser tão popular. Ter tantos amigos nestes tempos de tristeza, para usar o lugar-comum, é gratificante. Mas, gente, não precisam ser tão afetuosos a ponto de fazer pensar que estão sempre se despedindo!

– E aí? Saúde boa? Cadê o parceiro? Hoje está curtindo a loirinha sozinho? Olha aí quanta gente em volta, parece até feira. 

– Vamos indo. E em casa? Estou lendo as últimas, mas daqui a pouco o Elísio chega e aí acabou a tranquilidade. Pois é, tá todo mundo aí enchendo a vida... Nunca se está só. 

As horas passam – e a Adega dos Solitários cria vida: a freguesia aumenta as vozes, se ouve alguns gritos que clamam por amigos, falam de futebol, vastos abraços, crianças que correm, brindes, beijos, cumprimentos exagerados. Ainda hoje não sei porque essa gente fala tão alto nos bares como que querendo se anunciar, lembrando cena de tabernas, corsários sobre a mesa, filme de pirata, braços empunhando espadas e canecos espumantes.

Além da rua o mar tremeluz as ondas verdes ao sol, revoltas, espumantes, quebrando na areia da praia entulhada de banhistas. Os surfistas esperam ondas boas.


Eu espero o meu amigo Elísio aparecer a qualquer momento, entrando porta adentro diretamente para minha mesa, com o costume de puxar assuntos velhos, esquecidos no tempo. Antes mesmo dos cumprimentos e de se sentar vai puxando conversa com tanta ênfase e empolgação que até mesmo as piadas antiquíssimas ganham ar de novidade.

Explicando melhor para quem não sabe: aos sábados e domingos encontro o meu amigo Elísio, companheiro inseparável (da infância até hoje, diga-se de passagem), para a tradicional cervejinha e aquele bate papo furado de quem joga conversa fora.

Ex-petroleiro de profissão deu azar e a perna direita aprontou com ele, sacrificada por anos e anos seguidos subindo torres e tanques, controlando a produção e cheirando gases na refinaria. Encheu-se de varizes e apressou a aposentadoria. Eu sacaneio dizendo que as varizes e as úlceras dolorosas – que incomodavam tanto – eram cultivadas por ele, para proteger o pulmão do coquetel mortífero de gases venenosos que emana das unidades industriais. Hoje, os dois aposentados, fazemos da Adega dos Solitários o ponto de encontro, nosso escritório.

– Como vai? Esse tempo... 40 graus! Que abafado. Imagina quando o verão chegar!

– Vamos levando... Até que a canícula serve para valorizar o chope, não é? Desce geladinho.

Quem passa sempre tem que reclamar de algo. É a vida que está difícil, o desemprego, a corrupção, a violência. Principalmente para os aposentados: os meninos chegam cheios de ideias modernas na política querendo governar, mas nunca pensam no montículo de carne que constitui o homem. Hoje tudo que interessa é cifra, estatística, PIB, balança comercial.

Algum economista sai da universidade imaginando que existe o ser humano? Universidade? Pensem bem nessa palavra. Quem ali é direcionado a ir de braços abertos ao encontro desse gnomo, de existência limitada a alguns poucos anos, com sentidos, reações, desejos, emoções, lutando desesperadamente para sobreviver?

Após ter enfrentado a guerra contra planos econômicos (impostos para nós como miraculosos, mas que logo se transformam em pesadelo), para receber uma aposentadoria denegrida, paupérrima, o meu amigo Elísio encara diuturna batalha com os médicos, sobre o que não comer, o que beber e não beber, nunca mais fumar para evitar enfisemas, não piorar o estado da perna necrosada. As duas últimas – beber e fumar – estavam definitivamente proibidas, mas cadê dele obedecer alguma dieta?

Entre risos e piadas – ao menos o espírito mantém-se saudável – ficávamos relacionando as coisas que no passar da idade são proibidas pelos doutos clínicos, gozando o sádico prazer de escravizar-nos com receitas e bulas intermináveis.


Primeiro, as comidas malditas: mocotó, feijoada, rabada, dobradinha, churrasco de picanha, linguiça, uma lista interminável.

Depois vinham as bebidas: daqueles milhares que anunciam na TV as mulheres e rapazes bonitos, só se salvava o vinho tinto – só um copo por dia! quem aguenta? – uma ou outra dose de uísque. Cerveja, batida, cuba-libre, tequila, licores? Nada.


