quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Cabeça e coração (Conto), de Visconde de Taunay


Cabeça e coração (Esboço psicológico)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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I
— Repare, Betina, na pungente diferença de idade que se interpõe entre nós e dolorosamente nos separa um do outro. Nada de ilusões de ambos os lados. Eu poderia ser, não já seu pai, mas até seu avô. Veja como a mão do tempo me pesou sobre a pensadora cabeça, o contraste dos meus cabelos brancos com a sua cabeleira negra, exuberante de esplendor e seiva, verdadeiro diadema da mocidade. Como querer unir as sôfregas impaciências das primeiros anelos da primavera à meditada calma dos últimos dias do outono? O presente não responde pelo futuro. Mil coisas imprevistas nos esperam nos muitos meandros da existência. Por mais que a razão prepondere, por mais que busque guiar-nos e conduzir com segurança, cumpre contar sempre com as surpresas do destino. A vida é rio misterioso em que não há piloto, por mais prudente e experimentado que seja, capaz de prever todos os perigos e fatais correntezas, para lá de breve curva que o olhar aliança... E quer Você que eu me constitua a causa da perda de muitas ilusões suas, preciosas, repassadas de encanto e sonhos, quando o viver se abre ante os seus passos tão cheio de esperanças, promessas e alegrias? De orgulho se intumesce, decerto, o meu peito por conhecer hoje, tão de perto, a intensidade do afeto que a sua generosidade me dedica; mas urge que eu saiba resistir ao seu arrastamento... e ao meu, também. Eu desposá-la? Um velho, para assim dizer, chegado quase aos sessenta anos! Prendê-la a mim, formosa, cobiçada por tantos, rica, sedutora? Fora loucura de ambos... E que diria o mundo?

— Que me importa o mundo? Replicou arrebatada a bela e nevrótica donzela após curto Silêncio. Não lhe incumbe, a ele, preparar-me a felicidade que a sorte complacente me indica e que devo alcançar por mim mesma. Muito tenho pensado, muito perscrutado nos recessos mais íntimos da minha alma e no fim acho que, de todas as homenagens, reais ou fingidas, prestadas pelos homens, só me fica a lembrança, viva, suave, profunda, da sua superioridade, Antenor, sobre todos. Conheci-o sempre tão diferente dos mais; Sinto, que a minha vida, sem a sua presença, o seu contato, o seu apoio terno e varonil, de infinda e vibrante meiguice, se me tornará tão vazia, tão oca, estéril e pesada, que só essa possibilidade me incute letal tristeza, desalento enorme até ao fundo do coração. Que sentimento senão o da verdade me leva a falar-lhe assim? Bem sabe, consigo não guardo segredos. Não poucos ambicionam a minha mão, desde aqueles que só tem por si a banalidade da juventude, até aos que buscam deslumbrar-me com as posições e honras conseguidas. Todos me tem falado de amor; só o Sr, conservou a originalidade do Silêncio, embora há muito reconhecesse eu que, no íntimo, não era, não podia ser-lhe indiferente...

— Oh! Sim, interrompeu ele com sincero arrobo, quantas vezes me achei sem forças para reprimir ímpetos, que, nem aos 25 anos, jamais me conturbaram?! Por compaixão, não me coloque em posição difícil... ridícula, aos meus próprios olhos...

— Até que invertidos os papéis, continuou exaltada a moça, pude enfim arrancar-lhe o seu segredo. Já sei, afianço-lhe o que é ser-se feliz! O que experimentei naquela tarde decisiva, em que, após todos os seus acanhamentos e resistências bem leais e valentes, o ouvi discorrer com máscula e irresistível eloquência sobre o amor, aplicando-o a nós dois, é indescritível... Não cerrei os olhos um só minuto; e a madrugada me encontrou à janela triunfante, mas alquebrada, ardendo em febre...

— Betina, Betina, implorava Antenor no tom de brando e dorido queixume, quanto me arrependo de não ter sabido vencer-me... Perdoa o sonho... mais calma!

— Que quer, meu bom amigo? Atua em mim também a influência do nome que me deram. Será Você... serás... o meu Goete!

