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10/07/2017

Neda (Conto), de Júlio Diniz


Neda

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Manhãzinha.

A sala, de azuladas paredes seminuas, estava pobremente mobiliada: era no saguão da casa, e as duas mulheres entraram às tontas, até se abrirem de par em par as gelosias.

Saul, de Neda esposo, ficara a dormir na alcova.

E Neda, abismada com a indiferença dele que apenas lhe não dirigia um monossílabo desde a hora do fato, compreendeu logo que Dona Loura, a sua mãe, era uma intérprete das indisposições do genro...

Num canapé, as duas mulheres, Dona Loura, arcaica nas suas vestias de capote e turbante, e Neda, deliciosamente matutina num roupão branco que descansava, sans-dessous, sobre a finíssima camiseta de cambraias,— sentaram-se, afundando em côncavos a palha flácida do cansado móvel...

— Esperava-te, mamã, qualquer das horas. Quando vejo Saul levando-me entre dentes e indisposto como um burguês dispéptico, silencioso como uma esfinge e entristecido como um beato sem almoço, adivinho logo que vens por aí como a mensageira da paz. E ele foi procurar-te ontem à tarde...

— Exatamente.

— Previ tudo isto. Há cinco dias que nós não falamos, e, pensando-o na rua, ontem, vim ter aqui. Foi quando topei com ele, sentado naquela cadeira, lendo a Bíblia, ou folheando-a, apenas... Vendo-o, assustei-me e não contive um gritinho de susto. Mas tornei imediatamente sobre os meus passos. Há quatro anos que somos casados e nunca passamos dois meses sem uma rusga. É sempre ele quem as promove com um ressaibo de mal-entendido ciúme. Aceito sempre o seu rompimento e nunca lhe dei a honra de capitular nas hostilidades. Quando elas são de nonada, aqui mesmo se resolvem; mas, quando avultam como agora, ele te vai buscar como intercessora. Já sei que vamos ter, como sempre, uma crise de amorosidades que me enfastiam. Lastimo é não conceber um filho desse homem para o embeiçar pela nova criatura e sentir-me menos jungida às suas intemperanças de... mal educado! às vezes, chego a ter nojo do senhor meu marido...

— Que blasfêmia, Neda! Dizes isto do teu esposo com um sangue frio que me pasma...

— Devias esperar isto. Casei-me contra a minha vontade ao depois de ter o assédio do seu amor por mais de cinco anos. Tudo inventei para que um tal matrimônio não se fizesse. Por último espalhei, e fiz conhecer-se em casa, por torna-viagem, a mentira de que Saul é um tuberculoso. Tanto mais eu o aborrecia, quanto a senhora e o papá intervinham, patrocinando a causa do moço platônico. Dá-me, na verdade, um insistente desejo de rir muito quando lembro os idealismos dele, seguindo a minha sombra, porque nunca lhe deixei o direito de enfrentar-se comigo em parte alguma... Expus-lhe sempre que sonhos não me satisfaziam, nem eram para o meu temperamento homens vaporosos, poetas e doutores... Movi-lhe intensa guerra, apaixonando-me por Frederico Stöltze. Está! Com este provavelmente eu teria sido bem casada. O pobre “alemãozinho” levou o caso muito a serio e casou-se, logo que eu o abandonei, com uma defeituosa... Foi um despique, não há a menor dúvida, mas quem saiu perdendo foi ele. Saul é um temperamento de foca...

— Respeita o teu marido, minha filha!

— Pois não é, mamã?

— Essas coisas não se devem dizer...

— Não tratarei de ocultar o sol com a mão. Já disse e é mesmo: um temperamento de foca. Só quer hibernar sobre os livros, diante dos quais se abespinha como o animal sobre o gelo. Eu, porém, quero muito sol, muita luz, muito calor, muita atividade... Mamã, o que vocês velhos veem no casamento é o interesse de colocar as filhas, porque ficando velhos receiam que nos tornemos muito sós no mundo. Por isso acontecem destas, casamo-nos com a vontade dos papás encarnada na figura de um homem que não é a correspondência de nosso instinto. Olha! Não intervirei nunca no casamento de ninguém: cada qual cometa a sua doidice como quiser, e, se escolher um lorpa como Saul, arrependa-se de si mesmo e não me culpe a mim.

— Tu vês no homem uma excitação, Neda, quando devias ver uma satisfação.

— Deixasses eu escolher como tivesse querido, e estarias livre hoje dessas trabalheiras de paz... Saul, antes de meu marido ser, sofreu toda a minha repulsa. Casada fui tolerante. Ele, no entanto, não sabe aproveitar-se de minha tolerância e quer subserviência, servidão, ou coisa semelhante... Está enganado! Devias ter sancionado a minha repulsa logo de princípio. Lembras-te do convescote dado aos chilenos, nas Salinas? Tu não foste, e Saul, que era apenas meu pretendente sem a menor esperança, moveu contra mim uma intriga terrorosa, porque viu, no campo, o primeiro tenente Santander amarrar os cordéis de minha botina que estavam dificultando-me o andar. Deves recordar-te de como energicamente o reprimendei, quando soube que lhe cabia a autoria do contado... Note-se que era apenas um pretendente, como muitos havia, todos sugestionados pela minha beleza pouco comum neste bairro de mulheres feias. Afinal, mamã, que te disse ele desta vez?

— Saul compreende o amor como uma extasia, minha queridinha, e tu o compreendes como um devaneio. Isto é próprio para as meninas. Tu te esqueces, e nisto eu lhe dou razão, que és uma senhora escrava da moral esponsalícia. Contou-me o teu marido um fato em que ele te surpreendeu. Realmente, se as coisas se passaram como podem ser supostas, e ele não quer crer, tu andaste mal.

— Tu o ouviste, ele contou o acontecido a seu jeito... Ouve, agora, como tudo se deu...

