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5/28/2025

Alcântara Machado: "Os dez melhores contos" (Seleção de Iba Mendes)

Nasceu Antônio de Alcântara Machado na cidade de São Paulo, no dia 25 de maio de 1901. Mesmo tendo falecido ainda jovem (com 33 anos de idade), deixou como legado à literatura brasileira importantes obras, com especial destaque para o livro de contos "Brás, Bexiga e Barra Funda". Como contista fez uso de uma linguagem ao estilo modernista, abordando cenas cotidianas da vida paulista, principalmente  de imigrantes.

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7/23/2019

Gonçalves de Magalhães: últimos anos (Biografia)



Gonçalves de Magalhães: últimos anos

Em 10 de junho de 1874, Magalhães é acreditado junto à Santa Sé, na qualidade de enviado extraordinário e ministro plenipotenciário, e, quase simultaneamente, por decreto de 25 do mês seguinte, passa de barão a visconde com grandeza.

Quando o Visconde de Araguaia apresenta as credenciais a Pio IX, dois príncipes da Igreja, frei Vital e D. Antônio de Macedo Costa, acham-se, um na fortaleza de São João e outro na da Ilha das Cobras, expiando a pena de quatro anos de prisão simples, em que lhes foi comutada a de prisão com trabalho, a que foram condenados pelo Supremo Tribunal de Justiça, às ordens do primeiro Rio Branco.

Tanto basta para demonstrar a delicadeza excepcional da situação do diplomata brasileiro junto ao Sumo Pontífice.

Em boa hora vem facilitar-lhe a missão a anistia de 1875, Magalhães pode então voltar às suas preocupações filosóficas.

As duas últimas obras que lhe saem da pena são A alma e o Cérebro, em 1876, e Comentários e Pensamentos, em 1880.

Desta nenhuma página existe, que mereça menção. Naquela, dedicada ao Imperador, que se dignou "ouvir a leitura de alguns capítulos" e animou o autor a concluir o trabalho, há uma apreciação da frenologia de Gall, do sensualismo de Condillac e do materialismo. Na parte negativa está, para Leonel Franca, a parte melhor da obra filosófica de Magalhães.

Em Roma, a 10 de julho de 1882, com pouco menos de setenta anos, falece o Visconde de Araguaia.

Bem pode ser que, a dois passos do trânsito supremo, lhe tenham acudido à memória aqueles versos de Antônio José:

Morrer... Morrer... Quem sabe o que é a morte?
Porto de salvamento ou de naufrágio?

O naufrágio, para um homem como ele, seria o esquecimento. Passados cinquenta anos, o seu nome vive ainda e não morrerá tão cedo, porque sem decliná-lo ninguém poderá traçar a história do pensamento nacional. Entendia assim José Veríssimo, representante da geração que lhe sucedeu: "influiu poderosamente na formação da literatura brasileira, que desde então começa a distinguir-se da portuguesa". Reconhecem-no os moços de hoje (década de 1930) como Ronald de Carvalho e Mota Filho, que enaltecem "o empenho de Magalhães em prol da libertação literária do Brasil".

Pouco importa que, fecunda em abortos, a obra do poeta, do teatrólogo, do crítico, do novelista, do filósofo tenha mais intenções do que realizações. A grandeza dos ideais que o inspiravam, o desejo constante de enobrecer a vida, o culto ardente das coisas da inteligência, a coragem e por vezes a galhardia com que abordou todos os gêneros, o papel que, embora contra a sua vontade e ao arrepio de suas convicções mais radicadas, desempenhou no movimento romântico, fazem de Magalhães um dos valores de nossa aristocracia espiritual.

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ALCÂNTARA MACHADO
"Gonçalves de Magalhães ou o romântico arrependido" (1936)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Alcântara Machado - Magalhães e o Teatro Brasileiro (Crítica)



Magalhães e o Teatro Brasileiro

Publicado na Europa o livro Suspiros Poéticos, Magalhães volta ao Brasil, desembarcando no Rio de Janeiro a 14 de maio de 1837.

Ao que dizem, a frase que lhe assoma aos lábios, ao entrar na baía de Guanabara e diante de maravilhas tamanhas, é esta exclamação desdenhosa: "Ó terra de ignorantes!" Parece tratar-se de invencionice fabricada para malquistá-lo com os compatriotas. Ao invés do que se propala, Magalhães dá mostras, em versos inflamados, de quanto se julga venturoso em rever

O pétreo gigante majestoso
Sobre as cerúleas ondas ressupino...
Do golfo ingente, que do mundo as naves
Todas pode conter no âmbito imenso;

e o sol dos trópicos que refulge ainda

Nestes climas
Da Providência esmero
Onde se apraz a amiga liberdade
Tão grata aos corações americanos;

e a terra em que nasceu:

Se em ti não venho achar da Europa o fausto...
Também não acharei suas misérias
Maiores que seu brilho.

Desembarca, e é recebido como um triunfador pelos contemporâneos.

Assim estimulado, recomeça imediatamente a atividade literária.

Em fins de 1837, ou começos do ano imediato, escreve para João Caetano dos Santos a tragédia Antônio José ou o Poeta e a Inquisição. É a primeira obra desse gênero que empreende. Não há contar, de fato, o "elogio dramático em aplauso do dia aniversário da Independência, representado no teatro particular da Rua dos Arcos em 7 de setembro de 1831", alegoria detestável, em que o Brasil, a Liberdade, o Fado e o Coro das Províncias se entregam a copioso intercâmbio de sensaborias, à sombra de "aprazível bosque as margens do Rio de Janeiro".

A tragédia vai á cena em 13 de março de 1838, no Teatro da Praça da Constituição, conhecido também por Teatro Constitucional Fluminense. João Caetano desempenha o papel do protagonista; Estela Sezefredo, o de Mariana; Costa, o de frei Gil; Amaral, o de Conde de Ericeira.

Noite memorável. A sala, repleta e vibrante: "em todas as dependências do teatro (notícia o Jornal do Comércio na edição de 21 de março), o público se apinhava ardoroso e exaltado, como se tivesse consciência do momento histórico". O êxito, formidável: o autor se recordaria mais tarde, com desvanecimento, dos elogios e aplausos conquistados pela tragédia, e especialmente pelo quinto ato, nas repetidas vezes em que subiu à cena.

Justificam-se as aclamações da plateia carioca e a ufania de Magalhães. Não pelo que vale Antônio José, mas pelo que representa.

