terça-feira, 24 de outubro de 2017

O homem e o cão (Conto), de Luís Guimarães Júnior


O homem e o cão

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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CAPÍTULO 1

A que horas e em que circunstâncias o poeta encontrou um amigo.

Quando Paulo Maurício bateu à porta de sua casa soavam piedosamente em todos os campanários as 12 pancadas de meia-noite. Uma chuvinha impertinente e fria açoitava a atmosfera e vinha colar à fronte magra do poeta os negros cabelos que a sombreavam.

A casa era na rua da Misericórdia; uma casa de fúnebre aparência e velha como as três virtudes teologais. Estava a rua silenciosa; a chuva enlameava as calçadas em cujo passeio, ao longe, ressoavam monótonos os passos dum sonolento policial.

O poeta mal comera durante o dia, e uma maldita febre — a febre da pobreza —, vós a conheceis, miseráveis! Fazia latejar-lhe o pulso ardente, roçando-lhe nos lábios pálidos a asa diabólica.

Dormia o Cérbero daquele inferno, à hora em que o esfaimado inquilino levantava a aldraba e propunha-se a safar-se da chuva cada vez mais perseguidora. Enquanto pela quarta vez o poeta batia à porta do seu tugúrio, alguma coisa foi-lhe de encontro às pernas e um hálito quente bafejou através das calças úmidas.

Voltou-se Paulo Maurício e reconheceu na tal coisa um cão; um cão magro e trêmulo, com os olhos cheios de dor e de meiguice como acontece a essa classe admirável. Paulo Maurício curvou-se e roçou os dedos carinhosos no pelo hirsuto daquela inesperada visita.

O cão lambeu os dedos do poeta, grunhindo em sinal de festa.

Paulo Maurício dizia entre si, contemplando os lacrimosos olhos do rafeiro:

— Pobre diabo, pobríssimo-diabo! Condenam-te à fome, ao frio, às chuvas, até o dia em que um espetaculoso e nédio fiscal te arremessar às goelas secas uma bola de arsênico. O teu rival, esse gatinho traidor e voluptuoso, de gana escondida no veludo, pronto sempre a dar o bote, possui tapetes flácidos, um ninho sobre o piano da menina, e um berço agradável no cesto da costura. Tu, que és bom, ó amigo! Tu, que és nobre, altivo, humilde e carinhoso — tu, à símbolo da fidelidade — coisa em que a época não crê absolutamente —, andas por aí a enlamear-te nas sarjetas imundas, a latir no meio da escuridão e do inverno, a ladrar no céu torvo e insensível, sem que alguém se lembre de te oferecer uma côdea de pão ou uma guarita para a noite. Estás com fome, eu o sei! Vejo nos teus olhos desvairados e na rispidez febril de tua língua humilhada. Consola-te comigo, ouviste? Ora vamos lá! Não gemas mais assim que me feres duplamente. O mal de muitos consolo é, diz esse enorme e estúpido povo, o povo que faz máximas durante o almoço, o jantar e a ceia. Olha para mim. Aqui estou eu também com uma violenta falta de alimentos! E sou feito à imagem de Deus! E penso, e cismo, e creio nas grandes aspirações do século e da humanidade. Tem paciência. Basta, basta, não me faças cócegas na mão com a tua língua. Safa! A porteira dorme hoje como qualquer empregado público. Afasta-te um pouco, meu amigo, e deixa-me atordoar os sonhos dessa fera, que bebeu uma dose de ópio hoje para atormentar-me!

Paulo Maurício bateu de novo à porta. Responderam-lhe do fundo do corredor com uma espécie de ronco ou de grunhido sinistro.

— Bom; despertei o bruto — disse o poeta.

A chuva engrossava. Por trás do nevoeiro o céu tempestuoso parecia uma barreira impenetrável entre as consolações divinas e as decantadas angústias humanas.

Paulo Maurício conchegou ao peito o fraque desmantelado e enterrou o queixo numa gravata impossível. O cão encostado às pernas do poeta tiritava estendendo a cauda enregelada e nua.

Rangeu a porta sobre uns gonzos atroadores, e no vácuo mal aclarado pelas réstias dum lampião, surgiu o focinho meio feminino e meio lupino duma parda colossal.

— Ainda um dia eu o deixo a patinhar aí pelas ruas, senhor Maurício — rosnou ela, embrulhando-se na baeta, que a envolvia até os pés. — Isto são horas, meu senhor, de vir acordar a gente! Vale muito a pena meu amo alugar quartos para me enterrar mais depressa.

— Pois já pensa em morrer, tia Angélica? — volveu o poeta sorrindo e afagando o ombro da porteira. — Ora muito boas noites!

— Amém. Então não entra, senhor?

— Entro sim, tiazinha de minha alma, entro e em companhia.

— Quê?!

— Não se agaste. Trago um pobre para passar a noite comigo. Temos que conversar acerca do Asilo de mendicidade. Uma grande ideia do governo, tia Angélica!

O vento começou a soprar com violência, e a chama da lanterna agitou-se como um colérico em convulsões.

— Deixemo-nos de brinquedos, senhor! Faça favor de entrar para dentro, que eu não estou para apanhar uma defluxão de peito. Ora não se viram, e vosmecê ri-se!

— Com licença. Permita-me que eu convide a minha visita a acompanhar-me ao quarto.

— Faça favor... — E o monstro tentou impedir a entrada ao companheiro de Paulo Maurício.

Era tarde, porém. A um sinal do poeta, o cão faminto dera um arranco para o interior da casa, em risco de lançar por terra a velha parda, a lanterna e qualquer outra barreira que lhe interceptasse o ingresso.

— Um cachorro, gente! — bramiu a velha, recuando assustada.

— Um cachorro, sim, minha querida tia Angélica! Um cachorro honesto como o senhorio desta casa, um cachorro ágil, atrevido e grato. Olhe, se vosmecê um dia por sua desgraça cair no mar...

— Credo!

— Ouça: se tal acontecer, este amigo salvá-la-á, expondo-se à morte, unicamente, tia Angélica, porque a sua caridade recebeu numa noite de chuva à porta de casa, e deu-lhe um bocado de pão para matar a fome. Veja se há por este mundo de Cristo muito fidalgo agradecido assim!

A velha resmungou entre dentes:

— Veio em má hora. Não há um pãozinho de rala para remédio!

O poeta acudiu com um melancólico sorriso:

— Experimente sempre; procure. Estou hoje com desejos de ceder-lhe, tia Angélica, a cabeça de Jesus, que tenho no meu quarto... Aquela, sabe?

A medonha careta da velha metamorfoseou-se num sorriso, que à força de tentar ser delicado, fez lúgubre e fantástico.

— Está bom, está bom. Não quero que as alminhas do céu digam que eu fui má um dia. Vamos ver se há na cozinha algum osso ou pelanca para esse cachorro feio.

— Feio? Repare bem, tia.

E o poeta apoderando-se da lanterna aproximou-a ao rosto do cão.

O pobre animal estrebuchava de frio, cosido com a parede esboroada. De suas pupilas cobertas por tênue neblina escapavam-se reflexos metálicos como os que produz o aço mal polido e o seio das ondas no mar alto ferido pelas estrelas.

— Olhe como treme o infeliz, tia Angélica. Faz pena, não é verdade? Coitado, coitado! Que patas frias! Andaste muito pelo meio da chuva, hein, meu camarada?

O cão, como se compreendesse a linguagem piedosa do poeta, lambeu-lhe de novo as mãos, uivando docemente.

— Vosmecê ainda lhe há de acontecer alguma com os bichos — observou a velha. — Da outra vez foi com o gaturamo, que entrou pela janela do seu quarto; agora é um cachorro, que apanhou na rua. Cachorro de rua, então, que dana, enquanto o tinhoso esfrega o olho!

— Verá que se engana, tia Angélica. O que me pode acontecer por acaso? Chorar? Ora viva! Chora-se por tantos homens e por tantas mulheres, quanto mais por um cão!

— Oh! senhor! Vosmecê está doido! Cão e gente é o mesmo?

