10/15/2017

O inteligente Cícero (Conto), de Alcântara Machado


O inteligente Cícero: Menino Cícero José de Sá Ramos
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Dois dias depois da chegada de Cícero ao mundo (garoava) o Diário Popular escreveu: Acha-se em festas o venturoso lar do nosso amigo senhor Major Manuel José de Sá Ramos, conhecido fabricante do molho João Bull e da pasta dentifrícia Japonesa, e de sua gentilíssima consorte Dona Francisca Melo de Sá Ramos, com o nascimento de uma esperta criança do sexo masculino que receberá na pia batismal o nome de Cícero. Felicitamos muito cordialmente os carinhosos pais. O major foi pessoalmente à redação levar os agradecimentos dos carinhosos pais e no dia seguinte o órgão da opinião pública registrou a visita referindo-se mais uma vez à esperteza congênita de Cícero.
Quando o pequeno fez dois anos passou a ser robusto. Quando fez quatro foi promovido pelo Diário Popular a inteligente e mui promissor menino.
Nesse dia Dona Francisca achou que era chegado o momento de ensinar ao Cícero O Estudante Alsaciano. Seis estrofes mais ou menos foram decoradas. E a madrinha Dona Isolina Vaz Costa (cuja especialidade era doce de ovos) foi de parecer que quanto à dicção ainda não está visto mas quanto à expressão Cícero lembrava o Chabi Pinheiro. No entanto advertiu que do meio para o fim é que era mais difícil. Principalmente quando o heroico rapazinho desabotoava virilmente a blusa preta e gritava batendo no peito: Aqui dentro, aqui é que está a França!
Cícero na véspera do Natal de seus cinco anos às sete horas da noite estava entretido em puxar o rabo do Biscoito quando Dona Francisca veio buscá-lo para dormir. Cícero esperneou, berrou, fugiu e meteu-se embaixo da mesa da sala de jantar. Foi pescado pelas orelhas. Carregado até a cama.
Dona Francisca tirou a roupa dele, enfiou-o no macacão e disse:
— Vá dizer boa-noite para papai.
Beijada a mão do major (que decifrava umas charadas do Malho) voltou. E Dona Francisca então falou assim:
— Olhe aqui, meu filhinho. Tire o dedo do nariz. Olhe aqui. Você agora vai pôr seu sapatinho atrás da porta (compreendeu?) para São Nicolau esta noite deixar nele um brinquedo para o meu benzinho.
Cícero obedeceu correndo.
— Bom. Agora reze com a mamãe para Nossa Senhora proteger sempre você.
Rezou sem discutir.
— Assim sim que é bonito. Não meta o dedo no nariz que é feio. E durma bem direitinho para São Nicolau poder deixar um brinquedo bem bonito.
Cícero no escuro deu de pensar no presente de São Nicolau. E resolveu indicar ao santo o brinquedo que queria por causa das dúvidas. Não confiava no gosto do santo não. Na sua cabeça os soldados vistos de manhã marchavam com a banda na frente. E disse baixinho:
— São Nicolau: deixe uma espingardinha.
Virou do lado direito e dormiu de boca aberta. Às sete da manhã encontrou um brinquedo de armar atrás da porta. Ficou danado. Deu um pontapé no brinquedo. E chorou na cama apertando o dedão do pé.
Na véspera do Natal de seus seis anos às sete e meia da noite estava Cícero matando moscas na copa quando o major veio chamá-lo para dormir. Ranzinzou. Choramingou. Quis escapar. Foi seguro por um braço e posto a muque na cama. Dona Francisca já esperava afofando o travesseiro.
— Fique quietinho, meu filho, que é para São Nicolau trazer um brinquedo para você.
Não quis ouvir mais nada. Arrancou os sapatos e foi mais que depressa deixar atrás da porta. Mas depois ficou algum tanto macambúzio. Coçando a barriga e tal.
— Que é que você tem? Mostre a língua.
Com má vontade mas mostrou. Dona Francisca verificou o seu aspeto saudável.
— Vá. Diga para sua mamãe que é que você tem.
— Como o da outra vez eu não quero mesmo.
— Não quer o quê?
O brinquedo...
Dona Francisca riu muito. Beijou a cabecinha do Cícero. Foi buscar um lenço. Encostou no nariz do filho.
— Assoe. Com bastante força. Assim. De novo. Está bem. Agora me diga direitinho que brinquedo você quer que São Nicolau traga.
— Não.
— Diga sim, minha flor, para mamãe também pedir.
— Não.
— Então mamãe apaga a luz e vai embora. Depois que ela sair o meu filhinho ajoelha na cama e diz bem alto o presente que ele quer para São Nicolau poder ouvir lá do céu. Dê um beijinho na mamãe.
Não ajoelhou não. Ficou em pé em cima do travesseiro, ergueu o rosto para o teto e berrou:
— Eu quero um tamborzinho, São Nicolau! Ouviu? Também um chicotinho e uma cornetinha! Ouviu?
Dona Francisca ouviu. E o major logo de manhãzinha levou uma cornetada no ouvido. Pulou da cama indignadíssimo. Porém o tambor já ia rolando pelo corredor. O chicotinho foi reservado para o Biscoito.
