domingo, 8 de outubro de 2017

Os noivos (Conto), de Júlio César Machado


Os noivos

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Encontrava-a, muitas vezes, aos domingos, em casa de uma família da minha amizade, onde costumava ir jantar.

Era uma menina de 15 anos, graciosa e viva, de olhos negros como a noite, de sorriso claro como o dia. Nunca o sol alumiara sobre a terra mais alegre e descuidosa criatura, nem a palheta de um pintor conseguira toques mais pronunciadamente doces do que duas pequeninas pregas, que se lhe desenhavam nas faces quando os lábios se lhe entreabriam num sorriso!

Chamava-se Maria do Carmo. Tratávamo-la por Carminho quase sempre. O seu gênio travesso aparentava-lhe a índole de um diabrete. Quebrava por gosto, e rasgava para se entreter. Era um demônio, mas um demônio bom; antes isso de que um anjo... mau!

A primeira vez que a encontrei tinha ela 12 anos. Cresceu-me diante dos olhos; de domingo para domingo fazia diferença na altura! Era uma coisa galante para ver a ufania com que ela nos contava que havia feito descer a bainha de um vestido.

De repente, num belo dia em que a encontrei ao Chiado, disse-me sorrindo com o seu ar mais gracioso e mais afável:

— Que novidades nestes dois meses em que não nos temos visto! Caso-me amanhã.

Depois, apertou-me a mão, que eu lhe abandonei extático, e entrou para uma modista, pulando de alegria.

No dia seguinte teve lugar o casamento, e recebi convite dali a uns dias para uma soirée, que os noivos davam.

O marido de Carminho era um homem de 40 anos, que parecia ter 30: isto é decerto preferível a ter 30 e parecer ter 40.

Eu conhecia-o de vista, mas não sabia nada a seu respeito.

Um amigo meu, que estava no baile, e com quem o vi conversar na melhor intimidade, foi o incumbido de me dar explicações. Era um moço poeta que interrompera os seus estudos universitários por uma loucura amorosa, e que andava em Lisboa passeando a sua melancolia.

— Meu caro Carlos — disse eu dando-lhe o braço —, preciso da tua boa veia de observador; explica-me o noivo!

— Um homem de 30 anos.

— Ouvi dizer 40!

— Quarenta ou 30, como tu queiras: mas 30 anos é uma feição, e 40 é uma idade; por isso te digo que o meu amigo Gonçalo Dantas, cavalheiro da província, que gastou em Lisboa a sua fortuna e o seu coração, guardou apenas o seu espírito... para fazer um casamento!

— Um especulador!

— Um homem do mundo.

— Julgas que a noiva possa ser feliz?

— E julgas que ele próprio o possa ser?!

— Por que não! Uma menina que entrou na vida por uma porta dourada, e que possui a dúplice felicidade de ter um nome de família que a dispensaria de uma fortuna, e uma fortuna que a dispensaria de um nome de família!

— Sim! Dizem-me que o pai é aí visconde não sei de quê!

— E o teu amigo Dantas?...

— O meu amigo Dantas é um homem que conhece a vida, uma coisa em que tu só tens ouvido falar.

— E que a tornará infeliz, embora lhe salve aos olhos do mundo as aparências de vítima!

— Admira tu no amor a superioridade das mulheres: elas representam sempre o papel de desgraçadas, e deixam-nos o de tirano, que a nossa vaidade aceita às vezes com desvanecimento. Para que te obstinas a ver uma namorada numa noiva — e para que insistes em não ver na noiva uma mulher? Gonçalo Dantas é um homem educado, que se sabe sorrir, e calar-se até! Essa menina deixou-se encantar menos pelo espírito dele do que pelo desejo de dançar no seu próprio baile de núpcias; ela tem 15 anos; a família prometeu-lhe uma boneca para o dia do seu casamento: essa criança é um anjo, se assim o queres, mas os anjos podem enfastiar-se das harmonias celestes e pedirem à terra a agonia dos seus hinos. Ela quis casar, meu amigo, eis tudo; Hamlet fez para um caso destes o seu that is the question! Quando uma mulher nos induz à tentação, tornou-se nossa cúmplice; não nos pode ser juiz. O noivo é um homem distinto, que há de ser sempre para ela um marido delicado e amável.

Amável é possível.

— E delicado!

— Não é provável. A delicadeza é um metal que não tem liga; a amabilidade já tem — já pode ter — alguma, em pequena porção que seja!...

— E que importa que suceda assim? O que conheces tu de verdadeiro na vida? O último ato dela até uma bela morte, não é quase sempre senão uma última mentira! Julgas tu extremamente sincera a noiva?

— Crês sincera a inocência?

— A inocência... Seja. Que sabes tu dela, meu bom amigo, que sabes tu da inocência que não seja o que vem nos livros? Onde a viste, que te disse, como cumpriu as promessas que te fez e de que forma compensou a confiança que lhe adiantaste? O que é preciso no mundo para dar ares da inocência: ter 15 anos? preciso então não andar nos bailes desde os 13! As polcas, as shotisches, as redowas, todo esse frenesi que põe prematuramente em relevo as graças de uma menina, são o primeiro ataque à sua pureza e à sua candura! Olha para elas! Repara! Os homens apertam as senhoras nesta valsa — não vês? — como uma obreira aperta uma carta! Olha a noiva: que gentil criatura, realmente! Mas tem mau sorrir; sorri com os lábios sem sorrir com os olhos! Oh! desconfia... desconfia sempre de pessoas assim. É uma criança sem aspirações e sem alma, aposto; toda vaidades!

— Conhece-a já?

— Não a conheço, adivinho-a. Os pressentimentos, meu amigo, são as sombras visíveis de corpo que não se vê. Esta rapariga é fria!

O noivo chegou-se a nós nesta ocasião.

— Vem cá, Carlos — disse ele —, quero apresentar-te a minha mulher.

E Carlos foi pelo braço de Gonçalo Dantas.

— Com que — disse-lhe Carlos a meia voz —, estás casado!

— Dispensa-me da tua piedade! — respondeu o marido, rindo.

Ao contrário! Quero saudar pelo pasmo a tua heroica resignação!

— Que queres! As dores imutáveis não soltam nem um grito!...

Estavam diante de Carminho.

— O Sr. Carlos Eduardo de Lemos — meu amigo, disse o noivo. — Escuso lembrar-te que sabes de cor quase todos os seus versos; é o suficiente para não lhe falares em tal, visto que ele não tem a coragem de se declarar poeta nesta sociedade de Lisboa, que principia a não crer neles!

Carlos Eduardo conversou durante todo o tempo do baile com Carminho, e tomou parte em duas contradanças, a pedido seu. Era destes dançarmos sem coragem, que tremem no chevalier seul. Fazia-se pálido como uma cidra, depois vermelho como uma romã e, em seguida, lívido como um defunto; todavia aguentou-se o melhor que pôde, e quando, pelo fim da noite, tive pela primeira vez o prazer de o tornar a possuir, pareceu-me um homem contente de si e do mundo.

— Que tal conversa a noiva? — perguntei-lhe.

— Oh! Não me fales nisso. Uma tagarela insofrível, que me moeu o espírito e a palavra. Isto faz-me por força uma doença. Não há maneira de conversar com semelhante preciosa, que fala tudo, que fala sempre, que fala mais que sempre! Toda a noite, meu amigo! Toda a noite! Tenho o inferno dentro de mim!...

— Há de fazer-te sofrer do estômago.

— Ela?

— O inferno. Deve ser de digestão difícil.

— Ah! tu zombas! Ah! tu ris! Pois sim, vai para lá! Entrega-te em holocausto ao martírio de lhe dares trela. Tu tens o talento de saber escutar? talento que eu não desfruto, infelizmente; sinto a alma estropiada pela verbosidade da minha interlocutora! Ah! Gonçalo Dantas, pobre Gonçalo Dantas, não casaste com uma mulher, casaste com um monólogo! Esta noiva é um solilóquio, de que eu conservarei eternas e cáusticas lembranças! Adeus: deixa-me sair; Lara pedia soda nos banquetes; eu peço apenas ar nesta festa!

Há uma idade em que as mulheres mudam tão subitamente de índole, que não estranhei quase que Carminho, a quem eu conhecera modesta, espirituosa, sem ambições e preciosa de salão, e cheia de atração e de graça na sua simplicidade encantadora, houvesse, em dois meses que eu a não vira, passado pela metamorfose de que Carlos Eduardo me dava a descrição. Tive vontade — palavra de honra! —, tive vontade de ir contar-lhe tudo, e fazer-lhe ver a que se expunha o seu talento de loquacidade; todavia, não conhecia o marido e não tinha para com ela familiaridade que me autorizasse a isso.

Decorreu algum tempo sem eu tornar a ver Carminho, nem Gonçalo Dantas. Seis ou oito meses depois, em Cintra, no hotel Lawrence, tive a fortuna de os encontrar. Era em março. Cintra realizava já o delicioso Éden de Byron, mas não parecia ainda o sítio característico do verão elegante. Em Colares não se encontrava nenhuma das formosuras de Lisboa a recrear-se na várzea, ou gravando com a ponta de uma tesoura um nome ou uma data na casca do olmeiro. Nem a várzea estava já cheia, nem o bote lá estava ainda. Aquele lugar encantador de poesia achava-se todo entregue à melancólica serenidade da sua solidão. A aragem balouçava molemente os ramos, e a cor verde deles parecia falar das felicidades que deviam vir no futuro.

— Como Cintra está insípida neste momento! — disse-me Carminho com o seu sorriso simples e bom, mas mais lânguido e mais triste do que outrora.

— Cintra é sempre bela! — replicou o marido bocejando.

— Os poetas têm-na envelhecido — redarguiu Carminho a rir. — O sussurrar da brisa na folhagem, o rolar da água sobre as pedras na sua marcha obscura, o canto namorado dos passarinhos nas tardes quedas do estio, os raios brancos da lua que se divisam entre as ramagens do arvoredo, são tudo coisas lindas, que enfastiam apenas... os que as veem!...

— A tranquilidade é um doce estado! — ponderou o marido.

— A tua observação é do tempo da gavota!

— Não é fácil ser novo aos 40 anos! Vamos nós jantar?

Fomos jantar, todos. Gonçalo Dantas pareceu-me um excelente homem, levemente misantropo, amável de meia em meia hora, e tendo o espírito... de não pensar em o ter.

Carminho conversou pouco, mas conversou galantemente. Não gesticulava, não falava alto, não falava muito. — Eu não sabia realmente a que atribuir a opinião de tagarela e de preciosa que Carlos Eduardo lhe dispensara! Falou-me de um álbum, é verdade — assustador, indício! — mas num tom tão ligeiro e fácil, que não atraiçoava as ambiciosas vaidades de alguma colecionadora de autógrafos.

— Encarrego-o muito de escrever alguma coisa, esta noite ainda. O meu pobre álbum tem tanta página em branco, que a miséria dele dá-me o direito de impor uma contribuição forçada aos que têm a fortuna de poderem dar a esmola... do espírito!

A despedida entregou-me o álbum.

— Não seja avarento! Escreva bastante. Os ricos não devem ser mesquinhos! Há dois meses que tenho esse álbum, e não conta ainda senão uma página escrita! Se os senhores poetas se fizerem rebeldes este verão, eu e o Gonçalo acabaremos de o encher! Não é assim, Gonçalo? Faremos versos um ao outro, meu amor! Queres isto?

E dando um salto para chegar às barbas do seu marido, pareceu pendurar-se nelas, cheia de alegria, enquanto ele lhe formava um colar com os seus dois braços.

Fui para o meu quarto encantado de os ver. A sorte daquele Gonçalo parecia-me invejável. É glorioso aos 40 anos ser amado por quem tem 15. — “Fria!” disse eu a mim próprio, recordando-me do diálogo no baile: fria, ela! Com aqueles olhos e aquela voz! Se Carlos Eduardo não se enganou, então enganou-se Deus!...

Abri o álbum.

Havia apenas alguns desenhos e, como ela própria o dissera, uma só página escrita.

Principiei a ler.