— O mesmo, não, tia Angélica: estou pouco disposto a ofender a superior raça canina, os animais mais perfeitos da criação. O cão é incapaz duma baixeza ou duma traição. Bate-se-lhe e ele volta a receber de novo a pancada, humilde e satisfeito. A sua ambição única é a de servir de sombra ao homem, que lhe concede a suprema ventura de uma vez ou outra, cuspir-lhe no pelo ou pisar-lhe a cauda com um pé amaldiçoado.

— Tá, tá, tá! Vamos ao que serve. É tarde e eu quero me deitar. Leve o seu cachorro para cima, mas Deus permita que ele não ladre, senão o senhor Gregório...

— O senhorio?

— Sim, senhor, é muito capaz de passar-me alguma sarabanda. Os vizinhos não gostam nada de barulhos, nem eu, com a ajuda de Deus!

Paulo Maurício chamou o cão; o animal ali ficou unido à parede sem mover as pernas. A fome e o frio petrificavam-no.

— Acenda o espírito de vinho, tia Angélica, e aquente-me um pouco de água. Hei de pôr-te rijo como um fuzileiro, meu amigo! — acrescentou o poeta carregando o cão nos braços compassivos.

— Santa Mãe de Deus! — acudiu a velha, esbugalhando os olhos. — Vosmecê quer fazer deste bicho um menino de peito?

— Não pode andar, e então? Levo-o ao colo.

E o poeta subiu ao seu quarto conchegando ao peito o cão agonizante.


CAPÍTULO 2: A FACA

O espaço ocupado na casa da rua da Misericórdia por Paulo Maurício era uma água-furtada, de telha-vã, e paredes mal caiadas, em cujas fendas o vento estorcia-se às vezes como gritos dum bando de almas condenadas.

A vida desse rapaz era um prodígio de bondade e de ternura. Nunca do fundo de sua miséria arriscou ele um cartel ao mundo egoísta e brutal, que o encerrava em seus círculos infernais, como os do Inferno do Dante, onde habitam os que perderam de todo a esperança e a fé.

Paulo Maurício estava ainda na época luxuriante da existência em que a dor desfaz-se em gotas de lágrimas, e o espírito retempera-se, amianto divino, nas labaredas do sofrimento e nas piras da amargura.

O seu coração aspirava sempre, e as angústias de todos os dias e de todas as horas eram as brancas asas com o auxílio das quais aquele ente peregrino e nobre devassava os largos mistérios do infinito.

Órfão e pobre, apresentara-se à sociedade, à madrasta implacável, armado apenas com a túnica de sua mocidade e as crenças bebidas no regaço materno. Para que contar mais este capítulo da inesgotável história dos miseráveis?... Paulo Maurício tentou duas, dez, cem vezes ganhar o pão amargo como qualquer imbecil de tamancos mas, faltando-lhe a principal qualidade para tão duro mister — a insensibilidade —, teve de tocar em outro ferrolho e pedir agasalho em novo tugúrio. A sua inteligência fenomenal atraiu as atenções dum honrado homem, que o iniciou nos segredos das tricas comerciais, e proporcionou-lhe as proteções de algumas casas de negócio, onde ele escrevia, conseguindo amontoar laboriosamente o parco pecúlio de sua subsistência diária.

O que porém o arrastava, o seduzia e o desorientava era esse místico arroubo das almas privilegiadas, essa ascensão do espírito às paragens desconhecidas — a poesia enfim, Oceano de diamantes e de lágrimas, em cujas ondas a mocidade se afoga!

Era poeta; poeta pela inspiração e pelo sentimento. Havia na sua vida uns traços da existência fugitiva de Casimiro de Abreu, e descobria-se em sua fronte a palidez doentia, com que Delaroche desenhou o suave contorno da cabeça de Cristo.

O honrado protetor morreu na véspera do dia em que Paulo Maurício foi dispensado dos seus serviços de escrituração nas casas que lhe deram almoço cotidiano.

Quando voltou para o seu quarto, vinha sombrio.

Beijou repetidas vezes o retrato de sua mãe, e depois de estender a vista ansiosa pelo horizonte impassível e tranquilo — desatou a chorar convulsivamente.

— Ótimas tardes lhe dê Deus, senhor Maurício! — exclamou à porta uma voz trôpega e surda.

Era mestre Gregório, o senhorio da casa, caricatura de homem sério, olho de usurário e sorriso de raposa velha.

O poeta enxugou furtivamente as pálpebras e dirigiu-se ao senhorio.

— Boa tarde, senhor Gregório; boa tarde. Vem cobrar o mês? Estamos a 24, parece-me.

A raposa fingiu-se surpresa.

— Já 24, hein? Ora vejam! Nem me eu alembrava.

Paulo Maurício abriu uma gaveta.

— Para que tanta pressa, senhor Maurício? Deixe-se disso!

— Tanto faz hoje como amanhã. Aqui tem, senhor Gregório; cinco e dois sete, e três dez, e seis dezesseis...

—...Mil, duzentos e quarenta; ainda faltam esses quebradinhos. Bom; bom; pegue lá o recibo; trazia-o, por acaso.

A caricatura de homem sério pôs a rir com todos os seus dentes de onça sanguinária. Ia a sair quando o poeta pronunciou-lhe o nome.

— Chamou-me?

— Estou a propor-lhe um negócio, senhor Gregório.

O homúnculo enfiou, e abotoado-se todo:

— Se é para baixar o aluguel, não estou em casa.

Paulo Maurício reprimiu um gesto de asco e:

— Pelo contrário, é para pedir-lhe que não me o aumente. Fui despedido de Soares Campos e da casa do Fabrício.

Mestre Gregório estremeceu.

— Oh! diabo! — disse ele. — Então como vive o senhor de hoje por diante?

— Quer dizer: como pagarei os seus aluguéis, não é verdade?

— Quase, quase. Mas afinal de contas o dinheiro é que é a vida, e quem não o tem peça a Deus que o mate e o diabo que o carregue. Grande coisa é andar pelas ruas de cotovelos rotos e barriga vazia! Safa! antes um estouro!

— Ouça-me, senhor Gregório. Sabe que sou amigo do trabalho?

— E depois?

— Façamos um contrato. Deste momento em diante ocupar-me-ei com os seus livros de escrituração, e o meu ordenado...

— Acabe.

— Resumir-se-á nos aluguéis que eu deva pagar-lhe mensalmente.

— Dezesseis mil, duzentos e quarenta réis?

— Justamente. Vossa senhoria come em casa...

— De vez em quando.

— Come. Se achar humano convidar-me para a sua mesa, basta-me.

— E o senhor lidará com todos os meus livros, assentos, pagamentos etc., etc.?

— Tudo.

— Irá a cobranças?

De pálido que era tornou-se dessa vez purpúreo o rosto de Paulo Maurício, até a raiz dos cabelos.

— Não — respondeu ele com a voz vibrante e rápida.

— Está feito. Há quem seja mais exigente do que o senhor. Vou pensar no caso.

O poeta aproximou-se ao usurário, e cravando-lhe as pupilas irradiantes:

— Em 24 horas dê-me a resposta decisiva.

— Por que em 24 horas e não em 30?

— Nada mais simples. O senhor vai sair daqui por uma porta e eu por outra. Baterei em mata duma aldraba a pedir trabalho. Mendigarei um emprego, um mata-fome, uma espelunca em que derrame suor e lágrimas... em troca da importância duma camisa lavada e duns sapatos que me livrem da lama. Eu possuo uma alma ousada, senhor Gregório! O cansaço não me aterra, e a luta é para mim o meio único de um dia deixar no mundo um nome digno de mim e de minha mãe. Bem vê que estou disposto...

— Mas o que tem isso com as 24...

— Vai ver. Se voltar sem ter encontrado um coração que me ampare e me compreenda, esperarei pela sua resposta até o tempo do prazo fixo. Demos que vossa senhoria me diga redondamente que não.

— Demos!

— Nesse caso — e nos olhos do poeta fulgiu a asa dum pensamento sinistro —, eu pedirei perdão à sombra imaculada de minha mãe e...

O usurário acompanhou automaticamente os movimentos precipites do moço.