— E dispensável Neda. O passado está passado. O que é preciso é que não dês lugares a aleives e que poupes os amuos. A alma dos homens também caleja. Os amuos fazem pequenos calos, mas tempo virá em que, calejada a alma, o amuo será definitivo.

— Que teria isso?

— Um escândalo, minha filha!

— Para adquirir a minha liberdade mamã, que tu sacrificaste, eu não me pouparei a um grande escândalo.

— Toma juízo, doidinha. É preciso acabares com estas zangas e receberes o teu marido como o teu senhor...

— Hein?... Não me zangarás, mamã, podes ridicularizar-me como entenderes... Não me darei por achada.

— Não promovo senão o teu bem. Resolve a crise e sê... mulher de teu marido.

— Já estás julgando o feito?

— Tu tens toda a razão, ele tem igualmente toda a razão. Harmonizem-se e sejam felizes.

— Pareces-me uma juíza a Salomão, com a diferença de que o rei hebreu ouvia ambas as partes em conflito, e tu julgas com a audiência de uma só...

— Interpretas muito mal o meu gênio.

— Não te interessa conheceres a injustiça de que sou acusada pelo Sr. meu marido?

— Fala, minha filha! Mas tem a certeza de que, fosse qual fosse a acusação, eu nunca seria contra ti.

— Obrigada, mamã! Quero, entretanto, justiça, e que, como Saul, não julgues pelas aparências. Daria a vida para saber como ele te referiu o que se passou...

— Deixa o que ele me disse. Narra o que tu sabes...

— Pois bem! Na terça-feira, mamã, de combinação com Saul, resolvi passar uma temporada num arrabalde. E, devidamente autorizada por ele que me falou pelo telefone, fui à Barra correr uma casinha vaga e que nos serviria. De caminho, encontrei-me com o dr. Eduardo que, ao depois de saber ao que eu ia, daquele modo desacompanhada, teve a gentileza de oferecer-se-me para o serviço de abrir e fechar portas. Aceitei e foi ele quem tomou as chaves na taverna da esquina... Vê tu!... Não fosse ele e teria eu de entrar numa taverna, sozinha, arriscada a ouvir qualquer indecência... Ao depois, o dr. Eduardo foi quem abriu a porta... Como eu me ataria de luvas de camurça para fazer essa diligência?... Umas chaves muito pouco asseadas... Corremos o primeiro andar da casa, e, quando passamos ao sótão, o meu gentil cavalheiro se lembrou de, por segurança, fechar por dentro a porta da rua... Subimos. Mal chegávamos em cima, começaram de bater numa porta. Poderia eu suspeitar que o meu marido, tendo ordenado que eu fosse, porque ele não teria oportunidade de acompanhar-me, logo depois resolvesse o contrário, e estivesse a bater na porta da rua? E foi por um acaso que nós o vimos. Chegamos inesperadamente a uma janela do sótão e percebemos que era ele quem batia. O dr. Eduardo, desculpando-se por já ter eu cavalheiro, despediu-se de mim, desceu as escadas, e, quando abria a porta, foi insolentemente agredido por Saul, que lhe negou a mão para o cumprimento do estilo... Só tu vendo, mamã, a fúria com que o Sr. meu esposo investiu contra mim! Felizmente, desafiado pela minha calma, ele não teve ânimo para iterar o qualificativo mau com que me mimoseou. Dei-lhe as costas e, se ele quis, fechou sozinho a casa e veio só...

— Devias ter evitado tudo isto, Neda.

— Evitado, como?

— Não aquiescendo à companhia de um homem de má fama, como é o dr. Eduardo.

— Adivinhasse eu que ele viajaria para a Barra naquele mesmo bonde em que eu fui... Hora de trabalhos na cidade...

— Recusasses os favores oferecidos.

— Ora, mamã! Deixa-te de coisas! Qual é a mulher que se anima à grosseria de recusar gentilezas de um moço de distinto trato?...

— Conforme o renome desse moço.

— Tem má fama o dr. Eduardo?

— Não sei, não. Dizem.

— Se tem má fama, tem maus costumes. E como é que Saul, tão zeloso de sua honra, admite, no seu convívio e nas suas recepções, um homem mal visto? Penso que os frequentadores de nossos salões, os habitués de nossa intimidade, sejam pessoas dignas de acompanhar-me a um ponto qualquer, e, se não fosse assim, a primeira privação deles, seria a do nosso convívio...

— Neste ponto és razoável, sou eu a primeira a reconhecer... Mas, Saul referiu-me que estavas sem chapéu...

— De fato. Ao depois que o dr. Eduardo se despediu, esbarrei na telha van do sótão, e enchi as flores do chapéu de teias... Sabendo que o Sr. meu marido ali estava para auxiliar a reposição, tirei o chapéu e asseei prestamente...

— Diz mais ele que estavas empurpurada e que te confundiste com a sua chegada, ao ponto de não saberes repor o chapéu...

— Saul é um mentiroso.

— Não te zangues, Neda.

— Injuriou-me.

— Não dês importância a isto e resolve-te a aceitá-lo pacificamente...

— E ele o quer?

— Por que perguntas?

— Porque tão honrado ele não deveria aceitar mais a coabitação da esposa desonesta.

— Não deves dizer assim, minha filha!

— Aceita-me ele?

— Que tolice, Neda!

— Mamã, Saul deveria ter agora a minha repulsa definitiva, e não a faço em atenção aos teus bons ofícios...

— Fazes muito bem.

— Lá vem ele descendo...

— Trata-o bem, minha queridinha! Um lar que não tem esposo...

— Desculpa-me, mamã: só agora reparo que estou muito à vontade para nos encontrarmos os três...

Arrepanhando, então, o belo roupão desabotoado, por cujas rendas e decotes se viam as carnes lucíferas de Neda, a mulher de Saul se escapuliu, desenhando escorreita o seu impecável corpinho de escultura grega...