Que importa ao sultão que as mais belas odaliscas se estorçam de desespero em cima das peles de tigre! Que a favorita perturbe com as suas lágrimas na água do tanque o reflexo do seu rosto encantador? Fica frio no meio do amor que inspira, e debalde o eunuco, ministro dos devaneios dele, alcança a peso de ouro as escravas mais raras. Nada pode demorar um instante o olhar distraído do soberano. A matéria fatiga-o e cansa-o. Namora-se do impossível, e quisera lançar-se nas regiões ideais, à procura da beleza sem defeito. A embriaguez não lhe basta — precisa de êxtase. A força de ópio tenta soltar os laços que prendem a alma ao corpo, e pede à alucinação o que a realidade lhe não quer dar...

— Ah! ah! — interrompi eu. — Este foi incomodar o sultão para o pôr num álbum! Não me parece caridoso!...

E continuei a ler.

“Por isso, aqueles ombros de nácar, aqueles braços artísticos, aqueles colos de cetim que o sopro da vida faz ondear — toda aquela mocidade, todo aquele brilho não bastam para encantar o spleen desse coração insaciável! Ao lado das formas mais puras de que a beleza humana se possa revestir, o sultão diz a si próprio: — É só isto?!...”

— Com mil diabos! — interrompi eu, outra vez. — Há fogo! Há fogo! Quem é que me diz, até onde vão chegar as veementes apóstrofes deste observador do sultão, que tem todo o ar de um poeta namorado?!

A página estava quase no fim.

“O que ele pede a cada instante é o espírito, é a alma, é o raio! Quer um amor com asas de chama, um corpo de luz que se mova no infinito e na eternidade, como a ave no ar! E a terra que estende os braços para o céu! — para o céu, que olha para ela com ternura pelos seus olhos, Carminho, pelos seus admiráveis e prestigiosos olhos!...”

— Ui!...

E dei um pulo.

Por baixo da última linha acabava de ler o nome de Carlos Eduardo de Lemos.

Que havia ele feito — este implacável amigo! — das veementes apóstrofes, que arremeçara à noiva, naquela noite em que a achara fria e abelhuda, e em que me dissera da sua fisionomia e da sua formosura tudo que lhe lembrou de excêntrico, menos que o céu houvesse olhado para a terra pelos olhos dela?! A página, de mais a mais, estava datada de Cintra, e da véspera, o que dava esperanças de me encontrar com ele no dia seguinte nos Pisões ou em Seteais.

De manhã, porém, tão depressa abri a janela do meu quarto para olhar a serra que principiava a dourar-se pelos primeiros raios do sol, vi quase ao meu lado, no terraço da entrada, Carlos Eduardo, embrulhado numa manta, fumando tranquilamente o seu charuto madrugador.

O leitor, até este instante, tem tido os encargos de prestar a sua imaginação a dar cor e vulto aos personagens do meu conto. Confiei-os à sua fantasia, por uma delicada atenção, que deve ter-lhe sido sensível. Há sempre para mim não sei que vago receio de desenhar um personagem, que não quadre ao gosto do leitor. Sei de espíritos meticulosos, que de tudo fazem delitos; e tive medo, em verdade o digo, de apresentar Carminho trigueira ou loira sem consultar primeiro a opinião de quem me está lendo.

Isto posto, os fantasiadores saltem os seguintes trechos de descrição, colorindo a seu agrado as figuras que lhes apresentei; e os leitores reverentes emprestem-me por duas páginas a sua compreensão obsequiadora.

Carlos Eduardo era um destes homens de quem se diz em Lisboa: muito bom rapaz!

Muito bom rapaz em quê, e por quê, é o que ninguém pergunta. Isto nasce de alguma forma da indiferença com que o espírito do nosso público aceita as reputações; e ainda nasce mais de haverem as coisas chegado ao ponto de que ser muito bom rapaz não signifique coisa nenhuma.

Assim todos nós conhecemos:

Um bom rapaz, que é um tolo;
Um bom rapaz, que é um mentiroso;
Um bom rapaz, que é um petulante;
Um bom rapaz, que jogador de ofício;
Um bom rapaz, que é um temulento;
Um bom rapaz, que é um covarde;
Um bom rapaz, que é um traidor;
Um bom rapaz, que é caloteiro;
Um bom rapaz, que é vilão;

A sociedade, por uma nuança delicada, abre apenas uma variante à maneira de falar deles, em vez de principiar por dizer de um homem — “É muito bom rapaz!” e enumerar em seguida as suas boas qualidades, começa pelos seus defeitos e conclui pelo simples expediente de uma adversativa conciliadora:

— “Mas, é muito bom rapaz!”...

Carlos Eduardo não tinha no rol dos seus defeitos nenhum pecado de leso-pudor. Todavia, era uma destas criaturas que provam uma ou outra vez de todos os defeitos da humanidade, sem terem sequer a força de se lhes apegar a alma a um. Tratava-se de jogar, perdia até a cruz de ouro que sua mãe lhe pusera ao peito, como relíquia e como memória. Depois, é certo, não pensava mais no jogo, até que em certa ocasião dada, o chocalhar dos dados, ou o baralhar das cartas lhe despertava no ouvido uma adormecida sensação. Propunha uma noite perdida a alguns amigos lá de tempos em tempos, e aceitava sem réplica a noite perdida que outros amigos lhe propusessem a ele. Era pródigo, às vezes, para ter que contar; libertino para se entreter uma hora; avarento, para poder depois ser perdulário. No fundo de tudo isto, está o egoísmo, evidentemente. E a única coisa que ele era sem intervalos!...

Os homens achavam-no feio; as senhoras diziam-no simpático. Ele dava-se bem assim, e conquistava o seu terreno palmo a palmo nos interesses da vida ou nos interesses do coração. Tinha fama de feliz em amores; insinuava-se com um artifício extremo no espírito de todos, caracterizando o seu caráter ao jeito e gosto de cada um. A serpente tem uma pele só, ele tinha sete: por isso mudava-a muito mais vezes!

A sua fisionomia denotava sofrimentos que ninguém lhe conhecera. Dir-se-ia que a desgraça havia passado por aquela existência o seu sopro glacial. Era um rosto pálido, de olhos profundos, e faces descoradas, que traduzia o fastio da vida ou a impressão de uma saudade. Tudo isto se dissipava em ele principiando a falar, à medida que um espírito mais agradável do que original, mais fácil do que verdadeiro, mais gracioso do que exato, se auxiliava na sua conversação de todos os estudados recursos dum jogo de fisionomia, aberto, característico e franco.

Falemos agora de Carminho.

Nas novelas inglesas, desenham-se sobre um fundo de paisagem, cercados dum céu límpido e claro, as figuras de heroínas que se harmonizem com a cor azul do céu, e que sejam loiras, frescas e serenas! No retrato que se pudesse fazer de Carminho, encontrar-se-iam mil reminiscências das mulheres de Richardson.

As feições da noiva apresentavam uma combinação de traços puros e nobres, que não se apreciavam à primeira vista, e só lentamente se revelavam. Era alta, formosa, brilhante de saúde e de vida! Os seus olhos escuros por baixo dos loiros cabelos, que lhe ornavam a fronte, davam um caráter particular àquela fisionomia em que a sinceridade se deixava ler. Tinha a testa breve, mas desenhada com pureza, e o todo do seu rosto indicava uma alma terna e boa!

Era ela capaz dum heroísmo? Não sei. Creio, quase, que não. Compreendia as coisas grandes e sérias da vida? Era capaz de apreciar o que vale um destino, e o que um destino importa? Duvido ainda.

Era uma dessas criaturas que seguem a primeira impressão, que se sujeitam à primeira lei, que se curvam ao primeiro olhar. Alma sincera e cândida, que, no seu rápido período de solteira, gostara muito de namorar e ser namorada. O seu espírito não costumava prender-se a nenhuma das distrações que para as senhoras da sociedade tomam por vezes as proporções da paixão: nem a música, nem a literatura, nem a pintura lhe mereciam o decidido interesse a que só as vocações conduzem. Gostava alguma coisa de tudo isto — mas, nesse pouco amor que por tantos ramos repartia, não se revelava porventura a alma que para nenhum deles nasceu?!

Caráter meigo e honesto, sabia atender aos preceitos da dignidade do seu sexo, e prometia tornar feliz um espírito desambicioso, que só queira de uma esposa a fidelidade e o coração; mas, se algum grande talento elevasse para ela voos ardentes de uma fantasia caprichosa, como a dos poetas ou a dos artistas, viria tempo em que por si mesmo caísse amor veemente que um homem superior lhe desse, ao conhecer que não podia aquela alma simples, aquela imaginação serena e quieta resistir ao sopro ardente da paixão, que se inflama em aspirações e em sonhos. à medida que a imaginação a engrandece, no colorido que sabem prestar ao amor os que amam mais pela cabeça do que pelo coração.

Parecera haver nascido para os serenos destinos da vida doméstica, simples, harmoniosa e prática. Há flores que não resistem ao dardejar do sol, e florescem na penumbra recatada dos crepúsculos!

— Olá! Carlos Eduardo? — gritei eu da janela ao fumista do terraço.

— Em Cintra! — exclamou ele! — Em Cintra, neste tempo!?

— Que ar magnífico!

E um pouco cedo ainda!

— Sete horas da manhã!

— Um pouco cedo para vir para Cintra, queria eu dizer!

— Ah! Não julgo assim. A primavera é a única época da vida para os campos ou para o amor. A propósito de amor li, esta noite, uma página sua, traçada com uma graça extrema!

— Uma página!?

— Uma página, sim.

— O meu amigo ignora que eu nunca escrevi senão cartas a alguma namorada!

— É talvez isso!

— Como diz?

— Digo... que não é bem isso!

— Trata-se então?

— De um álbum!

— Oh! — exclamou ele, como acordando a uma ideia nova.

— Já sei! Já sei, meu amigo! Não me fulmine! Essa é a história mais deplorável da minha existência, senão da existência humana! Eu tenho pelo álbum um horror que nenhum grito, nenhuma frase, nenhum espírito explica. O homem tem pressentimentos fatais; eu sonhei em pequeno, uma noite em que não saíra o luar, que haveria um dia escrever num álbum! Decorreram muitos anos e, à semelhança dos heróis de melodrama, que têm todas as manhãs um remorso à cabeceira, a ideia pavorosa, a sombra escura, o aspecto aterrador dum álbum era sempre o meu “Deus te salve!” Fugi de Lisboa e fui para a província, na intenção de me esquivar ao meu destino. Chegado a Trás-os-Montes, onde eu cuidava que as pequices da civilização não houvessem penetrado ainda, respirei com a suprema alegria dum homem que descobre um mundo do seu agrado. Na primeira casa em que entrei, de umas excelentes senhoras, aliás, havendo-me regalado com um jantar abundante, e com as mais afáveis maneiras deste mundo, remataram um tão bem passado dia proporcionando-me uma cólica!

— Oh! desgraçado!

— Faça ideia. Pois, não me apresentam, à hora do café, dois valentes e rechonchudos álbuns, um de casa, outro da vizinha, para eu enriquecer com alguma das minhas melhores poesias?! Dois álbuns, meu amigo; a única coisa, diz um autor, que se tem descoberto de pior... que um!...

— Era caso para um suicídio!

— Se contasse com uma notícia diversa, tinha-o feito! Este ódio cordial que me inspira o álbum dispensa-me de lhe descrever o quarto de hora de agonia, que veio oferecer-me esse que leu!

— Agonia que se disfarçou no mais eloquente entusiasmo!

— Vou ser franco consigo. Eu não escrevi essa página para aquele álbum, mas na dificuldade de me inspirar pela dona deste, recorri ao expediente de lhe repetir exatamente o mesmo que escrevera uma de dama que está a esta hora provavelmente tomando o seu banho de leite no Brasil!

E Carlos Eduardo cantarolou, como recordando-se numa toada graciosa e meiga, não sei que canção da América

Gentes, gentes,
Se voando.

— Isso prova apenas que teve o talento de acertar duas vezes, porque não há forma de pressentir que não fosse inspirada por Carminho!