Paulo Maurício desalojou de entre os papéis, que povoavam a gaveta, uma excelente faca mineira, de bainha de prata, e desembainhada, fê-la brilhar ante os olhos espavoridos do senhorio...

— Que diabo faz o senhor? — acudiu mestre Gregório procurando o chapéu e a bengala.

— Não tenha receio. Está vendo esta lâmina? É magnífica; aço de primeira qualidade; fura o ferro como se atravessasse a casca dum ovo. Pois, ilustríssimo senhor, admitamos que ninguém me salve desta miséria, e que a resposta do senhor Gregório vá de parelhas com a de tão cavalheirescas almas...

Mestre Gregário estava fulo de terror; a faca fazia evoluções entre os dedos nervosos do poeta, como um corisco.

— Meto-me neste quarto, queimo os meus papéis, escrevo um bilhete de agradecimento à sociedade fluminense, e mergulho este ferro até o cabo dentro do coração. Aí tem!

Paulo Maurício embainhou a arma, sorrindo com o ar semibárbaro e semidivino dos gladiadores romanos. O senhorio cortejando até o chão, saiu do quarto a resmungar grotescamente. No patamar esbarrou com a velha Angélica:

— Diga-me cá, mulher, esse rapaz, esse senhor Maurício, é dado à bebida?

— Até hoje, meu senhor, não viram nada estes olhos que a terra há de comer.

— Salta! — continuou mestre Gregório, apalpando um por um os degraus da escada — se ele em vez de meter em si a faca, desse para...

E um suor de morte percorreu-lhe a espinha dorsal.


CAPÍTULO 3: DESPEDIDAS ETERNAS

Quando Paulo Maurício viu-se órfão, estava num colégio, cuja mesa e cujas aulas frequentava por caridade dos diretores. A mãe do poeta vivia nesse tempo em companhia duma família generosa, saboreando com amargas delícias o pão da esmola e a enxerga da mendicidade disfarçada. Desditosa mulher! Acalentava o filho em braços alheios, sorrindo entre lágrimas, como um doloroso astro, através das chuvas da tempestade.

Quem te compreenderá, oh mãe, oh indescritível poema do amor e da castidade? Hás de ir, solene vítima, hás de ir atravessando as almas e os séculos, de braços abertos a todas as desventuras e olhos cheios de fé, erguidos ao céu, que muitas vezes não te escuta nem te favorece sequer!

Concedeu-te o Deus de Belém, a graciosa ventura de resguardares no seio o fruto dum sentimento partilhado, e ainda hoje, querida, ainda hoje esperas aos pés da cruz, as derradeiras gotas de lágrimas, as derradeiras lágrimas de suor, daquele que geraste e concebeste em longas horas de aflitiva bem-aventurança!

Trazes na cabeça a doce estrela do cristianismo, de cujas facetas caem os raios que aclaram a família e iluminam o universo. Cornélia, mãe de heróis; Maria, mãe de mártires; envolta neste ou naquele nome, passará a tua figura luminosa sobre a face dos tempos, como um eterno beijo que jamais se apagará, pois que teve origem na alma da criação e no resplendor da religião sublime.

Os pecados da mulher são resgatados pela mãe; os prantos desta lavam as nódoas daquela. Poder misericordioso de Deus! Como tu és admirável assim, e como nós, os filhos agradecidos, te louvamos e bendizemos!

Ai daqueles que não conseguem, depois dos primeiros tormentos da existência, descansar a cabeça abatida no regaço tranquilo duma mãe!

Paulo Maurício foi desses infelizes. Saindo do colégio para os braços do mundo; do risonho preceptor para o severo, o astucioso, o cruel padrasto, que nada desculpa, nem poupa. Nunca soube rir essa criança; nasceu coberta de névoas e cresceu no meio da pobreza, que é o crepúsculo da vida.

O homem generoso de quem já aqui se falou, amparou-o até certo tempo. De forma que, o trecho que eu conto das memórias do poeta, refere-se justamente ao capítulo do desamparo e do infortúnio.

O talento perseguia-o, feria-o, acompanhava-o atrozmente. As quedas dos espíritos superiores são mais terríveis que as outras; a consciência e o coração fazem um peso às vezes quase insuportável.

Paulo Maurício assistiu aos últimos momentos da vida de sua mãe. Ele tinha 16 anos nesse tempo. Um portador azafamado entregou ao diretor do colégio onde assistia o poeta, uma carta em que se reclamava a presença do menino.

O diretor leu a carta e mandou chamar o discípulo.

— Vá se aprontar depressa.

— Minha mãe está muito mal; não está, José? — perguntou o menino ao portador.

— Pois já o sabia? — indagou ansiosamente o mestre.

Um fúnebre sorriso desenhou-se nos olhos e nos lábios do órfão.

— Sonhei, senhor doutor — disse ele com voz profunda.

O colégio era situado na rua das Marrecas; a casa em que agonizava a mãe do menino, era na rua dos Beneditinos. O portador mal podia acompanhar os passos nervosos e rápidos de Paulo Maurício. Ele voava como se fosse conduzido pelas asas do pensamento. Entrou em casa enregelado até a ponta dos cabelos, e com o suor a deslizar-lhe pelas fontes e faces, baga a baga.

Momentos depois, estava ajoelhado à cabeceira da cama mortuária. A moribunda afastou da vista as longas névoas que já a turbavam, e pondo as mãos sobre a cabeça do filho, sorriu erguendo os olhos ao crucificado, cujo lenho resplandecia entre duas velas, aos pés da cama.

— Meu filho!

Uma velha mulher chorava no fundo da alcova, e o padre ia a retirar-se pensativo, depois de haver deixado num seio infeliz e puro pela última vez o alvo corpo de Jesus. Paulo Maurício apertou aos lábios convulsos as dobras do lençol já santificado pela morte.

A moribunda tentando esforços quase sobre-humanos, disse ainda ao filho:

— Deus te proteja. Sê homem honrado e faz tudo para não seres pesado aos outros.

Ela tinha a boca seca e abrasada.

— Água! — exclamou entreabrindo os lábios freneticamente.

A velha fez um movimento, mas o menino antecipou-se-lhe. De um salto correu a buscar o copo e duas lágrimas caíram-lhe confundindo-se com a água.

A agonizante bebeu o conteúdo do copo em um trago sôfrego.

Uma espécie de bem-aventurança iluminou-lhe os traços desmaiados, tal como os raios do sol no poente ou os últimos vislumbres da estrela-d’alva.

— Ouve-me, Paulo.

O menino escondeu entre as mãos dela a face inundada de pranto.

— Não chores, meu filho. A morte, em vez de separar, reúne. Lembra-te sempre de tua mãe, que vai pedir a Deus por ti, e que será feliz no céu com a tua felicidade neste mundo. Eu tenho certeza de ti; morro descansada. Dá-me um beijo, aqui, na minha boca.

O menino uniu os lábios aos lábios maternos e aspirou faminto a alma dolorosa, que se despedia da vida. A velha a custo arrancou-o dessa posição horrível, justamente no instante em que a moribunda estrebuchava no paroxismo final.

Durante três dias, Paulo Maurício lutou com a morte. Os médicos desenganaram-no, mas a juventude salvou-o.

Voltou para o colégio, donde saiu protegido pelo homem, que pouco depois havia de forçosamente abandoná-lo aos azares do mundo. As raras joias — joias! — que a mãe lhe deixou e que lhe foram fielmente entregues, ele as cedeu à velha enfermeira em sinal de religiosa gratidão. Um véu fatal desde então, coseu-lhe em redor da alma, e quando ele declarou ao mestre Gregório que se mataria, estava decidido a dar cabo de si.

O espírito materno, porém, velava como uma divina sacerdotisa sobre os destinos do poeta.


CAPÍTULO 4: MESTRE GREGÓRIO

A oração de Paulo Maurício viera ao mundo à semelhança dessas flores melancólicas e obscuras, que nascem à superfície das sepulturas cheias. Borrifavam-no, em vez de orvalho, lágrimas, e a sua alegria era o luto que o amortalhava. O amor, a festa, o prazer, todas essas teclas vibrantes que produzem as sinfonias da mocidade eram-lhe desconhecidas e até adversas ao seu caráter altivo. A memória de sua mãe enchia-o, completamente, e quando o poeta às vezes estendia a vista pelo horizonte iluminado, cuidava distinguir através dos raios das esferas a figura ideal daquela que única o amou em vida.