— Mas aquele era um gênio, um ente privilegiado, a glória de uma grande nação, o orgulho da inteligência humana: tudo merecia, a admiração dos homens, as homenagens do mundo inteiro, o amor das mulheres, a adoração de todas as idades. Subira passo a passo como sol ofuscado em firmamento sem nuvens, tocara ao zênite, cada vez mais rutilante, e ao acaso, a transmontar, iluminava com deslumbrante fulgor o século em que vivera. Protestava-se a natureza intelectual ante aquela força criadora, tão grande que parece impossível excedê-la. Fez, com efeito, vibrar todas as fibras do coração; desvendou-lhe, como o divinal Shakespeare, muitos dos seu segredos; e abrangeu as mais árduas questões da ciência; resolveu por mera intuição abstrusos problemas; revestiu todas as formas – Proteu estupendo e sempre admirável, ninguém o igualou na extensão e profundeza da inspiração e do saber!...

— Serás o meu Goete, insistia Betina bebendo as palavras do seu apaixonado e fitos nele os quebrados e amorosos olhos; cada qual vive e se expande no círculo em que o destino o fez nascer. Tivesses tido o palco que ele, o gênio, pisou, e a tua glória houvera passado muito além dos limites que conseguiste.

Quem põe, assim mesmo, em dúvida a tribuna, o teatro, as letras, a justiça dos concidadãos? Serás o meu astro vivificador, o meu sol... Felizes das que te viram e te deram o tributo do seu amor em teu zênite. Para mim fora até demasiado forte o teu brilho de então. Contento-me com os raios desse ocaso, já que tanto me falas nele... Aliás, que sou eu senão simples prolongamento do teu espírito, da tua vida moral? Quem me educou a alma, me infundiu o gosto e o gozo da leitura, ávida, insaciável? Quem me guiou no labirinto da literatura, me fez viver a vida dos antigos, me incutiu o entusiasmo das obras primas, o amor do belo, da arte, do honesto, do puro, do sublime? Que sou eu senão um filha da tua inteligência, do teu gosto, das tuas inclinações ideais e sentimentos? E com a felicidade ao alcance da mão hei de deixá-la escapar por preconceitos e convenções que aborreço e a que não se dobra a minha altivez inata? Que fazer de mim, se antepuseres os argumentos da fria razão a todos os impulsos da nossa alma? Valerá tão pouco, aos teus próprios olhos, a criatura intelectual que afirmaste e é obra exclusiva tua, que, em nome de um enlace bem equilibrado segundo leis físicas, meramente materiais, a atires, sem consciência nem remordimento, nos braços de qualquer peralvilho ridículo, nulo, brutal ou efeminado?

— Já vivi demais, objetava Antenor com sensível ansiedade patenteando a luta que se lhe travara no íntimo, e o que sei da existência me ensinou a desconfiar do que me resta viver... Acostumam-se os passos do homem tanto a subir, quanto a descer, e agora só me toca ir baixando, costas voltadas para o ponto culminante da parábola vital... Tenhamos ambos justa compreensão das coisas... saibamos resistir a nós mesmos...

E com os olhos a brilharem de emoção, dificilmente refreada:

— Calcule os esforço que me custa este apelo. Imagina abandonada estátua em florido jardim a repelir, se lhe fora possível, o pendão de rosas que busca engrinaldar-lhe a fria e marmórea fronte... imagina viajante exausto da cansativa jornada a fugir da fonte fresca, pura, sussurrante, que lhe vai estancar a sede e restaurar-lhe as perdidas forças... Terei, porém, energia; afastar-me-ei daqui, destes lugares que tanto estremeço, bem sabe a causa, deixá-la hei neste ambiente de perfumes e mágicos encantos, do que a minha alma levará sôfrega algumas parcelas para suavisação de imensas dores futuras... e depressa virá o esquecimento, o olvido certo e merecido, dar-me razão. Rapidamente a ausência me envolverá em densas trevas... Experimentemos, Betina...

— Fora rematada loucura, indigna da sua reflexão, contrária a tudo quanto lhe ensina o conhecimento que tem do coração humano... Pelo menos, assim se me afigura... Por mim quero julgá-lo. São susceptibilidades de exagerado melindre, de exaltado e meticuloso cavalheirismo, que mais o levantam aos meus olhos... Aliás, para que e como discutir sentimentos?

— Dolosa conselheira é a imaginação... Não se deixe enlevar por fugitivas ilusões.