— Oh! A vaidade dela dir-lhe-á que sim! E todavia, que diferença, que mundo, que abismo, entre o olhar destas duas mulheres! A minha estrela, que ainda é mais caçoísta do que funesta, trouxe-me a Cintra antes de ontem. Encontrei em Colares Gonçalo Dantas e sua mulher. Eu trazia o ouvido enfastiado dos elogios com que Lisboa tem formado à noiva um concerto de louvores; isto devia ter um resultado menos propício, e assim foi — a noiva já tem álbum! Aqui está para que serve a admiração posta em música, cantada em redor da beleza pelas vozes de uma população! Cintra em março sob as influências dum álbum é uma coisa cáustica; vou partir!

— Hoje mesmo?

— Dentro de instantes. Aconselho-o que siga a mesma ideia; dou-lhe condução, venha comigo para Lisboa!

— Não. Cheguei ontem, e conto ficar dois dias.

— Que distância entre nós! Eu fujo do álbum: e o meu amigo fica... por ele!

Pouco tempo depois, Carlos Eduardo partiu para Lisboa, encarregando-me de fazer as suas despedidas aos noivos, que estavam recolhidos ainda. Acompanhara-o até o portão; e ele disse-me apenas, erguendo a vista para o hotel:

— Deixo sempre este quadro com saudade! É pena que Cintra não esteja... em toda a parte!

Fiquei um instante a olhar o caleche que o conduzia. Uma camélia caiu a meus pés. Fui a olhar, e senti fechar uma janela. Apanhei a camélia e levei-a para cima.

— De quem é esta flor, rapaz? — perguntei a um criado.

— Isso há de ser desse senhor, que foi para Lisboa: que trouxe ontem uma camélia de Monserrate.

— Deste senhor...

Ninguém estava levantado ainda no hotel senão o criado e eu. Eram sete horas, estávamos em março, e o frio convidava apenas a madrugar algum pobre diabo, poeta ou folhetinista, que goste até de admirar a natureza, constipando-se.

Fui para o meu quarto, pus a camélia num copo e agarrei num livro que andava a ler.

Era a Apologia da Revolta de Eva.

O autor admite como exato o que diz o Gênesis, da desobediência da primeira mulher: todavia, longe de reputar isso um crime, demonstra-nos com uma precisão admirável que a sua rebelião tinha sido ao mesmo tempo um ato de coragem, de dedicação e de sacrifício! Era um verdadeiro livro para se ler em Cintra!

“A primeira de todas as revoluções, de que o gênero humano conserva memória — dizia o livro —, essa revolução simbólica e sagrada de que nasce no andar dos tempos todo o progresso do homem e das sociedades, vemo-la aparecer nas Escrituras sob o nome e imagem de uma mulher: o Todo-Poderoso disse aos cônjuges, fracos e ignorantes, mas felizes e imortais: — Não haveis de comer o fruto da árvore da ciência, ou morrereis! Resignou-se o homem a esta inativa felicidade, mas a mulher, escutando em si mesma a voz do espírito de liberdade, aceitou o desafio, preferindo a dor à ignorância, e a morte à escravidão. Sem que lhe importe o perigo, arranca com pequena mão ousada o fruto proibido, e leva consigo o homem nesta nobre rebelião. Banidos depois e condenados à morte, Eva ficou sempre, todavia, aos olhos da sua triste e orgulhosa posteridade, a personificação gloriosa e maldita da independência do gênero humano.”

E singular! disse eu interrompendo a leitura, a cismar, e volvendo os olhos para a camélia: é realmente singular que Carlos Eduardo trouxesse ontem esta camélia de Monserrate!

O livro estava me incomodando. Fechei-o. Que me dizia ele, por fim de tudo, senão que sem o erro de Eva procurar-se-ia debalde a causa das inquietações da mulher? O que vinha ele a dizer-me senão que o espírito da liberdade é imortal, e que revolta, essa Eva perpetuamente moça, prefere ainda hoje, como nos primeiros dias do mundo, o desterro, o anátema, a dor e a morte, à monótona paz da ignorância, da escravidão... ou da felicidade até!...

Entreguei o álbum a Carminho, à hora do almoço. Ela pareceu-me contrariada e triste, por ter que deixar Cintra antes da tarde; uma carta de sua irmã lhe pedia muito que voltasse a Lisboa: estava doente e só tinha esperanças em vê-la. Carminho confessou-me que era para ela o mais atroz dos sacrifícios apartar-se de repente das sestas nos Pisões e das tardes no Castanheiro, mas que ainda que supunha que sua irmã teria apenas um defluxo, desejava ir melhorá-la, abraçando-a.

Um daqueles garotos que acompanham as burricadas à Peninha, para ir buscar cruzinhas de pedra ou fazerem um buquê de flores silvestres, que nascem por ali ao acaso nos valados, apareceu à porta de barrete na mão, a dirigir a clássica pergunta:

— A senhora não quer levar um ramo de camélias?

— Não — respondeu Carminho.

— São ainda tão bonitas! Todas raiadas! continuou o rapaz.

— Não! Não quero — insistiu ela.

— Raiada, achei uma ainda agora e linda! — disse eu.

Carminho não disse nada. Olhei-a, pareceu-me fazer-se corada: continuei:

— Permite-me vossa excelência oferecer-lha? Ela está ainda viçosa, apesar de haver sido apanhada ontem.

— Entendi dizer-me que a achara ainda agora?

— Sim. Caiu-me aos pés, escapando das mãos de alguém numa destas janelas: todavia foi colhida ontem em Monserrate, ao que me disseram.

— É talvez dessas meninas inglesas que cá estão? — respondeu ela fazendo-se mais vermelha ainda.

— Provavelmente — disse eu.

Duas horas depois, os noivos partiam, e Carminho levava como recordação de Cintra... aquela camélia.

A irmã de Carminho era uma menina alta e delgada, que parecia não ter mais de 16 anos, e tinha 20. Elegante, cheia de gentileza e de graça, era de uma tão distinta finura de formas que faria cuidar que ia quebrar-se toda, quando mudava de atitude!

Havia uma mistura sublime de inquietações e de resignação na sua fisionomia melancólica. Era dotada de uma sensibilidade extrema, mas que em raras ocasiões se revelava. Só grandes dores podiam abater aquela gentil fronte inspirada!

Não era destas criaturas cheias de bondade, e todas coração — como se usa chamar-lhes —, que são boas para todos, sem distinção nem na intensidade do favor, nem na forma de o fazer, nem na facilidade de o concederem. Tinha as suas pessoas prediletas para quem era toda delicadeza; para as demais, sem as ofender com desdéns, afastava-as pela indiferença. Não era amiga de conversar, senão com os que lhe mereciam estima; no seu conceito, confiar a um e outro ideias um pouco mais íntimas como são as que no decurso de uma conversação inevitavelmente acodem de uma ou outra vez, é dar muito a quem nos merece pouco. Por isso reservava para as suas amizades favoritas toda a expansão dos seus sentimentos e das suas ideias. Uns acusavam-na de altiva e pouco amável, por lhes não atender; outros chamavam-lhe fria, porque raramente chorava. Quando a primeira lágrima atravessasse as suas longas pestanas, traria após si um dilúvio de pranto, que nem o tempo reprimiria — porque a mágoa então seria extrema!

O que havia de antigo e severo nos traços da sua beleza era suavizado por uma expressão serena e meiga. Como ela era bela à noite, à claridade das luzes! A cor da sua pele, levemente biliosa de dia, tornava-se então de uma alvura magnífica.

Tinha cabelos loiros, finos, lisos e iguais. As azuladas olheiras, que se desenhavam por baixo dos seus meigos olhos, davam uma expressão de inteligência e de melancólica firmeza àquela airosa fronte, cuja beleza linear tocava as proporções do belo antigo!

Tinha vaidade — algum defeito havia de ter —, tinha vaidade em duas coisas: em cantar bem, e em ter os mais bonitos pés do mundo. Ai de mim! Não pode esta pena sincera e imparcial contestar-lhe o direito a semelhante orgulho! Ela tinha deveras uns lindos pés e um lindo talento musical! deus atendera aos dois extremos desta adorável criatura: num pais como o nosso, em que tanta gente não tem pés nem cabeça, fazia-se ela valer sobretudo pela cabeça e pelos pés!

Pés! que pezinhos! De uns que há, em que se procuram asas nos calcanhares, por nos parecer razoável que a gentil criatura que os possui deva ser filha do ar!

E andava, aquela tontinha, andava pelo chão, como qualquer de nós! a martirizar, impiedosa, aquelas duas admiráveis miniaturas!...

Chamava-se Amélia. Era mais velha cinco anos que Carminho. De índole perfeitamente diversa, havia um mundo entre as duas irmãs.

Ela tinha, mais que tudo, o condão de não se impressionar. Era uma destas criaturas de quem se não pode ficar sem lembrança, quando uma vez as encontramos. Podia agradar ou desagradar; não podia esquecer!

Para o seu espírito, a melhor e mais doce distração parecia ser a música, porque em todas as ocasiões de melancolia ou de tristeza recorria ao piano como pedindo consolações às melodias. Então, compondo ao acaso sobre alguma poesia cheia de queixas e lamentos, traduzia a inquietação, a ansiedade, a febre, no timbre meigo e encantador, que suspirava em notas saudosas como uma harpa viva, presa ao seu coração!

Por que era ela infeliz? Não sei; e todavia, era-o. Todas as condições materiais da existência humana porfiavam em a fazer sorrir: era rica, formosa, moça, bem nascida, e educada com os mil esmeros de uma mãe carinhosa: e apesar de tudo a sua fronte dobrava-se a todo o instante ao peso de uma singular tristeza. Por que havia querido Deus distanciar tanto o caráter destas duas crianças? Carminho só pedia à vida a esperança; Amélia parecia pedir à esperança a morte!

Quando Gonçalo Dantas foi apresentado em casa da mãe destas meninas, não conhecia nenhuma delas. Levou-o ali, por suprema distinção, um amigo da família, na simples intenção de lhe proporcionar uma noite agradável. Era um homem grandemente instruído, um pouco cáustico, mas de uma sinceridade extrema. Para que o leitor não diga que os meus heróis vivem todos do ar, façamo-lo médico. Gonçalo Dantas chegava da província, e cuidava tudo, menos que havia de namorar-se de alguém em Lisboa. O pai das duas meninas acabava de lhes faltar. Encontraram-se herdeiras dum excelente nome e duma excelente fortuna. Diz-se na sociedade que Gonçalo pensara nisto, quando se propôs a pedir a mão de Carminho. O que se sabe apenas é que a sua simpatia por ela não ia tão longe que o impedisse de dirigir ao seu amigo esta singular pergunta:

A qual achas tu que faça a corte?

— Gostas de alguma delas?

— De ambas!

— É mais difícil do que se principiasses por não gostar... de nenhuma!

— No teu caso?

— No meu caso, esquecia isso.

— Tens um motivo?

— Tenho uns poucos. Estas meninas são duas criaturas angélicas mas, ordinariamente, dos anjos não se fazem boas donas de casa.

— Prosaísmo!

Prosaísmo será, mas não é pelos poetas que se inventou a prudência! Nenhuma destas meninas te convém, Gonçalo; és rude demais, meu velho, para te entenderes com qualquer destes querubins. Que idade tens tu, Matusalém?

— Quarenta e um!

— Salvo o erro!...

A que veio a pergunta?

— Para esta resposta — uma delas tem 15, a outra ainda não fez 20 anos!

— Histórias da vida, meu amigo! Andam vocês apegados a essa falsa máxima de que as crianças devem casar umas com as outras! Se eu tivesse também 15 anos, dir-me-ias tu que estava apto para marido de alguma destas donzelas! És estúpido como uma porta, e maçador como uma porta a ranger. Tenho 40 anos, é verdade, mas tenho muito mundo, e sei a vida na ponta da língua!

— Também não é assim!

— Pois, dirás como é!

— O mundo que tu conheces não é este. Vieste três invernos a Lisboa na intenção de passeares pela capital a reputação, que te haviam feito na província, de cavalheiro bizarro. Meteste-te no Marrare — o Marrare neste tempo levava dinheiro! — Fizeste mil diligências por uma dançarina, que faria mil diligências de tu a quereres. Foste às partidas de um fidalgo, apostaste cem libras a cada carta; perdeste sempre. Ceaste em casa de uma prima-dona. Estafaste dois cavalos, e tiraste um dente no Vitry. Aqui está o que fizeste em Lisboa; nada mais! Ficaste sabendo alguma coisa do mundo dos homens, e nada dos homens do mundo!

