segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O juramento da Condessa Ester (Conto), de Fialho de Almeida


O juramento da Condessa Ester
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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— Tenho consultado tudo, tudo! A homeopatia, o sistema Brugrave, o Raspail, tudo! Mas os alívios poucos, nenhuns mesmo. É esta dorzinha vaga no peito, esta tosse seca, pouca vontade de comer, ventre preso... Quando se chega à minha idade, é esperar pela morte, bem o sei.
— Qual!
— Ah! eu não a receio, meu bom amigo. Somente me afligiria a saudade dos que amo, e o amor da minha filha... — Baixava a voz para dizer-me — Tem-me perseguido a ideia de consultar um enfermeiro. Ouço que entendem muito de doenças... Morrer, deixar Ester, seria o último castigo.
Em resposta, eu ria. A condessa ia começar a narrativa de uma cura estrondosa, feita numa senhora das suas relações, por um dos tais.
— E está hoje gorda e alegre, que não faz ideia.
— Faço, faço.
— Depois, os remédios que me receitam os médicos, repugnam-me. Tenho horror à magnésia, horror ao cheiro da cânfora, horror às pílulas, que bem podem ser manipuladas por sujeitos pouco limpos. Alguns dos medicamentos nem os tomo.
— Eis porque se não cura, condessa. As águas de Loeches são suaves...
— Horríveis! E tão prosaicas...
— De certo, de certo. Tanto mais que vossa excelência tira efeitos poéticos da doença que diz sofrer, confesse.
— Aí vem a sua má língua, doutor. Na minha idade a poesia é o amor dos filhos. Eu sofro muito, sofro, palavra de honra. E se fosse um aneurisma, meu Deus!...
— Aí, está vossa excelência poetando com hipóteses de martírio, simples achaques a que todos estamos sujeitos. Que diria então eu, que vossa excelência vê na flor da vida e na aparência da mais radiosa saúde? O meu estômago!
— E o meu, doutor, o meu?
— A condessinha Ester tem a paixão das begônias; a Sra. duquesa de Serpa adora os cães d'água; a Sra. marquesa de Vale de Perdizes esculpe; a esposa do negociante Domingues trabalha em creches e prêmios de escolas. E cada uma faz destas predileções a sua aureola de poesia, de que se circunda no mundo. Vossa excelência tem os seus sofrimentos. É uma compensação.
— Já vejo que está hoje pior, Conde! gritou ela para a mesa do jogo onde quatro homens faziam whist, à luz de uma serpentina. Um velho calvo e magro severamente abotoado e de bigodes altivos, ergueu-se respeitosamente e veio junto de nós.
Por detrás dos óculos, luziam-lhe aguçadas as pupilas de míope: andava com ares majestosos de ministro, gesticulando sobriamente.
— Que é? disse ele firmando as mãos nos gomos do divã da condessa mãe.
— Pode falar-me da sua pré-história, porque o meu amigo doutor teima em satirizar os meus padecimentos. Vamos, sente-se aqui.
— Mas a partida...
— O doutor vai substituí-lo, sim?
— E a condessa assim me desterra tão cruelmente! — Ela estendeu-me a mão dizendo:
— Será por pouco tempo. — Fui. Ester não viera ainda. As senhoras começavam a chegar em pequena gala, com bournous de casimira branca forrados a cetim e peles. Eram os convivas certos daquelas pequeninas soirées, tão íntimas, tão aconchegadas e tão doces, que os ditos e excentricidades da condessinha animavam, e a rabeca de Zebedeu Kebler, israelita louro como Jesus e tão casto como ele, enchia de frêmitos estranhos e infinitas harmonias. Kebler adorava a condessinha com uma paixão supersticiosa e ardente. Estava sempre onde ela estava; em São Carlos, a sua cadeira era defronte da frisa dela; aparecia nos bailes a que ela ia, melancólico e pálido, uma elegância fina de gentleman; e nas conversações mais frívolas, em podendo, metia, sem quase dar por isso, o nome dela. Ester era trigueira e alta, de uma distinção única e de uma elegância sem rival. O esmalte dos seus dentes destacava fresquíssimo no vermelho das gengivas, como um adereço rico num estojo de veludo cereja. Nada mais esplêndido que a linha do seu busto nervoso e cinzelado, e a redondeza das suas espáduas reais, surgindo de espumas de renda na fervilhação opulenta dos bailes. Fui ter com o judeu. De pé, junto da banca de jogo, ele olhava sem ver coisa alguma. Tomei-lhe o braço e fomos para o vão de uma janela. E antes que eu falasse, ele disse:
— Já penetrei no mistério.
— Qual?
— O da condessinha.
— Vamos a ver como.
— Ela é muito supersticiosa. Não admira, sangue judeu...