O que representa, disse-o muito bem José Veríssimo. Refervem ainda as esperanças e ilusões suscitadas pela Independência, que data apenas de quinze anos. É nessa atmosfera abrasada pelo patriotismo que se desenrola este espetáculo inédito: atores brasileiros ou abrasileirados interpretam em um teatro brasileiro a produção de um brasileiro, que se destina a evocar a figura de outro brasileiro martirizado pela metrópole. Naturalíssima a repercussão que tem na alma do povo essa primeira tentativa de nacionalização do teatro.

O que vale é, em verdade, muito pouco.

Magalhães, que dera um passo à frente com os Suspiros Poéticos, recua acintemente para o passado com o Antônio José. A fim de tornar bem manifesto o seu divórcio da corrente literária, a que se filiara durante a estadia na Europa, não escreve um drama histórico à mania dos românticos, com as suas paixões descabeladas, os seus lances violentos, a sua preocupação da cor local e do pormenor pitoresco; nem um melodrama consoante a receita de Pixérecourt e Ducange, rápido na ação, violento e pueril nos processos, e moral no desenlace, que é o triunfo inevitável da virtude. Não: em vez de escolher uma dessas fórmulas teatrais, que são as do tempo em que vive, Magalhães mergulha no passado e volta de lá com uma tragédia em cinco atos. Não lhe consente o engenho tomar por modelo qualquer das obras-primas da idade áurea. Inspira-se nos frutos abortícios da decadência. De modo que Antônio José encerra todos os defeitos do gênero, e nenhuma de suas belezas.

Justíssima, a crítica de Sílvio Romero: obra incolor, sem vida, sem ação. A fabulação? Pueril. As personagens? Tudo quanto há de mais falso. O estilo? Tudo quanto há de mais empolado, cerimonioso, retórico. O verso? Tudo quanto há de mais prosaico, lembrando, a cada instante, o dito de Rivarol: c'est là de la prose, ou des vers se sont mis.

Desse juízo, que é o dos críticos, poderia o autor apelar para o das multidões. Alguma coisa ficou, na memória coletiva, da versalhada de Antônio José. Há ainda quem proclame: "Nasce de cima a corrupção dos povos..." Existe ainda quem diga sentenciosamente: "Poetas por poetas sejam lidos, poetas por poetas entendidos". A glória é isso mesmo, afinal de contas: uma palavra, uma atitude, um gesto, que sobrevivem.

Reincidindo no pecado, Magalhães comete, logo depois, nova tragédia em cinco atos. Olgiato é representado a 7 de setembro de 1839, por ocasião da reabertura do Teatro São Pedro de Alcântara, em que se transforma o Teatro Constitucional Fluminense. Nem João Caetano, nem Estela Sezefredo figuram entre os intérpretes. Cedem a autores secundários os papéis que lhes destinara o autor.

Parece não ter sido dos maiores o êxito da peça. Em Olgiato sobram os vícios literários de Antônio José. O enredo está fora do plano da realidade, e também pela pobreza de invenção, abaixo do plano da poesia. As personagens são meras abstrações. A linguagem insossa, quando não pretensiosa. O que salva a obra anterior é a circunstância de versar assunto nacional. Nem essa atenuante se pode invocar a favor de Olgiato, que se vai abeberar num episódio minúsculo da história de Milão.

Coisa diferente não temos o direito de esperar de quem se revela, em matéria de arte, escravo de preconceitos infantis. "Se eu introduzisse Galeazzo em cena", diz ele, "ver-me-ia forçado a dar-lhe o seu torpe e infame caráter; o que, além de vexar o ator que o interpretasse, incomodaria os espectadores e vexaria a moral pública... Que jogo de cena poderia haver com um tigre que ia direito ao crime, de que alardeara?.... E quereriam os apaixonados da realidade vê-lo assim em cena?" Sem comentários.

A seguir, Magalhães traduz Otelo, a pedido de João Caetano, que representa em sua festa artística a tragédia. Não a produção de Shakespeare; mas a ignóbil adaptação de Ducis, em que Desdêmona aparece desfigurada em Hedelmonda, e, de vergonha, lago se esconde sob a máscara de Pésaro...

Além dessa, Magalhães trasladou para o vernáculo outras produções teatrais, de que não há notícia precisa. Diz ele, com efeito, haver excluído da edição de suas tragédias "outras menos aceitas".


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ALCÂNTARA MACHADO
"Gonçalves de Magalhães ou o romântico arrependido" (1936)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