— Disparata por aí! Há uma coisa que eu guardo ainda nos meus 40 anos, é o pudor. Quando uma mulher se me desse por esposa, para me desonrar depois, matava-a.

— Isso tudo é lá de fora!

— Conheces-me desde criança, e sabes que não sou vaidoso. Sinto-me em toda a força da vida, podes crê-lo, e obstino-me a não concordar em que já não é tempo de me casar. A idade é o pão dos imbecis. Tudo tem de ser! Podes achar-te belo como Apoio, ter 25 anos e a glória dar-te o seu melhor sorriso: — a tua namorada terá um capricho, trocar-te-á pelo primeiro alferes que lhe apareça! Esperar o pior ou não esperar nada; eis tudo! Carmo e Amélia têm o dom de me encantar, e tu vais escolher-me uma delas; fecho os olhos e aceito, e-me igual uma ou outra; quem é que diferencia os anjos?

— Sim! Também me parece, meu amigo — respondeu o doutor. — Há em cada donzela um anjo, que mal roça pela terra as asas; mais tarde, deixa como mãe o suave rastilho dos seus passos, e depois de haver vivido como a rosa, sem perder o viço e a cor, o anjo querido dos salões torna-se às vezes, quando envelhece, em demônio do lar doméstico,!

— Que importa? Lê alguém, de longe, o seu destino!? um capricho, uma loucura, talvez, o ir eu casar-me; quem sabe, todavia, se este casamento tem de evitar-me alguma loucura maior! Vamos, doutor! mostra-te meu amigo, escolhe-me a noiva, e encarrega-te perante ela das flores do meu elogio!

Olha que é asneira, Gonçalo!

— Melhor para ti: evita-te cair noutra semelhante! Deixa-me ser tolo a meu modo: os tolos prestam serviços à sociedade, encarregando-se de fazer os disparates que estavam reservados para os que têm juízo!

— Pois bem! Vou acender a fogueira; esta noite já te darei resposta. Tu não gostas mais dos olhos da Amélia?

— E os cabelos de Carminho?

— A outra tem melhor sorriso!

— E aquela melhor olhar!

— Oh! ímpio ancião — queres as duas?

— Não rias — redarguiu Gonçalo — há alguma coisa de sério em tudo isto, e toda esta aparência de frivolidade é apenas como o véu de um sonho! Estou casado, doutor, ou nenhuma delas me quer!...

Todo esse diálogo teve lugar, passeando os dois no Chiado. Era das três para as quatro horas, quando a sociedade elegante passa inquieta, entrando ou saindo das lojas de modas. Um caleche parou perto da casa Lombré: o médico apertou o braço ao seu amigo, quando viu a viscondessa e suas duas filhas, que se apearam.

— Vem! — disse-lhe. — Vamos encontrá-las. Escolherás talvez!

— Ser-me-ia agora impossível, antes de saber o que pensam de mim!

— Até à noite, então!

— No teatro.

Com um fino trato de diplomacia amorosa, o doutor, que foi jantar à casa da viscondessa, tratou de insinuar Gonçalo no ânimo das duas meninas. Era um homem astucioso e arteiro para esta ordem de empreitadas, e possuía o segredo de saber conversar com senhoras, acompanhando-as naquele borboletear de espírito, que passa incessantemente de um assunto a outro sem pousar em nenhum!

Quando se quer recomendar um homem aos olhos de um senhora, antes de se fazer o elogio dele, deve contar-se o elogio que ele fez dela. O doutor sabia todas estas práticas da vida, e pô-las em ação; mas, se a vaidade de Carminho foi levemente tocada por este improviso, Amélia, ao contrário, sorriu friamente ao ouvir o nome de Gonçalo, e deixou cair esta frase, que foi a pior condenação:

— Grosseira criatura!

— O meu amigo Gonçalo? — pergunta o doutor.

— Se é seu amigo... demais, arrependo-me de haver dito isto.

— Oh! diga! diga! acudiu o doutor, que percebeu logo que era útil aproveitar a antipatia de uma para merecer a simpatia de outra. Parece até — caso estranho! — parece-me que se ajustam as guerras de coração na distância e na escuridade!

— Por quê? — perguntaram ambas.

— Porque Gonçalo Dantas — respondeu o doutor rindo. — Não tem uma predileção grandemente decidida pela Sra. d. Amélia, e...

— E?...

— E adora o espírito da Sra. d. Carminho!

Este é o momento em que se faz corada a donzela mais indiferente ao amor. Quando uma declaração chega por intermédio de terceiro, ganha tanta cor de sinceridade, como os suspiros e segredos, que um coração contasse à brisa! Não há maneira de desconfiar de quem nos admira em silêncio. A alma humana tem para uma senhora mil razões de vaidade, e elas absolvem com gratidão os que cometem a ousadia... de as adorar. Gonçalo tomou nesse instante para Carminho as proporções de vulto interessante. Não é porventura inevitável reconhecer espírito em que no-lo encontra? E depois, o doutor descreveu o seu amigo com os toques brilhantes da paixão e do entusiasmo: que era um tipo excêntrico, bravo e leal: que tinha olhos pretos, e um bigode magnífico: que atirava como um mestre de armas; que era impetuoso como um leão, e meigo como uma donzela... Quando o leitor fizer o seu plano de ataque numa campanha amorosa, incumba sempre um amigo de o retratar à sua escolha, realçando-lhe os dotes e esquecendo-se dos defeitos. Isto poupa-lhe meia jornada, se o amigo que escolher não tratar de si em vez de tratar do senhor — o que também pode acontecer, poupando-lhe dessa forma a jornada toda!...

A viscondessa, a quem Gonçalo caiu em graça, encaminhou muito sua filha Carmo, na maneira de se conduzir para com ele, e em poucos dias, o doutor, que fizera ao seu amigo uma primeira carta para amenina, viu-se rogado por esta, numa confidencial mais que extremosa, a aconselhá-la se devia responder ou não.

É inútil explicar que quando o doutor disse que sim, já a viscondessa tinha dado a Carmo o rascunho do que cumpria copiar.

O casamento efetuou-se com uma brevidade incrível, e o que Carlos Eduardo no princípio desta história me contou acerca da boneca de presente de núpcias, era perfeitamente exato.

Ao chegarem de Cintra, os noivos foram imediatamente à casa da viscondessa.

— Pobre mamã! — exclamou Carmo à entrada. — Já sei que está aflitíssima! Amélia não está melhor?

— Como, melhor?

— Como melhor! Melhor da doença que a conserva de cama há dois dias.

— Mas tua irmã está perfeitamente, meu anjo! — respondeu a mãe com a mais sincera expressão de quem ouve uma novidade. — Escuta! Não ouves o piano? Não a conheces nesta valsa? Quem pode haver-te dado semelhante ideia?

Carminho ficou estática e, com um ar infantil e desconfiado, meio risonho, meio triste, respondeu com voz trêmula:

— Se a mamã receasse dar-me uma má notícia...

— Uma má notícia, filha de minha alma! Mas, que quer dizer essa insistência!

Gonçalo, que se conservava pasmado, contemplando sua sogra com o olhar especialíssimo de um genro de província, entendeu ser tempo de tomar a palavra; e tomando a viscondessa pelo braço, disse-lhe a meia voz:

 — Há, seja o que for em tudo isto, senhora viscondessa! Eu afirmo a vossa excelência, que li hoje uma carta de sua filha, minha senhora, suplicando a Carmo que voltasse sem demora, para a acompanhar na sua doença!

— Que louco imbróglio! — ponderou a fidalga. — Vai, minha filha, vai pedir a tua irmã que interrompa o entusiasmo da sua valsa, e te explique...

O doutor entrava neste momento.

— Oh! — prosseguiu a viscondessa. Aqui está o doutor, que, na qualidade de médico da casa, vai informar-nos das melhoras de Amélia!

— Como, das melhoras? Pois esta manhã ainda a vi tão bem disposta, e venho ter a mágoa de a encontrar doente!

— E a história de d. Basílio! — disse a viscondessa, rindo. — É preciso ir tirá-la do piano, e entoar-lhe o Vad’a letto!... Não, doutor, não! Minha filha, Deus louvado, tem apenas hoje, como sempre, a doença da poesia, que é a doença... de quem não tem outra! Tem estado toda a tarde a compor música para uns versos, enfermidade que não me dá muito cuidado... por ser da moda! Vamos nós fazer um wisth?

— Com muito prazer! — disse o doutor.

Enquanto a viscondessa, Gonçalo, o doutor, e uma velha aia da casa se entretêm na sua partida de wisth, aqui está o que se passa entre as duas irmãs.

— Sabes que não compreendo a singular notícia da tua doença, de que nem a mamã, nem o doutor, nem a nossa velha aia Justina, estão informados?!

— Meu amor — respondeu Amélia, sorrindo —, eu não estive doente.

— A tua carta, todavia?...

— A minha carta mentiu.

— Com a intenção...

— De te salvar.

— Que quer dizer?

— Digo de te salvar, meu pobre anjo — e abraçou-se-lhe com uma meiguice melancólica e encantadora —, meu pobre anjo, tu vais perder-te!

Carminho tornou-se pálida.

— O que pode fazer-te supor?...

— Sei tudo. Carlos Eduardo tem uma irmã, que estava comigo no convento das Salésias e, se essa irmã é a única pessoa para quem ele não tem segredos, a única pessoa para quem ela os não tem sou eu!

Carminho curvou a fronte sobre o seio de Amélia, orvalhando-o de lágrimas.

— Que te disse, pois?

— Que Carlos Eduardo tem um capricho por ti, um capricho, minha pobre irmã! e que tu autorizas a sua temeridade, esquecendo-te de Gonçalo, e não lho recordando a ele! Oh! — vou dizer-te. Uma predestinação fatal preside a tudo isto. Desde o meu baile de núpcias, que os olhos daquele homem me procuram, me seguem, e me prendem! O que há nele de singular não sei: tento fugir àquela vista aguda, penetrante e irresistível, mas ele subjuga-me, vence-me e prostra-me. Eu tenho medo, Amélia, medo dele! E todavia não se é mais dócil, mais submisso, mais dedicadamente respeitoso do que o tem sido sempre para mim. Um poder, que eu não explico, encadeia a minha alma a pensar nele! Não é decerto mais belo do que os outros homens, apenas o seu espírito o distingue do maior número; ruas quando ele aparece no teatro, no circo, ou nos bailes, a sala parece redobrar de luz pelo seu olhar! Sente-se que há tristeza na sua aparente alegria. Ele parece falso, aquele homem: há afetação no seu ar de simplicidade e de distração e, apesar do meu desdém, do meu horror até por tudo que não é verdadeiro, enleia-me, seduz-me, encanta-me, aquele tipo especial de ironia e de inocência, e fico cismando nele, sem saber se devo adorá-lo como o anjo do infortúnio, se como o anjo do mal!... Nada nele é sincero, vês tu! Estuda, prepara, e planeja tudo. A ouvi-lo no mundo, ele não pode suportar a minha beleza, e esta continuamente em remoques acerca dos meus dotes do espírito. Gonçalo já uma vez me disse que apenas lhe perdoava a pouca simpatia que eu parecia inspirar-lhe pelas galanterias com que se esforçava em vencer o seu natural desamor por mim! Que ideia preside a tudo isto? Por que não dispensa ele nunca, no mundo, ocasião de desdenhar do meu merecimento — quando, por menor que ele seja, parece havê-lo prendido? esta a sua arte de guerra no amor, talvez: amar desdenhando, para que ninguém suspeite do objeto da sua adoração! Nós somos fracas, Amélia: todas nós somos fracas, minha irmã, e eu sinto, Deus me perdoe, que adoro esse homem!...

A irmã mal teve força para a abraçar e conduzi-la até a janela do quarto, que deitava para o jardim.