Voluptuosas (Conto), de Júlio Diniz


Voluptuosas

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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No rés-do-chão de um palacete, coadas as luzes do sol por arrendados stores pálidos, Helena fazia sono à hora da sesta, quando Maria Angélica a surpreendeu adormecida.

A recém-vinda impregnou o ambiente de essência de íris, enquanto uma voluptuosidade enervante empurpurava a linda cabeça desmaiada de Helena...

Um beijo sobre os lábios da desacordada mulher, fê-la despertar com um frêmito de prazer...

— De onde vens tu, Angélica?

— De encomendar flores...

— Flores?!

— Não te recordas de que Sofia se casará amanhã, à noitinha?

— Sou uma esquecida.

— E ela é credora de nossas gentilezas...

— Das minhas, especialmente.

— Encomendei orquídeas e crisântemos.

— Que gosto! De minha parte vou mandar-lhe duas magnólias.

— Belas flores, realmente. Mas, a natureza esmerou-se no chiquismo das orquídeas. Uma catleia é um pedaço de lábios excitados por dois beijos.

— Não lhes acho graça.

— Ó exigente!

— Flores do mato. E já notaste que quase todas elas são lilases e roxas? ou que se enfeitam com estrias e matizes dessas duas cores melancólicas?

— Descobres coisas...

— Mas, não é?

— Realmente.

— E como vais presentear uma noiva com flores lilases?

— É a moda, é o chic, é o dernier-cri...

— Olha! Nas minhas bodas manda-me flores alvas, muito alvas, crisântemos rosa, cravos, magnólias... Compreendeste-me?

— Se não! Agora, coisa notável: eu te vejo com as faces pálidas e os olhos muito brilhantes...

— De verdade?

— Sim. Sonhavas?

— Nem me lembro! Parece-me que sim. E tu estás intensamente corada...

— Apanhei muito sol.

— Os teus olhos estão pisados e lânguidos...

— É da fadiga do caminho... Desde cedo na rua, exposta, Helena, ao calor que abrasa e ao sopro canicular que afeia os penteados...

— Já tinha reparado: os teus cabelos estão desmanchando-se...

— E eu os concertei no espelho de Ester.

— Andaste lá, hein? Já havia desconfiado... Quando te vejo amolentada, assim, tenho razões para me enciumar... É muito descuidada a Ester. Cuida mal das vestimentas das amigas. Olha o teu cinto, Angélica... Está mal posto, a fita está retorcida...

— Nem reparei...

— Disto não és culpada, por certo... Eu não te deixaria sair daqui tão mal-amanhada. É de causar vergonha.

— Foi a pressa, Helena.

— E no teu ombro a seda está nodoada...

— Nodoada?!...

— Sim! Veem-se duas curvas vincadas como os bordos de uma... Nem sei mesmo que diga... Parece-me que te morderam o ombro?!...

— Quem o poderia fazer?

— Ester.

— És ciumenta! Fica sabendo: foi no jardim quando eu encomendava as flores. Deve ter sido água das rosas, Helena, que aqui caiu... Estás satisfeita?

— Muito pouco. Quando muito, iludida, minha flor, mas não convencida...

— Tu me censuras, e eu que te surpreendo com um esquisito fogo no olhar úmido?... Terá sido algum sonho delicioso... A tua voz mesmo é arrastada como a de quem se fatigou num excesso de venturas...

— Que venturas posso ter?

— Em sonhos podemos ser venturosas como jamais seremos na vida real... Morfeu capricha em povoar-nos a mente com espetáculo espantosos. Há vezes em que, se eu pudesse, esganaria quem me desperta... E outras ocasiões, quando volto a mim sem provocação, sou pronta a espantar-me porque me acordei e não morri no meio do prazer sonhado...

— Há sonhos, efetivamente, que se não deveriam acabar... E não sentes calor, Maria Angélica?

— Algum.

— Neste caso...

— Que fazes?

— Dispo-me. Não me imitas?

— Pode ser. Passarei a tarde contigo...

— Despe-te, pois... Tira o casaco... Desafoga o colo desta gola assoberbante... Não tens jeito?... Chega, que te libertarei...

— Tira os alfinetes.

— Usas um bom pó de arroz, Angélica.

— Ui! Helena!

— Que foi assim, ardilosa?

— Espetaste-me as carnes...

— Também é uma ruma de alfinetões...

— É para segurar bem.

— Tens uma pelugem de arminho...

— Ai!... Assim não... não...

— Que tens, rapariga?

— Beijas-me, Helena, com uns lábios quentes e gulosos... Só me deste vontade de...

— Ui!... ui!... ui!... Fazes-me um frisson de arrepiar-me os pelos...

— É para vingar o teu beijo...

— Por que me olhas assim, Angélica?

— És de uma alvura surpreendente, minha amiga. De teu corpo rescende um perfume originalíssimo que me entontece...

— Aprendi a perfumar-me com as gregas. Li num livro que uma beldade se cobria de perfumes para agradar aos amantes. Eu o faço para atrair as amigas como tu... Uma grega banhava as pernas numa bacia de prata em que se confundiam os aromas do nardo de Tarsos e do metôpyon do Aigypte. Nas axilas atritava mento e sobre as pestanas e nas pálpebras manjerona de kôs. Ao depois, a escrava defumava-lhe os cabelos desenastrados com espirais de incenso, que combinava admiravelmente não só com a essência de rosas de phaseolis que lhe embalsamava a nuca e as faces, como também a baccharis que se lhe derramava sobre os rins. E, por fim, entre os seios, corria o célebre oenanthe das montanhas de Chipre... Sei perfumar-me, Maria Angélica...

— Bem se lhe pareciam as gregas, tuas mestras...

— Entre os meus seios, inda há pouco, deixei correr um fio lânguido do irresistível Royal-Begonia, e nas axilas pus algodões embebidos na essência de rosas... Nos meus cabelos derramei óleos de sândalo, para contrastar com as evolações das essências de jasmins que perfumam as minhas vestias...

