quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O isolamento (Conto), de Marques de Carvalho


O isolamento
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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I
Ergui-me com a estrela d'alva, esta manhã.
Opresso pela atmosfera pesada do aposento, saí logo ao terraço, a receber em cheio na face a brisa que, desde o interior da casa, eu ouvia sacudir valentemente as grandes árvores da floresta, ali perto.
Logo bebi, sôfrego, esse ar embalsamado que enchia o ambiente.
Uma alegria sem par empolgou-me o espírito, sem dúvida suscitada pela grandiosa beleza circundante. Embrenhei-me na mata, seguindo uma azinhaga. Começava a amanhecer. Havia no ar esse murmúrio das aves que despertam, — bulício tépido que só podem avaliar os madrugadores na roça, — um como roçar voluptuoso do frouxel suavíssimo que exorna as inúmeras legiões canoras do Amazonas.
Não sei o tempo que andei quase às apalpadelas, ao longo do carreiro. Interessava-me tanto pelo duplo acordar dos ninhos e das plantas, que só reparei em mim mesmo quando, já dia claro, encontrei-me no cantro de uma bela clareira. Por cima de mim, balbuciava a brisa dulcíssimos rumorejos, agitando as copas verdejantes. Em derredor, porém, era, às vezes, absoluta a tranquilidade das coisas. Por intermitências, nem mesmo um ciciar de passarinho, ou esse misterioso, farfalhante correr de lagarto, que parece suscitar não sei que estranhos sobressaltos nas florestas do meu país.
Formava a clareira como um salão circular preparado pela natureza para receber-me. E, para que nada faltasse, havia, ao fundo, estendido como um lutador exausto, um grande tronco secular, que alguma tremenda tempestade derribara. Amplo, coberto do limo que arremedava a fofa disposição dos estofos valiosos, esse gigante vencido oferecia-me cômodo assento rústico. Entretanto, não utilizei-me dele: sentindo-me bem, sentindo-me feliz, estava longe da fatiga. Por insensível movimento de domínio orgulhoso, apenas pus-lhe o pé no dorso, vencedoramente.
Na mesma ocasião, porém, penetrou-me o pavor: uma grande ave, um inhambu graciosíssimo emergiu dentre as touças de verdura fresca, de sob o tronco abatido e ergueu o voo para o interior do mato, num largo ruflar de asas com indubitáveis entonações zombeteiras, intoleravelmente escarninhas.

II
Quedei-me ali muito tempo, a seguir esta ordem de pensamentos.
No entanto, o céu fora devassado pelo hilariante clarão com que este bendito sol da minha terra doura todas as coisas, em sua munificência de soberano insuplantável. Por toda a parte, só uma coisa via: luz, luz, luz, esse alastrar de claridade que penetra tudo, que dá aos objetos uma aparência de alegria, de intenso júbilo paradisíaco!
Pelo ar, cantavam sempre a brisa e as aves, estas menos talvez do que aquela, comprometida a fazer a larga harmonia da alígera volata.
A clareira formava agora um salão redondo alcatifado de veludo esmeraldino, iluminado de uma orgia de raios, vibrante da deliciosa bacanal dos passarinhos.
Minha alma dilatava-se mais no gozo, até ali inexperimentado, de tamanha quietude, de tão profunda sensação do que é grato na liberdade.
O isolamento! Quanta paz na situação que esta frase traduz! Que suaves delícias que meigo langor frui o espírito no sossego completo, divorciado dos cuidados da vida comum, senhor enfim de sondar a consciência própria, com a qual anda, às vezes, semanas inteiras sem ter um só instante para escutar-lhe as impressões, para confabular com ela, extremado dos seres banais e falsos que formam a nossa roda habitual!
Haverá porventura alguém que não preze esses momentos de silêncio, nos quais a alma fala consigo própria, dizendo coisas há muito sentidas e que, entretanto, parecem-lhe, — quando examinadas, — estranhas novidades jamais ouvidas?
Lembro-me agora da atenta concentração em que surpreendo, algumas vezes, no alto das ramarias, esses folgazões alados que garganteiam a todo instante cristalinas fiorituras sonoras. Dir-se-ia monologarem, resolvendo ponderoso assunto, tal a profunda gravidade com que pendem a cabecinha, como recolhidos ao mais íntimo de si mesmos.
Conheci um canário ao qual este gênero de melancolia era habitual. Valente cantor, adorado em toda a vizinhança pelo talento com que desferia os seus belíssimos gorjeios, valia a pena vê-lo, quando espanejava-se ao sol, muito arrepiado e gracioso, revolvendo com o bico, em rápida imersão, a água do pequenino tanque de cristal da gaiola doirada onde vivia.
Tirava horas inteiras para cantar, saltitante e feliz! Podia dizer-se que empenhava-se em fazer um impossível, ou que pretendia matar-se num excesso melódico e genial, superior às forças de seu mesquinho ser de passarito delicado!
Porém detinha-se de repente, entre um trinado e um silvo: detinha-se, interrompendo os elegantes pulinhos e, imóvel na travessa principal, ficava ali demorados momentos, a curvar a loira cabeça para um e outro lado, com uma seriedade que poderia fazer sorrir a quem, superficial e leviano, não ponderasse no mistério daquele inesperado recolhimento em que uma alma sonhadora e romântica parecia despertar nele com intercadências fatais.
Terão também os pássaros o prazer do solilóquio, a volúpia da meditação? Terão também a percepção dos gozos inebriantes que provem da certeza de estarmos sós, — absolutamente sós, que ventura! — enfim libertados da tirania das convenções, capazes de desafivelar a máscara que atam-nos à face os respeitos mundanos?...
Bem quisera crer na existência, neles, de um poder de reflexão, pois de outro modo não sei explicar aquela postura tão estranha, aquele ar filósofo, essa expressão quase humana, — tão humana, que surpreende!
É que, de certo, sentem o valor do sossego, da paz completa, do tranquilizador influxo da solidão, cujos inefáveis encantos fascinam, penetram o organismo de uma tepidez emoliente, dão este bálsamo incomparável: — a alegria de viver!
E como assim não acontecer, visto que as aves são as dominadoras do espaço, os habitantes da mata, onde é de todo sensível o poder do isolamento, desta situação, que pode ser considerada egoísta e destruidora, porém que o meu espírito acaba de começar a compreender, a reverenciar, a amar com descompassados entusiasmos, porque vai-lhe perscrutando os largos arcanos de poesia e alento filosófico, o vigor que insufla a mente para aprofundar-se no estudo subjetivo, no conhecimento do eu, a desilusão a que arrasta-nos em relação às pequenas misérias odientas do mundo postiço dos falsos e dos pretensos civilizados?...
Glória ao isolamento! Bendita sejas, ó grande floresta amazônica, osculada pela ardente paixão do sol, toda sonora dos folguedos da passarada chilreante, rica de estranhos mistérios e de misteriosas riquezas inestimáveis!

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