— És tu, sim, meu santíssimo amor! Sempre pudibunda e bela!

As musas da saudade e das aspirações sublimes eram as suas companheiras nas horas do recolhimento profundo da alma. Longe dos trabalhos cruéis e brutais que, durante o dia, lhe facilitavam os parcos meios do sustento habitual, o poeta deixava-a voar na correnteza dos seus pensamentos, como um prisioneiro, a quem se concede uma hora de ar livre, perante o mar e o céu.

Mestre Gregório respeitava o seu hóspede, e os inquilinos da casa — uns oito personagens pelo menos — sentiam irresistível simpatia por esse moço quase incógnito, que passava a vida entre o trabalho e a meditação.

A tia Angélica, por sua parte, adorava o poeta pelo simples fato de ele possuir uma bela imagem de Jesus, gravura de Calamatta, que lhe tocara por prêmio no colégio. A velha, toda a vez que varria o quarto de Paulo Maurício, estacava defronte da gravura, exclamando entre cinco sinais-da-cruz:

— Bento nome do Senhor! Sempre aqueles judeus foram uns marditos do couro do diabo!

O poeta pilhou-a num desses rasgos, certo dia em que voltara mais cedo para casa.

— Está admirando a minha cabeça de Jesus, tia Angélica?

— Não se me dava de trocar os meus brincos de plaqué por este registro, senhor Maurício!

— Eu é que o não troco por coisa alguma, tia. Quero-lhe um bem extraordinário.

— E gave-se disso, meu senhor, porque é uma perfeição.

Contemplando a gravura, a volumosa porteira murmurava ainda em despedida:

— Bendito o ventre que te concebeu!

— Amém. Até logo, tia Angélica.

— Já quer que me vá hein? Oh! gente! eu nunca vi um moço como vosmecê, sempre só!

— Antes assim que mal acompanhado, tia. Até logo.

— Cá vou, cá vou. Até; fique-se com Deus.

Paulo Maurício possuía uma ternura imensa para tudo quanto é fraco, inerme, e geralmente espezinhado pelos pés maciços do gênero humano. Uma flor, um pássaro uma formiga, valiam mais a seus olhos do que a árvore genealógica da raça dos Bourbons.

As andorinhas, que recortavam o seio azulado da tarde, mereciam-lhe olhares de interesse e simpatia fraterna. Ele acompanhava-as no giro caprichoso, até perdê-las de vista, e dizia consigo:

— Se eu tivesse asas também, iria convosco, oh loucas! Até engolfar-me nas vagas serenas do paraíso!

Entrou-lhe, certa tarde, ia caindo o crepúsculo — um passarinho, um gaturamo pela janela.

A ave estendia já debilmente as asas, e desprendendo festivos gritos, veio pousar pouco distante do poeta no encosto duma cadeira.

Paulo Maurício exultou com a visita, como esses meninos folgazões, que veem descansar no poleiro da armadilha a desejada caça. Adiantou-se até o pássaro, com as mãos abertas, receoso de o perder. O gaturamo agitou novamente as asas sem mudar de posição, e desenrolou um rosário de melodiosos gorjeios.

O poeta estava maravilhado. Prende delicadamente entre as mãos o fugitivo, e 20 minutos depois, acondicionava-o dentro duma gaiola, gentil empréstimo da porteira de mestre Gregório.

— Olhe, tia Angélica; que graça! Ele vai cantar, espere!

— Que é, senhor? Nem que eu não tivesse mais que lazer!

— Um minuto só!

A alma daquela criança inspirada ressoava como o piano de Thalberg.

O prazer fulgia em seus olhos, e os seus ouvidos esperavam a primeira harmonia do pássaro, à maneira do leitor quando espera o jornal do dia ou um telegrama comercial.

O gaturamo desfez-se em melodias em honra do poeta. A velha estendeu o beiço, e ponderou conscienciosamente:

— Vale quatro mil-réis, de olhos fechados. Depois de tal sentença, a esférica mulher retirou-se orgulhosamente.

Esse passarinho foi por algum tempo a predileta companhia do poeta. Despertava-o cantando e cantando o adormecia.

Ao sair para o trabalho, todas as manhãs, Paulo Maurício dizia à porteira:

— Bom dia, tia Angélica; receba saudades do meu gaturamo.

Uma certa manhã o poeta saiu sem cumprimentar a velha.

— E então, ó senhor Maurício? E o gaturamo?

O moço voltou-se com semblante pensativo e articulou entre dentes:

— Morreu; morreu há pouco, tia Angélica. Reze-lhe por alma.

Tentou sorrir, mas confrangiu-se-lhe o rosto angustiosamente.

A velha subiu ao quarto e arrecadando gaiola e pássaro morto:

— Ora aí tem o que são amizades por estas coisas à-toa. Mais vale comer um prato de arroz.

Foi a oração fúnebre que a respeitável matrona cedeu ao harmonioso companheiro de Paulo Maurício.

Era pois um coração terno e bom o desse órfão da fortuna e dos homens. A desgraça havia-o por assim dizer purificado, e a sua alma, alheia aos gozos turbulentos da existência, pendia para o que é humilde e fraco, para as venturas calmas e ignoradas, como os cálices das flores dum cemitério que se debruçam sobre a terra silenciosa.

Mestre Gregório, por terror ou por compaixão — quem pode sondar o charco desses espíritos baixos e mercantis? – dirigiu-se ao poeta no dia seguinte ao do episódio da faca, e disse-lhe entre duas respeitabilíssimas caretas:

— Venho trazer-lhe a resposta. Antes, porém, faça o favor de me dizer o que arranjou.

— Nada — respondeu Paulo Maurício. — Estou sem emprego e sem pão.

Depois de olhar desconfiado para a gaveta em que dormia a arma, o usurário acrescentou:

— Pois eu sou mais humano do que os outros. O senhor de hoje por diante tratará dos meus papéis e comerá à minha mesa. Pode acontecer alguma vez que eu não jante em casa, mas não faz mal; a Angélica já está prevenida para não o deixar morrer à fome.

Um feroz sorriso adelgaçou os lábios de mestre Gregório.

— Tanta generosidade, Sr. Gregório! — acudiu o poeta sorrindo entre o desdém e o pudor ferido.

— Quero — agora pedir-lhe uma coisa.

— Diga, meu caro patrão.

— Eh! eh! eh! Patrão! Já me chama patrão! Queria pedir-lhe que me vendesse aquela...

— A faca? Impossível, Sr. Gregório. Foi uma lembrança de amigo. Herdei-a de meu pai. Tenha paciência.

— Não falemos mais nisso. Então, está convencionado?

— Perfeitamente. Mande-me hoje os seus livros.

— Pronto. Até logo.

— Até logo, Sr. Gregório.

O usurário, antes de sair, contemplou ainda a gaveta como os selvagens o gatilho misterioso duma espingarda.

A tia Angélica entrou nesse momento na alcova do poeta.

— Bravo! — exclamou a megera saudando grotescamente Paulo Maurício; — que bom vento foi esse! O amo está com vosmecê pelo beicinho. Verá que homem aquele de truz! Quando gosta deveras de alguém não há quem lhe chegue!

Uma nuvem de sarcasmo amortalhou o semblante heroico do órfão.


CAPÍTULO 5: O HOMEM E O CÃO

Na gaveta em que se escondia a faca tão contrária à índole oscilante de mestre Gregório, guardava o poeta o seu tesouro. Um tesouro! A riqueza que não se vende nem se compra, a opulência acumulada com lágrimas e com sorrisos, brilhante sempre e sempre abençoada pelo destino!

No silêncio da noite, à luz mortiça da vela, Paulo Maurício abria um grande livro manuscrito, em cuja primeira página lia-se em largos caracteres a palavra Ideal. Era o título do poema.

