quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Brinde a minha filha (Conto), de Marques de Carvalho


Brinde a minha filha
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Hoje é o dia do teu primeiro aniversário, querida filha.
És pequenina demais, tens o espírito ainda cerrado à compreensão exterior das coisas, para poderes penetrar o júbilo imenso de que devo estar saturado por esse acontecimento, sobre a vastidão desta valente artéria amazônica, ao tempo que as perspectivas das verdes paisagens aprazíveis se vão sucedendo gradativamente, numa suavidade que desliza tranquila a meus olhos enlevados nas florituras das folhagens ramalhudas.
Entretanto, devo escrever estas linhas que, no futuro, destinarei a teus olhos e a tua alma, — sobretudo à tua alma, querido amor! Íntima força propele-me a esta comunicação silenciosa dos nossos dois espíritos, — o meu ainda novo, porém já prestes a declinar para as florescências da idade madura e o teu velado ainda à vida do espírito, aos sentimentos santos, pequenino botão de bogari transcendental, que nem sequer pensa em desabotoar as cerradas corolas aos largos folguedos de uma existência feliz!
E por que não falar-te hoje?
Quem sabe o que o dia de amanhã, — soturno cairel dos arcanos do tempo, — não guarda para nós envolto nas iriadas roupagens do futuro?
A distância que entre nós presentemente existe não é motivo bastante forte para recusar-me ao desejo de escrever estas palavras simples, destinadas à perfeita simplicidade do teu espírito... daqui a meia dúzia de anos, quando estejas no caso de entendê-las, meu amor.
Nem tu sabes que multidão de alegres pensamentos vaga-me no cérebro, hoje que um ano se completa que pela vez primeira te vi, rosada e pequenina, quase imperceptível átomo-flor de uma existência tão almejada e bendita pelo meu espírito milhares de vezes rejubilado!
Como estuava-me o coração, alargado em seus âmbitos pelo prazer, todo aberto às santas paixões amoráveis de quem começa a gozar as grandes, as melífluas, as inebriantes sensações vitais da paternidade! Com que ternura imensa não te fitavam meus olhos, rasos d'água, abertos como num sorriso, revendo a tua pequenina imagem através da nervosa palpitação imperceptível dos cílios orvalhados das puras lágrimas do contentamento!
Um mundo de pensamentos risonhos e transcendentais produzia-se-me no espírito, em luzida coorte de festivas alegrias benéficas. Sentia-me pequeno demais para criá-los, bastante insignificante para soletrar tramando de emoção todo aquele mirífico alfabeto enorme da mais santa das paixões.
Era a completa alegria que manifestava-se destarte em minha alma, porque pela primeira vez te via diante de mim, envolta em cândidas faixas, ao colo de tua mãe, que desabrochava o rosto num sorriso meio doloroso e quase todo espiritualizado já, como num altar imaculado, erguido à tua inocência pela ternura da Mulher que te deu à luz, regenerada da culpa da espécie pelo imanente martírio da maternidade!
Hoje, que tais fatos completam um ano, dia a dia, os mesmos sentimentos revoam-me festivos pelo espírito, com igual força de vitalidade.
Inscrevo-os nesta folha, registro-os em tua alma, ó flor, para oferecer-tos como pressente de anos em penhor do largo afeto de teu pai, enquanto, separado de ti por grande distância, levanto à sorte mil votos pela tua felicidade futura, por tua existência, por tua saúde, pela tua angélica pureza de donzela e pela tua inquebrantável virtude de esposa.
É bem possível que não mais exista o autor destas linhas e da tua existência quando possas ler as palavras aqui traçadas.
Não importa! Servirão para lembrar-te que possuíste um pai amorosíssimo, que teve para ti os pensamentos todos da sua vida e, por certo, ainda mesmo o pensamento final da hora derradeira!

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