— E na posse de tudo isto praticas uma má ação, Helena!

— Qual?

— Essa de referires tantos perfumes e não me dares nenhum a provar... És avarenta, como ninguém, e eu cobiçosa de gozar...

— Vai ao meu toucador e gasta do que quiseres...

— Teria graça!

— Por que assim?

— Gosto das flores nos vegetais, das essências nos corpos das mulheres. Quero experimentar com o olfato o odor único que se desprende das tuas carnes...

— Tens desejos masculinos, minha queridinha!

— E é o que me faz lamentar-me: junto de uma graça não ser um Adônis, junto de uma Helena não ser cupido... Se eu pudesse embriagar-me com os teus perfumes e desmaiar de prazer entre os teus prazeres, seria mais feliz do que Syrinx, louca de paixão, Byblis, única na insaciabilidade, ou Mnasidika, macia como um veludo... Helena, tu és uma perfeição...

— Mofadora!

— Mofar eu de ti?!...

— Não te abrasa o calor?...

— Sim... Intoleravelmente...

— Safa o colete... Assim... Que lindo corpo, Maria, e quantas seduções na tua plástica vista através da transparência das gazes... Bem dizem os homens, sábios no sensualismo pagão, que o nu de véus é mais provocante do que o nu sem disfarces... Há qualquer coisa de místico, de irreal, na mulher encoberta pela semifluidez de um tecido fino... Se eu te não conhecesse os segredos todos de tuas lindas curvas, te rasgaria agora, impiedosamente, o véu de tua nudez...

— Já sentiste, Helena, um prazer maior do que esse das carnes livres do arrocho de um colete ditatorial?

— Quantas vezes?!

— Tu brincas, mulher divertida...

— Provo-te com a citação: despirei o meu colete e não me sentirei mais provocada do que contemplando as tuas formas seminuas...

— És bárbara, Helena! Como encarceras um tão lindo quadril dentro dos opressivos liames de um colete... Ah! Como eu daria a vida por ser morena! O ventre alvo é uma desilusão, mas o trigueiro, como o teu, é um incentivo. Parece o tegumento de um fruto e provoca o instinto mais calmo...

— Não te agrada a minha nueza?

— Inteiramente. Agora, vê lá se te não impressiona mal a brancura do meu ventre...

— Ao contrário, Maria Angélica: é uma grande corola de pétalas alvas desenvolvida de um peluginoso cálice de ouro... É maravilhoso o teu contorno... Dignas formas para a perpetuidade de uma tela ou de um retrato...

— Deixarias tu que fosse apanhada a tua nudez?

— E por que não?... Sei que fascinaria... Queres fotografar-me?

— Que egoísmo leviano!

— Acha-o?

— Sim... Fotografemo-nos...

— Adorável!... Como não irradiará no clichê o contraste de nossas peles, o macio sombreado de um trópico sobre a tentadora alvura nevosa de um polo...

Os olhos das duas mulheres vestiu-se com uma luz líquida como uma solução de perolas e opalas.

Os seus lábios permutaram cariciosos beijos.

E, horas depois, Maria Angélica e Helena, retratadas por uma aia, desvendavam as suas abrasadoras nuezas à inveja de Ester...

O poeta moribundo (Conto), de Júlio Diniz


O poeta moribundo

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Luxuoso salão de recepções: por entre cavaletes com quadros de fina pintura, em que aparecem, de par com estrangeiros, o gosto de Parreira e a vocação de Presciliano, vasos com flores, e, no meio das tapeçarias, dos fauteils e das luzes, um majestoso piano Ritter.

Heloísa acabou de executar, com todo o aplauso do maestro Christovam Detmer, a linda fantasia — Le poète mourant — de Gotschalk.

As últimas notas perderam-se artisticamente: o maestro cheio de admiração e preso da infinita tristeza, dobrou-se e beijou os dedos que obedeciam à grande inspiração de Heloísa.

Esta olhou-o e transfigurou-se como uma alma reflexamente combalida pela dor de uma alma irmã...

— Como esse poeta, Heloísa, que o grande músico fez morrer nas notas bemolizadas do piano, finou-se hoje o nosso amor... Enquanto executavas e os teus dedos arrancavam da alma do instrumento piedoso os sons do passional poema lírico, me concentrei e te afirmo que a visão não desprezou a audição, pois vi e ouvi toda a cena, desenvolvida entre personagens vivas, que se moviam, se socorriam e testemunhavam o desfalecimento do artista moribundo. Durante minutos que serão inigualáveis na minha existência de músico, aqui estive ao teu lado, frio como uma estátua, hermético como uma esfinge, e não denunciei, pela ruga menor de meu semblante, a dor imperiosa que me enervava a existência. Vim do gabinete privado de tua mãe, que se transformou pacificamente no Satã de nossa felicidade. Falei-lhe ardoroso, como se lhe dissesse uma ária de Beethoven, contei-lhe minucioso e preciso a longa história de nosso amor. Vejo, agora, que, por vezes, fui minudente demais, rememorando o platonismo inédito com que te amei a alma de artista e não o corpo de mulher. Ao depois de ouvi-la, vim inspirar-me para o sacrifício no teu talento. E saio de tua presença iluminado como o prescrito que recebeu o bálsamo do conselho cristão para subir em seguida ao patíbulo. Dá-me, pois, o conforto de tua confidência última: amaste-me alguma vez?

— Que pergunta, Christovam.

— Indiscreta?

— Não; ao contrário. Amesquinhante...

— Estranho-te.

— Não há razão. Porventura pensarás que te amei e não te amo agora? Acaso a minha mão de mulher para te ser dada dependerá de alguma coisa irredutível diante de minha vontade altiva?

