sábado, 7 de outubro de 2017

Sonho (Conto), de Delminda Silveira


Sonho

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Não vês o floco de branca nuvem a deslizar pelo Oriente, como se doura aos raios do sol que nasce?

Tal é a tua existência: — nuvem mimosa e alva que passa imaculada, até que uma luz bendita a doure com seus raios puros, para, depois, desfeita em pérolas, cair; — orvalho consolador —, sobre as florzinhas da terra. Vai; o dia desponta no Levante. Deixa que a aragem matinal faça deslizar o teu pequeno batel por entre as ilhas de nenúfares em flor; além, ele abicará; eu aí conduzirei o teu desposado.

Assim, no sonho de Ivanina a gentil pescadora, — falara um anjo de nívea roupagem e grandes asas prateadas.

Ivanina acorda sobressaltada. Antes de adormecer, ela fizera ao seu anjo uma doce prece, eis que vem de sondar o doce mistério que a perturba.

Do lado do Oriente adelgaçavam-se as brumas da manhã, descobrindo verdes montes coroados de palmeiras que semelham lindos cromos estampados em azul.

Por entre margens cobertas de trepadeira florida, o lago se estendia sereno e prateado. Vestida a maruja, Ivanina a gentil pescadora —, chega, desprende a barquinha, ligeira salta dentro, e, reclinando-se, deixa que a plácida corrente a conduza por entre as ilhotas de nenúfares em flor.

Ao suave deslizar do batel, volta-lhe o sono, e com ele o sonho encantador.

Agora, porém, o anjo de brancas asas prateadas e longa e nívea roupagem, coroa-lhe a fronte com as flores virginais da laranjeira, e, tomando-a pela mão, a conduz a um altar florido...

O batel abica a margem; Ivanina desperta assustada, cobrindo-se de vivo rubor à presença do mancebo gentil que, sorrindo, estende-lhe a destra.

Era aquele que devia levá-la ao altar, para com a luz de um abençoado amor dourar-lhe a existência imaculada, como o sol ao nascer doura o floco de mimosa nuvenzinha branca que se desliza pelo Oriente.

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