6/21/2019

Apólogo brasileiro sem véu de alegoria (Conto), de Alcântara Machado



Apólogo brasileiro sem véu de alegoria
O trenzinho recebeu em Magoari o pessoal do matadouro e tocou para Belém. Já era noite. Só se sentia o cheiro doce do sangue. As manchas na roupa dos passageiros ninguém via porque não havia luz. De vez em quando passava uma fagulha que a chaminé da locomotiva botava. E os vagões no escuro.
Trem misterioso. Noite fora, noite dentro. O chefe vinha recolher os bilhetes de cigarro na boca. Chegava a passagem bem perto da ponta acesa e dava uma chupada para fazer mais luz. Via mal e mal a data e ia guardando no bolso. Havia sempre uns que gritavam:
— Vai pisar no inferno!
Ele pedia perdão (ou não pedia) e continuava seu caminho. Os vagões sacolejando.
O trenzinho seguia danado para Belém porque o maquinista não tinha jantado até aquela hora. Os que não dormiam aproveitando a escuridão conversavam e até gesticulavam por força do hábito brasileiro. Ou então cantavam, assobiavam. Só as mulheres se encolhiam com medo de algum desrespeito.
Noite sem lua nem nada. Os fósforos é que alumiavam um instante as caras cansadas e a pretidão feia caía de novo. Ninguém estranhava. Era assim mesmo todos os dias. O pessoal do matadouro já estava acostumado. Parecia trem de carga o trem de Magoari.
***
Porém, aconteceu que no dia 6 de maio viajava no penúltimo banco do lado direito do segundo vagão um cego de óculos azuis. Cego baiano das margens do Verde de Baixo. Flautista de profissão dera um concerto em Bragança. Parara em Magoari. Voltava para Belém com setenta e quatrocentos no bolso. O taioca guia dele só dava uma forga no bocejo para cuspir.
Baiano velho estava contente. Primeiro deu uma cotovelada no secretário e puxou conversa. Puxou à toa porque não veio nada. Então principiou a assobiar. Assobiou uma valsa (dessas que vão subindo, vão subindo e depois descendo, vêm descendo), uma polca, um pedaço do Trovador. Ficou quieto uns tempos. De repente deu uma coisa nele. Perguntou para o rapaz:
— O jornal não dá nada sobre a sucessão presidencial?
O rapaz respondeu:
— Não sei: nós estamos no escuro.
— No escuro?
— É.
Ficou matutando calado. Claríssimo que não compreendia bem. Perguntou de novo:
— Não tem luz?
Bocejo.
— Não tem.
Cuspada.
Matutou mais um pouco. Perguntou de novo:
— O vagão está no escuro?
— Está.
De tanta indignação bateu com o porrete no soalho. E principiou a grita dele assim:
— Não pode ser! Estrada relaxada! Que é que faz que não acende? Não se pode viver sem luz! A luz é necessária! A luz é o maior dom da natureza! Luz! Luz! Luz!
E a luz não foi feita. Continuou berrando:
— Luz! Luz! Luz!
Só a escuridão respondia.
Baiano velho estava fulo. Urrava. Vozes perguntaram dentro da noite:
— Que é que há?
Baiano velho trovejou:
— Não tem luz!
Vozes concordaram:
— Pois não tem mesmo.
***
Foi preciso explicar que era um desaforo. Homem não é bicho. Viver nas trevas é cuspir no progresso da humanidade. Depois a gente tem a obrigação de reagir contra os exploradores do povo. No preço da passagem está incluída a luz. O governo não toma providências? Não toma? A turba ignara fará valer seus direitos sem ele. Contra ele se necessário. Brasileiro é bom, é amigo da paz, é tudo quanto quiserem: mas bobo não. Chega um dia e a coisa pega fogo.
Todos gritavam discutindo com calor e palavrões. Um mulato propôs que se matasse o chefe do trem. Mas João Virgulino lembrou:
— Ele é pobre como a gente.
Outro sugeriu uma grande passeata em Belém com banda de música e discursos.
— Foguetes também?
— Foguetes também.
— Be-le-za!
Mas João Virgulino observou:
— Isso custa dinheiro.
— Que é que se vai fazer então? Ninguém sabia. Isto é: João Virgulino sabia. Magafere-chefe do matadouro de Magoari, tirou a faca da cinta e começou a esquartejar o banco de palhinha. Com todas as regras do ofício. Cortou um pedaço, jogou pela janela e disse:
— Dois quilos de lombo!
Cortou outro e disse:
— Quilo e meio de toicinho!
Todos os passageiros magarefes e auxiliares imitaram o chefe. Era cortar e jogar pelas janelas. Parecia um serviço organizado. Ordens partiam de todos os lados. Com piadas, risadas, gargalhadas.
— Quantas reses, Zé Bento?
— Eu estou na quarta, Zé Bento!
Baiano velho quando percebeu a história pulou de contente. O chefe do trem correu quase que chorando.
— Que é isso? Que é isso? É por causa da luz? Baiano velho respondeu:
— É por causa das trevas!
O chefe do trem suplicava:
— Calma! Calma! Eu arranjo umas velinhas.
João Virgulino percorria os vagões apalpando os bancos.
— Aqui ainda tem uns três quilos de colchão mole!
O chefe do trem foi para o cubículo dele e se fechou por dentro rezando. Belém já estava perto. Dos bancos só restava a armação de ferro. Os passageiros de pé contavam façanhas. Baiano velho tocava a marcha de sua lavra chamada "Às armas cidadãos!" O taioquinha embrulhava no jornal a faca surrupiada na confusão.
Tocando a sineta o trem de Magoari fundou na estação de Belém. Em dois tempos os vagões se esvaziaram. O último a sair foi o chefe, muito pálido.
***
Belém vibrou com a história. Os jornais afixaram cartazes. Era assim o título de um: Os passageiros no trem de Magoari amotinaram-se jogando os assentos ao leito da estrada. Mas foi substituído porque se prestava a interpretações que feriam de frente o decoro das famílias. Diante do Teatro da Paz houve um conflito sangrento entre populares.
Dada a queixa à polícia foi iniciado o inquérito para apurar as responsabilidades. Perante grande número de advogados, representantes da imprensa, curiosos e pessoas gradas, o delegado ouviu vários passageiros. Todos se mantiveram na negativa menos um que se declarou protestante e trazia um exemplar da Bíblia no bolso. O delegado perguntou:
— Qual a causa verdadeira do motim?
O homem respondeu:
— A causa verdadeira do motim foi a falta de luz nos vagões.
O delegado olhou firme nos olhos do passageiro e continuou:
— Quem encabeçou o movimento?
Em meio da ansiosa expectativa dos presentes o homem revelou:
— Quem encabeçou o movimento foi um cego!
Quis jurar sobre a Bíblia mas foi imediatamente recolhido ao xadrez porque com a autoridade não se brinca.



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Pesquisa, digitalização e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