— Olha! — disse-lhe. — Não gostas de ver de novo ao pé de ti estas árvores, de que toda a nossa vida temos aspirado o perfume e escutado o murmúrio? Há consolações em tudo isto, irmã; e tu, que vens do mundo, do ruído e das paixões, precisas falar com Deus! Deus está aqui: na doce serenidade desta natureza simples e alegre! Não o sentes? Não o escutas? Não o adoras, Carminho? Quando estamos abraçadas, como outrora, a esta mesma janela, entretidas a ver os ramos escuros das árvores balouçarem ao sopro da viração da noite, não te faz medo o mundo, e a tua alma à simples ideia dele não recua aterrada de ver de perto a inquietação que a espera, não se abraça a si mesma, e não redobra de força e de energia?

Carminho escondia a fronte entre as mãos e chorava.

— Se eu fosse solteira ainda! — balbuciou ela.

Horrível frase de uma noiva: frase em que vai quase sempre a honra do marido e a virtude da mulher — a felicidade de ambos!

— A irmã de Carlos Eduardo — disse Amélia — assustava-se sem motivo dos resultados desta temeridade. Aquela menina chegou a recear que a tua imaginação simples e sincera se impressionasse a ponto de esquecer o mundo e o dever. Eu jurei-lhe que não aconteceria assim, e que a tua alma nobre e cândida teria a força de repelir a tentação. Quando um homem é bastante calculista para ter ânimo de desdenhar por toda a parte na beleza da mulher que adora, embora haja para admitir a prudente sutileza do seu caráter, há a deplorar contudo a pouca espontaneidade da sua índole! Antes um imprudente, que me perde, perdendo-se, do que um calculista, que me salve, ferindo-se! Tudo isto não foi mais do que um fatal episódio na tua existência, que ainda agora desponta; os teus destinos de noiva iam perder-se sob a influência de uma estrela do mal: chora hoje comigo a tua loucura, em vez de um dia eu ter de chorar sozinha a tua desonra! Supõe por um instante que teu marido...

— Oh! — exclamou Carminho, estremecendo. — Nem me dês essa ideia! Quando às vezes se fala diante de mim das leviandades de alguma senhora, a sua fronte enruga-se; e cada palavra dele, austera e cruel, vem cair no meu coração como chumbo derretido! Gonçalo é uma boa alma, mas aterra-me!...

Ficaram silenciosas ambas fixando vagamente o olhar no céu. A lua erguia-se pálida e, a pouco e pouco, à medida talvez que olhava a terra, melancólica, namorada, triste, ganhou cor, ganhou luz, ganhou alma, e sorriu.

— Ontem à noite em Cintra — disse Carmo como que a si própria — estava a lua como eu nunca a vi! Eu estava sozinha no terraço do hotel, enquanto Gonçalo lia os jornais. Tinha na mão uma camélia... que ele me trouxera de Monserrate; ora olhava para ela, ora para o céu! Não se ouvia senão o sussurro das águas nas fontes dos Pisões, e não se via mais do que os pinheiros que se erguiam na sombra, as aves que lhes dormiam no tronco, e a lua a coroar a serra! Uns frocos de nuvenzinhas brancas vieram como um véu afagar-lhe a face, e a casta deusa quase parecia vaidosa! Depois, penderam-lhe dos lados, como os brincos alvejantes de uma virgem que se adorne: dali a nada molduraram-lhe a fronte com um diadema pálido de noiva. De noiva!... E fugiram-lhe, e deixaram-na nua, bela, esplêndida, toda luz, toda amor! Oh! se tu visses, minha pobre Amélia, como a camélia resplandecia então de amor, de encanto e de luz, pensarias naquelas flores do Oriente, que embriagam a vista, e trazem nas pétalas a loucura e a morte!

— Carmo! Carmo! — disse a irmã, abraçando-se-lhe.

— Oh! sim! prometo-lhe: não me lembrarei mais dele! Que a sua voz, meiga e suave, não torne a acordar a minha alma pela esperança. Esperança de que e em quê? Não sou eu casada? Não procurei eu a morte? Aquele imprudente, que julgou que ia a tempo ainda de pedir-me a felicidade no meu baile de núpcias — como se uma noiva a tivesse!...

— Oh! minha irmã, minha irmã!... Que estás dizendo? Pois não podes tu ser feliz com Gonçalo, que tanto te agradou de princípio? Em que julgas tu superior esse rapaz, que apenas conheces por leres versos dele, e por que o achas simpático, a teu marido, que não faz versos, mas que já te pareceu simpático a ti?

— Tiremo-nos desta janela! — disse Carminho. — A vista da lua enche-me de saudades, que me enlouquecem! Vai! Brilharás ainda para outra, como te vi brilhar para mim. Seja essa menos infeliz do que eu! O teu império é na solidão, ó lua! Vives sobre a serra, e dormes por detrás dela. Levanta-te cada noite, e vem sorrir à natureza e às almas, porque a poesia morre se tu fugires... Mas, esconde-te na Peninha, louca! Não venhas para o mundo fulgir sobre a cidade! Não és a mesma aqui! É preciso ver-te erguida sobre um trono de penedos, ao longe o mar, a solidão em roda, e aos teus pés a ave e a flor!...

— Cuidado! — disse Amélia, a meia voz, apertando a mão de Carmo. — Sinto os passos da mamã!

Pouco tempo depois, os noivos retiraram-se, tendo-se dado como única explicação da carta de Amélia a impaciência em que estava de ter perto de si a sua irmã.

— De quem, dentro de um mês, vossa excelência terá de novo que separar-se! — disse o marido, sorrindo.

— E por quê? — perguntou Amélia, inquieta.

— Porque devemos ir a Barcelos, para Carminho ver a nossa casa, e demorar-nos-emos dois meses.

— Ora — replicou a noiva. — Para que nos disseste isso já?! É a maneira de Amélia principiar a afligir-se desde hoje!

— E por que não vem vossa excelência conosco, mana, se a senhora viscondessa permite?

— Sou doente demais para jornadas, e ia perturbar-lhes todo o prazer da sua viagem. Vão! Fazem muito bem! Vão! O tempo está lindíssimo, para viver no campo. Não há mais bonito março do que este! Aí está que, pelo contrário do que supunham, alegra-me, em vez de inquietar-me, essa resolução em que os encontro de irem ver Barcelos. Dois meses correm depressa e, para ainda me ser mais fácil, escrever-me-ás muitas vezes; não é verdade, meu amor?

— Sim! Muitas vezes...

— Quando partem, mano? — perguntou Amélia a Gonçalo.

— Em 15 dias, o muito.

— Devem partir antes: quando março não tem inverno de manhã, é porque junho vai tê-lo de manhã e de tarde. Tomara eu ter saúde, que os acompanhava; mas havíamos de partir dentro em três dias!

— Tão depressa! — disse Carmo — e acrescentou-lhe ao ouvido: — És cruel!

— Três dias! — exclamou Gonçalo, rindo. Aí está justamente a imaginação dos 16 anos, nos seus frenesis, nos seus entusiasmos, nas suas ansiedades! Dou-me por feliz, de Barcelos lhe haver caído em graça, mana: isto foi uma pura questão do acaso, que me salvou dos seus epigramas: se não tem acontecido assim nunca eu conseguiria levar Carmo à província!...

À saída, as duas irmãs abraçaram-se estreitamente, e disseram de relance, ao ouvido uma da outra:

— Partirás?

— Talvez.

— Sim!

Oito ou dez dias depois, passava-se a noite em casa da condessa d’Alguber, que recebia às segundas-feiras. A condessa tinha 30 anos, e nascera feia; quando se é condessa e se nasce assim, aos 30 anos tem-se ódio ao mundo. A vida para esta dama era uma viagem monótona, uma jornada de churrião. Nada conseguia distraí-la, senão os mexericos da sociedade. A sua honestidade tinha ganho fama, à sombra do seu temperamento, que lhe não permitia senão ser fria: chamam-se às vezes virtuosas estas organizações insensíveis. O que a recreava em extremo era levantar o véu às mais íntimas cenas da comédia social, e seguir o andamento destes entrechos, um instante misteriosos, mas destinados de ordinário ao desenlace de um escândalo.

Os noivos achavam-se ali; Gonçalo a uma mesa de wisth; Carminho num grupo de senhoras, que discutiam com Carlos Eduardo de Lemos. O que discutiam eles? Eu não sei bem: discutiam modas, literatura, amor, política, bailes de máscaras, religião, que sei eu?!

Falou-se em milionários.

— O que Deus me defenda de eu ser um dia! — disse Carlos, rindo.

— A poesia quase lhe o assegura! — respondeu alguém. — Se é preciso er poeta para ser infeliz, não é infeliz quem quer!

— Oh! os ricos são hoje os únicos infelizes. Há uma coisa apenas tão desgraçada como a miséria, é ter milhões! Não conheço um único milionário feliz! Passam os dias amarrados à carteira, sem irem procurar um instante ao ar livre um só raio de sol que os aqueça! A sociedade, para tudo ser, obriga-os a representar çegamente o seu papel de ditosos: há mil casamentos a procurarem-nos, mil falsos amigos a tomarem-lhes o tempo, mil parentes a desejarem-lhes a morte. Não lhes é permitido passar uma noite no Marrare, entre uns poucos de rapazes e umas garrafas de cerveja inglesa; chamam-lhes pródigos se derem, como nós, todo o troco ao criado! Receiam tomar intimidade com toda a gente, por cautela: ninguém os acompanha, que não tome logo o ar de explorador! Se têm amante, diz-se que são amados pela sua fortuna! Se frequentam uma família honesta, a vizinhança principia em remoques! Ninguém os quer, ninguém os respeita! São uma espécie de leprosos sociais! Horrível!

— Que os infelizes saibam amar melhor, convenho, — disse um deputado, que se chegou ao grupo: — mas que os infelizes sejam mais amados...

— A que chama infelizes? Aos deserdados, aos bastardos, aos filhos segundos? O único amor que tem voz é o que se apresenta despido das grandezas do mundo, que não brilha senão da luz da sua chama, não é par do reino, nem ministro, nada tem e nada há de ter, e faz consistir a sua força nas graças atraentes da sua fraqueza! E aquele pálido semblante, que tem o sorriso melancólico e o olhar choroso; que se sente mal neste mundo, que se queixa de não ser entendido, que ostenta a riqueza da sua miséria, que vive de ser pobre, que interessa por ser pequeno, que comove por ser triste, que é feliz por ser desgraçado! Eterno peregrino, que atravessa a vida encostado ao seu mau destino como a um bordão de romeiro; pede hospitalidade ao cair da noite, é mais bem tratado que o dono da casa, deve mais atenções à caridade do que os grandes da terra à opulência, e parte de madrugada para ir seguindo, da mesma forma sempre, a sua sublime romaria! E este amor, que ê o perigoso. Pede esmola como um pobrezinho, e é ele sempre quem mais impera: bate à porta com humildade, e anda depois pelas casas todas: tem ar de implorar as migalhas, e o melhor manjar é-lhe destinado sempre!

As senhoras sorriam-se para Carlos Eduardo como dizendo-lhe: — Tem razão! Apenas Carmo permaneceu séria, baixando a vista, e cravando-a vagamente numa das flores do tapete. O deputado encarregou-se da réplica, mas, para sermos exatos, as senhoras não o escutaram, o que me serve de pretexto agora para não lhe registrar o discurso!

— E bem verdade tudo o que disse este moço! — ponderou a condessa ao ouvido de Carminho. — A tentação, meu anjo, surge na vida do lado de que se não espera!

— De que maneira evitá-la então? — perguntou a noiva com uma sublime acentuação de ingenuidade.

— Quem o sabe? — disse a condessa, sorrindo; — ou antes, minha querida, quem é que tem a força de procurar sabê-lo? Pela minha parte, confesso-lhe a verdade, tenho um grande fraco para desculpar o que o mundo chama más cabeças; inspiram-me muito menos confiança as boas. É triste de dizer, mas é assim. O para-raios é para as tempestades o que a tentação é para os corações. Atrai-os. Tirem do mundo os homens superiores; ou acusem-nos de perigosos, em vez de nos acusarem de fracas. Caluniam-nos os que dizem que só os tolos nos interessam!...