— Sinto-me lisonjeado, de fato, com a tua constância, Heloísa. A cor dourada dos teus cabelos que te faz distinta entre as cabeças belas de todas as mulheres, neste instante, afigura-se-me a grinalda de luz com que se enfeitam as santas nos seus altares. Mas, um maestro, um homem que sabe música simplesmente, que é apenas um artista, é pequenino demais para ter uma pretensão de amor. Eu me pareço com esta figura lendária de Kadjira que destruía as rosas por prazer. No reinado das fantasias de ouro e de fidalguia com que se entontecem os teus pais em sonhos egoístas, cheguei, como a perversa princesa turca que despetalava rosas, derrocando castelos, para me conter na ilusão em que me deleitava somente com a audiência da negativa inclemente de tua mãe. Confessou-me que maldava de todo o nosso amor, desde princípio. E por que, se assim era, protegia a ampliação de um sentimento que deveria ser, como os filhos defeituosos das ciganas que são atirados às piranhas, destruído no nascedouro? Antes que eu lhe comunicasse, falou-me em que se correspondias aos meus cálculos de matrimônio, era porque, doidivana como toda criança, jogavas a pela na orla do precipício, esperando o aviso amigo para te retirares gloriosamente... Negarás, Heloísa, que tinhas consciência de minha pretensão? Sofismarás, em favor da excomunhão que me lançou a tua mãe, e contra a clareza da ordem que me deste a fim de se oficializarem as relações do afeto, que nos encaminhava de um ilusório paraíso? Responde com o talento imensurável com que sempre me amaste...

— Falas desatinadamente, Christovam, numa contingência em que deverias possuir o maior tino dos homens.

— Tens o dom solar de iluminar o mundo pelos flancos, se uma nuvem pesada se antepõe à sua esfera...

— Sinto-me transfigurada. Amo-te ainda, e não te hei de amar fora do regozijo deles...

— Dos teus pais?

— Sim. Acharias estranho se te dissessem que duas sementes postas em tuas mãos estariam vegetais só ao sopro de um faquir indiano. Por que admitirias que a minha vontade fosse forte bastante para romper a marcha das intenções dos meus pais sobre a minha razão de ser mulher? Porventura sem o sopro do faquir as sementes germinariam e atingiriam as formas de seres definitivos? Não suporás que, sem aquele sopro, algo se realizasse. Como supores que sem a vontade dos meus maiores a nossa união se perpetraria ao teu sabor?

— Desconheço-te já...

— Mas, porque...

— O sofisma substitui a tua lógica: o amor cedeu o posto à quizília dos outros...

— Esperarias o meu consórcio sem o consenso dos que me deram a existência de mulher?

— Nem sei de mim mesmo que te responda...

— Não poderias esperar. Se eu fosse livre, se a lagarta para ser papílio não carecesse de passar por ser crisálida, nem eu te mandaria impetrar a sanção que nos faltou, nem os que no-la negaram teriam razões para tal fazer. Aborrece-te o trovão? amedronta-te o corisco? Queres ver-te livre deles? Crê num Deus e pede-lhe a extinção... Infelizmente, Christovam, nem o trovão se extinguiria, nem o teu querer triunfaria... De um lado, Deus seria impotente para te dar o que pedisses porque não terias o direito de pedir... Só pede quem pode pedir; se se pede é porque de quem dá depende o pedido; e se o pedido não é dado, procura a causa na insuficiência e na sem-razão de quem pediu...

— Mas...

— Nada adianta, Christovam. Corresponde ao meu inquérito e nega-me, se conservares a razão, que tenho o bom senso desejável às criaturas perfeitas. Queres responder-me?

— Nada significará o que te responda.

— É preciso que sejas categórico.

— Pois sim: responder-te-ei.

— Poderias tomar-me como tua esposa sem, obteres a minha vontade?

— Por certo que não.

— De minha parte a questão é outra: teria eu o direito de responder por mim num caso expresso de matrimônio? poderia ser único o meu querer?

— Se quisesses, sim.

— Não é assim, não. Por que não me tomarias por mulher sem o meu assentimento? Por impoderoso diante de minha definição adversa. Porque não me daria eu por esposa sem o consentimento dos meus pais? Por impoderosa diante da pronuncia deles. Se tu pudesses alcançar de mim o amor sem vontade, desnecessário seria impetrares-ma; se eu dispusesse de meu corpo sem a intervenção dos que mo formaram do nada em matéria e em alma, nem cogitaria de enviar-te a eles...

— É um dilema sofístico.

— Por que princípio, não sei.

— Um dia, quando eu te disse que me abrasava na sede do teu amor, Heloísa, como correspondeste a esse lapso do meu instinto?

— Do modo mais franco.

— Sim... Dando-me apaixonadamente os teus lábios para neles, como eu quisesse, matar a sede que alegava...

— Dependia de mim. Dei-te.

— De outra vez pedi-te um testemunho da correspondência de tua paixão. Negaste-mo?

— Não poderia negar.

— Exatamente. Levaste-me, com todo o carinho, a destra ao colo, e, na grandeza das iteradas pulsações cordiais, afirmaste que eu reconheceria a intensidade do teu sentimento...

— Dependia de mim. Pratiquei.

— Por fim, quando te acenei com o plano de nossa união...

— Como te respondi, Christovam?

— Com a primeira negaça.

— Adulteras a minha intenção: cumpri o meu dever, enviando-te à mamã, como o caminho propicio para vencer o papá.

— Realmente, Heloísa. Sou um vencido.

— Garanto-te, porém, Christovam, que te amo, ainda, como te amei...

— Irresistível tormento para mim: serei eternamente o artista obrigado a consumar uma grande obra musical sem a inspiração para a realidade do dever...

— Desistes, então, do teu amor?

— Razões me sobejam...

— Que te disse, afinal, a mamã?

— Isso mesmo. Falou-me em que queria um marido para a sua filha e lembrou-me que um musicista não compõe sem ter inspiração...

