sábado, 7 de outubro de 2017

Agar (Conto), de Delminda Silveira


Agar

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Sobre o pálido azul do Oriente desdobrava a aurora o seu manto de púrpura e ouro; brilhante véu de luz escondera as estrelas do firmamento.

Além, além pela solidão do deserto, caminhava Agar, — a escrava sem lar, sem amor.

Dormia-lhe Ismael nos braços e de seus ombros delicados pendia-lhe uma cabaça com água e um alforje com pão.

Seus olhos tristes dirigiam-se ao Céu resplandecente, enquanto dos lábios vermelhos como a silvestre flor que vem de desabrochar, voam-lhe suavíssimas preces envoltas nos suspiros da Natureza.

Oh! Deus! exclama, não pereça Ismael, meu filho caro, por meu seio, de cansado, negar-lhe o doce alimento. Antes que o sol desapareça nesta soledade, dá que meus olhos avistem os verdores de um Oásis em que possam repousar meus fastigados membros, e onde minha boca sequiosa encontre o veio de alguma cristalina fonte.

E ela estendia a vista pela imensidade cujas areias brilhavam aos raios do sol ardente, como poeira de diamantes.

Ismael acorda.

Mãe, água! debilmente balbucia com voz suave e meiga como o balido da ovelha terna.

Agar olha derredor...

Só o areal, que fulgia como uma poeira de diamantes!

Deixando o filhinho sobre o chão abrasador, ela afastou-se febril, em lágrimas, murmurando:

Ao menos não o verei morrer!

Agar, Agar! uma voz suavíssima, do alto, disse.

E um anjo formoso, em alvíssima nuvem brilhante tocava-lhe o ombro, como se a despertasse.

Agar fitava-o, pasma.

— Toma água dessa fonte, bebe, e dá de beber a teu filho. Deus é convosco; caminha; Ismael será o chefe de uma poderosa nação.

E a visão desapareceu.

Como um espelho de cristal, uma fonte d'água puríssima e fresca se estendia, ali, no areal do deserto inclemente.

Agar tomou seu filho, e, naquela maravilhosa fonte, com ele, desalterou o peito enfebrecido.

Ismael veio a ser o pai de um grande povo.

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