— Oh! Os tolos!... — exclamou Carmo com horror.

— Sim. São eles próprios, creio eu, que fazem espalhar esse boato! A sociedade é justamente a culpada de que os homens de merecimento passem na sombra para as distinções do amor; por que não os chama a si, por que não os requesta, por que não os desdenha até? Ah! meu anjo, entra na vida, e ignora bem que pandemônio vai observar! Condenam-nos como classe, às que nascemos em berços dourados. O mundo é o nosso juiz e o nosso algoz. O que é, infelizmente, uma mulher honesta? Menos que nada. Uma coisa em que não se fala!

— Ao menos — disse Carminho, desviando de Carlos o olhar com que o procurara, — fica a consciência às que fogem da chama que vai queimá-las, e isto é o mesmo que ficar-lhes Deus, não é verdade, condessa?

— Eu sei! Eu sei, meu anjo! A humanidade é tão... desumana: condena ou absolve ao acaso. Felizes dos que caem em graça, porque há sempre desculpas para quem não se quer considerar culpado. A primeira coisa de que se deve acautelar na vida, minha pérola...
— O que é? — perguntou a noiva ansiosamente.

— É de acreditar nos que a amarem. Veja que não lhe digo “dos que fingirem amá-la ou dos que lhe disserem que a amam”, digo-lhe dos que a adorarem. Não há mais inconsequente inimigo do que o amor dos homens. O que eles estimam mais em nós é justamente o que nos querem fazer perder... a virtude!...

— Para depois?...

— Nos acusarem, ou desprezarem-nos.

— Oh! É horrível! — balbuciou a noiva.

— Horrível, principalmente, porque quando a minha querida for obrigada a colocar um homem no lugar que lhe compete... já terá perdido o seu!

— Oh! Espero que...

— Sim! E que mais pode cada um do que confiar na providência... e um pouco em si! A fidelidade, de mais a mais, tem as suas glórias. Aqui vê, passando a noite, algumas antigas ligações. Há gente que pasma disto, sem saber que as ligações antigas duram... justamente por terem durado! A constância tem um orgulho à parte!...

— Que é, neste caso, o orgulho da desgraça!

— Quando a desgraça dança nos bailes, minha boa amiguinha, nem Deus a vê. Há uma nuvem, que costuma passar pela lua-de-mel das noivas; quando ela lhe aparecer, verá que há de aconselhá-la a ser indulgente com o próximo!

— Que nuvem vem a ser?

— Simples devaneio, às vezes. De outras vezes, a sombra de um crime. A curiosidade de Eva que renasce no meio de um espetáculo, auxiliada por um óculo de teatro, o pior dos intérpretes, o mais perigoso dos confidentes! O fruto proibido, que passa de fraque e luva cor de violeta! A nuvem surge de repente, e vem do lado de que não se espera. À mesa, ao ver partir um fruto que se nos destina; na igreja, ao aceitar a água benta, no hissope que se nos oferece; no verão, entre as árvores, ao encontrar três vezes, fixos nos nossos olhos, uns olhos que nos procuram; no jornal, quando uma vaga simpatia pelo nome de um escritor nos obriga, antes mesmo de terminar a primeira página, a ir vê-lo no fim da segunda; no baile, quando o nosso braço, que não tremeu na primeira valsa, que demos a um deputado, nem na segunda, que demos a um poeta, nem na terceira, que demos a um príncipe, treme na inocente contradança que um desconhecido alcançou de nós!

Mas, sabe tudo a condessa?

— Sei a vida apenas, meu anjo.

— É possível, contudo, que se a nossa alma tentar perder-se na cerração da nuvem, uma voz amiga nos avise do perigo e nos subtraia a ele, pois não é?

— Que voz?

—...de um marido, por exemplo!

— Os maridos não avistam nunca a nuvem, meu amor; e, por mais incautos, ou mais cegos do que o resto do gênero humano, só depois de toda a gente falar do seu dissabor, chegam eles alguma vez a percebê-lo!...

— Alguma amiga, ao menos!

A condessa sorriu-se.

— As amigas na sociedade têm a missão exclusiva de nos tirarem o marido ou o amante. Nada mais! Ao avistar da nuvem, passa-se palavra entre todas, mas há sempre cautela de não avisar a vítima da tempestade que a ameaça! £ um romance de horas, ou de toda a vida; um capricho, ou um amor; quase sempre um capricho, felizmente! E bom ser virtuosa, Carminho; ao menos, para enraivecer o próximo!...

— Cruel condição!

— Não é bem assim, perdoe-me. Alegre contemplar a sociedade a exasperar-se de despeito, e tem graça até vê-la babar epigramas sobre o freio que é obrigada a roer!

Neste momento, Carlos Eduardo, aproximando-se das duas senhoras, pegou no buquê de Carminho, e conservou-o na mão enquanto ali esteve. Conversou-se em coisas triviais, em teatros, em flores, em livros, em bailes de máscaras; todavia, ele achou um pretexto para dizer a Carminho, num tom sentimental e sisudo, volvendo friamente a vista na direção da condessa:

— Os preceptores são sempre pérfidos; para que os inocentes saibam evitar o erro, revelam-lho!...

A noiva estremeceu.

— Ouviu tudo! — pensou ela.

Depois, Carlos Eduardo mudou de tom, e por algum tempo fez o maior dos milagres de um namorado: — teve espírito.

A condessa, com uma leve acentuação vingativa, disse-lhe em voz alta:

— Parece estar hoje feliz, Sr. Carlos de Lemos!

— Sou-o sempre aqui, senhora condessa!

— Hoje mais que nunca, talvez!

— Creio-o bem — replicou o mancebo com uma finura de olhar que revelava distintamente haver percebido a intenção. — Vossa excelência sabe, senhora condessa, que a felicidade é do número das coisas, que diminuem em não aumentando!...

Foi a primeira vez que Carminho ergueu a vista para Carlos Eduardo, dando-lhe aquele característico olhar de gratidão, com que uma senhora sabe recompensar a um homem de espírito a lucidez de réplica que corte a crise.

À saída, quando Gonçalo Dantas lançou o burnous sobre os ombros de sua mulher, um movimento casual fez que ela pedisse à condessa a graça de lhe segurar o buquê. Esta dama guardou-o um momento, e, ao entregá-lo de novo à sua amiga, disse-lhe a meia voz, com expressão de susto e de terror, indicando o ramo:

— A nuvem!

O marido, a esse tempo, conchegava ao pescoço as dobras do seu cachenês e despedia-se do conde (porque nesta casa havia um conde, que era nem mais nem menos do que o marido da condessa: eu ainda o não tinha dito: os marido esquecem-se sempre!) por esta simples frase:

— Agora, meu caro conde, até à volta!

— Como, até à volta?!

— Sim. Vou a Barcelos.

— Para ter demora?

— Dois a três meses.

— E muito natural que não vá só?

— Carmo está com desejo de passar uns dias na província, e é útil que se habitue à vida patriarcal do campo, onde eu tenho a intenção de passar de ora em diante os verões.

— Partem para a semana?

— Dentro em três dias. Escrevi já a meus irmãos, para nos esperarem.

— Muito boa jornada, Gonçalo Dantas.

— Obrigado, meu caro conde!

Até ao momento de entrar no quarto, a noiva mal pôde conter a inquietação em que a deixara a frase da condessa. Tocava apenas o buquê pelas pontas dos dedos como receando que ele a queimasse. Ao soltar as flores, e encontrar uma carta, a sua alma agitou-se num vago terror.

— A nuvem! — disse a si própria, recordando-se do que a condessa lhe havia dito, e estremecendo de vergonha. — Quem é então que me quer perder? Ele que me escreve, ou ela que me avisa? Os seus olhos de lance observaram o que eu não chegaria a ver. E ela a culpada de eu não atirar o meu buquê pela janela, por medo de que esta carta fosse encontrada. E incrível a tristeza que tudo isto me produz, e o horror que a condessa me inspira através de seus conselhos amigáveis. Sentia-me menos culpada e menos infeliz, enquanto ignorava tudo que ela hoje me contou. E talvez a sua boa estima por mim que lhe ditou as especiais considerações sobre o amor e a sociedade, com que me entreteve há pouco! Mas que empenho de me mostrar o mundo pela sua face medonha!? Pérfidos preceptores, me disse ele, e disse bem: para nos ensinarem a evitar o erro, principiam por nos dar a tentadora notícia do que isto é! Por que não tem a minha alma força para se resgatar de uma vez para sempre da ideia deste homem, que me atrai e me enleia? Se a felicidade não pode estar para mim senão na tranquilidade e na paz — por que não hei de quebrar eu própria a tentação, e dissipar a nuvem que me persegue?

E, pegando da carta, e encostando-a à luz, olhou-a apenas quando a viu arder.

No dia imediato, Carminho, indo visitar sua mãe, encontrou-a de cama. As duas filhas passaram o dia à cabeceira da doente, e quando Gonçalo ali apareceu à noite, pediu muito à sua mulher que não fizesse o sacrifício de o acompanhar a Barcelos, deixando sua mãe doente em Lisboa. A noiva, que não poderia deixar de consentir nisto, já essa noite ficou em casa da viscondessa, despedindo-se de seu marido, que partiu na manhã seguinte.

A doença da viscondessa prolongou-se por muitos dias, e, quase um mês depois, o doutor aconselhava o ar de mar, instando que partissem para uma casa, que tinham em Paço d’Arcos.

Durante todo esse tempo, Carminho nunca mais pensara, pelo menos não tivera desde então o ar de pensar na condessa, na carta, ou nele! Uma vida de reclusão conservava-a na impossibilidade de avistar a nuvem, como ela lhe chamava, ou o céu, como a sua alma lhe dizia! Amélia, pela sua parte, parecia feliz pela dignidade com que sua irmã terminava o seu mal encetado romance de noiva. Partiram para Paço d’Arcos, contentes, desocupadas e alegres. O doutor, que era na verdade um personagem jovial e de bons ditos, dissipou durante os primeiros dias a monotonia daquela nova existência, desacompanhada de sociedade e de distrações. Mas, nas horas em que ele ali faltava, a vida de Paço d’Arcos tornava-se para as duas meninas de um fastio, de um torpor, de uma atonia insofrível. Uma carta da condessa preveniu Carminho, por essa ocasião, de que, sendo o seu dia de anos num sábado imediato, não a dispensava por nenhuma forma de a ter nessa noite. A condessa rematava a carta por este post scriptum: “Para que nenhum receio a afaste, certifico-lhe que a nuvem não aparecerá essa noite.”

— Que devo fazer? — perguntou Carminho à sua irmã, mostrando-lhe a carta.

— Ir! — respondeu Amélia.

— Não achas inconveniente nisto?

— Nenhum. Teu marido foi o primeiro a recomendar-te que fosses ver a condessa de tempo a tempo.

— E... ele? 

— Este post scriptum assegura-te que não é convidado.

— Vem comigo, então!

— Oh! Deixar só a mamã, já vês que seria imperdoável. Demais, que tens tu a temer?! Fizeste o que a dignidade te aconselhava, e a condessa reconhece-o a ponto de não lhe haver esquecido que, para estares em sua casa, é preciso que ali não se ache esse homem!

— Sim. Não pode ser mais delicada, nem fazer-me sentir mais finamente que sabe quanto eu repeli a temeridade do seu hóspede.

— E depois, distrais-te, minha pobre irmã! E tu precisas, querida, dar horizonte à tua imaginação, entretendo-a. A tua alegria não me ilude, e eu bem tenho conhecido que há um fundo de tristeza por baixo desses sorrisos. Só o tempo e a sociedade podem fazer-te esquecer aquele primeiro capítulo da novela que eu te rasguei...

Descansa. Se alguma coisa me oprime é a ideia de que... Vais zombar de mim, decerto!

— Eu, zombar de ti! Dize tudo, meu anjo!

— E a ideia de que, quando mesmo eu o esqueça, é ele que me não esquecerá!

— Carmo! Carmo! Isso é ainda o amor! Isso é a vaidade dele! A louca e perigosa ilusão de quem afere pela sua, a alma de outrem! És tu que ainda te lembras, Carmo! És então tu que não te esquecerás! És tu que o amas!