Cícero na véspera do Natal de seus sete anos às oito horas da noite estava beliscando os braços da Guiomar quando Dona Francisca (regime alemão) apareceu na porta da cozinha para mandá-lo dormir. Escondeu-se atrás da Guiomar.
— Depois, mamãe, depois eu vou!
— Já e já!
O rugido do major daí a segundos decidiu-o.
Sentado na cama bebeu umas lágrimas, fez um ligeiro exercício de cuspo tendo por alvo o armário, vestiu a camisola e veio descalço até o escritório beijar a mão do papai e da mamãe. Dona Francisca voltou com ele para o quarto. Sentou-o no colo.
— Você já pôs os sapatos atrás da porta?
Cícero fez-se de desentendido.
— Eu sou paulista mas... de Taubaté!
— Agora não é hora de cantar. Responda.
— Atrás da porta não cabe.
Dona Francisca não podia compreender. Não cabe o quê?
— O que eu quero.
— Que é que você quer?
Cícero começou a contar nos dedos.
— Um-dois, feijão com arroz! Três-quatro...
— Responda!
— Ara, mamãe...
— Diga. Que é?
— Ara...
— Não faça assim. Diga!
Foi barata que entrou ali debaixo do armário?
— Eu quero... Ah! mamãe, eu não quero dizer...
— Se você não disser São Nicolau castiga você.
— Quando é que a gente vai na chácara de titio outra vez?
Dona Francisca apertou os braços do menino.
— Assim machuca, mamãe! Eu quero um automóvel igual ao de titio, pronto!
— Que é isso, Cícero? Um Ford? Pra quê? Você é muito pequeno ainda para ter um Ford.
— Mas eu quero, pronto!
Dona Francisca deixou o filho muito preocupada e foi confabular com o major. Mas o major (premiado com um estojo Gillette no concurso charadístico do Malho) achou logo a solução do problema.
— Tenho uma ideia genial.
Tapou a ideia com o chapéu e saiu. Dona Francisca ninava o corpo na cadeira de balanço louca para adivinhar.
As sete horas da manhã Cícero sem sair da cama encompridou o pescoço para examinar um automóvel deste tamanhinho parado no meio do quarto. Meio tonto ainda deu um pulo e foi ver o negócio de perto. Em cima do volante tinha um bilhete escrito à máquina: Meu querido Cícero. Dentro de meu cesto não cabia um automóvel grande como você pediu. Por isso deixo este que é a mesma coisa. Tenha sempre muito juízo e seja bonzinho para seus pais. (a) S. Nicolau.
Não vê. Cícero soltou dois ou três berros que levantaram no travesseiro os cabelos cortados de Dona Francisca. O major enfiou os pés nos chinelos e foi ver o que havia. Cícero pulava de ódio.
— Mas você não viu o bilhete, meu filhinho? Quer que eu leia para você?
— Eu não quero essa porcaria!
O major encabulou e se ofendeu mesmo. Dona Francisca veio também saber da gritaria.
— Mas então, Cícero! Não chore assim. Você chorando São Nicolau nunca mais traz um presente para você.
— Eu não preciso de nada!
O major já alimentava a sinistra ideia de passar um dos chinelos do pé para a mão. Dona Francisca pelo contrário ameigava a voz.
— Ah, meu benzinho, assim você deixa mamãe triste! Não chore mais.
O major foi se aproximando do filho assim como quem não quer.
— Deixe, Neco. Agradando se arranja tudo.
Do lado de lá da cama o Cícero desesperado da vida. Do lado de cá os carinhosos pais falando alternadamente. Sobre a cama (já com um farol espatifado) o pomo da discórdia.
— São Nicolau é velhinho, não pode carregar um cesto muito grande...
— E depois por grandão que fosse não podia caber um Ford de verdade dentro dele...
— É. E se cabesse...
— Se coubesse, Francisca!
—...se coubesse São Nicolau não aguentaria com o peso...
— Está cansado, não tem mais força.
Cícero foi retendo a choradeira. Levantou a camisola para enxugar as lágrimas.
— Não fique assim descomposto!
Os últimos soluços foram os mais doídos para engolir. Mas parecia convencido.
— Então? Não chora mais?
Assumiu uns ares meditabundos. Em seguida pôs as mãos na cintura. Ergueu o coco. Pregou os olhos no pai (o major sem querer estremeceu). Disse num repente:
— Se ele não podia com o peso por que não deixou o dinheiro para eu comprar o Fordinho então?
Nem o major nem Dona Francisca tiveram resposta. Ficaram abobados. Berganharam olhares de boca aberta. O major piscava e piscava. Sorrindo. Procurou alcançar o filho contornando a cama. Cícero farejou uns cocres e foi se meter entre o armário e a janela. Fazendo beicinho. Tremendo encolhido.
— Não dê em mim, papai, não dê em mim!
Mas o major levantou-o nos braços. Sentou-se na beirada da cama com ele no colo. Cícero. Apertou-lhe comovidamente a cabeça contra o peito. Olhando para a mulher traçou com a mão direita três círculos pouco acima da própria testa. Depois mordeu o beiço de baixo e esbugalhou os olhos para o teto. Cícero. Dona Francisca sorriu apertando os olhos:
— Veja você, Neco!
— Estou vendo! E palavra que tenho medo!
Dona Francisca não entendeu. E o major então começou a explicar.

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