— Sangue judeu! Ela? — Kebler baixou a voz e contou-me:
— Que certo vendedor de tâmaras, freguês assíduo de uma hortaliceira, chegara a amar esta. Do amor dos dois, fermentou um garoto que se meteu cambista, de onde mais tarde surgiu uma obesidade milionária que um governo endividado fez Barão e par.
— Que perspicácia audaz empregou o meu amigo para saber tanto? Caramba!
— Ouça: implantada por esta forma, a nobreza foi subindo de um grau de filho para filho. Até que um dia, o pai de Ester apareceu conde.
— A esposa era muito formosa então, para poder alcançar tudo. Seria duquesa até, se o houvesse querido, disse eu sorrindo.
— Língua danada!
— Adiante. É então supersticiosa, hein?
— Não imagina.
— Eis o meio de sustar-lhe a golfada de sarcasmos de que às vezes nos cobre. Em ela me ferindo, quebro um espelho da sala, verá. Mas vamos ao mistério. Creio que foi mistério, que disse.
— Foi. Ester teve uma grande paixão!
— Como a da hortaliceira golegã, sua avó, pelo vendedor de tâmara e sabonéesFermentou alguma coisa de?...
— Olhe que me zango seriamente, e fica sem saber nada.
— Está bem; estou já calado.
— Uma paixão fatal! Amou...
— Essa reticência traz um padre ou um trintanário.
— Infelizmente. Amou um primo, doutor em teologia, que já dissera missa.
— Bem dizia eu!
— Dizem que bela figura.
— Não me custa a crer, pois que o afirma. E o primo amou a prima? Sacrilégio no último ato, suicídio ao cair do pano. Adivinhei?
— Quase. O primo era um homem digno; além disso não chegou a saber toda a verdade da boca dela. Desconfiou apenas que era amado e fugiu para as missões do ultramar.
— Oh incomparável levita! Eu não fugia para tão longe. E ela?
— Ela jurou que não amaria mais ninguém na vida.
— E como não lhe fosse permitido professar...
— Não seja leviano. Ester adora as begônias, como sabe.
— Paixão que acarreta ao meu amigo uma despesa séria. Cada dia lhe traz uma espécie nova, numa corbeile admirável.
— Essa adoração tem a seguinte história. À hora da partida o missionário mandou à condessinha num vaso da China, uma esplêndida begônia rex-isis, espécie do mais belo efeito decorativo. É um vaso amplo, de figurinhas em relevo e pequenas azas de ouro, representando dragões engalfinhados.
— Conheço bem essa preciosidade! Vale a olhos fechados cem libras. E depois?
— A begônia durou pouco. A estufa para onde a transportaram, e a convivência das mais plantas abreviaram-lhe os dias. Já entrou na estufa da condessinha?
— Muitas vezes. O vaso está ao centro, sobre um pequeno pedestal de mármore branco e debaixo de uma redoma de cristal em gomos.
— É isso, com a begônia seca.
— Tal qual! Muitas vezes perguntei à condessinha a história daquele esqueleto de planta. E agora me lembro — ela ficava triste e suspirava. Era a teologia do primo adorado.
— Ontem vim visitá-las de manhã. Trazia-lhes um eufórbio raro do México, que os franceses chamavam Poinsetie, exemplar soberbo. Conhece?
— Dos livros. A minha clínica modesta não me permite despender sem proveito o que ele custa. Folhas oblongas bordadas de verde, envernizado e vivo. Centro canário raiado de verduras sanguíneas. Envolvendo as flores, uma coroa de grandes brácteas ovais, do tamanho de folhas, e do mais belo escarlate, dando o efeito duma grande flor. Uma opulência, em resumo.
— Pois bem. Eu mesmo fui colocá-lo na estufa, permissão graciosa da condessinha.
— Os perfumes afrodisíacos perturbaram os sentidos de ambos e... amor do judeu das tâmaras com a...
— Mau!
— Está bom: curvo a cabeça. Venha o resto.
— Quando nos achamos na estufa e em meio das folhas de mil desenhos que ali há, ela tomando-me as mãos, disse-me comovida:
— Como hei de eu agradecer a sua solicitude, Zebedeu?
— Ela disse: Zebedeu?
— Disse.
— Meio caminho andado, então. Mais dois minutos, e tinha-a pendurada no pescoço. Que gata, essa trigueira tentadora!...
— Eu nem podia falar!
— Oh castidade loira de vinte anos!
— E apertava-me tanto as mãos...
— Sim? Depois, um beijo... ou dois... ou três...
— Fale com franqueza, disse-me ela. O senhor ama-me. — Eu estava a tremer como um poltrão. — Ouça, tornou Ester; fiz um juramento.
— Qual? perguntei em voz baixa.
— Que não amaria ninguém mais. A não ser...
— A não ser?...
— Que aquele vaso de pedestal aparecesse em pedaços um dia, sem ninguém lhe tocar.
— Mas isso é impossível.
