quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Cobras mal acostumadas (Conto), de Valdomiro Silveira


Cobras mal acostumadas

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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— No topo daquele morro, vocês ‘tão vendo o cupim macota que ficou solteiro no meio do rapadão? Tem uma história. A bem dizer, não é do cupim a tal história: vem a ser de uma urutu que se arranchou p’r ali ansim...

À frente de sua casa, no Capivari, proseava o Querubino com dois vizinhos, João Vermelho e Tararé, pouco antes do almoço. Iam os dois passando pela estrada, a caminho da vila, quando ele os viu e os convidou a portar. Conversa puxa conversa, falou-se de muita coisa e também de alguns homens e alguns bichos. No ponto em que estavam, o Tararé, sempre caçoísta e brincalhão, reclamou com urgência:

— De cupim ou de urutu, pois que saia a história!

— E, a bem dizer, não é só da urutu: é de uma vaquinha nova da mana Bernarda, chamada Bem Feita, que tinha perdido a primeira cria.

— Daí?

— Daí... Mas porém o melhor é contar o que assucedeu desde o princípio, tim-tim por tim-tim.

“A cria da Bem Feita (que, por sinal, era um bezerro lindo!), morreu picada de cobra. Não se pôde saber onde se deu o acontecimento da mordida, pra campear e matar a cobra. Do que logo se tratou foi de aporveitar o leite da novilha, que era bastante e bom. Dois, três, quatro dias, correu tudo em rumo certo: de manhã e de tarde ela aparecia por si mesma aqui no canto, pra comer sua ração de milho e deixar meio balde de leite...

— Comia ração de milho, aqui no Capivari?

— Intão? Uma vaca de Querubino ou de mana Bernarda não havéra de comer ração de milho? Você ‘tá fazendo galhofa, Tararé!

“No quinto dia a Bem Feita não veio de manhã, nem veio no sexto, nem no resto da sumana: apontava p’r aí já despois do café, com jeito que parecia de envergonhada, e c’o peito murcho a conta inteira. A gente perguntava, uns pros outros, admirada e espantada: o que será? O que não será? E ninguém sabia de nada, pra dar reposta que valesse.

“De tarde, na hora da ração, o leite da novilha não rendia nada. Adonde é que rodava aquele leite, quando se ‘tava bem vendo que ela não escondia nem não negava? Quem deu no vinte, afinal de contas, foi a própria mana Bernarda, ‘maginando e dizendo que naquilo havia capiangage’. Peguemo’ a reparar nas idas e vindas da Bem Feita, entre meio do dia, e nada. Fiquemo’ de espreita no fechar da tarde, que era quando ela quaji galopeava pra aqui, percurando a segunda ração, e nada. Resolvemo’, à vista dos autos, que eu fizesse uma ronda cedinho, desde a premeira ruiva da madrugada, ante’ da vaquinha levantar da cancha. E o que eu fui descobrir me deixou c’uma boca deste tamanho!

“Mal e malzinho que principiava o raiar, ela trepava p’r o morro acima, parava no cupim, encostava no cupim e berrava que era uma beleza. A urutu vinha-se arrastando de carreira, no mesmo sofragante, espichava o corpo cupim arriba, grudava a boca na maminha mais cheia, esvaziava aquela, ‘garrava a chupar a outra, e ansim por diante. Quando a urutu escorregava inté a grama, dando por acabada a mamação, a Bem Feita abaixava a cabeça pra tal grama atoa que vocês ‘tão vendo, e levava uma temporada louca passando a língua naquele pasto matado”.

— E daí?

— Daí me perparei co’a minha espingarda baluda, no outro raiar carquei fogo na cacunda da urutu, vim s’imbora pra casa c’o meu coração aliviado. Você ‘mó’ que também ‘tá fazendo galhofa, João Vermelho?

— Não, Querubino: ‘tou querendo é só preguntar se a vaquinha não mandou dar parte de você pro delegado. Em todo causo, veja que bato a mão dereita neste portal da sua casa...

— Você ‘tá duvidando? E você, Tararé, o que é que pertende co’essa risada que não tem ânimo de abrir?

— Eu, nada. Mas porém quero que você veja que eu bato a maão dereita no outro portal da sua casa...

