quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O estorvo (Conto), de Visconde de Taunay


O estorvo
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Muito, mas muito, contente sempre de si e consigo mesmo o Amaro Esteves, sobretudo agora que ganhara, por bamburrio, não pouco dinheiro no encilhamento. Por cima, o prêmio integral de cem contos de reis na loteria da Baía.

Sim senhor, graças aos inesperados e meigos sorrisos da sorte, se tornara, nada mais, nada menos, um capitalista importante.

E rapaz ainda, bonitaço, na casa dos 35, atirado às mulheres, gostando de roupagens claras, gravatas vermelhas com alfinetes de grande brilhante, pilhérico, metido a contar anedotas engraçadas, picarescas.

A maçada era a Nicota, a mulher, tão franzina, desengonçada, chochinha, sem carnes, sempre retraída, muito acaipirada, coisa demais. Também fora aquele casamento uma bobagem, estopada de marca maior.

Mocinho, numa festa de roça, tolamente se embeiçara por ela, então rapariga sem graça nenhuma, e, quando dera acordo de si, zás, traz, nó cego, estava casado, amarrado para todo o sempre pelo conjungo de um vigário de aldeia. Que espiga!

Não era, de certo, mazinha a Nicota, muito acomodada, calada, no fundo nula, absolutamente nula. Dela não vinha nem bem, nem mal ao mundo. Incapaz de matar uma mosca. Servira nos tempos de penúria e miséria, quando vegetara nuns empregos reles, de cacaracá; mas agora que pretendia fazer figura na sociedade, frequentar teatros, concertos e bailes, receber e dar jantares, como se avir com semelhante pamonha?

Nada lhe assentava no corpo mal ajorcado, sem ondulações nem quadris. Não havia chapéu que lhe quadrasse, e por mais joias que pusesse ficava até pior.

Metia-lhe deveras vergonha, ela ao seu braço pela rua do Ouvidor afora.

Não sabia nem sequer aproveitar o cabelo que tinha comprido e abundante. Penteava-o à china, puxando-o todo para traz e deixando a testa de bater roupa, com uma cara muito feia, rechupada, faces encovadas, olhos empapuçados, beiços escados em ponta, como bico de chocolateira.

Por mais que lhe dissesse: “arranje-se melhor, Nicota; veja fulana, veja sicrana”, não adiantava um passo, nem coisa alguma conseguia.

Tinha por vezes vontade de lhe empurrar a mão, dar-lhe pancada e até cabo da pele, vê-la morta, metida no caixão e enterrada. Que alívio! Com mil bombas, aquilo não era mulher para ele!

Ah! fosse casado com alguma desempenada, que vida, que figurão! Alguém que o compreendesse e estivesse na altura da posição conquistada, ele que pretendia agora abrir os seus salões, mandar até comprar um título em Portugal.

Vejam, porém, só a Nicota Baronesa ou Viscondessa; ninguém a tomaria a sério, ninguém; um varapau de saias, sem expressão, sem vida, nem peixe, nem carne. E a abrir a boca, era logo um chorrilho de asneiras “muié, havéra, promóde, teia, panhou, rancou”. Mal sabia ler e escrever.

Aquilo nunca se havia de desemburrar, escusado!

Só prestava para pregar botões às camisas e ceroulas e coser na máquina, assim mesmo tão vagarosa, desconsolada sempre, à mercê do marido, numa pasmaceira enorme, desfibrada, atônica, inerte, atenta só à limpeza da casa, que trazia como um brinco.

Que maçada, que peso, a tal Nicota! Se ela pudesse esticar a canela, morrer de uma boa vez!... Não faria nada por isso, porque afinal não era nenhum criminoso, desalmado e assassino. Só se a natureza se lembrasse de libertá-lo daquela lesma. E devia merecer esse favor, porque estava mil furos acima de semelhante criatura clorótica, esgrouvinhada, incapaz de lhe seguir os passos, sobretudo na vida nova que a fortuna lhe proporcionara.

Com a breca, dispor de centenas de contos e estar de mãos e pés atados, preso a um ente daqueles!

Lá podia pensar em viajar a Europa com Nicota? Por toda a parte provocaria riso e chasco, bem merecidos, lá isso era verdade.