— Oh! Poupa-me! Por que atribuis unicamente às vaidades do coração, o que não é mais do que resgatar de um conceito aviltante o amor desse homem, atribuindo-lhe a sinceridade? Em que é mais nobre e mais cândida a tua maneira de julgar, do que a minha ilusão, se ilusão é? Nem a tua idade, nem a tua alma te dão o direito de já não acreditar no amor. Deixa às presumidas, que o tempo e os desdéns oprimem, essa gala ridícula de apregoar os homens como incapazes de amar! Fica-te mal, minha irmã, a afetada frieza com que julgas os que não conheces. Não te disse nunca — e ainda to não digo! — que Carlos Eduardo me inspire confiança. Longe disso. Confessei-te eu própria que ele me produzia o efeito dum homem que estuda e planeia os mais leves atos da vida. Resta saber se isto é um mal! Tenho evitado constantemente encontrá-lo, vê-lo, falar dele sequer. A única carta que se atreveu a escrever-me, queimei-a sem a ler — já to jurei. Por que te assustas, pois, assim, condenando-me sem motivo?

— Vem! — disse-lhe Amélia, apertando-a ao peito. — Que eu te abrace, minha irmã, para me perdoares, sim? Sei o que tu vales, Carminho, mas — que queres, meu anjo? — há uma coisa de que eu tenho mais medo ainda do que de um homem...

— De quê?

De toda a gente.

— Queres dizer?

— Do conceito público, que condena quase sempre antes da culpa; tanta esperança tem de que a vítima venha a errar!...

— O mundo não condena ao acaso, porque o mundo não inventa. Está nisto a minha justificação; até esta hora, seria preciso caluniar-me para me reconhecer culpada!

Pobre Carminho; ela não sonhava o que havia de profético nos receios de sua irmã! Quando estava a vestir-se para a noite, os seus olhos umedeceram-se de lágrimas ao avistarem sobre uma mesa a carta da condessa. O previdente post scriptum tranquilizava a noiva, mas acordava-lhe ainda a adormecida ideia do perigo. — Ele não vai! Não vai, felizmente. Ainda bem que não o hei de ver! — dizia ela à sua alma, enquanto a sua alma lhe dizia: — Vês! A noite vai ser triste. Embora os cristais refuljam, as luzes brilhem, as flores embriaguem, nem as flores, nem os cristais, nem as luzes poderão dar-te alegria a ti! Vai, vai, e recorda-te. A música, ao menos, conversará contigo; e por mais alegre que seja a valsa, sentir-lhe-ás lágrimas e saudades! Em redor de ti, os felizes da vida dançarão contentes. Uma menina de 15 anos, como tu, passará diante de teus olhos, numa redowa com o seu namorado. Depois, na contradança, hás de ver outra da tua idade também, sorrindo a seu marido, um galante rapaz de 25 anos, que de contente morda o bigode a olhá-la. Mas nem tu já podes ter namorado, nem teu marido tem 25 anos. Um baile é sempre um baile: dançar e amar. Mas, quem não dança? Mas, quem não ama? Enfim! A melancolia tem as suas doçuras, e a saudade é a fortuna dos infelizes. Vai, para te recordares!...

Enquanto, se lhe colocava uma rosa no cabelo, viu um livro sobre a consola, e abriu-o ao acaso. Era o volume de versos de Carlos Eduardo; um livro dos 20 anos que dizia amor da primeira página à última. Ela leu:

.....................ao baile esta noite.
Tu irás, mas já sem mim!
E se entre as danças ruidosas
As saudades dolorosas
Minha imagem te lembrarem,
Chora, pensa, e dize assim:
Nunca mais! Quebrei o encanto
Do que neste mundo havia
De maior e de mais santo!
Desfolhei de flor em flor
A coroa que ele formara
Das galas do nosso amor.
Ai adeus! Para sempre adeus.
Amor, promessas, ciúmes!
Que ainda o rubro clarão
Desse frenético afeto
Me abrasa o pensar inquieto
De remorsos e queixumes!
Vejo-o nas sombras longínquas
De um cismar vago e incerto,
E quanto mais longe o julgo
Mais dele me sinto perto...
Ouço-o nas águas dormentes
Ainda a falar-me de amor,
E nas vagas doudejantes
Entregue a raiva e à dor!
Depois ao dardo da lua,
Naquelas noites formosas,
Noites de amor e de rosas,
Se fito a vista no espaço
Cuido em luminoso traço
Soletrar o nome dele...
Depois, se a tormenta supre
E algum raio longe cai,
Na chama cuido que vai
O resto do seu amor!

— Do seu amor! — repetiu indistintamente a noiva, fechando o livro. — O resto do seu amor!

E uma lágrima de dor e de melancolia, das que só brotam nos olhos das angustiadas criaturas, que sobem passo a passo a montanha do arrependimento e da expiação, lhe umedeceu o olhar, anuviando-lho.

— Vai! diverte-te! — disse a irmã, abraçando-a, à despedida.

— Abafe-se bem, minha menina. A noite está tão úmida, meu Deus! — exclamou a velha aia. — Quer vossa excelência o seu xale mais forte?

— Não, não! Adeus, mamã! Até logo! Minha querida Amélia, adeus! Ainda hás de estar acordada quando eu voltar!...

Minutos depois a carruagem rodava surdamente por aquela longa estrada de Belém. Um nevoeiro espesso erguia-se em colunas transparentes à roda dos candeeiros de gás; ouvia-se o gemer das ondas, exasperado e lamentoso; a praia estava deserta; os navios distinguiam-se ao longe pelas lanternas dos mastros, como estrelas num céu escuro!

Quando a noiva entrou no baile, estava pálida como as rendas brancas que lhe ondeavam sobre os ombros, e o seu primeiro olhar revelava tanta ansiedade, tanta inquietação, tanto terror talvez, que a condessa disse-lhe no primeiro beijo:

— Não veio, sossega!...

Ela respirou livremente então, como quem se salva de um perigo de morte. O baile pareceu-lhe triste, todavia; as luzes pareceram-lhe pálidas, as flores sem perfume, a música sem harmonias. As suas amigas perguntaram-lhe se tinha boas notícias de seu marido. Todos os dias ela tinha carta e todos os dias escrevera. Mas nesse dia justamente, havia-lhe esquecido escrever; tanta perturbação lhe causara o convite da condessa. Um doloroso sentimento a oprimia ao pensar nisso. Os lábios tremeram-lhe, e balbuciaram apenas não sei que ininteligível frase. Ela não estava ainda bastante senhora do mundo e da vida, para que a sua astúcia de dama soubesse valer-se dos recursos do espírito, nem possuía o indispensável arsenal de réplicas para as conversações de sociedade, em que um sangue-frio, que coisa alguma perturba, faz que a mentira saia tão graciosa de uma boca bonita, que se é obrigado a aceitá-la como verdade. Pela primeira vez na sua vida se sentiu mal no mundos e teve horror às grandes coquetes, que pelo poder da sua insensibilidade, ainda mais que pelo dos seus encantos, brincam com as alegrias do céu e com as torturas infernais. Humilde, casta, tímida, passou de olhos baixos numa contradança, como se atravessasse as cerimônias de um culto e, desfolhando distraidamente o seu buquê, juncou o chão de flores.

Em redor dela, alegres, ruidosas, dançavam as outras, sorrindo e namorando com o olhar em fogo e o penteado em desordem. Dir-se-iam os anjos do mal, criando e destruindo logo, iluminando a vida pelo amor, queimando-a pelo ciúme, extinguindo-a pela indiferença! E eram belas todas; tentadoras, provocantes. Tinham a eloquência nos lábios, tinham a melodia na voz, tinham a felicidade no olhar — aquele olhar da sedução, da voluptuosidade, da festa; aquele olhar dos bailes, da vaidade, da promessa, do encantamento! aquele olhar da noite!...

Mil frases começadas, interrompidas, quebradas, mas mil frases de amor! O incenso da adoração espalhava-se no ar! Todas elas pareciam amar e ser amadas! Era uma embriaguez delirante, que reduzia os sentidos a um único, a felicidade!...

Só ela pensava, só ela sofria, só ela não tinha um sorriso para dar, nem via um olhar que lho pedisse! Também, diga-se tudo, apenas ela é que tinha medo das palavras cortesãs, e dos apertos de mão, medo da alegria, medo até da vaidade, entre todas aquelas suaves criaturas, que faziam a misericórdia do amor!

No melhor do baile, quando todos os corações se incendiavam, todos olhos diziam desejos, e os leques se agitavam ruidosamente para não deixarem ouvir os segredos ditos por detrás do buquê, Carminho abandonou as salas, e partiu inquieta, aterrada, trêmula, sem se despedir sequer da condessa.

— O meu trem! — disse em voz convulsa aos criados. — Façam chegar o meu trem!

Os criados estavam sentados nos bancos, a tomar gelados e a jogar a bisca. Ergueram os olhos, viram-na isolada, pálida, com o olhar indeciso e receoso, e tomaram-na por uma senhora que se retirara do baile por intimação especial da dona da casa. A bisca estava quase no fim, e eles, sem se alterarem, foram continuando o jogo. Carminho desceu ainda os últimos degraus, e a uns lacaios que estavam à porta pediu em tom suplicante que lhe mandassem chegar o seu trem; mas o largo estava cheio de carruagens, e foi preciso muito tempo para encontrar o cocheiro. Assim que a carruagem partiu, Carminho escutou uma voz que lhe falava, e sentiu as suas mãos entre outras mãos; os seus olhos procuraram na sombra, e ela viu Carlos Eduardo em frente de si.

— Perdão! Oh! perdão! — disse ele. — A extremidade do amor tem delírios fatais, e sei o que há de temeridade no que me atrevi a fazer! Mas, se era o único meio de a aproximar e de poder falar-lhe, não mereço eu que me perdoe de o haver tentado?

Carminho sentia-se sufocada de susto. Ele continuou:

Confie-se, é lealdade de um homem de bem. Adoro-a, e por isso mesmo respeito-a. Nada tem a temer pela minha ousadia. Queria apenas vê-Ia, e estou vendo-a: queria falar-lhe apenas, e tenho-a ao pé de mim. Nada mais! Que esta noite fique na lembrança de ambos nós, para mim como um instante do céu, para si como memória ao menos do amor que acendeu na minha alma. Ninguém o saberá além de nós, Carminho; ninguém na terra. Vê? — disse ele apontando através das vidraças da carruagem. — O céu está negro; Deus neste momento não olha para a terra. Oh! nem Deus o saberá?...

— É preciso sair, senhor!

— Já? — respondeu ele no tom mais meigo e humilde de um namorado. — Oh! ainda não! Há quanto tempo procuro eu esta hora, para que assim a deixe nos primeiros instantes! Temos muito tempo ainda; a noite vai em meio apenas, o baile principiava agora, na casa de vossa excelência dormem todos; — que pensa? que espera? que receia? A minha estrela não me concede, talvez, na vida, mais do que esta hora de felicidade; tem alma de querer abreviar-me estes momentos celestes? Sim! E a sua mão que sinto e aperto entre as minhas! Esta mão alva e linda, que devia ter o condão de mandar a sorte! E hei de separar-me de si, Carmo; estes cavalos têm uma velocidade maldita, e daqui a pouco devem chegar ao seu destino: depois, a noite que termina para a terra continua na minha alma; eu não sei, querida, qual é maior, se o meu amor, se o meu infortúnio; sei apenas que não me cabem ambos neste coração, que não é meu já!...

— Oh! Cale-se! — balbuciou Carmo. — Para que insiste em perder-me, que tanto vale insistir nesse amor? Pode esquecer porventura quanto a minha posição é delicada, e que até o escutá-lo é opróbrio da minha alma? O que pôde autorizá-lo a uma ousadia, como a que neste momento me enche de sobressalto da sua parte? Não lhe fugi eu sempre, não tenho acaso evitado todas as ocasiões de o avistar no mundo? Que direitos encontra num amor tão condenável como o seu, a sacrificar-me perante a minha consciência e talvez, quem sabe, perante a minha família — mais tarde perante a sociedade! Até que ponto me cumpre ser delicada para consigo, visto que tão mal interpreta a minha timidez.