— Nada demais, Christovam!

— Talvez não queiras compreendê-la... Mas é tudo que se pode alegar contra um homem...

E, louco pela música, inconsciente quase, Christovam Detmer assentou-se ao piano e executou, irreproduzivelmente, a esquisita criação de Gotschalk, ao depois do que, cerimoniosamente, se despediu de Heloísa...

O velho médico (Conto), de Júlio Diniz


O velho médico

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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O mostruário exibia, garbosamente, os artigos da moda rigorosa.

Estefânio e Judite — esta desprendendo-se de si no devotamento ao esposo, e aquele, dominador da mulher vencida em mais anos, como se lhe tivesse o corpo de cor, curvas e linhas, luzes e perfumes — gozavam o esplendor dos luxos, com que o artifício corrige os defeitos da Natureza e apaga os estragos do Tempo...

Marco Antônio — o médico afamado — cofiando as enevoadas barbas em que se escondiam as ilusões do seu poder curador, arrancou os olhares dos dois esposos, e apoderou-se, com fascinante domínio, de suas atenções...

— Bem pode a terapêutica dos homens... Vejo-o restituído ao fulgor da mocidade...

— É exato, doutor, passo agora sobre as moléstias como a insensível salamandra por sobre chamas... Descrendo da causa, não posso afetar-me com os seus efeitos: a sua medicina é a criadora das humanas torturas. Parece-me que já se disse: “Tirem os médicos e as enfermidades desaparecerão”... Mas, eu digo: fugi deles e estou curado. Deem-me milhões de médicos e estarão formados trilhões de doenças.

— E quem te curou, meu caro?

— A natureza...

— O novo deus pagão...

— Assim diz o doutor, mas, de fato, a inesgotável fonte de poderes curadores. Lembra-se de que o procurei exasperado com o que sofria?

— Lembro-me, sim.

— Foram tantos os diagnósticos que já perdi o direito de dar-lhes autorias.

— O Sr. era verdadeiramente um doente.

— E o dr. escreveu uma longa lista de medicamentos para horas certas e invariáveis.

— Realmente.

— Pois confesso-lhe: não fiz uso de um só. Também o doutor não foi o último médico que me assistiu. Ainda hoje louvo-lhe a sua acuidade na inspeção. Nada faltou à sua perspicácia, senão compreender que, no meu estado, as suas perguntas eram outras tantas sugestões e novos sintomas para a agravação de meu mal. Eu vivia desvairado na vontade de acusar males crescentes, e os meus assistentes porfiavam em ilustrar-me em torturas inéditas.

— Afinal... quem te curou?

— Dir-lhe-ei tudo, de começo. Hygia, a deusa da saúde, não é de todo má...

— A história vai ser a mesma de todos os doentes restabelecidos: salvaram-se pela ação do dedo de Deus, como teriam morrido pela intervenção do doutor...

— Creio que o Sr. adianta um mau conceito. Não me tenho na conta dos casos comuns.

— Desculpe-me.

— Pois não! Mas, a minha doença foi uma criação dos meus médicos, e a minha cura proveio de minha inabalável resolução de abandoná-los. Eu estava em último grau de desengano quando o doutor foi chamado. Voltei assim às mãos de um alopata. Homeopatas e feiticeiros nada fizeram de resultado para minorar os meus padecimentos. Quando adoeci, aos vinte e três anos, foi numa convalescença de enfermidade efetivamente assassina: o amor. Eu tinha conseguido, pela vez primeira, objetivar uma paixão. E, não só isto: tivera, com todo o delírio próprio da idade, a posse fácil, e passageira contra a minha vontade, de uma mulher amada. O mundo inteiro concentrou-se, ao meu sentir, nos violentos pesadelos de minha carne inexperimentada. Foram sessenta dias, mil quatrocentas e quarenta horas, ou oitenta e seis mil e quatrocentos minutos de frenético jogo de instintos, durante os quais as paradas assediaram-me a alma, remontando as fichas do meu gozo ao máximo possível. O prazo desse amor fora, entretanto, fatal. Esgotou-se e a mulher fugiu-se-me dos braços como a espiral do fumo que procura as alturas. Ao depois disto, separado do entretenimento carnal, que me combalia as fibras, como a água que vai abalar as galerias subterrâneas para derribar as minas, tive a sensação do remorso de um grande crime...

— De um crime delicioso...

— Talvez, doutor.

— E então?

— Encegueirado pelo amor, o mundo ficou às escuras sem a luz do olhar dela. Quis correr nas suas pegadas, e senti-me tolhido como a voz na garganta do atormentado por um pesadelo. Vi em todos os convivas de minha existência, terríveis sombras fantásticas... E tudo findava sempre num choro convulso, durante o qual me punha a tremer com tanta violência quanta fazia estremecer todo o assoalho de minha alcova e soar fora de tempo a campainha do relógio sobre a mesa... Senti-me muitas vezes balançado como a esferazinha de madeira que anima o trilo dos apitos...

— É curioso, deveras, o seu caso.

— Foi, doutor.

— Sim! Foi! E hoje sinto não lhe ter visto nesse tempo originalíssimo.

— Mas viu-me um outro médico e diagnosticou-me: um paranoico.

— Paranoico?

