quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Ao despir um Pierrot (Conto), de Júlio Diniz


Ao despir um Pierrot

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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A noite, lunarmente clara, envolvia em prata o recinto virginal, em que, sem aceder ao sono, Cristina se divertia, mostrando ao astro lúbrico os tons róseos de sua carnação perfeita como se talhada em mármore rosado e úmido.

Aquele silêncio luarento povoava as sombras de tétricas visões; mas sofrendo o conflito das ideias de uma traição de Narciso e da lealdade perquiridora de Stela, a desacordada mulher caprichou de não dormir enquanto a espiona não tornasse do baile à fantasia.

— Reconheceu-te, Stela?

— Como me reconhecer?... Quem te disse estar ele no baile?

— Não o viste?

— Compreendo-te, agora; empolgou-te a ideia de que Narciso estaria no baile, e, escrava dessa suposição, criaste todo um sistema de desconfianças, que começaram de traduzir-se, muito naturalmente, naquela tua frase.

— Viste-o?

— Vi-o. Por que arregalas deste modo os olhos? Não esperavas esta notícia?

— Esperava. Mas, como todo o mundo que espera a nova de um desastre com uma pontinha de esperança em contrário, supus sempre que não pusesses os olhos sobre ele. Embora traída, eu quereria não ser sabedora do mal...

— Arrependo-me de ter sido exata. E prudente, Cristina, que te não obstines em agravar o acaecido. Não remediarás o mal, não é assim? Pois, coração à larga. Narciso foi. Eu o vi. Medi-lhe as ações. Acompanhei-o por toda a parte. E, nem sequer, ele maldou de que uma pierrot o acompanhasse. Se tu lhe falas, terás de dizer-lhe quem foi espionar-lhe os passos de homem livre...

—É o que te parece: livre?...

— Pois não é livre Narciso?

— Digo-te que não!

— O teu noivo não tem a liberdade comum a todos os homens do mesmo estado?

— Repito-te que não.

— Pois, minha amiga, para o meu sentir, todos os noivos, longe das vistas da mulher amada, ficam sendo o que são: homens solteiros...

— Narciso difere dos outros...

— Ufa!... Cristina!... Vou tirando o pierrot que me acalora as carnes...

— O noivado é um começo de intimidades, que se distendem, mais ou menos, conforme as razões de ser do amor vigiado. Naquele avarandado semi-escuro, onde passamos todas as noites, por isso mesmo que estamos assegurados na nossa posição, com a possível presença imediata de todos os de casa, as nossas intimidades seguem uma derrota que me dá o direito de exigir de Narciso maiores fidelidades do que tu pensas...

— Olha, Cristina, como o cetim vermelho desbotou e nodoou rubramente o colete... Oh!... envermelheceu-me o colo também... Que fazenda ordinária, esta!

— Isto larga... Dois meses, depois, de noivado, Stela, as confidências das almas passaram às do corpo... Ah!... O primeiro beijo ainda foi mais cedo... Tinha eu três dias de pedida... Na hora do adeus, deserta a rua, os seus lábios roçaram sobre os meus olhos, e os seus bigodes produziram-me um frisson nas carnes, com o qual eu me teria entregue ao mais terroroso dos homens. E Narciso, pelos estremecimentos de meus dedos que ele segurava entre os seus, sorriu — um sorriso mais lindo do que um raio de sol! — e, sem o querermos, talvez, por certo instintivamente, os nossos lábios se encontraram...

— Vê, Cristina, como ficaram as minhas calças...

— Desbotou nelas o cetim?

— Alguma coisa. A cor amarela é mais fixa do que a vermelha... Mas, estão para ser exprimidas... Que sudorífico!

— Despe-te logo. Pareces, com os teus costumes, que os teus olhos são de um homem que acompanhasse o desnudamento dos segredos de teu corpo... Avia-te, a fim de que me contes o que viste...

— Dir-te-ei centos de coisas novas...

— Apeteço o conhecimento do que sabes. É uma infelicidade ter-se um pai, como o meu, que se indignaria contra mim, tolamente, se soubesse que eu fora a um baile público espionar os desvarios de meu noivo... Ah!... Como eu seria venturosa, se pudesse ir, como tu, a toda a parte que cobiço...

— Nem tu calculas palidamente o que por lá se vive...

— Apressa-te, Stela!

— Acaba, primeiramente, o que contavas... Não quero perder a boa hora de confidências que inauguraste...

— Pouco mais tenho para te dizer... Depois do primeiro beijo, os contatos... Em seguida, as mutuas confianças, mais um arregaçamento hoje, mais uma ternura amanhã... Um dia, porém, por mais que eu lhe resistisse, desejou ver-me o começo das pernas... Intimidades, Stela, intimidades, próprias, comuns e infalíveis entre todos os noivos... Eram elas que me garantiam, até hoje, a constância de Narciso, e, quando vejo, como agora, que o que lhe faço já se torna pouco para o prender na fidelidade acordada, adianto-lhe um pouco mais, sem contudo deixar que ele perceba o manejo de fazer crescerem as concessões, na medida em que venha o seu enfartamento pelas anteriores... Conta, agora, o que tu viste...