Nunca tivera filhos e felizmente. Haviam de ser uns apatetados da força da mãe.

E de alguns anos a esta parte de contínuo achacada; ora disto, ora daquilo outro, umas dores vagas, opressões, faltas de respiração, que a tornavam ainda mais feia, obrigando-a a estúrdias caretas.

Falara, um médico em moléstia do coração adiantada até. Qual! Já havia disso um bom par de anos, e nada dela arrebentar. Mulher doente, mulher para sempre; o ditado tinha toda a razão. Mil raios!

Depois então das histórias do encilhamento, parecera melhorar, e muito. Não se queixava, nem mesmo o pouco ou quase nada do costume.

Se, pelo menos, mostrasse ufania e admiração pelo marido! Nada! Incapaz de qualquer movimento que não tivesse repetido na véspera, anteontem, uma semana, um mês, dez ou quinze anos atrás.

Também ele a socava sem a menor cerimônia em casa e, em todos os tempos, ia lá fora pagodear à grande. Agora não se fartava de ceiatas com francesas bem pandegas e de cabelo pintado de açafrão. E, no dia seguinte das grossas patuscadas, encontrava sempre a mesma fisionomia, fria, impassível, sem a menor alteração.

Deveras atacava-lhes os nervos.

Ah! se a tal moléstia de coração pudesse estar caminhando! Quem sabe? Qual! às vezes lhe perguntava com ar de interesse: “Então, Nicota, aquelas dores?” “Estou bem mió, respondia ela a arrastar a voz esganiçada e chorosa. Nunca mais tive nada!”

Ele viúvo, que vidão! Tudo se havia de transformar, desligado daquela pesada poita. Montara casa rica, cheia de trastes dourados e numerosas criadagem, alguns até franceses. E não é que a Nicota se levantava quase de madrugada, como nos tempos de amanuense da secretaria de polícia, em que tinha de ir acender fogo e preparar café?

Que estúpida, afinal!

E não ter ânimo de largá-la de vez em algum pasto de Minas ou Goiás! Não se tinha em conta de nenhum bárbaro, sem piedade ou canalha refinado. E que dirão depois?

Só mesmo a morte. Nem podia tardar; tinha ela vivido quanto bastava. Estavam casados, já uns 16 anos. Na tal festa da roça (maldita festa, sua desgraça) contava 20 feitos. Ora, 20 com 16, são 36; a sua idade, dele, vejam só. Que loucura, que asneira aquele casamento! Nem um vintém de dote, nem olhos, nem cintura, nada, nada, um pau seco! E isso era a mulher de um capitalista!

Por esse tempo sofreu Amaro Esteves um desgosto não pequeno; a notícia da morte, em Caxambu, do Pantaleão, seu bom amigo de pagodeiras. O homem, sem saber, padecia do coração; foi às águas, abusou delas e bumba! botou-se de repente para o outro mundo! Ora, o Pantaleão, tão belo, moço, alegre e divertido, morrer assim aos 32 anos, quando tinha tanto que gozar nesta vida!

Mas que perigo as tais águas! Qualquer coisa nos pulmões ou coração e toca a fugir. Nada de facilitar. Custa, às vezes, tão pouco revirar de uma feita os olhos!

Por esse tempo, começara também o nosso Amaro o namoro com a Baronesa da Silva Velho, no lírico; uma viúva quase quarentona, toda faceira, um peixão em todo o caso. Chegarão as coisas a dar na vista de todos. “Ah, senhor manganão, lhe dissera o Santos Alves, o corretor, lembre-se de que é casado. “Diabo, ter de lembrar-se logo disso!

Um pobre coitado, um pé rapado poucos anos antes, metido agora em derriço, escandaloso com uma senhora do high-life, uma titular! Tivesse a sua liberdade e jogava-se a seus pés, pedindo-lhe humildemente a mão de esposa.

Mas o inferno de Nicota! Que trambolho...

Não, aquilo, não podia continuar assim, indefinidamente, até o demo dar com o basta!

E a ideia de Caxambu não o deixava um instante, não lhe saía mais da cabeça, à toda a hora do dia e da noite, principalmente à noite, lá pela madrugada, durante longas insônias.