Todas as noites, em hora de inspiração, o poeta depositava no receptáculo de seus pensamentos o óbolo do coração e da mocidade. O Ideal simbolizava a luta do homem com a natureza e com a sociedade. Vibrava naqueles cantos resplandecentes e enérgicos ora a lira arrogante do Ashaverus, ora o mavioso arrabil da Messiada.

Um pesar no entanto oprimia a alma ingênua do poeta. Onde achar um juízo imparcial sobre a sua obra? A quem recorrer? A quem pedir conselho e lição?

Repetidas vezes os dedos nervosos rasgavam um canto começado, e Paulo Maurício embebendo os dedos entre os cabelos perdia-se num silencioso e morno abatimento.

O nome e a imagem de sua mãe ocupavam quase todo o poema. Eram as bússolas e as âncoras da inspiração febril; presa a essas santas amarras, a alma do poeta ganhava forças, ganhava coragem, ganhava luz, no meio das sombras e desalentos que a perseguiam.

Paulo Maurício pouco saía de casa depois do seu contrato com o senhorio. Era o seu passeio favorito uma livraria menos frequentada, onde, graças à proverbial bondade do livreiro, o poeta conseguia examinar alguns volumes, e mais de uma vez, trazê-los consigo por empréstimo.

O seu ânimo recluso e desconfiado separava-o do mundo e dos moços como ele. Receava molestar os mais com a sua desgraça, e sabe Deus a angústia que o oprimia, ao partilhar as magras refeições de mestre Gregório.

Começa esta história num dia em que Paulo Maurício, voltando à casa tarde, perdera o jantar. Subiu ao seu quarto, leu cinco páginas da Imitação de Jesus, e quando anoiteceu, saiu a espairecer. A velha Angélica — rendamos-lhe o merecido preito! — viera oferecer ao poeta alguma coisa "para aquentar o estômago", mas o moço recusara com um doce sorriso.

O horizonte estava um pouco tempestuoso, apesar de não chover ainda. Paulo Maurício foi até o Passeio, onde ficou três horas, a cismar por entre as árvores, e a contemplar pensativo a marcha dos cisnes e das irerês no lago adormecido.

— Ó minha mãe — murmurava ele com a sua alma —, acaso me vês tu lá de cima, da misteriosa guarida, ninho e glória do teu espírito imortal? Responde-me, inefável essência! Consola-me e dá-me forças para caminhar nesta negra rua da amargura!

Soprava a brisa do mar. Paulo Maurício cuidou sentir o carinho de uma asa invisível entre os seus cabelos esparsos.

Havia baile no Cassino, essa noite. Eram dez horas os cupês e os trens faustosos estacavam ruidosamente à porta do opulento edifício.

As luzes do salão resplandeciam como num festim oriental. Os lacaios da casa imperial, os curiosos e os ramalheteiros enchiam a calçada junto ao portão. Paulo Maurício instintivamente moveu os panos até lá e esgueirou-se entre a multidão. Aproximava-se um carro; aberta a portinhola, desceu, ágil e elegante, uma moça envolta em cambraias diáfanas. Luziam-lhe na cabeça os diamantes, e o seu ombro nu, desfazendo-se da capa, que o cobria, cintilou como o dorso de Vênus.

O poeta fechou os olhos resistindo à fascinação. A elegante desapareceu abandonando ao indiscreto vento da noite uma espiral de violetas e de cravos.

Paulo Maurício vagou até meia-noite por quase todas as ruas da cidade, meio alucinado, com aquela figura de ninfa ou de arcanjo a segui-lo como a sombra do amor. O seu estado de fraqueza e a comoção que o abalava faziam-no vacilar como um homem quase ébrio.

A porta de casa encontrou o cão. A sua alma ansiosa precisava transbordar, e quando ele carregou ao seio até o quarto o corpo do animal moribundo, ia reconhecido ao destino por lhe haver enviado uma criatura em quem empregasse o mundo de amor e de simpatia que surgia esplêndido do seu coração extasiado.

A velha Angélica cumpriu a promessa baseada na oferta da cabeça de Jesus. Momentos depois o cão, acalentado e saciado, punha os olhos úmidos no seu novo amo. Paulo Maurício fechou a porta da alcova e chegou-se ao cão.

— Posso contar com a tua amizade, que dizes, amigo?

O rafeiro estendeu a cabeça agradecida grunhindo em surdina.

O poeta sentia-se cambalear. Tentou varrer as nuvens que lhe obscureciam a vista, mas, faltando-lhe as pernas, caiu sobre a cadeira ao pé da mesa.

Recuperou os sentidos ao romper do dia. A primeira coisa que viu foi o cão, na mesma atitude da véspera, de olhos presos nele com a persistência infatigável de um irmão ou de um amigo.

Banharam-se de lágrimas as faces do poeta.

— E é um cão! — murmurou pensativo.


CAPÍTULO 6: A LEITURA

Gregório ia às mil maravilhas com o seu novo guarda-livros. Paulo Maurício, além de ser uma inteligência rara, era a dignidade personificada. Na fronte daquele moço distinguia-se esse toque solene que a experiência deixa gravado na cabeça encanecida do ancião.

E que melhor escola do que a da necessidade e a da miséria? É aí que se estuda a vida e se descobre o fio de Ariadne para os meandros inacessíveis da sociedade mundana. Paulo Maurício educava o seu espírito entre as lágrimas e os sofrimentos. Desse choque fatal surgia-lhe a alma cheia de irradiações, como Minerva do cérebro de Júpiter e a namorada de Marte do meio das espumas.

No dia seguinte ao do encontro com o cão esfaimado, desceu o poeta até a sala de jantar, a hora do almoço, amparando-se ao corrimão e encostando-se às paredes. As sombrias visões da febre dançavam uma sarabanda infernal ante os seus olhos turvos.

O usurário esperava-o à mesa em companhia de um sujeito que Paulo Maurício não conhecia.

— Ora viva o Sr. Maurício! — exclamou mestre Gregório. — Não nos quis ontem aparecer?

O poeta saudou com um leve sinal de cabeça o desconhecido, e apertando a mão do senhorio:

— Estive fora ontem — disse ele. — Passei mal o dia!

— E é verdade. O senhor está com as mãos como uma brasa!

Paulo Maurício tomou lugar à mesa, sorrindo dolorosamente.

Mestre Gregório incumbiu-se das apresentações.

— O Sr. Paulo Maurício! O Sr. Mendes, rico fazendeiro de Baependi!

— É filho do Rio de Janeiro? — perguntou Mendes ao poeta.

— Sim, senhor. Aqui nasci e creio que aqui morrerei.

— Um moço da sua idade não pensa em morte! Mas, agora reparo... O que tem? Sente alguma coisa?

O poeta mal chegara o alimento à boca; um suor frio derramou-se-lhe pela testa e faltou-lhe a luz de repente.

— Não é nada — acudiu ele, dominando-se. — Fraqueza talvez!

O fazendeiro apiedou-se do estado do moço, e com a voz comovida;

— Para que trabalha tanto? Disse-me o Sr. Gregório que o senhor leva as noites em claro. Também, não vai a matar; nem aqui o amigo é tão exigente assim!

— Oh! não. Os trabalhos de que me incumbe o Sr. Gregório pouco me atropelam. O meu mal, senhor, é dos piores e dos que não têm remédio.

Mendes sorriu com brandura paternal.

— Alguma paixão, hein?

— Por minha mãe. Amo-a e hei de morrer desse amor.

Mestre Gregório olhou de esguelha para o fazendeiro, movendo os ombros quase imperceptivelmente.

Mendes, porém, era uma alma romana, um desses distintos caracteres cuja missão no mundo é as mais das vezes compreender e aliviar as desgraças alheias. Rara avis.

— O senhor é órfão, não?

— De Deus e dos homens, senhor! — respondeu Paulo Maurício com uma pungente dignidade.

— Oh! — sussurrou o usurário a modo de censura.

Mendes contemplou lentamente o poeta.

— Não fale assim. A criatura deve esperar sempre uma felicidade, embora tardia. O céu, mais hora, menos hora, ampara aqueles que o imploram com sinceridade e crença. Quer fazer-me acreditar talvez — veja lá se pode! — que não tem o menor vislumbre de ambição e que a nada aspira no mundo?