— Deitemo-nos, primeiro... A fadiga luxuriosa me alquebra os membros e o corpo quer distender-se nervosamente num leito macio...

— E onde ficou Alberto?

— O meu primo?

— Sim.

— Deixou-me ao entrar aqui. Pela nossa compostura fomos dois pierrots da maior sensação! Nem calculas como é deliciosa a companhia do meu primo nestes momentos... Ao depois, relembrou-me, com um calculado jeito, pelo caminho, tudo quanto mais impressionou os meus sentidos. Soube corresponder à minha excitação, não cometendo maiores pecados do que me beijar nas passagens mais sombrias das ruas...

— Invejo-te, Stela!

— Bem poderias ter ido...

— Qual nada!

— Entrei e sair sem que teu pai desse tento, pois não foi?

— Isto é fácil para ti...

— Procurou-te o teu pai durante a minha ausência?...

— Não!

— Aí está! Tinhas ido comigo e seríamos duas a comentar o que víssemos... Lá estava Narciso... Foi um dos juízes no julgamento do baile. Custei a topar com ele. Só em meio da festa deparei com ele numa das banquinhas do buffet. Mais de vinte homens e mulheres...

— Mulheres, também?

— E então? Tu pensas que haverá quem resista à solidão naquele caos de sensações estranhas? O Lourival, marido da Conchinha, mais o Ramalho, casado com a Lucinda, lá estavam, cada qual com a sua mascarada...

— Narciso também?

— Não te espantes senão se eu te disser que ele era o único que não tinha uma mulher fantasiada ao seu flanco...

— Como isto me incomoda! Quando o vi, aqui, promover o arrufo, pensei logo na traição. Aquele semblante enfarruscado não era sincero...

— Ao seu lado estava uma écuyère italiana: deves gabar-te do gosto de teu noivo. Não se acompanha de mulher feia. É serio...

— Era bonita a que o seguia?

— Linda, Cristina: mignon, alva, loura, e, com um arrebatador decote, exibindo um colo mais branco do que um pedaço de neve, do meio da qual, como uma abelha sobre uma pétala de gardênia, um negro sinal era tido como mascote...

— Já agora me penso feliz por não ter ido lá.

— Que teria se tu tivesses ido?

— Não me conteria.

— Ora, Cristina! Serias a primeira a deixar tudo para veres como o teu noivo sabe gozar uma mulher. Não dirias nem uma palavra, mas lhe acompanharias a pessoa como a sua sombra. Quando não te agradasse fecharias os olhos. Vi-o, por exemplo, encher a boca de champagne...

— Nada mais natural.

—É o teu erro. Quem não sabe é como quem não vê. Pensas, então, que ele tomou a bebida de dentro da taça?

— Sim.

— Pois não! A divette foi quem lhe passou o champagne colando os seus nos lábios dele... Garanto-te que não sabias deste modo de acariciar...

— Confesso-te que não.

— Aí está. Verias a droiture com que o teu noivo se curvou, encostou nas suas as faces da encantadora mulher, colou-lhe os lábios e sugou-lhe a entontecedora bebida...

— Como deve ser bom esse carinho!

— Ao depois, beijaram-se...

— Aos olhos do público?

— Sim.

— Ah!... Se eu estivesse lá...

— Não farias senão nada. Eu, pelo menos, nessas ocasiões de grande excesso, ali mesmo me voltava, e, se não fossem as nossas mascaras, creio que, incondescendente, devoraria Alberto de beijos... Não conheço, Cristina, nada que excite mais do que aquelas danças. Um conto de Calibã é menos excitante, e um par dançando é bem um conto luxurioso escrito com a alma e a carne mais quentes, para ter o ponto final de um beijo. Os corpos estreitavam-se brutalmente, as pernas se entrançavam, as mãos, servindo de opressores, estreitavam os troncos e cada par, assim enlaçado, cabeça descaída sobre cabeça, parecia um corpo só com a monstruosidade de quatro pernas... Esquisito, sem igual... Homens e mulheres não se distinguiam na fúria dos sentidos...

— E Narciso dançou?

— Não. Nem todos dançam. à parte, pelo jardim e nas mesas do buffet, os que não estavam fantasiados, se divertiam à grande, mas um pouco retraídos das vistas do grosso público, porque só no salão eles escandalizariam...

— Todavia, vingar-me-ei...

— Poupa-o, Stela... O pecado é divino... Vinga-te em mim...

As duas mulheres, num longo beijo, abraçaram-se e confundiram-se, cada qual na ideia mais fixa de ter ao seu lado um outro ente...

A lua, devassamente, iluminou-lhes, até quando quis, os seus belos corpos de uma semi-nudez pagã...

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