10/15/2017

O aventureiro Ulisses (Conto), de Alcântara Machado


O aventureiro Ulisses: Ulisses Serapião Rodrigues
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Ainda tinha duzentos réis. E como eram sua única fortuna meteu a mão no bolso e segurou a moeda. Ficou com ela na mão fechada.
Nesse instante estava na Avenida Celso Garcia. E sentia no peito todo o frio da manhã.
Duzentão. Quer dizer: dois sorvetes de casquinha. Pouco.
Ah! muito sofre quem padece. Muito sofre quem padece? É uma canção de Sorocaba. Não. Não é. Então que é? Muito so-fre quem pa-de-ce. Alguém diz ia isto sempre. Etelvina? Seu Cosme? Com certeza Etelvina que vivia amando toda a gente. Até ele. Sujeitinha impossível. Só vendo o jeito de olhar dela.
Bobagens. O melhor é ir andando.
Foi.
Pé no chão é bom só na roça. Na cidade é uma porcaria. Toda a gente estranha. É verdade. Agora é que ele reparava direito: ninguém andava descalço. Sentiu um mal-estar horrível. As mãos a gente ainda escondia nos bolsos. Mas os pés? coisa horrorosa. Desafogou a cintura. Puxou as calças para baixo. Encolheu os artelhos. Deu dez passos assim. Pipocas. Não dava jeito mesmo. Pipocas. A gente da cidade que vá bugiar no inferno. Ajustou a cintura. Levantou as calças acima dos tornozelos. Acintosamente. E muito vermelho foi jogando os pés na calçada. Andando duro como se estivesse calçado.
Estado! Comércio! A Folha! Sem querer procurou o vendedor. Olhou de um lado. Olhou de outro.
Fanfulla! A Folha!
Virou-se.
Estado! Comércio!
Olhou para cima. Olhou longe. Olhou perto.
Diacho. Parece impossível.
São Paulo— Jornal!
Quase derrubou o homem na esquina. O italiano perguntou logo:
— Qual é?
Atrapalhou-se todo:
— Eu não sei não senhor.
— Então leva O Estado!
Pegou o jornal. Ficou com ele na mão feito bobo.
— Duzentos!
Quase chorou. O homem arrancou-lhe a moeda dos dedos que tremiam. E ele continuou a andar. Com o jornal debaixo do braço. Mas sua vontade era voltar, chamar o homem, devolver o jornal, readquirir o duzentão. Mas não podia. Por que não podia? Não sabia. Continuou andando. Mas sua vontade era voltar. Mas não podia. Não podia. Não podia. Continuou andando.
Que remédio senão se conformar? Não tomava sorvete. Dois sorvetes. Dois. Mas tinha O Estado. O Estado de São Paulo. Pois é. O jornal ficava com ele. Mas para quê, meu Espírito Santo? Engoliu um soluço e sentiu vergonha.
Nesse instante já estava em frente do Instituto Disciplinar.
Abaixou-se. Catou uma pedra. Pá! Na árvore. Bem no meio do tronco. Catou outra. Pá! No cachorro. Bem no meio da barriga. Direção assim nem a do Cabo Zulmiro. Ficou muito, mas muito contente consigo mesmo. Cabra bom. E isso não era nada. Há dois anos na Fazenda Sinhá-Moça depois de cinco pedradas certeiras o doutor delegado (o que bebia, coitado) lhe disse: Desse jeito você poderá fazer bonito até no estrangeiro!
Eta topada. A gente vai assim pensando em coisas e nem repara onde mete o pé. É topada na certa. Eh! Eh! Topada certeira também. Puxa. Tudo certeiro.
Agora não é nada mau descansar aqui à sombra do muro.
O automóvel passou com poeira atrás. Diabo. Pegou num pauzinho e desenhou um quadrado no chão vermelho. Depois escreveu dentro do quadrado em diagonal: Saudade — 1927. Desmanchou tudo com o pé. Traçou um círculo. Dentro do círculo outro menor. Mais outro. Outro. Ainda outro bem pequetitito. Ainda outro: um pontinho só. Não achou mais jeito. Ficou pensando, pensando, pensando. Com a ponta do cavaco furando o pontinho. Deu um risco nervoso cortando os círculos e escreveu fora deles sem levantar a ponta: FIM. Só que escreveu com n. E afundou numa tristeza sem conta.
Cinco minutos banzados.
E abriu o jornal. Pulou de coluna em coluna. Até os olhos da Pola Negri nos anúncios de cinema. Boniteza de olhos. Com o fura-bolos rasgou a boca, rasgou a testa. Ficaram só os olhos. Deu um soco: não ficou nada. Jogou o jornal. Ergueu-o novamente. Abriu na quarta página. E leu logo de cara: ULISSES SERAPIÃO RODRIGUES: No dia 13 do corrente desapareceu do Sítio Capivara, município de Sorocaba, um rapaz de nome Ulisses Serapião Rodrigues tomando rumo ignorado. Tem 22 anos, é baixo, moreno carregado e magro. Pode ser reconhecido facilmente por uma cicatriz que tem no queixo em forma de estrela. Na ocasião de seu desaparecimento estava descalço, sem colarinho e vestia um terno de brim azul-pavão. Quem souber do seu paradeiro tenha a bondade de escrever para a Caixa Postal 170 naquela cidade que será bem gratificado.
Coisas assim a gente lê duas vezes. Leu. Depois arrancou a notícia do jornal. E foi picando, picando, picando até não poder mais. O vento correu com os pedacinhos.
Então ele levou a mão no queixo. Esfregou. Esfregou bastante. Levantou-se. Foi andando devagarzinho. Viu um sujeito a cinquenta metros. Começou a tremer. O sujeito veio vindo. Sempre na sua direção. Quis assobiar. Não pôde. Nunca se viu ninguém assobiar de mão no queixo. O sujeito estava pertinho já. Pensou: Quando ele for se chegando eu cuspo de lado e pronto. Começou a preparar a saliva. Mas cuspir é ofensa. Engoliu a saliva. O sujeito passou com o dedo no nariz. Arre. Tirou a mão do queixo. Endireitou o corpo. Apressou o passo. Foi ficando mais calmo. Até corajoso.
Parou bem juntinho dos Operários da Light.
O mulato segurava no pedaço de ferro. O estoniano descia o malho: pan! pan! pan! E o ferro ia afundando no dormente. Nem o mulato nem o estoniano levantaram os olhos. Ele ficou ali guardando as pancadas nos ouvidos.
O mulato cuspiu o cigarro e começou:
Mulher, a Penha está aí,
Eu lá não posso...
Que é que deu nele de repente?
— Seu moço! Seu moço!
A canção parou.
— Faz favor de dizer onde é que fica a Penha?
O mulato levantou a mão:
— Siga os trilhos do bonde!
Então ele deu um puxão nos músculos. E seguiu firme com os olhos bem abertos e a mão no peito apertando os bentinhos.