— De que vive o amor, qual o seu perene alimento, senão a fantasia? Deixe-se de hesitações que afinal acabam por deslocar-me, longe demais, do meu papel natural. A mim não competia vencer resistências dessas, sobretudo com o meu gênio altivo e independente... Quer Você argumento superior a tudo? É este o ímpeto que me impulsiona, o meu desejo supremo... e basta!

Prosseguindo com voz insinuante:

— Descanse em mim, Antenor. Aceito o símile de que há pouco usou: coroarei de rosas e lírios os seus dias. Entregue-os, sem receio nem vacilação aos meus cuidados. Tomo compromisso solene, no momento em que eu suspeitar de mim mesma, qualquer falha, o menor desfalecimento na adoração que lhe consagro, abrir-lhe-ei o peito na mais depuradora e completa confissão, achando novo alento nos seus conselhos, na sua direção espiritual, no seu apoio tão cheio de experiência e meditação. Falte eu a esse juramento, bem inútil e... deixarei de viver... Por ele respondam a minha salvação eterna e as sagradas cinzas da minha pobre mãe, tão cedo perdida!... Para que, porém, formularmos cruéis hipóteses em plena alegria? Para que pensar em catástrofes e nos horrores de subversões morais, quando tudo sorri em torno de nós?... Cogitar em medonhos terremotos, cercados dos esplendores da natureza boa, sugestiva, amante, toda ela hino de paixão exultante e criadora, na plena segurança da estabilidade das coisas e da bondade divina, não será tentar os céus?

E Betina, encostando a escultural e imaginosa cabeça ao ombro do nobre e esbelto varão, o escolhido da sua alma, ali ficou extática, sentindo as pulsações de um coração em que cegamente confiava e de cuja lealdade tinha, já de largos anos, todas as provas possíveis.

Invadia-lhe o ser todo intenso desvanecimento: inspirar amor profundo, irresistível, a quem merecia da mais culta sociedade acatamento e incontrastável prestigio por inúmeros dotes da inteligência e do caráter, e haver sabido resguardar-se para esse ente excepcional, deixando que a razão e o sentimento apontassem à sua escolha de entre os muitos que a requestavam e lhe faziam solicita, ardente e zelosa corte, já pela inegável beleza, já pelos avultados bens que mais realce davam à formosura e a raro cultivo de espírito!

Tempos depois, casavam-se Antenor e Betina.

Duas ou três semanas, foi assunto de todas as conversas o disparatado enlace, cuja iniciativa, assim se dizia e cochichava, pertencera mais diretamente à desposada; mas afinal, acalmada a bisbilhotice, acabou a sociedade, por admirar, com surpresa e inveja, a serenidade que protegia com as suas brancas azas o ditoso lar, naquela união íntima do fulgor da juventude com a majestade, ainda que decadente, de uma existência credora, certo era, do respeito de todos.


II 

Dois anos de profunda calma, senão de real e bem acentuada felicidade.

Sentia Betina tanta paz de espírito, tamanho sossego de corpo, como que misterioso e inquebrável Silêncio dentro e em torno de si, que aquilo lhe parecia mais torpor e adormecimento de todo o seu ser, outrora tão irrequieto e caprichoso, do que mesmo tranquilidade. Estabelecera-se natural prolongamento da depressão que à mulher costuma trazer o casamento em sua iniciação física, caracterizada, mau grado todas as meiguices e cautelas, por um cunho feroz de lubricidade e violência. Daí, surpresas imensas, dolorosos retraimentos e cogitações deprimentes, que só podem ser atenuados e vencidos pela impetuosidade e pelos ardores do noivado.