— Exatamente, doutor, e vá vendo. Aconselhou que eu me tratasse com banhos de luzes. Escravos do sentimentalismo clinico desse primeiro médico, os meus pais esgotaram uma fortuna e eu fui enormemente banhado, a contragosto, com luzes de todas as cores. Era inócuo o tratamento para me fazer bem, mas foi uma agravante dos meus males Exacerbei-me. Os meus nervos polarizaram-se como se aguçados por alta dose, mas não tóxica, de estricnina. Veio um segundo médico —já a esta hora e há muito tempo —vitimado por uma embolia cerebral. Olhou-me e disse, carrancudamente, diante de uma das minhas crises de saudade carnal: “são delírios epileptiformes”... E o tratamento passou a ser feito com altas doses de bromureto. A minha enervação deprimiu-se, e tornei-me um atoleimado, tanto que nem pranteei a morte de minha mãe, desgostosa com a minha trágica existência... Novo médico; vim a ser um simples neurastênico, com atonias nervosas. Reconstituintes, passeios, boas alimentações, prazeres, etc.: nada, porém, matava as saudades do meu instinto animal. Comecei de padecer do estômago, ora por excesso de alimentação, ou por escassez... Fui um dispéptico, padeci de insônias, tornei-me um narcoticomano. Na insônia, senti faltas de ar: novos médicos e fui um cardíaco, um artério-clerótico... Abusaram de iodetos e tive hemoptises. Um Esculápio chamado às pressas, levando em conta a minha magreza, o sangue esvaziado dos meus pulmões e o histórico dos meus sofrimentos, num rápido prognóstico, anunciou a minha morte breve, por força de adiantadíssima tuberculose. Quando os doutos senhores me interpelavam, nunca tiveram o escrúpulo de ouvir-me no que sofria somente: sugeriam-me coisas que só dali por diante eu começava de sentir. E veio um curador homeopata: os seus remédios ingeri com facilidade, pela falta de sabor. Cai num abatimento nervoso, e um vizinho, que se enforcou dias depois porque se sentiu arruinado nas suas forças comerciais, lembrou que os maus espíritos encostados aos corpos de pessoas novas, faziam artes do demo... E não só apresentou a conveniência de ser eu rezado, como também foi buscar uma velhinha, encarquilhada e brônzea, que, de sobre o meu corpo, deitado de bruços na cama, esconjurou o meu malfeitor, com um galho da famosa arrudeira...

— E nem rezado, Sr. Estefânio?

— Para o doutor ver! Nem rezado!

— É única a sua história.

— Creio que sim, mas verdadeira. Notou-se, ao depois, que eu tinha mau funcionamento renal... E foi quando o Sr. foi chamado.

— Assim acaeceu.

— E inda pensa o doutor que eu tivesse afecção nos rins?

— Se me não falha a memória, efetivamente.

— Pois escute: logo depois de sua intervenção, repudiando eu os medicamentos que o doutor indicou largamente, dois colegas seus foram trazidos em conferência.

— Que disseram eles?

— Discordaram preliminarmente do doutor, e discordaram entre eles mesmos. Do doutor discordaram reputando sãos os meus rins.

— Sãos, ou curados?

— Curados, não. Inatingidos até àquela data. E firmaram o diagnóstico de uma hepatite aguda, um encontrando atrofia do órgão e o outro hipertrofia.

— Mas, afinal, acertaram?

— Supõem que sim, porque ao depois da assistência deles recuperei a saúde.

— É espantoso, meu caro senhor.

— Não é, não, doutor. Ao tempo em que descri dos médicos, tinha reaparecido a mulher que eu amara. Visitou-me. Inflamamo-nos, e... estamos casados, não foi assim, Judite?

— Parece-me!

Assim exclamou, apenas, a sedutora mulher, com os olhos espelhando o enfeitiçamento de um lindo manteau exposto no mostruário de modas e confecções... enquanto o velho Doutor enrugava solenemente a espaçosa fronte...

Os dois espelhos (Conto), de Júlio Diniz


Os dois espelhos

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Depois de mandar retirar-se a criada, Violante foi, pé ante pé, fechar a porta do salão de jantar que deitava para a copa, e veio sentar-se junto do esposo com um olhar esbraseado e as mãos profundamente geladas.

Simeão, o esposo, estava transfigurado: um tremor esquivo no canto dos lábios e o retorcer teimoso dos bigodes, iluminavam-lhe as feições com um clarão colérico.

Ao depois de sentada ao seu flanco, impulsionando para traz a cadeirinha de balanços, Violante provocou-o...

— Faze a tua cena.

— E não é sem tempo.

— Por que te deixaste enganar se sabias de há muito e se não é sem tempo?

— Facilidades.

— Os grandes generais perdem sempre as batalhas porque facilitam. E o homem casado não tem direito a facilidades.

— Bem o sei... Quando penso no erro do meu casamento, sofro mais do que Orestes no remorso do seu crime lembrado sempre pelas erynias. Uma existência inteira para passar escravizado aos laços de uma união infeliz!... Maldita hora!

— Ah!... ah!... ah!... ah!...

— Sorris...

— E então? Hei de chorar para te sentires bem na opressão que me fazes?

— A minha vida depois que me senti enganado...

— Não tem sido menos nem mais infernal do que a minha depois que conheci o teu adultério...

— Insultas-me ainda em cima, Violante?

— Não te insulto. Repilo as tuas agressões, termo por termo. O que eu digo é que o mesmo direito que tem o homem de trazer o corpo escarolado e perfumoso para agradar às amantes, tem a mulher de...

— Não dize, Violante, a indignidade!

— Por que não dizer as coisas como elas devem ser? Só depois que senti a tua ausência do lar...

— E confessas o delito?!...

—... só depois que conheci a tua amante...

— Mentes, mulher!

—... só depois que fui ver onde entras, todas as manhãs, quando daqui sais...

— É horrível, Violante!

—... só depois de ver-te partir de lá e a tua concubina despedir-se de ti com um olhar de escândalo e tu com gestos de lastimável escravidão...

— Tu viste?

— Sim... só depois de ter a certeza de possuíres uma amante...

— Poupa, Violante, essa frase...

—... rendi-me voluntariosamente a um dos muitos homens que me faziam a corte, sabendo-me uma mulher, infeliz como outras muitas, esquecida no lar pelo marido libertino...

— É demais!