A piedosa Teresa (Conto), de Alcântara Machado


A piedosa Teresa: Dona Teresa Ferreira
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Atmosfera de cauda de procissão. Bodum.
Os homens formam duas filas diante do altar de São Gonçalo. São Gonçalo está enfaixado como um recém-nascido. Azul e branco. Entre palmas-de-são-josé. Estrelas prateadas no céu de papel de seda.
Os violeiros puxando a reza e encabeçando as filas fazem reverências. Viram-se para os outros. E os outros dançam com eles. Bate-pé no chão de terra socada. Pan-pan-pan-pan! Pan-pan! Pan Pan-pan-pan-pan! Pan-pan! Param de repente.
Para bater palmas. Pla-pla-pla-plá! Pla-plá Plá! Pla-pla-pla-plá! Pla-plá! Param de repente.
Para os violeiros cantarem, viola no queixo:
É este o primero velso
Qu'eu canto pra São Gonçalo
Senta aí mesmo no chão, Benedito. Tu não é mió que os outro, diabo!
É este o primero velso
Qu'eu canto pra São Gonçalo
E o coro começa grosso, grosso. Rola subindo. Desce fino, fino. Mistura-se. Prolonga-se. Ôooôh! Aaaah! ôaaôh! Ôaiiiih! Um guincho!
O violeiro de olhos apertados cumprimenta o companheiro. E marcha seguido pela fila. Dá uma volta. Reverências para a direita. Reverências para a esquerda. Ninguém pisca. Volta para seu lugar.
— Entra, Seu Casimiro!
O japonês Kashamira entra com a mulher e o filhinho brasileiros de roupa de brim. Inclina-se diante de São Gonçalo. Acocora-se.
O acompanhamento das violas feito de três compassos não cansa. Nos cantos sombreados os assistentes têm rosário nas mãos. No centro da sala de cinco por quatro a lâmpada de azeite dança também.
Minha boca está cantando
Meu coração lhe adorando
Cabeças mulatas espiam nas janelas. A porta é um monte de gente. Dona Teresa, desdentada, recebe os convidados.
— Não vê que meu defunto Seu Vieira tá enterrado já há dois ano... Faiz mesmo dois ano agora no Natar.
Pan-pan-pan-pan! Pan-pan! Pan!
— A arma dele tá penando aí por esse mundo de Deus sem podê entrá no céu.
Pla-pla-pla-plá! Pla-plá!
— Eu antão quis fazê esta oração pra São Gonçalo deixá ele entrá.
Vou mandá fazê um barquinho
Da raiz do alecrim
O menino de oito anos aumenta a fila da direita. A folhinha da parede é uma paisagem de neve. Mas tem um sol. E o guerreiro com uma bandeirinha auriverde no peito espeta o sol com a espada. EMPÓRIO TUIUTI.
Pra embarcá meu São Gonçalo
Do promá pro seu jardim
Desafinação sublime do coro. Os rezadores sacodem o corpo. Trocam de posição. Enfrentam-se. Dois a dois avançam, cumprimento aqui, cumprimento ali, tocam-se ombro contra ombro, voltam para os seus lugares. O negro de pala é o melhor dançarino da quadrilha religiosa.
São Gonçalo é um bom santo
Por livrá seu pai da forca
Só a casinha de barro alumiando a escuridão.
— Não vê que o Crispim também pegou uma doença danada. Não havia jeito de sará. O coitado quis até se enforcá num pé de bananeira!
Dona Teresa é viúva. Viúva de um português. Mas nem oito dias passados Dona Teresa se ajuntou com o Crispim. A filhinha dela ri enleada e é namorada de um polaco. Na Fazenda Santa Maria está sozinha pela sua boniteza. Dona Teresa cuida da alma do morto e do corpo do vivo. No carnaval deste ano organizou um cordão. Cordão dos Filhos da Cruz. Dona Teresa é pecadora mas tem sua religião. Todos gostam dela em toda a extensão da Estrada da Cachoeira. Dona Teresa é jeitosa, consegue tudo e ainda por cima é pagodeira.
Artá de São Gouçalo
Artá de nossa oração
Nóis antão fizemo uma promessa que se Crispim sarasse nóis fazia esta festinha.
Foi promessa que sarando
Será seu precuradô
As violas têm um som, um som só. É proibido fumar dentro da sala. Chega gente.
São Gonçalo tava longe
De longe já tá bem perto
Um a um curvam-se diante do altar. O violeiro de olhos apertados está de sobretudo. Negros de pé no chão.
Nóis tamo memo emprestado neste mundo.
Cantando cruzam a salinha quente.
Amor castiga a gente. Olhe a Rosa que não quis casar com o sobrinho do poceiro. Não houve conselho de mãe, não houve ameaça de pai nem nada.
Fincou o pé. E fugiu com o italiano casado carregado de filhos. Um até de mama. Não tinham parada. Agora, agora está aí judiada com o ventre redondo. São Gonçalo tenha dó da coitada.
Abençoada seja a união
Que enfeitô este oratório
O preto de pala dá um tropicão engraçado. E a mulher de azul-celeste dá uma risada sem respeito. O bico do peito escapuliu da boca do filho.
Da dança de São Gonçalo
Ninguém deve caçoá
Ôooôh Aaaah! ôaiiiih!
São Gonçalo é vingativo
Ele pode castigá
Silêncio na assistência descalça. As bandeirinhas de todas as cores riscam um x em cima dos dançarinos. Atrás da casa tem cachaça do Corisco.
— Depois é a veiz das môça. Quem quisé pode pegá o santo e dançá com ele encostado no lugá doente.
Onde chega os pecadô
Ajoeai pedi perdão
O estouro dos foguetes ronca no vale fundo. Anda um ventinho frio cercando a casa.
São Gonçalo tá sentado
Com sua fita na cintura
O caboclo louro puxa a faca e esgaravata o dedão do pé.
— São seis reza de hora e meia cada mais ou meno. Pro santo ficá satisfeito.
Lá no céu será enfeitado
Pla mão de Nossa Sinhora
Pan-pan-pan-pan! Pan-pan! Pla-pla-pla-plá! Plaplá! Plá! Pla-pla-pla-plá!
Oratório tão bonito
Cuma luz a alumiá
De cima do montão de lenha a gente vê São Paulo deitada lá embaixo com os olhos de gato espiando a Serra da Cantareira. Nosso céu tem mais estrelas.
São Gonçalo foi em Roma
Visitá Nosso Sinhô
Dona Teresa parece uma pata.
— Só acaba aminhã, sim sinhô! Vai até o meio-dia, sim sinhô! E acaba tudo ajoeiado, sim sinhô!
Ôooôh! Aaaah! ôaaôh! ôaôaiiiih! Primeiro é órgão. Cantochão. Depois carro de boi. No finzinho então.
Sinhora de Deus convelso
Padre Filho Espírito Santo
Quem guincha é mesmo o caipira de bigodes exagerados.