Em lugar, pois, de experimentar do objetivo alcançado intensas alegrias tão esperadas e prometidas pela imaginação, via nele, pelo contrário, motivos de desalento e desengano, com que decerto não contara. E por essas falhas do sentimento sincero e violento que a envolvera toda à maneira inteiriça e inatacável couraça, se lhe ia insinuando, lenta, mas insistentemente, inexplicável tédio da vida, desgosto de si mesma e, mais que isto, a impressão de um castigo por falta, ou erro, e erro irreparável, inconscientemente cometido. Buscava analisar o que lhe ia n’alma e afigurava-se-lhe que penetrava sem guia, nem fio, em um labirinto inexplorável, cujas voltas de todo desconhecia e que a deixavam perdida em densas trevas, sem mais orientação possível. “Que tenho?” perguntava com certo terror a si mesma nos rápidos momentos em que ficava a sós e livre da solicitude, aliás tão inteligente e estremecida do esposo, todo carinho e suavidade. “Porque não me sinto completamente feliz? Que me falta? Quero sê-lo; quero, eis a minha vontade, e nada a ela resiste. “Punha, portanto, esforçado empenho nisso, mas o desânimo caminhava a par das mais valentes intenções; de onde, alguma irritação já contra a serenidade que Antenor dispusera ao derredor deles dois com tanta discrição, quanto zelo. Parecia-lhe um desencontro. Teria talvez, quem sabe? achado mais adequada a inversa, expandir-se em festas e no ruído do mundo. Aspirava ele a concentração cada vez mais íntima, na identificação de todos os gostos e preferências, ao passo que Betina experimentava nesse círculo, que lhe parecia apertado demais, desilusões vagas, pouco definidas e no íntimo apelava para mais alguma agitação afora, a fim de dissipar o tão inesperado e inconcebível mal-estar. E com isso iam despertando, inquietos, atentos, malévolos, os singulares e contraditórios ímpetos do nervosismo que desde menina tão imperiosamente a haviam dominado.

Deixando-a apática, retraíra-se-lhe a imaginação como pérfido ou descuidoso companheiro que, depois de levá-la arriscado passo, de repente se sumira, trêfego, desleal, abandonando-a sozinha em perigoso lance. Buscava ver só razões de aplauso no enlace que formara, muitas vezes enumerava, ainda com orgulho, as qualidades que, aos olhos de todos, tanta preeminência davam a Antenor; e já lhe iam nascendo impaciências por encontrá-lo tão perfeito, segundo o que lhe podia exigir a alma com esfera pura e elevada.

Toda essa evolução, porém, em extremo lenta, morosa e a se arrastar, como insidioso réptil, de um dia para outro, formando uma só cadeia de elos tênues, irrompível.

Quis Betina voltar-se para o passado e nele estudar a história da paixão que a avassalara com tanto império, fazendo-a vitoriosa de não poucos tropeços, resistência do tutor, conselhos e rogos dos irmãos, das amigas e até daquele que afinal se tornara seu esposo, e ficou pasma de haver posto tão grande violência a coisas que agora lhe pareciam, senão de todo mortas, quase indiferentes.

Embora aborrecendo os livros naquela quadra fatal, ela que devorara quantos lhe haviam caído debaixo da mão, releu pausadamente as obras do marido e releu-as com os olhos da crítica prevenida e disposta a severidades e não mais com os arrastamentos e simpatias do coração. Achou-as corretas, em puro estilo; mas, como de fato eram, frias, alambicadas, demasiado polidas, sem esse colorido, essa espontaneidade que atrai, agarra e dá à ideia vida original, brilhante e por vezes imortal. Pareceram-lhe então as poesias de Antenor, na sua perfeição métrica e rítmica, reflexo pálido, esbatido, de versos de outrem, já lidos, não sabia quando, há muito tempo, cuidadosamente açacaladas, mas sem fibra, nem estro; assim essas figuras aéreas, subtis, insubsistentes, destituídas de formas e contornos claros, que espelhos combinados de longe e em certa inclinação chegam a reproduzir no espaço e fazer flutuar como fantásticas visões. Na exuberância de tropos, na difusa abundância de palavras, faltavam os músculos, nervos, circulação de fluido intenso, cálido, vivificante, aquelas evocações. Aparições como que de uma existência anterior, já passada, já extinta, a suscitarem só saudades na indecisa e ansiada aspiração à realidade.

As intermináveis palestras, repassadas de tamanho encanto em que tanto havia aprendido, a ouvir Antenor discorrer horas inteiras sobre um sem número de assuntos com suave eloquência e indiscutível saber, agora lhe pesavam na sua feição de legítimas conferências sem razão de ser nem cabimento. E, na indeterminação do que mais podia agradar-lhe naquela fase de inexprimível displicência, ora as cortava por modo repentino, quase áspero, desagradável.