— Mentiria, se tal dissesse! — acudiu Paulo Maurício elevando o busto com um sentimento de nobre orgulho. A minha ambição, porém, é alheia aos caprichos dessa riqueza bastarda cimentada com bilhetes de banco e moedas cunhadas. Aspiro às coisas ideais! Meu coração estremece feliz à ideia de que um dia, no futuro, mais de uma boca cite-me o nome com entusiasmo e amor. Eu prefiro a glória de Tasso à de Rothschild, e de bom grado trocaria, se os possuísse, os tesouros dos contos arábicos por uma estrofe de Lamartine.

— Poesia! Poesia!

— E então! Não será uma virtude, diga-me, e uma grande virtude, ser poeta no meio das brutalidades, da fome, das misérias e dos insultos da existência terrestre? Qual merece mais: o sibarita que se chafurda até o pescoço nos pântanos, ou o infeliz que, para não manchar a túnica de sua alma, agarra-se a quanta pedra, a quantos espinhos e tojos encontra às mãos, morto de fadiga e de torturas?

— Gosto de ouvi-lo, moço; isso é belo, é cheio de abnegação e de sentimentos elevados. Dê, porém, ao coração a sua parte, ou por outra, o seu inestimável quinhão entre todas as vicissitudes da vida. É preciso admitir que há na terra quem mereça ainda simpatias e amor.

— Há, sim. E eu conheço alguém...

— Bravo!

— Veja.

O poeta fez um sinal, e um cão, deitado por baixo de sua cadeira, estirou o colo, as pernas e o pescoço, pousando em seguida a cabeça festiva nos joelhos de Paulo Maurício.

— Oh! oh! — exclamou mestre Gregório. — Não sabia desse novo inquilino!

— Esqueci-me de lho participar — volveu Paulo Maurício afagando o cão. — É tempo ainda.

— Com que então — disse o fazendeiro — é esse o tal alguém tão preconizado?

— Justamente; é este cão.

— Tem-no há muito?

— Desde ontem à meia-noite. Chovia quando o encontrei à porta desta casa; o coitado tiritava de frio e de fome. A desgraça possui o imparcial condão de nivelar todos os animais. Compadeci-me deste miserável órfão e dei-lhe abrigo. Hoje de madrugada surpreendi-o com os olhos fitos em mim como um sublime enfermeiro. Quero-o deveras e dói-me não ser rico para nomeá-lo meu herdeiro universal.

— O senhor sempre anda com umas ideias! — observou mestre Gregório, rindo parvamente.

— É de raça este cão?

— Parece que roçou pela genealogia dos Terra Nova; mas que olhos! Que cabeça inteligente! A natureza é uma ingrata na extensão da palavra. Nega a voz a um animal como este, para outorgá-la copiosamente a quanto barbeiro estupidarrão e usurários há por aí.

Mestre Gregório dilatou as ventas e esfregou a vasta orelha.

— O senhor não frequenta a sociedade? — perguntou Mendes.

— Não, senhor. Ia uma vez ou outra, enquanto minha mãe vivia, à casa em que por caridade lhe davam um travesseiro e um lugar à mesa. Tive um protetor, que morreu, há pouco tempo, e desde então só à imensa bondade do Sr. Gregório devo a ventura de conversar com o Sr. Mendes, a esta hora e nesta sala.

— Acredita na espontaneidade da simpatia?

— Por que não?

— Saiba, pois, que deve contar-me no número dos que o estimam.

Paulo Maurício agradeceu modestamente.

Quando subiu para o seu quarto, ia mais lento e senhor de si. O cão, à maneira do homem, também movia melhor o corpo, aventurava ziguezagues caprichosos, sacudia a cauda e estendia a cabeça aos raios do sol, que iluminavam a alcova. O céu estava azul; soprava um vento frio e agradável: no quintal de uma casa próxima, duas lavadeiras cantavam alegremente.

Paulo Maurício apoiou-se à janela e respirou com delícias os aromas do dia. Estava mais alegre, mais forte, mais esperançoso e por que não mais feliz? Mais feliz também; as palavras do fazendeiro haviam-lhe sido gotas de ambrosia e um bálsamo para as feridas de sua alma atribulada.

É fácil na mocidade transformar-se o sentimento e dar abrigo às musas da esperança e da fé o coração, ondas, a todas as pérolas e a todas as tempestades da vida. O fazendeiro jantou ainda em casa de mestre Gregório. Vendo-o de novo, estremeceu de júbilo o poeta. Ao despedir-se, disse-lhe Mendes:

— Lembre-se de mim.

— Sempre.

— Hei de vir com a família passar uns meses na corte. Dar-me-á o gosto de aparecer por minha casa?

Paulo Maurício guardou silêncio.

— Vai, sim senhor, vai! Tinha que ver! — interrompeu o usurário. — Pode-se gabar, Sr. Maurício! que ainda não ouvi este nosso amigo falar de ninguém como de vosmecê.

O poeta apertou entre as suas as mios do fazendeiro.

— Deus lhe pague.

— Vai?

— Vou.

Terminada uma pequena escrituração de mestre Gregório, Paulo Maurício entregou-se ao seu poema, de corpo e alma. As ideias jorravam-lhe do coração em borbotões revoltos; anavalhe o peito, e a inspiração, à semelhança dessa terrível serpente do Amazonas, enroscava-se-lhe na alma em milhares de círculos gigantescos.

O cão parecia compreendê-lo, seguindo-lhe os movimentos, os gestos, os acenos e os olhares.

Suave, a noite abria no regaço das nuvens todos os seus irradiantes tesouros. A lua, fraca ainda, franjava o horizonte de uns leves tons de opala, que se multiplicavam de floco em floco.

O herói do poema de Paulo Maurício, como o Ashaverus, como o judeu amaldiçoado pelo Cristo, vagava cercado das mais cruciantes dores e pesadas aspirações, à cata do ideal. Uma diferença, porém, distinguia os dois tipos: um era perseguido pela profecia de Jesus, o outro pela ingratidão dos homens.

O talento de Paulo Maurício obrara prodígios naqueles cantos repassados de entusiasmo e nervosa eloquência. Por vezes o delírio da própria inspiração o dominava profundamente, a ponto de o poeta arremessar ao chão a pena e recitar em altas vozes as estrofes que lhe irrompiam do coração deslumbrado.

Nessa noite subiu à meta o sentimento que se poderia chamar a febre do ideal. Ofegante, trêmulo, com a fronte úmida e os lábios abrasados, o poeta declamava as últimas páginas do seu livro. Era um furacão. Era uma tempestade! Era uma maravilha!

O cão eriçava o pelo e grunhia arrebatado naquela torrente impetuosa. Revelavam as palavras um quadro de horror ou de angústia; o animal confrangia-se todo, e mal conseguia suster-se nas patas vacilantes. A inteligência do homem o fascinava, e as chamas do poder criador como que o elevavam até a essência da alma humana.

No momento em que o herói do poema alcançava enfim o bem supremo, o amor partilhado, e as coroas do triunfo na imortalidade, a voz de Paulo Maurício despedia notas de uma música divina; seus olhos fulguravam como a racha de uma aurora boreal, e uma espécie de torpor místico veio paralisar-lhe num êxtase a boca inspirada. O poeta correu à janela e voltou-se em cheio para as nuvens estreladas.

De um salto o cão foi-lhe no encalço, e, suspendendo-se até o peitoril, acariciou as mãos queridas, latindo de prazer e de palpitante ventura.

Paulo Maurício, com um movimento frenético, debruçou-se sobre o animal e prendendo-lhe a cabeça entre os dedos nervosos:

— Tu me compreendes, tu me compreendes, amigo! — articulou ele.

Em seguida, apoderando-se do manuscrito, mostrou-o ao cão.

— Já que o destino determinou que fosses tu a única testemunha das minhas secretas mágoas e alegrias... Olha! Isto aqui será o berço da minha glória ou o túmulo das minhas ilusões.

O cão veio humildemente deitar-se-lhe aos pés.