O tímido José (Conto), de Alcântara Machado


O tímido José: José Borba
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Estava ali esperando o bonde. O último bonde que ia para a Lapa. A garoa descia brincando no ar. Levantou a gola do paletó, desceu a aba do chapéu, enfiou as mãos nos bolsos das calças. O sujeito ao lado falou: O nevoeiro já tomou conta do Anhangabaú. Começou a bater com os pés no asfalto molhado. Olhou o relógio: dez para as duas. A sensação sem propósito de estar sozinho, sozinho, sem ninguém, é o que o desanimava. Não podia ficar quieto. Precisava fazer qualquer coisa. Pensou numa. Olhou o relógio: sete para as duas. Tarde. A Lapa é longe. De vez em quando ia até o meio dos trilhos para ver se via as luzinhas do bonde. O sujeito ao lado falou: É bem capaz de já ter passado. Medindo os passos foi até o refúgio. Alguém atravessou a praça. Vinha ao encontro dele. Uma mulher. Uma mulher com uma pele no pescoço. Tinha certeza que ia acontecer alguma coisa. A mulher parou a dois metros se tanto. Olhou para ele. Desviou os olhos, puxou o relógio.
— Pode me dizer que horas são?
— Duas. Duas menos três minutos.
Agradeceu e sorriu. Se o Anísio estivesse ali diria logo que era um gado e atracaria o gado. Ele se afastou. Disfarçadamente examinava a mulher. Aquilo era fácil. O Anísio? O Anísio já teria dado um jeito. Na boca é que a gente conhece a sem-vergonhice da mulher. Parecia nervosa. Abriu a bolsa, mexeu na bolsa, fechou a bolsa. E caminhou na direção dele. Ele ficou frio sem saber que fazer. Passou ralando sem um olhar. Tomou o viaduto. O bonde vinha vindo. O nevoeiro atrapalhava a vista mas parece que ela olhou para trás. Mais uns segundos perdia o bonde. O último bonde que ia para a Lapa. Achou que era uma besteira não ir dormir. Resolveu ir. O bonde parou diante do refúgio. Seguiu. Correndo um bocadinho ainda pegava. Agora não pegava mais nem que disparasse. Ficar com raiva de si mesmo é a coisa pior deste mundo. Pôs um cigarro na boca. Não tinha fósforos. Virando o cigarro nos dedos seguiu pelo viaduto. Apressou o passo. Não se enxergava nada. De repente era capaz de esbarrar com a mulher. Tomou a outra calçada. Esbarrar não. Mas precisava encontrar. Afinal de contas estava fazendo papel de trouxa.
Quem sabe se seguiu pela Rua Barão de Itapetininga? Mais depressa não podia andar. Garoar, garoava sempre. Mas ali o nevoeiro já não era tanto felizmente. Decidiu. Iria indo no caminho da Lapa. Se encontrasse a mulher bem. Se não encontrasse paciência. Não iria procurar. Iria é para casa. Afinal de contas era mesmo um trouxa. Quando podia não quis. Agora que era difícil queria.
Estava parada na esquina. E virada para o lado dele. Foi diminuindo o andar. Ficou atrás do poste. Procurava ver sem ser visto. Alguma coisa lhe dizia que era aquele o momento. Porém não se decidia e pensava no bonde da Lapa que já ia longe. Para sair dali esperava que ela andasse. Impacientava-se. BARBEARIA BRILHANTE. Dezoito letras. Se continuava parada é que esperava alguém. Se fosse ele era uma boa maçada. Sua esperança estava na varredeira da Limpeza Pública que vinha chegando. A poeira a afugentaria. Nem se lembrava de que estava garoando. Pôs o lenço no rosto.
A mulher recomeçou a andar. Até que enfim. E ele também rente aos prédios. Agora já tinha desistido. Viu as horas: duas e um quarto. Antes das três e meia não chegaria na Lapa. Talvez caminhando bem depressa. Precisava desviar da mulher senão era capaz de parar de novo e pronto. Daria a volta na praça. Ela tinha tomado a rua do meio. Então reparou que outro também começara a seguir a sujeita. Um tipo de capa batendo nos calcanhares e parecia velho. Primeiro teve curiosidade. Curiosidade má. Depois uma espécie de despeito, de ciúme, de orgulho ferido, qualquer coisa assim. Nem ele nem ninguém. Cada vez apressava mais o passo. O tipo parou para acender um cigarro. Era velho mesmo, tinha bigodes brancos caídos, usava galochas e se via na cara a satisfação. Não. Isso é que não. Nem ele nem o velho nem ninguém. Nem que tivesse que brigar. Mas por que não ele mesmo? Resolveu: seria ele mesmo.
Via a ponta da pele caída nas costas. De repente ela parou e sentou-se num banco. Sentia o velho rente. E agora? Fez um esforço para que as pernas não parassem. A mulher virou o rosto na direção dele. Quem é que estava olhando? O velho? Mas a sujeita endireitou logo o rosto, abaixou a cabeça. Vai ver que o olhava sem ver. Passou como um ladrão, o coração batendo forte e sentou-se dois bancos adiante. Prova de audácia sim. Mas não podia ser de outro modo. O velho também passou, passou devagarzinho, depois de passar ainda se virou mas não parou. Tinha receio de suportar o olhar do velho. Começou a passar o lenço no rosto. Já era pavor mesmo. Por isso tremia. O velho continuou. Dava uns passos, virava para trás, andava mais um pouquinho, virava de novo. No fim da praça ficou encostado numa árvore.
A sujeita se levantou, deu um jeito na pele, veio vindo. Com toda a coragem a fixava. Impossível que deixasse escapar de novo a ocasião. Bastaria um sorrisozinho. Mas nem um olhar quanto mais um sorriso. Mulher é assim mesmo: facilita, facilita até demais e depois nada. Só dando mesmo pancada como recomendava o Anísio. Bombeiro é que sabe tratar mulher. Já estava ali mesmo: seguiu-a. O velho estava esperando com todo o cinismo. O gozo dele foi que quando ela ia chegando pegou outra rua do jardim e o velho ficou no ora veja. Vá ser cínico na praia. Não é que o raio da sujeita apressou o passo? Melhor. Quanto mais longe melhor. Preferia assim porque no fundo era um trouxa mesmo. Reconhecia.
Ela esperou que o automóvel passasse (tinha mulheres dentro cantando) para depois atravessar a rua correndo e desaparecer na esquina. Então ele quase que corria também. Dobrou a esquina. Um homem sem chapéu e sem paletó (naquela umidade) gritava palavrões na cara da sujeita que chorava. À primeira vista pensou até que não fosse ela. Mas era. Dando com ele o homem segurou-a por um braço (ela dizia que estava doendo) e com um safanão jogou-a para dentro do portão. E fechou o portão imediatamente. Uma janela se iluminou na casinha cinzenta. Ficou ali de olhos esbugalhados Alguém dobrou a esquina. Era o velho. Maldito velho. Então seguiu. E o outro atrás.
Nem tinha tempo de pensar em nada. Lapa. Lapa. Puxou o relógio: vinte e cinco para as três. Um quarto para as quatro em casa. E que frio. E o velho atrás. Virou-se estupidamente. O velho fez-lhe um sinal. O quê? Não queria conversa. Não falava com quem não conhecia. Cada pé dentro de um quadrado no cimento da calçada. Assim era obrigado a caminhar ligeiro.
— Faz favor, seu!
Favor nada. Mas o velho o alcançou. Não podia deixar de ser um canalha.
— Diga uma coisa: conhece aquele xaveco?
Fechou a cara. Continuou como se não tivesse ouvido. Mas o homem parecia que estava disposto a acompanhá-lo. Parou. Perguntou desesperado:
— Que é que o senhor quer?
Por mais um pouco chorava.
— Onde é que ela mora?
— Não sei! Não sei de nada!
O velho começou a entrar em detalhes indecentes. Não aguentou mais, fez um gesto com a mão e disparou. Ouvia o velho dizer: Que é que há? Que é que há? Corria com as mãos fechando a gola do paletó. Só depois de muito tempo pegou no passo de novo. Porque estava ofegante a garganta doía com o ar da madrugada. Lapa. Lapa. E pensava: A esta hora é capaz de ainda estar apanhando.