Preso não pouco tempo o seu espírito à direção e influência exclusivas de Antenor, aspirava, quando menos convinha, a reconquistar a liberdade, a readquirir independência e autonomia no modo de encarar as coisas e questões. Por isto também achava prazer especial e acre em contrariar, a princípio timidamente, mas depois bem de frente, opiniões e sentimentos que, contudo, no fundo e na essência, reconhecia justos e indiscutíveis.

Nessas ocasiões ainda a pungia o olhar surpreso e magoado de Antenor, que buscava logo, prudente e cavalheiroso, impedir qualquer causa de azedume e dissidência entre ambos, por mais passageira que fosse.

Mas a cautelosa e meiga condescendência do marido se, nos começos, lhe levava ao íntimo certo travo de remorso, depois se lhe foi tornando motivo de mais irritação.

Quisera encontrar impugnações varonis que lhe desbaratassem os caprichosos e premeditados argumentos e dessem curso diferente aos pensamentos. A encrespação de injusta que lhe irrogava a própria consciência foi-se curiosamente transmudando em propósito formal de Antenor para afirmar cada vez mais o assinalamento da sua superioridade.

E tudo isto, que se desenvolvia lenta e gradualmente nos recessos mais recônditos da alma, em vez de desvendá-lo com leal e nobre franqueza ao esposo, conforme tanto prometera, encobria-o acautelada, possuída talvez do vexame de si mesma.

Por tal forma, porém, serena a superfície do formoso lago, que ninguém poderia sequer desconfiar das correntes encontradas que se moviam nas profundezas da massa líquida. No exterior, tão somente toques de sensível melancolia, sombras, embora leves, como que de longínquas nuvens a perpassarem adelgaçadas sobre o disco do sol.

Nessas dúvidas e agitações, conheceu Betina que já era mãe.


III 

Terríveis os meses de gravidez. Despertou vivaz, impetuosa, a imaginação de Betina, sujeitando-a, em longas semanas de impossível descanso, a agudo e assustador sofrimento.

Não pensava senão em desgraças e morte, quando não era na perda completa da beleza, na insanável deformação do corpo e dos encantos físicos, hipótese ainda mais intolerável ao conturbado espírito.

Desenvolvia Antenor, punha em prática todos os recursos da solicitude e da Paciência, da razão e do sentimento, para combater e dissipar essas tétricas apreensões, que revestiam mil formas caprichosas e de feroz nereustemia; mas, não raro, já no íntimo se reconhecia cansado de tarefa tão ingente, em que não lograva senão mui parcialmente os justos fins.

Começava, aliás, a entrar-lhe a convicção de que naquele enlace não se dera, nem mais podia dar-se a sonhada e indispensável identificação das duas naturezas, moral e física, e Daí razões de inquietação, embora cuidadosamente refreada e comprimida nas mais vagas cogitações.

Zelava as menores aparências de um estremecimento, que, apesar de toda a sincera intensidade, no fundo o fadigava, desviando-o, com imperiosa e constante exigência, dos estudos literários e das pesquisas filosóficas, que lhe eram tão caros e tanto lhe haviam antes amenizado e embelecido a existência. Verificava, então, com sobressalto, que se enganara, ele também, havendo já de muito passado a idade, transposto os limites, em que a mulher é absolutamente tudo, o ídolo, o culto exclusivo, a origem, o centro dos mais extraordinários e absorventes sacrifícios e dedicações. Amava, de certo, profundamente a esposa, de cuja posse experimentava tanta ufania, mas quisera nela encontrar uma fonte de alevantadas inspirações intelectuais, e não uma causa de perene perturbação, a girarem ambos num círculo de apertadas ideias, sempre as mesmas e sempre a renascerem, quando pareciam desvanecidas e até sufocadas.

No meio de todos os sustos e terrores, um consolo tinha Betina; a inabalável certeza de que o filho (pois obrigatoriamente, no seu entender, havia de ser um menino) traria dos mundos desconhecidos gênio e beleza irresistíveis, destinado, como devera ser, a futuro raro, bem raro, nos anais dos fados humanos. E com a exageração que em tudo punha, uma vez abertas as azas à imaginação, já o via no pináculo da glória, cercado de resplendente aureola, ilustrando de modo ofuscador o nome dos pais, guindado às mais altas e cobiçadas posições sociais. Que poeta havia de ser, que orador e estadista! Ninguém o sobrelevaria em talentos, majestade e formosura, além da inata distinção. Com a singular condescendência de mãe, aprazia-lhe ao pensamento a ideia de que mulher alguma poderia resistir à sedução de ente tão superior.