— Então veja se posso amá-lo. Ela estava tão triste!... Talvez não creia: chorei! — Calamo-nos, porque naquele instante, uma voz fresca deu uma risadinha à porta, e as senhoras correram para uma rapariga de branco, que vinha entrando. Era Ester.
— Zebedeu Kebler, meu incomparável artista, um pouco da sua rabeca, disse ela em voz alta, antes de beijar ninguém.
— Bom sinal! resmunguei ao pobre rapaz.
O judeu deixou-me logo, alegre por ser lembrado, e foi abrir o estojo do instrumento.
— Que ridículos são estes sentimentos! pensava eu. Apertam-lhes as mãos numa estufa e a sós, muito e muito, e desatam a chorar. Grandíssimo tolo! Não o pode amar? Fez ela muito bem. Amar um homem que em lugar de cobrir de beijos uma mulher lindíssima que se rende, fica a tremer, seria uma vergonha: apre! Fui ter com a condessa, enfastiado e murmurando:
— Fosse a coisa comigo...
No dia seguinte, tinha eu acabado a consulta quando chegou Kebler.
— Vem acabar-me a história de ontem?
— Venho solicitar a sua presteza de atirador.
— Chegou o teólogo? desafiou então um ministro do altar? Bárbaro! Cruel! Desalmado!
— Qual! Tenho um projeto.
— Aceite este charuto, aqui tem lumes, sente-se e conte-me o projeto.
— O alvo do irmão de Ester fica perto da estufa; pois não fica?
— Creio que sim.
— O senhor vai ali exercitar-se muitas vezes, segundo me disse o Álvaro.
— Vou.
— Ouça. Eu levanto um caixilho da estufa...
— Mas é preciso a chave que abre todos esses caixilhos. Talvez não pensasse em tal?
— Tenho-a aqui; roubei-a agora mesmo. Posso guardá-la por estes dias. O tempo está chuvoso e frio, de modo que não ventilarão a estufa por agora.
— Então?
— Aberto o caixilho, o senhor fingindo apontar ao alvo, aponta ao vaso da China e...
— O senhor ganha o prêmio, e eu fico a chuchar o dedo.
— Quê? Ama a condessinha?
— Eu amo toda a gente; que diabo!...
— Estou esperando a sua resposta.
— Que eu parta aquele vaso da China porque daria tudo? Está louco!
— Olhe para mim. Se o não fizer...
— Dá um tiro no crânio; dá?
— Qual! fico solteiro toda a vida.
— Bem, essa simplicidade enternece-me. Esteja amanhã aberto o caixilho, e a bala esmigalhará o vaso. Mas como entra o senhor no jardim?
— Saltando o muro que o separa da casa em que habito.
— O senhor é o diabo.
— Se a adoro!
Na noite seguinte, havia reunião em casa da condessa. Os grupos das mais noites. Ao fundo do salão, a banca de whist, onde o cultor da pré-história se notava de lunetas altas, sob que as pupilas fuzilavam. No divã amarelo, a condessa queixando-se-me da falta de apetite e de tosse seca. Ester radiosa, no meio das suas amigas. Zebedeu Kebler muito pálido e muitíssimo preocupado, ferindo de um modo inteiramente magistral as cordas da rabeca.
— Meus senhores, disse a condessa em voz alta, erguendo-se. Tenho a honra de lhes anunciar o casamento de minha filha Ester com o senhor Zebedeu Kebler.
Ouviu-se o estalido de uma corda de rabeca, subitamente quebrada. O conde das lunetas erguera-se, aprumando a alta estatura. Ester confessava ruborizada que... Deus o queria. Tinha aparecido em pedaços o vaso da China, sem que lhe tocassem. E de mais amava aquele rapaz, tão elegante e tão distinto, de cujo braço seria um encanto pender coroada de flores de laranjeira.
— És meu padrinho! disse-me com um abraço de reconhecimento, o judeu.
— Já agora... respondi.
O meu presente nupcial, foi um vaso chinês inteiramente igual ao que aparecera esmigalhado. Crescia nele um hibiscus do Japão, trepadeira da mais rendilhada contextura, folhas exóticas e flores em grinaldas.
— Eis porque eu daria tudo pelo vaso quebrado, disse a Kebler, com uma vaga saudade de amador. Se o conseguisse adquirir, completaria o mais belo par europeu. Guardem esse vaso no lugar do pobre esmigalhado, e que ele seja o talismã de um amor, fecundo em bébés de olhos azuis, menos romanesco que o amor do primo, e mais durador por isso mesmo.
Um frou-frou de saias fez-me voltar a cabeça; à porta, a cabecinha de Ester assomara curiosa, e os seus dentinhos brancos de gata contente brilhavam, sorrindo de um modo encantador.
Nunca fui piegas, palavra de honra — mas inda hoje tenho calafrios pensando nos dentes daquela mulher.

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