O ingênuo Dagoberto (Conto), de Alcântara Machado


O ingênuo Dagoberto: Seu Dagoberto Piedade
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Diante da porta da loja pararam. Seu Dagoberto carregava o menorzinho. Silvana a maleta das fraldas. Nharinha segurava na mão do Polidoro que segurava na mão do Gaudêncio. Quim tomava conta do pacote de balas. Lázaro Salém veio correndo do balcão e obrigou a família a entrar.
Seu Dagoberto queria um paletó de alpaca. — A mulher queria um corte de cassa verde ou então cor-de-rosa. A filha queria uma bolsinha de couro com espelho e lata para o pó-de-arroz. O menino de dez anos queria uma bengalinha. O de oito e meio queria um chapéu bem vermelho. O de sete queria tudo.
É só escolher.
O menorzinho queria mamar.
— Leite não tem.
Não há nada como uma piada na hora para pôr toda a gente à vontade. Principalmente de um negociante como Lázaro Salém. Bateu nas bochechas do Gaudêncio. Deu uma bola de celuloide para o Quim. Perguntou para Silvana onde arranjou aqueles dentes de ouro tão bem-feitos. Estava se vendo que era ouro de dezoito quilates. Falou. Falou. Não deixou os outros falarem. Jurou por Deus.
Entre marido e mulher houve um entendimento mudo. E a família saiu cheinha de embrulhos. Em direção ao Jardim da Luz.
O pavão estava só à espera dos visitantes para abrir a cauda. O veadinho quase ficou com a mão do Gaudêncio. Os macacos exibiram seus melhores exercícios acrobáticos. Quando araponga inventa de abrir o bico só tapando o ouvido mesmo.
Depois o fotógrafo espanhol se aproximou de chapéu na mão. Seu Dagoberto concordou logo. Porém Silvana relutou. Tinha vergonha. Diante de tanta gente. Só se fosse mais longe. O espanhol demonstrou que o melhor lugar era ali mesmo ao lado da herma de Garibaldi general italiano muito amigo do Brasil. Já falecido não há dúvida. Acabou-se. Garibaldi sairia também no retrato. Nem se discute. A família deixou os pacotes no banco e se perfilou diante da objetiva. Parecia uma escada. O fotógrafo não gostou da posição. Colocou os pais nas pontas. Cinco passos atrás. Estudou o eleito. Passou os pais para o meio. Cinco passos atrás. Ótimo. Enfiou a cabeça debaixo do pano. Magnífico. Ninguém se mexia. Atenção. Aí Juju derrubou a chupeta de bola e soltou o primeiro berro no ouvido paterno. Foi para os braços da mãe. Soltou o segundo. O fotógrafo quis acalmá-lo com gracinhas. Soltou o terceiro. Polidoro mostrou a bengalinha. Soltou o quarto. O grupo se desfez. Quinze minutos depois estava firme de novo às ordens do artista. O artista solicitou a gentileza de um sorriso artístico. Silvana pôs a mão na boca e principiou a rir sincopado. O artista teve a paciência de esperar uns instantes. Pronto. Cravaram os olhos na objetiva. O fotógrafo pediu o sorriso.
— O Juju também?
Polidoro (o inteligente da família) voou longe com o tabefe nas ventas.
Depois da sexta tentativa o retrato saiu tremido e o espanhol cobrou doze mil-réis por meia dúzia.
A família se aboletou no primeiro banco do caradura. Mas antes o Quim brigou com o Gaudêncio porque ele é que queria ir sentado. Com o beliscão maternal se conformou e ficou em pé diante do pai. O bonde partiu. Polidoro quis passar para a ponta para pagar as passagens. Mas olhou para o Quim ainda com as pestanas gotejando. Desistiu da ideia. E foi Seu Dagoberto mesmo quem pagou.
O bicho saiu de baixo do banco. Ficou uns segundos parado na beirada entre as pernas do sujeito que ia lendo ao lado de Seu Dagoberto. Quim viu o bicho mas ficou quieto. E o bicho subiu no joelho esquerdo do homem (o homem lendo, Quim espiando). Foi subindo pela perna. Alcançou a barriga. Foi subindo. Tinha um modo de andar engraçado. Foi subindo. Alcançou a manga do paletó. Parou. Levantou as asas. Não voou. Continuou a escalada. Quim deu uma cotovelada no estômago do pai e mostrou o bicho com os olhos. Seu Dagoberto afastou-se um pouquinho, bateu no braço de Silvana, mostrou o bicho com a cabeça. Silvana esticou o pescoço (o bicho já estava no ombro), achou graça, falou baixinho no ouvido do Gaudêncio. Gaudêncio deixou o colo da Nharinha, ficou em pé, custou a encontrar o bicho, encontrou, puxou o Polidoro pelo braço, apontou com o dedo. Polidoro viu o bicho bem em cima da gola do paletó do homem, não quis mais saber de ficar sentado. Então Nharinha fez também um esforço e deu com o bicho. Virou o rosto de outro lado e soltou umas risadinhas nervosas.
— Que é que você acha? Aviso?
— O homem é capaz de ficar zangado.
— É mesmo. Nem fale.
Na curva da gola o bicho parou outra vez. Nesse instante o Gaudêncio deu um berro:
— É aeroplano!
Todos abaixaram a cabeça para espiar o céu. O ronco passou. Então o Quim falou assustado:
— Desapareceu!
Olharam: tinha desaparecido.
— Entrou no homem, papai!
Seu Dagoberto assombrado examinou a cara do homem. Será? Impossível. Começou a ficar inquieto. Fez o Quim virar de todos os lados. Não. No Quim não estava.
— Olhe em mim.
Não. Nele também não estava.
— Veja no Juju, Silvana.
Não. No Juju também não estava. Ué. Mas será possível?
O Quim avisou:
— Apareceu!
Olharam: apareceu no colarinho do homem. Passeou pelo colarinho. Parou. Eta. Eta. Passou para o pescoço. O homem deu um tapa ligeiro. Todos sorriram.
Tinham chegado no Parque Antártica.