Nasceu, com efeito, um menino; porém, só em parte realizava as douradas esperanças; se tinha notável correção e delicadeza na graciosa miudeza dos traços fisionômicos, pela debilidade geral e melindrosa compleição mostrava que não viera à luz apercebido dos meios para as lutas da vida. Pode, graças a cuidados nunca vistos, resistir ou antes definhar uns treze meses; mas afinal partiu para o céu. Nem havia como prendê-lo por mais tempo à terra.

Indescritível a dor de Betina. Esteve entre a vida e a morte e quase acompanhou o filhinho. Vencida, por fim, a agudeza da crise, que não pouco durou, de todo o crudelíssimo período lhe ficou singular impressão, o direito de irrogar; lá de si para si, formal acusação ao marido. A ele incumbia ter incutido alento e força, valentia orgânica e vitalidade ao ente que haviam criado, a ela beleza e graça; e se um cumprira a sua missão, o outro ficara muito aquém. E aí, refletia com pungente insistência na diferença de idade, que lhe haviam todos, anos antes, apontado como irreparável desacordo, emergindo dessa dolorosa meditação medo imenso de ver renovados os desenganos e as provações da maternidade.

Com a injustiça própria do caráter humano, achou que a resistência de Antenor não fora, por egoísmo, bastante leal e vigorosa; talvez mais um meio de fortalecer e acender pela contrariedade o capricho e a teimosia, as violências da imaginação, o amor de cabeça, em suma, que a levara ao casamento. Fazia-se então de vítima imolada ao interesse de outrem. Fuzilavam-lhe até na mente feias e deprimentes conjeturas que, indignada consigo mesma, buscava a todo o transe abafar e reprimir. Quem sabe se aquele homem... aquele velho, não havia particularmente visado à sua fortuna, aos bens que lhe constituíam quantioso dote?

E, apesar de todo o empenho em desviar-se desse resvaladiço declive, via-o sempre aberto à meditação, a atrair-lhe os passos, tão fácil é a insuflação de malévolo pensamento, perigoso gérmen, pronto logo a crescer e deitar fundas raízes.

Por esse tempo, julgou Antenor dever recorrer à agitação da sociedade para dar derivação e lenitivo à acabrunhadora tristeza da mulher. Não foi, porém, sem custo quer conseguiu arrancá-la ao marasmo e levá-la a bailes, teatros, concerto e festas.

Como radiosa e incomparável revelação apareceu então Betina aos olhos do mundo, realçada a peregrina beleza pela simpática melancolia, que lhe ensombrava o demasiado fulgor. Surpresa e um tanto ourada do movimento que tamanho contraste fazia com o modo de viver passado, docemente a acariciaram logo as homenagens de que se viu jerarquia, já, e ainda mais, pela admiração dos homens.

Também, em pouco tempo, mau grado as relutâncias do marido que via ultrapassado o objetivo colimado, entregou-se ela de todo às complicadas e intermináveis imposições da convivência social, sem mais se importar com as censuras tácitas de Antenor bem acentuadas pelo cansaço físico, que a este não era mais dado ocultar.

De volta de brilhante baile, prolongado até a madrugada, nesse mesmo dia havia que tomar-se parte em pomposo e longo banquete e, logo depois seguir para algum teatro ou concerto, em que se tornava obrigatório o comparecimento de todo o high-life – uma roda viva, enfim!

Para longe, a tranquilidade do lar, as horas plácidas, iguais, mas tão suaves, consagradas ao sossego a às doces expansões da vida interna e de família! Com avassalador despotismo e no meio do ruído e de mil leviandades, era agora o mundo que regulava a vertiginosa existência daqueles dois entes, mal lhes dando tempo para respirarem.

A Betina, decerto, não faltaram adoradores que sem rebuço, aspiravam à sua conquista, tributando-lhe incessante e entontecedora corte. Conservou-se, porém, superior a todas as tentativas e a qualquer desfalecimento e, em certa ocasião, chegou a entregar ao marido cartas de um dos seus mais ardentes apaixonados, escritas com a sincera eloquência de um sentimento veemente, incoercível.

