sábado, 7 de outubro de 2017

Uma recordação (Conto), de Delminda Silveira


Uma recordação

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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O pequenito Leôncio morrera. 

Dois anos apenas!... 

Passados oito dias foram visitar a desventurada mãe. Carmem vestia a cor das violetas, e, como a flor mimosa pendida à pálida fronte, chorava. 

Palavras de consolação, de conforto, nada! Todo o remédio aplicado àquela ferida recente mais lhe avivava a grande dor, mais e mais fazia sangrar o materno coração. 

Levantei-me, e, passeando pela sala, procurava uma ideia qualquer com que a distraísse. 

Sobre uma das consolas de mármore havia uma grande quantidade de quinquilharias galantes; entre elas sobressaía um pequeno coração de veludo escalarte, artisticamente bordado a seda com uma coroazinha de amores e violetas, cercando em mimoso relevo de ouro a doce palavra Amor. 

Tomei o delicado trabalho e chegando-me a triste amiga, disse: 

— Que gracioso coração! Será a cópia do teu, tão formoso e sempre tão cheio de amor, Cármen? E foste tu que lhe bordaste essa doce palavra?...

Cármen levantou para mim o terno olhar magoado e, uma explosão de lágrimas e soluços mais forte do que antes, rebentou-lhe da alma angustiada. 

Atônita, buscando acalmá-la, depus-lhe no regaço o mimoso coração de veludo escarlate que ela, num arrebatamento inexplicável, tomou, cobrindo-o de fervorosos beijos. 

— Sabes, me disse afim, por entre soluços e lágrimas, sabes com que fios de ouro bordei essa doce palavra que me enche o coração?... 

Ele tinha os cabelos lindos... macios... longos... louros, muito louros caindo em graciosos anéis de ouro; um só anel, um só! daquele ouro precioso bastou-me para formar a doce palavra Amor!

Os fios dourados daqueles cabelos louros eram o esplendor do meu querido, e os lindos raios daquele esplendor formoso vestiam de carícias o meu pobre coração gelado pelo frio de uma eterna viuvez; então, as saudades podiam aqui abrir mais formosas, mais vividas como nos dias do meu passado feliz! Porém agora... 

E chorava, chorava pendida a pálida fronte, qual violeta mimosa a derramar na terra orvalhos que lhe vem do Céu!

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