CAPÍTULO 7: AS VIOLETAS

No fim do mês, mestre Gregório dirigiu-se à água-frurtada do poeta.

— Viva o meu amigo e guarda-livros! — exclamou o usurário entrando no aposento.

— Oh! O Sr. Gregório! Muito bom dia!

O senhorio parecia pisar brasas; ia de um lado a outro do quarto, sem tomar uma resolução qualquer. Respirava alto; puxava os colarinhos — uns colarinhos fora do alinhamento —, esfregava a barba, o queixo, os olhos etc. Estava em crise o homem, infalivelmente.

— O que tem o senhor? Vejo-o preocupado.

O usurário de chofre estacou defronte do poeta.

— Eu cá não entendo de papas na língua. Um homem é um homem e um gato é um gato. Aqui está o que aqui me trouxe!

Dito isto mergulhou a mão no bolso do amplo casaco e descobriu uma carta volumosa. Passando-a a Paulo Maurício, fez menção de se retirar, quando o moço o deteve por um gesto:

— Perdão. Deixe-me primeiro ver de que se trata.

— Nada, nada. Nesses negócios não me quero eu meter. Desenrole a meada por si mesmo!

E retirou-se às pressas como um malfeitor perseguido.

O poeta abriu intrigado a carta, de dentro da qual caíram algumas notas do Banco do Brasil. Lançou os olhos para a assinatura. Leu Mendes. A carta dizia assim:

“Meu amigo, ou antes, meu filho. Que o seu orgulho não se sobressalte com a minha ousadia. Eu o estimo como pai e admiro-o como homem. Perdoe-me, novamente lhe rogo. Vá ao Garnier e muna-se de bons livros com a bagatela que inclusa achará. Para tão bom emprego destinei essa lembrança, que o seu coração não me criminará pelo atrevimento. Far-me-á relevante serviço de aceitar, e, maior ainda, e incomparável ventura, se quiser
o vir à noite à nossa casa, rua das laranjeiras nº... onde acomodei minha família. É o dia dos anos de uma filha adorada. Como eu exultarei com a sua presença, meu grande espírito! E como seria para mim inefável contentamento se meu filho, um rapaz da sua idade, conseguisse ser seu amigo e discípulo desse raro caráter! Venha abraçar quem se presa de ser seu admirador e agradecido amigo."

P. Mendes.

O poeta leu três vezes a carta. Da segunda vez amarrotara-a convulso; da última sorriu com ar triunfante, colheu no chão as notas esparsas, e, acenando ao cão, desceu à rua.

Esbarrou na escada com a velha Angélica.

— Faça-me um favor, tia. Mande-me lavar e engomar para esta noite aquela camisa bordada.

— A que está na gaveta?

— Sim, e não se há de enganar, porque é a única da espécie.

Durante o jantar, Paulo Maurício mostrou-se jovial e parlador contra o costume. Mestre Gregório espreitava-o sorrateiramente, rindo-se por baixo da barba. À sobremesa, o usurário passou ao moço uma carta.

— Ainda outra? — perguntou o poeta franzindo o sobrolho.

— Isto agora é comigo acudiu de pronto o usurário. — Aumentei-lhe o seu ordenado; e entrego-lhe a demasia, descontando o aluguel.

Paulo Maurício guardou com a maior serenidade o dinheiro.

— Aceito e agradeço.

Às dez horas da noite entrara o poeta no salão principal da casa do fazendeiro. Ressoava a música e os pares entrechocavam-se, no meio dos perfumes e das luzes.

Mendes correu-lhe ao encontro, de braços abertos.

— Bem vê que não faltei.

— Se soubesse como me alegra a sua presença! Vou lhe apresentar minha família. Venha.

O fazendeiro conduziu Paulo Maurício à sua mulher, em primeiro lugar, logo depois ao filho, à filha mais velha, e finalmente à dona da festa, uma menina formosa, toda envolta em gazes e margaridas.

— Esta é a minha Cecília — disse ele.

— Se o Sr. Mendes me permitisse... — aventurou o poeta.

— O quê?

— Que oferecesse uma lembrança do dia de hoje. É uma ousadia que a generosidade de vossa excelência — continuou ele dirigindo-se à menina — me relevará decerto.

O fazendeiro contemplou intencionalmente o poeta.

— Algum tesouro? — perguntou com a voz indecisa.

— Não: são flores. Violetas. Perdão, minha senhora!

E Paulo Maurício abrindo o lenço entregou um gracioso ramo de violetas à menina.

O filho do fazendeiro tomou o braço do poeta, e entrelaçaram-se aquelas duas almas generosas, presas de uma mútua e viva simpatia. De uma ocasião, o filho do dono da casa, obrigado a acudir não sei a que urgência social, deixou por alguns instantes o companheiro.

Quando voltou não o viu mais. Paulo Maurício havia abandonado o sarau.

Cecília procurava o pai por todos os cantos.

— Ah! Até que o achei, papai!

— Que temos?

— Olhe as artes do seu amigo Paulo Maurício.

O raminho de violetas trazia meio oculto por filigranas de papel-cambraia um rico porte-bouquet de ouro, cravejado de turquesas e diamantes.

O fazendeiro, depois de examinar de perto a joia, entregou-a à filha, sorrindo amargamente.

— Indomável orgulho! — disse ele entre dentes.


CAPÍTULO 8

O poeta examinava as contas de mestre Gregório. Era a hora do trabalho; eram cinco horas da tarde. A velha Angélica, rotunda e misteriosa como a lua cheia, entreabriu mansamente a porta da alcova.

— Dá licença?

— O que quer, tia?

— Está aí um moço seu amigo. Pode entrar?

Paulo Maurício mal teve tempo de abotoar o paletó.

O filho do fazendeiro, afastando a criada, penetrou no aposento.

— Oh! O Sr. Mendes?

— Eduardo, Eduardo é o meu nome! Venho brigar muito com você, ilustre desertor!

O filho do fazendeiro em um belo rapaz, formoso de corpo e formoso de alma; coisa rara numa época em que a matéria anda tão hostil ao espírito. Tinha 22 anos e cursava as últimas aulas da Escola Central.

— Desertor?

— Desertor, sim! Mas, antes de tudo — prosseguiu o moço ao ouvido do poeta — põe no olho da rua esta velha imensa!

A tia Angélica, a um sinal de Paulo Maurício, saiu do quarto resmungando sinistramente.

— Meu caro Maurício — prosseguiu Eduardo Mendes —, você é um ingrato, e além de tudo um traidor!

— Um traidor, eu?!

— Pois o que significa o mimo que deu à minha irmã?

O poeta corou até as pálpebras, e a palavra suspendeu-se-lhe nos lábios enleados.

— Olha — acudiu o outro, forçando-o a sentar-se e apoderando-se de uma pequena mala carunchosa que metamorfoseou em cadeira —, minha família é simples como as plantas e desconfiada como um caipira.

— Mas...

— Espera. Das duas, uma: ou você está a fingir-se nababo, ou é na realidade um milionário, que viaja incógnito.

Paulo Maurício tentou cortar em meio o pensamento do camarada.

— Pelo amor de Deus, meu querido! Favoreça-me com a sua preciosa atenção. Meu pai o adora e eu adoro meu pai; logo, você é para mim um ente adorabilíssimo. Compreendo todo o orgulho dos talentos superiores; respeito o melindre dos corações nobres, porém, rogo-lhe, que veja de hoje em diante naquela casa das Laranjeiras uma espécie de cabana de Bernardim de Saint— Pierre, pronta a abrigar a amizade, e não um palácio de duques, marqueses, condes, valetes, et reliqua!

O poeta riu-se e apertando a mão do amigo:

— O senhor é uma encantadora alma! — disse ele.

— Outra! O senhor! Parece-me, meu caro, que nunca chegaremos a um acordo, e portanto...

O filho do fazendeiro dirigiu-se à porta, de chapéu em punho.

Paulo Maurício sentiu-se arrastado por tanta graça e espontaneidade. Prendendo nos braços o amigo, exclamou com a voz comovida:

— Perdoa-me, Eduardo; eu sou um urso!