Nessa difícil e delicada emergência, procedeu Antenor com tão imediata decisão, tanto tino e melindroso apreço dos seu direitos e interesses, que granjeou os aplausos gerais da sociedade e mais se levantou na estima de todos. Ficou-lhe grata a esposa por tê-la desembaraçado tão jeitosa e energicamente daquela comprometedora assiduidade, que do seu lado repelira com toda a altivez.

Nem por isto, porém, cedeu menos ao arrastamento dos bailes e das soirées.

Numa dessas noites, foi que, pela primeira vez viu e conheceu Fernando de Aguiar, há pouco chegado da Europa. Apresentado por uma amiga entre duas quadrilhas, com ele dançou umas voltas de cerimoniosa valsa e trocou algumas palavras indiferentes.

Sem saber pelo que, porém, sentiu-se toda perturbada, com repentino aperto, quase dor, de coração, angustiada, como que presa de grave e indefinível mal e deu-se pressa em regressas à casa. Deitada, só pode conciliar agitados momentos de sono, quando os raios da aurora acariciaram doce e palidamente as janelas do seu belo e senhoril palacete de residência.


IV

Para Betina começou então uma existência de contínuo suplício. Invadira-lhe o ser todo, de repente, de momento, como cidade tomada de assalto, por indomável horda, a mais violenta paixão, um desses movimentos de irrefreável impetuosidade, que não consentem a menor resistência, um só minuto de reflexão, a mais simples contrariedade, a mais leve objeção íntima. Era coisa fatal, infalível, que se impunha como ordem sobrenatural, a que não havia senão curvar-se e obedecer.

Imagine-se vasta represa de água, cujas falhas no muro de sustentação quase lineares e invisíveis de súbito de abrissem como brechas enormes, deixando que toda a massa líquida irrompesse louca, devastadora, em ondas, catadupas e medonhos torvelinhos.

Tanto buscara ela outrora estudar o arrastamento que a pouco e pouco, passo a passo, a levara aos braços de Antenor, tanto analisara em todas as faces a meiga influição daquele doce afeto, declive caro aos seus instintos, quanto, agora, impossível lhe era ter mão no pensamento, guiá-lo, dirigi-lo e calcular qualquer das consequências desse novo e tão diverso sentimento.

Amava porque amava, não achava outra razão; vassalagem a uma lei de irresistível império e lei como que meramente física, pois se afirmava pela dor acerba, teimosa, intolerável, no organismo todo, — pontadas, sobretudo, finas, agudas, terebrantes no coração, a penetrar-lhe as fibras mais secretas, sufocações que quase a faziam desmaiar, a sós, no fundo do seu quarto, ardendo em febre e rolando convulsamente sobre o leito, que lhe não dava um instante de repouso.

Era todo o seu corpo presa de verdadeiro abrasamento, arredada da conturbada e estupefata mente qualquer lembrança que não fosse ele, só ele! Não queria, ou antes, não podia examinar, por pouco que fosse, a origem de tamanha absorção, esse aniquilamento de toda a posse sobre si mesma, ficando-lhe vedado indagar se Fernando de Aguiar valia tanto, tanto assim e porque acendera tão violentas chamas.

De certo, não tinha o ideal de tão ardentes sonhos nada que o salientasse particularmente do comum dos homens, nem sequer o físico, mais para o insignificante e o vulgar do que para a exceção. Ah! sim, possuía a mocidade, e dela emergia pujante, vitorioso, como um hino de saúde e força, esses prestigio imenso que Betina, anos atrás, capitulara de simples banalidade da juventude. De quanta possança, porém, esse pretendida banalidade! Que de regalias e privilégios na encantada primavera que floresce uma vez só e não mais se renova e volta! O brilho vivo, cintilante, dos negros olhos de Fernando de Aguiar, bem rasgados e um tanto audazes, o acetinado da cútis, a arrogância do sedoso bigode arqueado sobre os lábios rubros e úmidos, valiam antão mais, mil vezes, do que os mais belos versos e as palavras mais doces e convincentes de Antenor, veladas pela melancolia dos anos já passados.

Aí era o coração que decidia, entorpecidos a razão e o raciocínio, naquela dolorosa e acabrunhadora hipnose.