Foi afinal consultar o Dr. Maria Meireles, um médico formado de fresco, seu vizinho, muito mocinho; indagou se uma estação de Caxambu não conviria à mulher. Mostrava pouco apetite, supunha-a doente do estômago e fígado. Caxambu? Ótimo, excelente! Não podia haver coisa melhor.

Aí, meio conturbado, falou em pontadas do coração, receios de estar esse órgão afetado.

Então convinha examinar, auscultar. Mas não, coração que dói é como cão que ladra. Ligavam-se os incômodos uns aos outros, e Caxambu daria conta de tudo. Pagou generosamente e saiu da consulta todo alegre, exultante quase. Estava salva a sua responsabilidade. Cobria-o a autoridade daquele profissional, que tinha obrigação de saber o seu ofício. Quanto a ele, nada ocultara; fora até bem claro, pusera os pontos nos ii. Podia lavar as mãos pelo que desse e viesse.

Chegou a se ter em conta de marido exemplar. Afinal, buscava solícito a saúde da mulher, sua companheira de tantos anos. Com certeza, Caxambu lhe faria um bem enorme.

E a pensar em tudo isso, na mais singular amalgama, em que via combinada a vantagem de ambos, divisava futuro todo cor de rosa.

Aliás, com a breca, ainda quando a opinião do Dr. Meireles não o desculpasse bastante aos próprios olhos, absolviam-no plenamente as teorias modernas. Tinha o direito, como homem de resolução, de quebrar com coragem os obstáculos que lhe impediam os passos.

Parafusou, parafusou e, afinal, partiu com a mulher para Caxambu.

E não é que as águas começaram a fazer sensível benefício à Nicota? Chegou até a engordar, fato que nunca lhe sucedera. Bom, a ele, é que as coisa saíam às avessas. Viera para um fim e o contrário é que se dava. Forte caipora!

E nos seus íntimos frenesis sentia ímpetos de esganar a mulher, ao vê-la dormir com os beiços cada vez mais bico de chocolateira. Que cara, que pele amarelada e por cima ainda cheia de sardas! Metia nojo.

Não havia remédio; era resinar-se. Tinha que carregar aquela cruz até ao último dia da vida, seu destino.

Certo dia, porém, à mesa do jantar, Nicota ergueu-se de repente, levou a mão ao peito, soltou um grito abafado de angústia e tombou no chão, redondamente morta.

Causou o caso no hotel imenso alarma, correrias, quedas, desmaios, um horror!

Desfez-se ele num pranto sem fim, consolado pelos amigos de ocasião. “Tivesse Paciência, a sorte de todos, D. Nicota fora feliz até na morte.” “Com efeito, mas era tão bôa, companheira de tantos anos, assim de repente, agravante à sua dor.” E mais isto e mais aquilo.

E, não cessou de chorar e lamentar-se, ora mui leal e convencidamente, ora por simples comédia, até à volta do cemitério de Baependi, pois nesse tempo Caxambu não Possuía ainda terreno para enterrar os seus mortos, ou hóspedes, ou moradores do lugar.

Essa volta de Baependi!... A tarde estava tão linda e serena, o céu tão puro e risonho, a paisagem toda tão grata, iluminada pelos últimos raios do poente em fogo!

Amaro Esteves sentiu-se outro, o peito desafogado e dos lábios entreabertos deixou escapar expressivo e misterioso Enfim!

E sorrio-se ao recordar-se da Baronesa da Silva Velho. Fá-la-ia Viscondessa, não havia dúvida.

Recolheu-se, ao chegar, a um aposento qualquer, deitou-se cedo e dormiu largo e tranquilo sono.

De madrugada acordou assombrado, tiritando de horror.

Clamor imenso, sem nome, indizível, enchia aquele quartinho de hotel; mil clarins de Jericó, trompas infernais, repercussões medonhas, ecos terríficos, tudo dominado por uma voz pungente, um uivo de suprema agonia a bradar: Assassino! Assassino! Assassino!

Gélido suor inundou-lhe o corpo todo e os cabelos se lhe eriçarão no alto da cabeça... 

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