— No momento em que da primeira vez a vi, adivinhou-me o coração que ia adorá-la. Dir-se-ia que a primeira vista que os seus olhos me lançaram era um filtro para me encantar. Amei-a desde então, e senti nesse instante um vago terror pelo futuro. A desgraça preside sempre ao meu destino: deve estar maldita esta existência que me pesa. Se soubesse, Carmo, com que prudência evitei sempre que o mais leve olhar, o mais leve gesto, o mais simples tom de voz denunciassem ao mundo o meu amor por si? Se pensasse o que seria preciso de coragem e de arte para ter a força até de desdenhar de si, eu, que me prostro e a adoro! Não há futuro para mim, senão o que se lê nesses olhos apaixonadamente negros, na tépida palidez do seu rosto, nesse oval melancólico e belo, nos seus cabelos abundantes e soberbos, no sorriso como que doente e terno, no ardor inquieto e nervoso que respira em si!

— Por Deus lhe peço, parta, deixe-me, esqueça-me! Nada houve, nada há, nada pode haver entre nós, e contudo a vergonha está já em tudo isto. Parta sem olhar para trás, sem se lembrar mais desta noite em que Deus parece ter desamparado a terra da sua misericórdia, abandonando-me a um capricho fatal. Meu marido vai voltar dentro em pouco e é preciso que eu possa aparecer-lhe ainda digna dele. Esperar, seria uma loucura: esperar o quê? Chore-me, ou esqueça-me, mas suponha-me morta!...

— E para que havia eu de viver então? A glória não me atrai, nem me fascina. Que poderia eu esperar dessa pálida consoladora das grandes almas, que o mundo não entende? O meu amor espera, Carmo; se não esperasse, morria eu com ele. O gênio não é apenas a inspiração, o amor não é apenas a chama: o amor e o gênio são também a paciência: é preciso passar pela cruz para ser Deus!

— Chegamos a Paço d’Arcos! — disse Carmo. — Como há de ser agora, senhor?

— A carruagem vai sobre areia, o cocheiro não me sentirá saltar! Antes de partir, porém, diga que me perdoa!

— Digo-lhe só que não procure ver-me mais!

— E nem uma palavra de amor?

— Insiste em esquecer que não sou livre? Oh! prometa que não fará a mais leve tentativa de me encontrar de novo!?

— Não. Não prometo, porque a amo. Hei de vê-la, Carmo! Há de encontrar-me sempre no seu caminho, porque este amor está no seu destino, e porque, é Deus que mo diz, sou amado por si!

— Oh!

De um salto rápido, Carlos Eduardo atirou-se à estrada. A carruagem continuou a rodar surdamente, e parou instantes depois. Ninguém dormia em casa. Carmo encontrou as criadas de pé, e Amélia à cabeceira de sua mãe: a viscondessa, havendo-lhe repetido o ataque, achava-se perigosamente enferma. Esperava-se a cada instante o médico, a quem enviara recado para Lisboa. O quarto estava às escuras quase. A chama de uma lâmpada parecia expirar por momentos no seu globo de cristal. Pelo tapete de que estava coberto, o sobrado absorvia o menor ruído. Quando se escutava a doente, via-se que uma respiração de abatimento e de febre a agitava e a oprimia. O olhar vago tinha um brilho sombrio. Os lábios estavam roxos. A expressão da sua fisionomia decomposta não deixava esperança. Carmo chegava do baile, e encontrava a morte.

O médico chegou pouco depois. Era aquele mesmo amigo de Gonçalo, que neste conto apareceu já. Os esforços sublimes que empregara para vir depressa, nada valeram todavia: a viscondessa expirava no momento de ele aparecer.

— Perdi minha mãe! — exclamou Amélia, entre soluços, abraçando-se-lhe.

— Tudo me abandona! — disse aflitivamente a noiva, escondendo a fronte no seio de sua irmã. — No espaço de alguns meses, tenho visto caírem uma por uma as minhas superstições, e as minhas alegrias! Uma única esperança, me restava, e já essa mesma se quebrou! À medida que as desilusões e as amarguras iam experimentando a minha coragem, tinha eu a alegria ao menos de dizer que a alma de nossa santa mãe seria o meu refúgio contra este mundo. Agora, mais do que nunca, sinto medo da vida!

— Tu não podes ter a culpa, minha pobre irmã, nem das circunstâncias nem dos acontecimentos: fique pura a tua consciência no centro da desventura e dos reveses!

— A minha consciência... Mas é ela que me assusta, Amélia! Se o espelho reproduzisse os pensamentos, que são as imagens da alma, como reproduz a imagem dos corpos, bastaria um espelho para me perder!

O médico, tomando Carmo de parte, disse-lhe ao ouvido:

— A morte não separa, torna a unir o que estava separado. Há alguma coisa mais fatal ainda do que perder a mãe: é envergonhar-lhe a memória!

— Que significa?

— É isso que devo perguntar-lhe: o que significa encontrar eu, quando para aqui me dirigia, Carlos Eduardo perto desta casa a semelhante hora da noite.

Carminho demorou vagamente a vista na do médico, não se atrevendo sequer a desviá-la. Um indefinido terror se apoderou da sua alma, e sentiu pela primeira vez o frio da vergonha gelar-lhe os lábios.

— É preciso escrever amanhã a Gonçalo — continuou o médico — e chamá-lo a esta casa. Eu cheguei tarde para a vida da mãe: não chegue ele tarde para a honra da filha!

— Doutor! — exclamou Carmo, cobrindo a figura do médico com um olhar glacial. — Que se atreve a dizer-me?

— O que a sociedade me tem dito a mim, o que uma carta de Gonçalo me perguntou hoje a mim, e o que eu vi esta noite, eu próprio!

Quando Amélia escutou de sua irmã a confissão de toda a história dessa noite, abraçou-se a ela chorando e consolou-a por esta simples frase:

— A mulher mais honesta não pode dizer a maneira por que se há de portar numa circunstância imprevista. Tu tiveste, todavia, a coragem de uma grande alma! Se a sociedade principia a acusar-te, se alguma coisa de tudo isto chegou já aos ouvidos de Gonçalo, se o doutor viu esse homem às três horas da noite perto da nossa casa, se a tua dignidade sofre, se a alma de nossa mãe vai sofrer...

— Então?

— Então salvarei eu tudo! 

— Tu?

— Eu só!

A datar dessa noite, os acontecimentos precipitaram-se. Gonçalo Dantas regressou triste, desconfiado, e sombrio. Uma nuvem negra pairou sobre o horizonte desta família. Nas conversações mais simples e triviais, o marido encontrava a ocasião de lançar como que ao acaso frases irreparáveis: destas coisas que a gente, na vida, está muito tempo antes de se atrever a dizer, mas que, uma vez ditas, se vão repetindo a cada hora.

Estava-se nos dias pálidos de outubro; a temperatura neste mês valetudinário é cheia de variações caprichosas. São os contrastes da primavera, menos a esperança! Os últimos raios do verão e os frios precursores do inverno encontram-se e confundem-se; o crepúsculo é cheio de tormentas, e a aurora de nevoeiros. As harmonias serenas e puras das noites de verão já não veem expirar no ouvido como o mistério da felicidade. Se o outono entristece a alma, é à noite principalmente, quando se interroga através da vidraça, o céu pesado e chuvoso, e o vemos alargar-se, a perder de vista, até as paragens solitárias, em que o vento baixa com a noite!

A tristeza que reinou entre os noivos explicava-se pela saudade que a morte da viscondessa viera trazer-lhes: explicava-se assim para os estranhos; para eles próprios, não!

— Com que. — disse o doutor a Gonçalo, de uma ocasião em que estavam sós no terraço a olhar para o mar: — recebeste uma carta anônima?

— Sim! — respondeu o marido num tom sombrio.

— Sabes que importância deve dar-se a esses artifícios da calúnia?

— Sei que sofro.

— Para que casaste? 

— Que vens a dizer nisso? E então uma condição infalível, que o casamento traga o infortúnio? Tira do mundo as mulheres e as flores — que te resta? Ninguém espera encontrar no seu próximo virtudes de ordem muito elevada; a humanidade não as comporta; mas há o direito de não esperar vilanias de caráter, que destroem toda a estima e todo o sentimento. Se é acaso verdade que um dos meus amigos, Carlos Eduardo...

— Não é verdade, não. Pensa noutra coisa! O que é certo apenas é que o horizonte conjugal tem destes nevoeiros, de que eu por muitas vezes te preveni!

— Grande razão! Porque tu leste numa notícia diversa a história de algum divórcio, deve o resto da humanidade fugir das mulheres! Quem pode adivinhar-lhes a índole, ou conhecer-lha pelo trato do mundo? Os metais preciosos experimentam-se ao tocá-los, o coração delas também!

— E que resolves, em referência à tua?

— Observá-la. Se não é como eu a suponho, um anjo cai de bem alto, mas cai para sempre...

E ele:

— Oh! — replicou Gonçalo com um sorriso sinistro. — Ele! Como tu lês sempre os jornais, os jornais to dirão! E preciso que aprendam em Lisboa como se vingam os da província! Um marido enganado, que se zanga, é um ente brutal: o que não se zanga é um tolo; aqui está o que eles por aí dizem. Que farias?

— Eu sei cá!

— Não é fácil de antecipar, não. Nesta cena da comédia humana, não é o ator quem é mau, é o papel! Oh! Como eu sofro!...

Todas as manhãs, Carminho e Amélia iam rezar ao pé do túmulo de sua mãe. Ao terceiro dia, quando a noiva foi a ajoelhar, viu sobre a pedra um ramo de saudades. Desde então encontrou sempre flores sobre o túmulo, sem avistar nunca a oculta mão que ia juntar a sua oferenda à dela. Uma vez, por irem mais cedo que de costume, ou por ele se ter esquecido indiscretamente, perdido nos seus sonhos, viram Carlos Eduardo encostado às grades do mausoléu. As duas senhoras, por um movimento instintivo, pareceram querer partir, quando, ao voltarem-se, avistaram em distância Gonçalo Dantas e o médico.

Um sentimento de perplexidade e de terror pareceu retê-las um momento; mas o braço de Amélia teve força de conduzir sua irmã até o jazigo. A noiva, assombrada e lívida, caiu de joelhos, encostada ao túmulo. Amélia teve apenas tempo de dizer debilmente a Carlos, cuja vista acabava de descobrir os dois imprevistos personagens:

— Jure-me pela alma de quem nos ouve, senhor, que aceita a única maneira de salvar esta mártir!

Ele pareceu interrogá-la num olhar.

— Sou sua! — acrescentou ela.

O mancebo, que num relâmpago, sentiu o que havia de sublime nesta resolução suprema, umedeceu de lágrimas a mão que beijou.

Um mês depois, Carlos Eduardo e Amélia, cujo previsto casamento o mundo explicava pela morte da viscondessa, como havendo-se oposto sempre esta dama à misteriosa corte do mancebo para sua filha, partiam para Itália, na intenção de irem depois residir em Paris. O doutor, nesse dia, deu um prolongado abraço no seu amigo Gonçalo, e disse-lhe com a mais solene alegria:

— Pois agora é que to confesso! Quando te declaraste em perigo, pelas insinuações da maldita carta anônima que recebeste em Barcelos, e me induziste à indignidade de irmos espreitar tua mulher ao cemitério — julguei-te um marido em bancarrota!...

— Reconhece-a um anjo, meu petulante, e pede perdão à tua consciência!

— Ele era poeta, e eu tenho medo deles como de apanhar sol! Gente perigosa na intimidade! Cumpre a um marido evitá-los com prudência. São como as vistas de teatro — devem ver-se de longe! Eu tinha-o encontrado, uma noite, rodando a tua casa às três horas da madrugada; a tua casa, percebes? E depois, Matusalém, a criatura humana — já hás de ter lido isto! — é extremamente frágil!...

— A criatura humana é pérfida ou estúpida, é o que ela é. Um homem segue duas irmãs, de que uma só é solteira: por que se lembra o mundo, de preferência, que seja à casada que ele se dirige?!

— Tens razão! Dá cá outro abraço!...

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