E cada vez mais se acentuavam os sofrimentos físicos de Betina, cuja saúde começou a ressentir-se seriamente de tamanhos abalos. Emagreceu, tornou-se misteriosa, concentrada, numa constante e tristonha passividade, quer em casa, quer no turbilhão das festas. E se não fugia delas, era unicamente para poder ver e encontrar o objeto do tresloucado amor, empenho tão claro e insistente que a sociedade e o mesmo Antenor afinal não poderão deixar de nele reparar.

Ruía por terra antes as vistas, desiludidas para todo sempre, o edifício da felicidade que julgara poder levantar, ainda que nos alicerces tivesse, com a observação das coisas humanas, entrado, desde princípio, certa descrença e algum desalento. Buscou medir a extensão do mal, mas, à primeira tentativa, não ousou aprofundá-lo. Recolheu-se então, como última salvaguarda e recurso extremo, à proteção de uma ideia fixa – a impossibilidade de vir a perigar a sua honra.

Tudo quanto se passava não iria além de um capricho da exaltada imaginação de Betina. Oh! bem conhecia do quanto era capaz! Não tardaria, porém, muito e cairia em si, abrigando-se à segurança do lar, pronto para acolhê-la no arrepiar carreira em senda de leviandades, já um tanto comprometedoras.

Fatos anteriores davam-lhe bem segura garantia.

Não fora tão espontânea a entrega daquele maço de cartas? E tratava-se então de um cavalheiro distinto, hábil, de inteligência reconhecida, com grandes recursos de espírito e de salão e não poucos hábitos de sedução, ao passo que Fernando de Aguiar... qual! que absurdo! Um ente tão fútil, tão nulo! Não, aquele entusiasmo não repousava em base alguma, tinha que desaparecer tão facilmente como havia surgido, por mero erro de apreciação: abusões dissipados sem esforço algum, à maneira de névoas que ensombram formosa paisagem, sem poderem obscurecê-la.

Ah! quanto se enganava a experiência daquele homem!

Em certa manhã, desapareceu Betina do seu rico e senhoril palacete de residência. Havia, rompendo com todos os deveres e princípios, tomado passagem num vapor transatlântico e fugido com o amante para a Europa.

A corajosa altivez com que se portou então o infeliz marido, a energia com que tratou de vencer e recalcar sua dor e repelir de si o imerecido labéu, o pronto divórcio que conseguiu, destacando o intemerato nome do da culpada esposa, a quem, sem demora, mandou entregar, com a mais escrupulosa exatidão e minudência, os bens que havia trazido consigo, tudo isso, praticado sem a mais ligeira hesitação ou sombra de cética jactância, impediu que o ridículo de leve salpicasse a alevantada personalidade de Antenor. E para mais erguê-lo no conceito público, meses depois, publicava um livro da mais ampla esfera moral, que girava, mais ou menos, em torno da melindrosa tese que lhe fora peculiar; e aí o escalpelo imparcial e cuidadoso do analista tudo dissecara, fazendo justiça inteira a quem tinha ou não tinha por si a razão e o direito; obra de cunho verdadeiramente original e escrito por pena vigorosa, mas de onde por vezes decorrera muito pranto amargo.

Guardavam-lhe ainda o travo não poucas páginas.

Quanto à Betina, meses após o irreparável ato de loucura, via-se a braços, com o mais cruciante arrependimento.

Extinto o fogo da paixão, como sempre acontece, tinha de suportar vencida e humilhada, as consequências da posição equivoca a que se atirara, mas que o mundo jamais perdoa, ao lado de quem brutalizando-a logo, malbaratava a fortuna, que não lhe pertencia, no jogo e com as mulheres de ocasião.

Dentro em breve, reconhecia que para Fernando de Aguiar tornara-se peso quase inaturável.

Quantos golpes, a todos os momentos do dia, no seu orgulho, anos antes tão susceptível e tirânico!

Diante da miséria se abria longo, indefinido, interminável, um futuro árido, medonho, sinistro em todo o seu mistério, como ilimitado deserto, sem uma sombra, uma fonte, uma árvore, o menor lenitivo às agruras de martirizante viagem, para no fim encontrar, como terminação de indizíveis agonias, a morte, só, desamparada, motivo de chacota e de desprezo, repelida por todos!

Desgraçado destino! Dia e noite chorava sobre si mesma todas as lágrimas da sua alma, tão mal guiada, já pela cabeça, já pelo coração!...

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