Cachacinha? Necas! Uns tempos andamos bebendo aquela coisa intragável chamada cerveja sem álcool. Uma desgraça abominável que repudiamos com veemente brado de guerra:

– Preferimos enfrentar a morte, a beber esse xixi de cevada e arroz! 

– Abaixo a cerveja sem álcool, o fumo sem alcatrão, a comida sem gordura! Viva a picanha, a linguiça, a orelha de porco! 

Claro que era tudo brincadeira. O meu amigo Elísio foi intimado a desfazer o sortido bar que mantinha em casa. O bar desapareceu, mas as garrafas de pinga mineira, as batidinhas feitas em casa, as latas de cerveja, os licores de jenipapo, eram encontradas nos mais diversos esconderijos. Aí vinha o pior: cigarro nem pensar! Nem outro tipo de fumo: charuto, cachimbo, cigarrilha, nada, nada.

Eu parei de fumar, mas andei levando para ele uns cigarros indianos sem nicotina, de ervas, de ginseng, mas eram pequenos e caros. Outros cigarros estrangeiros made in Indonésia, com cravinho, aromatizado com canela, cereja, chocolate, tantos sabores para embelezar o vício, eram feitos do velho fumo de guerra mesmo, fumo bruto, sem lavar, iguais aos gouloises franceses, os duros cubanos, que qualquer médico condena no ato.

– Ih, tudo que é bom está vetado. Depois de velhos começam a nos cortar tudo. Ainda bem que não proibiram as mulheres. Brindemos às mulheres bonitas! 

– Então, nem tudo está vetado. Não nos tiraram tudo. Não proibiram as mulheres. Tim-tim às mulheres bonitas! Viva a mulata! Viva a loura! Viva a morena! 

Outro vício que o meu amigo Elísio tinha é o de comer doces. Tudo quanto era guloseima, maria-mole, pé-de-moleque, confeito, bala, bombom. Não conseguia passar em frente à confeitaria e padaria sem atacar e sair com três ou mais tipos de doces.

Bomba, mil-folhas, sonho, confeitos tentadores e coloridos que vinham derramando açúcar, creme, doce-de-leite, pelas bordas. A cocada baiana, quebra-queixo, era a favorita, o deixava todo se babando. Trazia também paçoca de amendoim, doce de abóbora ou umas mariolas, na falta de outros.

Não interessava o tipo de doce desde que seja gostoso, que dá energia, o organismo pede – é proibido. Mas ele comia. Mesmo se seriamente advertido debaixo da ameaça implacável da hiperglicemia, dos diabetes, dos males da obesidade, continuava comendo.

Com tantas restrições na vida quem não se revolta? Quem vai se submeter a viver a vida de convento se na memória estão gravados os prazeres, os dias de alegria, todas as horas e os minutos de felicidade? Quem vai virar monge de dieta se teve toda a vida glorificada com os pecados da gula, do sabor, do paladar, do olfato? Já não basta a tristeza do tempo nos obrigar à abstinência da carne, não a do açougue, mas carne de mulher, rosada, perfumada, pecadora, cujo odor é único e insubstituível? Quem tem poder de resistir às propagandas coloridíssimas, apresentadas pelas musas da TV?

Éramos velhos e rebeldes acostumados a nos condenar inapelavelmente:

– Jamais entraremos no Reino dos Céus! Com a generosa bondade do Senhor alcançaremos no máximo o Purgatório. Se tivermos muita sorte seremos designados para o Campo das Delícias, um purgatório VIP, feito especialmente para nós... 

– Do contrário, teremos que aturar presença chata do Diabo a nos encher o saco, em pessoa, com as estórias que leva vantagem sobre o bom Deus, tendo-nos mais como exemplar motivo de sua alegria. Abriremos filial da Adega dos Solitários, destinada a acolher no Inferno os heróis e virtuosos, como nós! 

O meu amigo Elísio demora a chegar, mas esse é apenas mais um detalhe da personalidade dele. Na verdade, pontualidade é costume que não tem nenhuma importância agora, na nossa idade. Mesmo que não venha – e isso já aconteceu inúmeras vezes – estaríamos nos vendo, conversando e trocando ideias nos subterrâneos da memória.