— Porque tu o quiseste. Abandonaste a tua casa. Dias inteiros passei num isolamento de aborrecer. Entretanto, fora diverso o teu proceder nos primeiros tempos de nosso casamento. Quando saías, mal eu te pensava na rua, mal eu começava a sentir a tua ausência, estavas de volta. Fui-me habituando a essa Constância fictícia. No dia em que te retardaste, pela primeira vez, chorei e nem soube, porque nunca te perguntei, a hora em que tornaste da rua... Onde estiveste? Nunca quis saber. E, até hoje, nunca te pedi a menor palavra sobre o teu procedimento...

— E como homem, senhor pleno de seus atos, eu te negaria informações.

— Pois bem! Para evitar essa negação, nunca tas pedi, ciente e consciente de que sobre o meu procedimento, dentro do nosso lar, não te devo satisfações... São elas por elas...

— Abusas...

— Corrige-me se puderes... Não és o meu marido?... Toma conta dos meus atos! Soubeste que te trair?... Mata-me, ou expulsa-me de teu lar. Faze o que entenderes, certo de que atrás de mim haverá quem vingue as tuas incontinências e perversidades...

— E sabes quem é a minha amante?

— Se sei, Simeão?!...

— Crias um conhecimento para justificares a tua falta. Mentes, pois: não conheces ninguém...

— Só com o riso!... Ah!... ah!... ah!...

— Toma tento, Violante: enveredas por um caminho em que a minha paciência se esgotara afinal...

— Ainda em cima me ameaças?

— Sou senhor dos meus atos, dono de minha casa, e exijo que me confesses tudo... Quem te mentiu que tenho uma amante?

— Ninguém!

— Ninguém, como?

— Desconfiei e fui ao teu encalço...

— Não falas a verdade, Violante.

— A certeza das coisas é adquirida quando nos abeiramos delas. Moléstias mortais, por miasmas exalados dos paus, só as contrai quem lhes vai à beira. Acompanhei-te os passos... Foste ao subúrbio... Olhas-me agora atravessado? Nega então que te falo a verdade como ela é?!... Por favor, desmente-me, se és capaz...

— Juro-te que não sei do que se trata.

— Perjuro!... Então, toda a manhã não vais daqui à casa de Idália... Não me interrompas, não... toda a manhã, não passas lá horas esquecidas, quando sais não fica ela por traz da gelosia a acenar-te e tu a corresponderes-lhe os acenos de apaixonada despedida?

— Ousada! Além do mais, injúrias à mulher de um amigo da nossa família...

— E que é a tua amante...

— Pois se é, está tudo muito bem... Escolhi-a por minha muito livre vontade... Constou-te já que eu tivesse desrespeitado o nosso lar? As minhas obrigações maritais concluem-se, quando saio, na porta da rua, e começam, quando entro, no mesmo ponto em que as deixei... Portas a dentro, estou eu casado, e arrependido de ter renegado a Jessy a quem jurei culto eterno, aliás, em tempos melhores... Casei por uma suposição de momento: a solidão de solteiro era um suicídio de todos os dias. E só não me enganei em supor que o matrimônio me facilitaria relações difíceis antes de ter as qualidades de senhor duma mulher... O mundo inteiro me foi pequeno sempre que tive em mente a tua companhia, e, inda hoje, Violante, se me lembro de ti, o maior prado é um pequenino jardim, o maior céu é a entrada de uma furna... A companheira é um tormento. Tomei uma amante... mas, dentro desta casa, fui sempre o mesmo homem respeitador...

— Outro tanto te alego eu... Mentirá aquele que disser me ter visto, sorrateira ou clandestinamente, embuçada ou mascarada, penetrar em lugares escusos, ou ao lado de algum homem que não fosses tu... Casei-me por inexperiência... Supus ser inextinguível a paixão momentânea que ditou o ato de meu infortúnio... Escravizei-me enquanto o meu marido também foi meu escravo... Libertou-se ele, libertei-me eu... Adquiriu uma amante...

— Retém-te, Violante!...

— Não! Hei de dizer-te como tu me disseste... Ninguém pode viver longe do pecado depois que pecou uma vez... Também tenho um amante, Sr. meu marido!...

— Intolerável!

— Também tu o és!

— Adúltera!

— Deixemo-nos, Simeão, de ápodos... Tenho língua e liberdade para tos devolver todos, um por um...

— Saber-me traiu...

— Nada mais natural: queimou-te a brasa com que me queimaste... Quando nada, não terás de lastimar a alarvidade da tua esposa... Foi uma mulher digna do marido que lhe deram...

— Sinto faltar-me a luz da vista...

— Impressões, Simeão.

— Pois é justo que me consinta enganado?

— Não nos desonramos...

— É um consolo ridículo.

— E que dirias tu se traída eu não te traísse igualmente?

— Diversa é a situação do homem, Violante.

— O casamento nivela os direitos de ambos os sexos... Espontaneamente nos submetemos a esse regime de igualdade...

— Doloroso!

— Assim exclamei, Simeão! Agora, porém, me sinto melhor: não me enganaste, e isto deve ser glorioso para ti, enganamo-nos...

— E o teu amante?

— Dispensa sabê-lo...

— Ah!... Repilo a lembrança que me ocorre... Não, não é possível!... O massagista...

— Rende justiça à tua mulher, Simeão! Pois não vês que eu me não vingaria de ti amando um homem indigno por todos os títulos, que te fizesse corar perante a sociedade, e que me fizesse enrubescer diante de ti?

— Então... Desabafa-me!... Sê completa!

— Insistes em conhecer tudo?

— Não duvides que o quero de coração.

— É Lourival...

— O marido de Idália?...

— Decerto.

— Ah! como somos, do modo mais vil, dois espelhos que se refletem conjugadamente...

— Mas eu estou vingada...

Interrompendo-os, a criada de copa, do lado de fora do salão, perguntava aos harmonizados esposos, se podia servir o jantar...

E quando a sala se reabriu, reinava ali completa paz...