O Querubino ia-se enfarruscando. Mas lembrou-se de que estava no seu e convidara os dois vizinhos a chegar. Achou de melhor partido fazer como quem não vê ou, quando vê, não ouve. E foi além:

— Pois intão agora vocês vão ouvir uma história mais importante do que essa. Não querendo aquerditar, vocês podem ir apôs de prima Custódia, que mora aí perto, na Lagoinha, e poderá dizer se eu aumento ou ejagéro alguma coisa. O Sá é melhor testemunha ainda.

“Prima Custódia, vivia muito agoniada, de certo tempo pra cá, por ver que o único filho que Deus lhe deu, e que já ia compretando os cincos meses, cada vez esmagrecia mais. O marido (pobre do Sá!) andava de curandeiro pra curandeiro, tinha inté levado a criança na casa de um doutor afamado que só faltava fazer milagres: o doutor lhe disse que o pequeno não tinha doença, ‘tava só padecendo fome, e receitou caldo de laranja e banana assada, pra ajudar o seio da mãe.

“Ora aquilo não deixou de espantar a gente. Pois se prima Custódia era mulher de saúde, comia bem e punha o peito na boca do menino, a bem dizer, toda hora, como podia lá ser que o menino vivesse esganado? Mas porém a gente via, ‘o mesmo tempo, que sempre a criança largava do peito chorando e só assossegava c’um paninho açucarado na língua.

“Um dia que o Sá não pôde ir serrar no mato p’r amór de a chuva, ‘tava em casa fabricando um pio de nambuguaçu, quando da cumieira caiu um embrulho no chão da sala.
O Sá pasmou de ver que o embrulho era uma jararaca; virou os olhos pra um lado e pra outro, e o que achou mais à mão foi uma foice que tinha acabado de encabar. Deu um golpe c’a foice no meio da jararaca, a jararaca partiu-se em dois pedaços, e de cada pedaço correu leite que embranqueceu a sala de fora a fora.

“Ficou-se intão sabendo que a cobra mamava na prima Custódia, enquanto ela ‘tava dormindo (e o sono de prima Custódia inda é pesado inté hoje), razão pela qual o Sazinho não ia pra diante. Liquidada a cobra, o Sazinho pegou a engordar e não parou: agora, com perto de onze meses, ‘tá um bicho! Paga a pena ver o Sazinho!”

O João Vermelho e o Tararé perderam a reverência, guaiaram duas gargalhadas de botar o mundo abaixo. Antes, porém, que viesse o mundo abaixo, saiu-se o Tararé com uma barbaridade:

— Já vi contada essa história mais bem contada, seo Querubino, você me discurpe. Pra engambelar o inocente, e dar a perceber que era bico de peito o que ia indo, a cobra lhe empurrava o rabinho na boca... Vira, mexe, você pregou na gente o segundo 1º de abril, duma vezada só. Abastava o da Bem Feita, este agora esparramou que nem água de ladrão. E olhe: entra também num portal da sua casa...

Quando o Tararé bateu a palmada no portal, não teve freio nem buçal a fúria do Querubino:

— Você, pra quem o 1º de abril principia no Ano Bom e arremata depois do Natal, pensa que os outros são da sua iguala? Pra muita gente, nunca não hai na vida nem um dia de mentirage’, a verdade se tem de dizer todo dia, haja o que houver: eu sou de gente ansim.

Em tom de zombaria, mas sem dúvida com prudência, o João Vermelho pôs água na fervura:

— Bamo’ dar aqui o chega. Isto não é assunto que mereça faca e revorve’!

Despedidas meio secas. O Querubino não era queimador de campo, não gostou que lhe tomassem por inventadas aquelas duas coisas: tinha amarrado um burro, deixou o burro amarrado. Mas, de repente, caiu em si:

— Por via de bicho ruim, como é cobra, hei de ficar político, daqui pra diante, co’estes dois desmiolados?

Os dois desmiolados já iam dobrar o cotovelo da estrada real, e ouviram a voz do Querubino, levada longe e mais grossa porque saía de uma boca escondida na concha das mãos:

— Pra trás, Vermelho! Pra trás, Tararé! Venham beber o café mofado que eu tenho agora: e um dia na vida vocês hão de ter visto o que é café torrado por mana Bernarda e bebido em tigela de pombinho!

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