É regra comum, é tempero de amizade. Faltar sem explicar é necessário, prova fatal e obrigatória nas grandes amizades. E nós construímos a liberdade, prerrogativa alcançada por afeição maior de cinquenta anos, que proíbe justificar qualquer coisa. Tudo que fazemos, um com o outro, qualquer coisa, jamais é considerado falta.

Em tempo algum nós brigamos, jamais nos passou pela cabeça a audácia de julgar o outro. Nunca perdemos a paciência, muito menos condenamos qualquer atitude do outro. Quantas vezes a memória me traiu no dia do seu aniversário, o contrário do meu amigo Elísio, cabeça boa, sempre antecipava a data do meu nascimento fazendo alguma surpresa, antes de qualquer pessoa, até mesmo dos parentes. Não é bacana?

Às vezes quando o tempo fecha e cai aquela chuva fina, de inverno atrasado, invadindo as mesas, os ossos, as almas, nos meses de setembro, outubro, novembro a Adega dos Solitários fica turva, sem forma, nos deixa face a face com o abismo. Em pleno sol do Rio de Janeiro, o barzinho é transformado – como dizíamos – numa espécie de “templo paulista”, pelo chuvisco que traz a tristeza das boas recordações, lembrança dos amigos que faltam a encontros.

A mente vaga à toa, não deixa separação entre sombra e trevas, o olhar vislumbra um tempo que não é nem noite nem dia. É a hora de se apossar desse ambiente e criar o mundo particular. Das prateleiras, do teto, da paisagem de Nilton Bravo pintada na parede, como uma foto, pende a imagem indivisível do meu amigo Elísio. O ambiente fica suspenso, como a casa sem cumeeira, sem esteio, sem telhado.

Houve manhã e tarde e nada disso tudo foi bom. Na Adega dos Solitários todos perguntaram por ele querendo saber notícias. Vou informando como correm os boatos: sem precisão, vagamente, por ouvir dizer. Assim é melhor. Um dia na vida todos seremos boatos, lendas, tradições. Nem se dão conta que o lugar continua vazio à mesa, não conseguem vislumbrar a sombra que projeta a ausência dele. Mas as coisas se querem lé com lé, cré com cré.

E foi assim com o meu amigo Elísio, cara bom, um homem bom que nada precisa para seu mantimento, só de si mesmo carece. Não conheceu a árvore do conhecimento do bem e do mal, jamais comeu do seu fruto. Quando bebê ele se alimentou unicamente do leite da bondade humana. Se quiserem saber mais ainda: seja por ingenuidade ou por fornada de caráter o meu amigo Elísio jamais se deu ao trabalho de distinguir o bem do mal. Para quê? Para ele tudo era o bem.

Hoje tenho em conta por mais felizes aqueles que faltam aos encontros, mais ainda do que os que me cercam procurando apoio como barcos perdidos, atracados na boia em mar revolto. Assim foi no princípio. Nenhuma falta fez o meu amigo Elísio, que estava sempre para chegar. Ninguém notou as ausências nem deu tempo ao tempo para ver os dias passarem. Aquele lugar vazio, que ninguém ocupa por respeito, jamais se tornou um templo incômodo. Eu fico do lado oposto, lendo jornal, esperando.

Simplesmente a minha mesa está ali, as duas cadeiras postas, o sol entrando pela porta, o corpo se cobrindo de gotículas de suor, tudo isso para endeusar a cor dourada da cerveja. Através da tulipa dourada as imagens se ornam translúcidas, cristalinas. Acreditam? É hora da Adega dos Solitários fechar. O meu amigo Elísio não veio afinal, talvez nem viesse, mas não importa. É sua maneira, enfim, de preservar um pouco a camaradagem eterna. Quando termina o dia, só então, o desânimo desaba por dentro.

Descansado de todas as obras e artes que juntos erguemos, penso só na pessoa. Ele era um, éramos vários, era cem, éramos mil.

Nunca nos coube fazer justiça, nem julgamentos pessoais, nem tentamos cimentar o espaço no tempo, como se fosse coisa construída por nós, para nós. Nos contentávamos com a volatilidade, a leveza e não temporalidade, a rapidez do eterno, porque sabíamos que amigos não morrem, viram estórias, se transformam em neblina serrana, garoa finíssima, fria de doer os ossos ou naquele chuvisco que vem para anuviar a alma indevassável dos outonos.


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Fonte:
Salomão Rovedo: Sonja Sonrisal. Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2016. (Imagem: Páginas pessoal do autor)

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