quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O naufrágio do Purus (Conto), de Marques de Carvalho


O naufrágio do Purus
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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I
Este é o sítio em que, há vinte anos quase, afundou-se o Purus, arrastando para o leito do rio algumas dezenas de cadáveres colhidos de surpresa.
O Amazonas aqui, como conservando ainda a triste memória do lutulento sucesso, rola silencioso as suas águas, cobre-se eternamente com o intenso crepe, acentuado e mesto, do vasto rio Negro.
Têm as margens a aparência de um recinto de funeral: sossegadas e desertas, monotonizam o quadro com a ininterrupta ostentação das suas ramalhudas verduras densíssimas.
Nenhum gorjeio de pássaro percebo na larga mudez circundante.
No alto, o céu, apinhado de nuvens escuras, encobre-me aos olhos a risonha alegria do seu puríssimo azul, adorável como as pupilas de uma imagenzinha da Virgem, que minha Mãe, em pequenino, ensinou-me a reverenciar com o contemplativo respeito das crianças absortas!
Passamos neste mesmo instante sobre o lugar onde atufou-se a elegante embarcação aventureira.
Um pensamento de saudade assalta-me o espírito, agora que deslizei rápido por cima do líquido sapulcro de tantos infelizes.
Relembro, com a forçosa evocação do meu passado, as confusas recordações da primeira idade e reproduzo na mente, consoante às narrações da época, o pasmoso entrecho do hórrido espetáculo.
Vejo pessoas de todos os sexos e idades, em meio à densa escuridão da noite, bramindo apavorados gritos, impetrando o auxílio do céu impassível, amaldiçoando o momento final com o torvo desespero das grandes aflições.
A bracejar contra a correnteza, lobrigo um ou outro náufrago naquele pego, quase tão vasto como o do mantuano cantor. Uns, redobrando de esforços, conseguirão alcançar a margem anelada; a mor parte, porém, certo fraquejará impotente na violência das águas e rolará inanimada aos profundos antros dos caimões!
Num camarote, vencida, dominada por tredo sono, uma jovem mulher angelical, esposa estremecida e extremosíssima, é surpreendida pelas águas em sua descuidosa seminudez inconsciente e logo sufocada sem haver tempo de reconhecer o perigo por que passa com os seus, — com os parentes afetuosos e com o infeliz marido, o comandante austero, de quem separa-a, sem transigências, a compreensão do cumprimento do dever.
E ali morre, com o pobre coração retalhado de angústias e amaríssimas saudades, uma valente mulher de temperamento e atividade viris, guia e ama de muitos daqueles náufragos. É a heroica exploradora de uma parte do rio Madeira, a veneranda mãe de um punhado de homens honrados e de honestíssimas mulheres, — a idolatrada mãe daquela excelsa criatura que deu-me luz aos olhos e piedosos sentimentos ao coração!

II
Compreendo agora perfeitamente a dor que rasgou-te os puros seios d'alma, querida Mãe, quando correram a referir-te o hórrido sucesso.
Criança quase irresponsável, eu não tinha a percepção completa daqueles afligidíssimos desesperos em que te lançaste, com os olhos amarados de lágrimas adamantinas.
Entrei a brincar-te com os longos cabelos pretos, minha adorável amiga, e um beijo tão sincero como a tua dor depuseram-te na fronte ensombreada meus lábios deslaçados em simples frases sem valor.
Hoje, porém, ó Mãe, avalio com justeza a aflição que em ti causou tão desumano flagício da sorte inclemente. Sondo, linha por linha, todos os arcanos do teu seio, ausculto-lhe as precipitadas palpitações soluçantes e lamentosas.
Choravas, inconsolável e dolentíssima, porque deixaras de ter mãe.
Sinto conhecer-te a intensidade das penas, porque também perdi-te para sempre e só minha alma pode saber a força de toda a violenta dor que, há seis anos, confrange-a impiedosa, minuto a minuto, persistentemente, tantas são as vezes que de ti me lembro, inolvidável mulher que foste a guia da minha infância e a amiga insubstituível da minha adolescência!

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