Polidoro não queria descer do balanço. Não queria por bem. Desceu por mal. Em torno da roda-gigante os águias estacionavam com os olhos nas pernas das moças que giravam. Famílias de roupa branca esmagavam o pedregulho dos caminhos. Nharinha de vez em quando dava uma grelada para O moço de lenço sulfurino com um cravo na mão. Juju começou a implicar com as valsas vienenses da banda. A galinha do caramanchão ficou com os duzentos réis e não pôs ovo nenhum. Foram tomar gasosa no restaurante. Seu Dagoberto foi roubado no troco. O calor punha lenços no pescoço de portugueses com o elástico da palheta preso na lapela florida. Quim perdeu-se no mundão que vinha do campo de futebol. O moço de lenço sulfurino encostou-se em Nharinha. Ela ficou escarlate que nem o cravo que escondeu dentro da bolsa.
No bonde Silvana disfarçadamente livrou os pés dos sapatos de pelica preta envernizada com tiras verdes atravessadas.
Depois do jantar (mal servido) Seu Dagoberto saiu do Grande Hotel e Pensão do Sol (Familiar) palitando os dentes caninos. Foi espairecer na Estação da Luz. Assistiu à chegada de dois trens de Santos. Acendeu um goiano. Atravessou a Rua José Paulino. Parou na esquina da Avenida Tiradentes. Sapeando o movimento. Mulatas riam com os soldados de folga. Dois homens bem trajados e simpáticos lhe pediram fogo. Dagoberto deu.
— Muito gratos pela sua gentileza.
— Não tem de quê.
— Está fazendo um calorzinho danado, não acha?
— É. Mas esta noite chove na certa.
Seu Dagoberto ficou sabendo que os homens eram de Itapira. Tinham chegado naquele mesmo dia as onze horas. E deviam voltar logo amanhã cedo e sem falta. Uma pena que ficassem tão pouco tempo. Seu Dagoberto com muito gosto lhes mostraria as belezas da cidade. Conversando desceram lentamente a Avenida Tiradentes. Na esquina da Cadeia Pública Seu Dagoberto trocou três camarões de duzentos e mais um relógio com uma corrente e três medalhinhas (duas de ouro) por oito contos de réis. E voltou para o Grande Hotel e Pensão do Sol (Familiar) que nem uma bala.
(Napoleão da Natividade filho tinha o hábito feio de coçar a barriga quando se afundava na rede de pijama e chinelo sem meia. A mulher — a segunda, que a primeira morrera de uma moléstia no fígado — preferia a cadeira de balanço).
— Você me vê os óculos por favor?
O melhor deste jornal são os títulos. — A gente sabe logo do que se trata. (Foi Buscar Lã... Quem com Ferro Fere... Amor e Morte). Aquela miséria de sempre. Aquela miséria de sempre. Aquela miséria de... (Mais Um!) Mas então os trouxas não acabam mesmo.
Depois que ficou ciente da abertura do inquérito a mulher concordou:
— Parece impossível!
— Nada é impossível.
(A dissertação sobre a bobice humana foi feita com os óculos na testa.)
A indignação de Silvana não conheceu limites.
— Seu bocó! Devia ter contado o dinheiro na frente dos homens! Seu besta!
A filharada não dava um pio. Nem Seu Dagoberto.
— Não merece a mulher que tem! Seu fivela!
Seu Dagoberto custou mas foi perdendo a paciência e tirando o paletó.
— Seu burro! Seu caipira!
Aí Seu Dagoberto não aguentou mais. Avançou para a mulher mordendo Os bigodes. Nharinha aos gritos se pôs entre os dois de braços abertos. Os meninos correram para o vão da janela.
— Venha, seu pindoba! Venha que eu não tenho medo!
O pindoba se conteve para evitar escândalos. Vestiu o paletó. Fincou o chapéu na testa. Roncou feio. Só vendo o olhar. Bateu a porta com toda a força. Tornou a abrir a porta. Pegou o bengalão que estava em cima da cama. Saiu sem fechar a porta.
Tarde da noite voltou contente da vida. Contando uma história muito complicada de mulheres e de um tal Claudionor que sustentava a família. Queria beijar Silvana no cangote cheiroso. Chamando-a de pedaço. E gritava:
— Também não quero saber mais dela!
Silvana deu um tranco nele. Ele foi e caiu atravessado na cama. Caiu e ferrou no sono.
Quando chegou o dinheiro para a conta do hotel e a viagem de volta Silvana pegou numa nota de cinco mil-réis, entregou por muito favor ao marido e escondeu o resto.
Depois chamou a Nharinha para ajudar a aprontar as malas. À voz de aprontar as malas Nharinha rompeu numa choradeira incrível. Já estava se acostumando com a vida da cidade. Frisara os cabelos. Arranjara um andarzinho todo rebolado. Vivia passando a língua nos lábios. Comprara o último retrato de Buck Jones. E alimentava uma paixão exaltada pelo turco da Rua Brigadeiro Tobías nº 24-D sobrado. Só porque o turco usava costeletas. Um perigo em suma.
Mas a mãe pôs as mãos nas cadeiras e fungou forte. Quando Silvana punha as mãos nas cadeiras e fungava forte a família já ficava avisada: era inútil qualquer resistência. Inútil e perigosa.
Nharinha perdeu logo a vontade de chorar. Em dois tempos as malas de papel-couro e o baú cor-de-rosa com passarinhos voando de raminho no bico ficaram prontos.
A família desceu. Silvana pagou a conta. A família já estava na porta da rua quando Seu Dagoberto largou o baú no chão e deu de procurar qualquer coisa apalpando-se todo. A família escancarou os olhos para ele interrogativamente. Seu Dagoberto cada vez mais aflito acelerava as apalpadelas. De repente abriu a boca e disparou pela escada acima. Voltou todo pimpão com um bolo de recortes de jornal e bilhetes de loteria na mão. Silvana compreendeu. Ficou verde de raiva. Ia se dar qualquer desgraça. Porém ficou quieta. Fungou só um instantinho. Depois intimou:
— Vamos!
Aí o proprietário do hotel perguntou limpando as unhas para onde seguia a família. Aí Silvana não se conteve desviou o nariz da mão do Juju e respondeu bem alto para toda a gente ouvir:
— Pro inferno, Seu Roque!
Aí Seu Roque fez que sim com a cabeça.