— Ora, graças! — volveu o moço com todos os ímpetos do prazer juvenil — Je te retrouve, mon chéri!

Meia hora depois, o filho do fazendeiro despediu-se.

— Sabes, Paulo Maurício; quero-te um bem enorme. Se fosses mulher casava-me contigo.

O cão pôs-se a acarinhar os pés de Eduardo Mendes.

— Não sabia que eras amador do gênero. Hei de oferecer-te um galgo soberbo.

— É inútil. Basta-me este leal e inteligente amigo.

— Queres-lhe muito?

— Muito; se a teoria de Pitágoras não é uma asneira, a alma deste cão pertenceu a algum mártir romano.

— Sim?

— Palavra!

— Pois bem — exclamou o filho do fazendeiro, com um ar meio cômico e meio sério —, juro pela cabeça do teu cão que serei teu amigo eternamente.

— Que palavra comprida!

— Com a condição, já se sabe, de não seres mais?... ajuda-me!

— Urso?

— Apoiadíssimo; urso!

Entre gargalhadas separaram-se os dois rapazes.

Paulo Maurício sentou-se de novo à mesa do trabalho.

O cão humildemente veio enroscar-se ao pé da mesa. O poeta afagou-o com a mais fraternal meiguice:

— Descansa, meu amigo. Ninguém ocupará o teu lugar.

O animal cerrou os olhos, agitando a cauda amorosamente.


CAPÍTULO 9: COMO SE PAGA UMA DÍVIDA

Graças à proteção de Mendes, de quem mestre Gregório dependia como todo o usurário dos homens dinheirosos, a existência de Paulo Maurício viu-se transformada de repente; entre os espinhos de sua jornada laboriosa brotam algumas flores peregrinas.

O filho do fazendeiro forçara o poeta a receber um ou outro mimo das mãos do pai, e ele próprio rara vez deixava de visitar, depois da aula, o modesto aposento da rua Misericórdia.

Embalado por tão inesperadas carícias, a alma do poeta, contrária à dos sibaritas, agitou no ar chamejante da mocidade as suas asas diáfanas, e o talento de Paulo Maurício com mais ânsia entregou-se às conquistas da inspiração e do futuro. O poema limado e concluído esperava apenas a hora da publicidade, esse mar tormentoso em que, segundo una frase célebre, navegam quase sempre sem perigo os batéis e soçobram as grandes esquadras.

O filho de Mendes surpreendeu uma noite Paulo Maurício na leitura do seu amado manuscrito. O poeta, à vista do amigo, ocultou o livro.

— Tens medo de que eu te roube algum pensamento?

— Que ideia!

— Sorriram os dois e saíram braço aqui, braço acolá, com direção à praça da constituição. O cão seguia-os como uma sombra.

Havia festa na cidade essa noite; uma festa nacional. A praça da constituição, toda embandeirada e iluminada, mal continha a multidão que a atravessava de lado a lado.

— Sabes, Paulo, que eu chego a invejar a sorte deste quadrúpede que nos acompanha?

— Explica-te!

— Decerto. É o teu único confidente, parece-me. Para mim tens segredos, caro mio!

Paulo Maurício contemplou lentamente o companheiro:

— Um dia será divulgado esse segredo.

— De forma que só no supradito dia é que este teu humilíssimo servo entrará na confidência geral?

— Olha, Eduardo. Eu sou como um desgraçado joalheiro cuias mãos tímidas e assustadas gastam noites, meses e anos na confecção de um tesouro, destinado a fazê-lo rico ou a abismá-lo de todo na miséria. Enquanto não estiver completamente terminada a obra, o silêncio e o mistério devem cercá-la como sentinelas constantes. Perdoa a perífrase e admira a estátua do primeiro imperador.

Discutiram e conversaram sobre mil coisas ainda. As aspirações da mocidade e os sonhos dessa fulgurante quadra da vida voavam pousando sobre as duas esperançosas almas, como um bando de pombas no topo de uma palmeira. Às dez horas da noite o poeta quis voltar à casa. Eduardo Mendes conseguiu demorá-lo mais tempo, e, apesar de inúmeras negativas da parte de Paulo Maurício, entraram os dois num café.

— É preciso habituar-te um pouco à vida, meu guaicuru — observou, rindo, o filho do fazendeiro.

O licor produz uma série de indiscrições e confidências, que fora ocioso catalogar aqui. À meia-noite, já Eduardo Mendes conhecia o título e o assunto do poema de Paulo Maurício.

— É o tesouro do joalheiro — disse o poeta. — Se eu o perdesse, morreria!

Iam a sair do café quando ouviram badaladas fúnebres em várias freguesias e algumas pessoas do povo a correrem azafamadas.

— Oh! diabo! — exclamou o filho do fazendeiro; é fogo!

Os dois amigos foram instintivamente conduzidos na mole sussurrante, que o mesmo pensamento atraía.

Os bombeiros corriam arrastando as pesadas máquinas, cujas rodas reboavam como um agouro pelas calçadas e ruas. Ao longe um clarão sinistro avermelhava o horizonte.

— Tens medo? — perguntou Eduardo Mendes graciosamente.

— Por quê?

— Senti teu braço estremecer.

O cão, perdido entre o povo, deu um arranco ouvindo o poeta chamá-lo, e não os deixou mais, acelerando a corrida um pouco febril. Por vezes o animal estacava de súbito e espreitava o horizonte aclarado pelo incêndio.

Próximos à rua da Misericórdia, Paulo Maurício e Eduardo Mendes foram forçados a diminuir os passos. O povo engrossava, e os gritos dos bombeiros, o estalido do incêndio, o próprio calor do fogo, não punha mais em dúvida o lugar do desastre.

— É na minha rua! — gritou Paulo Maurício, e arrastando o amigo cortou as ondas tumultuosas do povo. Um cordão de policiais e de curiosos circulava a casa de mestre Gregório. Era lá o incêncio. As labaredas enroscavam-se pelas janelas, as faíscas subiam vertiginosamente, enovelando-se no ar como um repuxo sibilante; desabavam com estrondo as paredes, e a água das bombas mal podia cortar aquela muralha rubra e vaporenta. Paulo Maurício, lívido, ofegante, alucinado, quis arremessar-se ao fogo, arrancando-se dos braços de Eduardo Mendes.

— Paulo Maurício!

— Deixa-me pelo amor de Deus! — bradou o poeta estendendo as mãos para as chamas convulsivas. — Não vês que eu perco ali a minha felicidade, o meu sangue, a minha glória?

E desprendendo-se do amigo lançou-se à porta da casa. Os policiais impediram-no a custo.

O poeta quase exânime, com os dedos cerrados entre os cabelos úmidos, foi cercado pelo povo e sentiu-se preso entre as mãos nervosas de Eduardo Mendes.

Nesse momento fez-se um vácuo nas chamas; a onda rubra entreabriu-se de súbito, e um cão, um cão com o pelo incendiado, e o corpo aberto em chagas, de um salto miraculoso, passou sobre o povo e sobre a tropa, caindo aos pés de Paulo Maurício. Na boca do animal vinha um rolo de papéis.

O poeta desprendeu um grito de angústia e de prazer, reconhecendo o seu poema, salvo do incêndio.

Foi difícil arrancar das presas espumantes do cão o manuscrito. Paulo Maurício, seguido por Eduardo Mendes e algumas pessoas do povo, vibrantes de curiosidade e de pasmo, correu à primeira botica onde em vão tentou restituir à vida o seu heroico e sublime amigo.

O poeta de joelhos, junto ao animal agonizante, chorava como uma criança.

— Pagaste cedo a tua dívida, meu leal companheiro! — articulou ele através dos soluços que o abalavam. — E a providência te abandona! E Deus não me concebe a suprema ventura de te salvar!

O cão, cravando o derradeiro olhar no rosto pálido do seu amigo, esforçou-se por mover ainda a cauda, como nas horas da passada alegria e, estendendo a cabeça mutilada sobre a mão do poeta, expirou gemendo.

Publicou-se, seis meses depois, o poema de Paulo Maurício.

A primeira página, tarjada de negro, era consagrada à memória de um cão.

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