sábado, 7 de outubro de 2017

Bem-me-queres (Conto), de Delminda Silveira


Bem-me-queres

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Sentados à sombra de frondosos salgueiros, à beira do rio, bordado de verdes moitas em flor, Jano e Clarinda descansavam enquanto pelo outeiro verde suas cabras pascem.

— Aposto, diz Clarinda, — a Cabrerinha gentil, que a mulher sabe amar, enquanto que o homem, só sabe fingir!

— Então, crês tu que o meu amor seja fingimento? pergunta-lhe, sentido, Jano, o pastor.

— Oh! Não... não! acode vivamente Clarinda; só penso que o meu excede em muito o teu, disto, o contrário, só o acreditaria se de Deus o pudesse saber.

Jano levantou-se dizendo: — Pois bem; de Deus o saberás.

O verde prado cobria-se de dourados mal-me-queres, como de estrelas o céu das noites sem luar. O pastor colheu um feixe deles, e, espalhando-os no regaço de sua amada, disse: — escolhe um; eu tomarei outro e vejamos o que Deus diz.

Clarinda tirou um viçoso exclamando: Oh! Este tem o viço e beleza do meu afeto: quero-o! Jano tomou outro dizendo: Prefiro este cujo centro tem uma auréola verde; é a coroa da minha esperança!.

A Cabreirinha arrancou a primeira pétala à mimosa flor, murmurando: malmequer; Jano repetiu imitando-a: mal-me-queres...

E as duas petalazinhas de ouro foram lançadas à corrente.

Clarinda arrancou segunda pétala: bem-me-queres, disse; o pastor secundou-a: bem-me-queres: de novo as pétalas mimosas foram lançadas à corrente.

Assim prosseguiram, e o rio já carregava em suas mansas águas cristalinas mil petalazinhas de ouro; poucas já se prendiam agora ao cálice da flor.

Jano e Clarinda fecharam os olhos e prosseguiram a ventura.

Quando ambos tinham pronunciado bem-me-queres, e receosos, tatearam, procurando outra pétala, eis que suavíssimo canto se derramou no espaço... Abrem ao mesmo tempo os olhos; nas mãos só lhes restava o cálix da graciosa flor!

E o sabiá, no galho florido da laranjeira, saudava aqueles ditosos amores que Deus, dos Céus, patrocinava!

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