domingo, 8 de outubro de 2017

Pedrinho (Conto), de Júlio César Machado


Pedrinho

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Quando a senhora morgada da Dos Negros deu a notícia de estar resolvida a vir habitar na corte, o cura da paróquia, costumado numa doce convivência de anos à sua conversação e ao seu chá, foi um homem que se sentiu cair das nuvens, e que ficou fazendo uma ideia da fatalidade!

Era-lhe tão fagueira a intimidade que havia cultivado naquela família, no centro de uma alegria frouxamente evangélica, que o deixava desafogar o ânimo a murmurar dos vizinhos: achava tão jucunda a torrada cotidiana os especiones da casa pareciam-lhe regulados por tão acertada receita, e seduzia-se a tal ponto pelos jantares dos dias de festa, em que por muitas vezes, antes de ver o fumo à sopa, já a fidalga lhe dava para o bolsinho o rebuçado devido ao sermão que pregara na capela, que, o pobre homem, ao escutar a nova partida, sentiu-se mais infeliz que um cego que perdesse pau e cão!...

— O meu Pedrinho anda triste, padre Venâncio, e é de ruim presságio o descontentamento naquelas cidades! Deus sabe o vai custar-me deixar a solidão da aldeia: criei-me com ela; e o ruído da sociedade, que me assustou quando eu era moça, tem de inquietar-me na velhice! Todavia, a felicidade de meu filho é hoje tudo para mim, e eu espero ainda que aquela precoce melancolia se dissipe nos espetáculos do mundo. O coração das crianças tem o seu movimento regulado como o de um relógio, e para, quando a mão amiga de uma mãe se esquece de lhe dar corda. Que eu não me acuse nunca, meu padre, de não haver evitado a tempo que este menino, cujo caráter tristonho me assusta hoje, veja solitário, um dia, caírem-lhe as folhas da existência antes da chegada do seu outono!

Valha-nos Deus! — replicava o cura, preparando um conceito. — O menino, senhora morgada, sempre me pareceu dotado de caráter circunspecto, próprio a brilhar na idade da razão. Pelo que olha a ser débil e franzininho, bem vemos que está agora a crescer, e que o ensino melindroso que tem tido lhe não permite encorporar como esses rapagões do campo, que acordam de pequenos com a enxada às costas!

— Não me dê razões dessas, cura! Há verdadeira doença de espírito naquela alvéola que ali vê!

— Frutas verdes que come! — respondia o padre no tom catedrático de quem se despega de uma dificuldade metafísica.

— Frutas verdes que como e muitos sóis que apanha!

A morgada fazia um derradeiro esforço e aspirava uma vez mais a ser compreendida do padre que, mais estúpido que uma ameixa, se obstinava a não ter sequer instintos!

— Meu rico, diz-se nas comédias e nas novelas que nós, as mulheres, pobres criaturas a quem o mundo atribui todos os defeitos e pequices do caráter humano, somos apreensivas até loucura, visionárias até o ridículo. É possível. As namoradas às esposas, deve isso suceder: creio-o bem. Às mães não acontece assim, e o coração adivinha-nos. Pedrinho é o filho do meu terceiro ano de núpcias, e meu marido já não tinha amor. Uma existência que a tristeza dos pais predestinou, e o pranto da viuvez batizou mais tarde! Tem 15 anos, e sente-se infeliz. Não é da sua idade o pálido sorriso que lhe expira nos lábios. Na sua fisionomia, crestada pelo sol do campo, parece ler-se o vigor e a força: a debilidade da sua voz desmente-a. Têm talvez os extremos do meu amor, quem sabe, concorrido para que um dia o seu espírito se contriste ainda mais da vida! Mas, se sempre temi que a austeridade do estudo aniquilasse aquela existência melindrosa e débil!... A sua alma, todavia, parece desprender-se às vezes do invólucro carnal, e voar liberta, para os mundos superiores em que os grandes espíritos se extasiam, mas onde vão devorar-se as almas tímidas, que, como uma flor impelida pelo vento, têm de sucumbir ao sopro inflamado das em que se formam tempestades.

— Senhora morgada! senhora morgada! — ponderava o cura, que não entendera — tenhamos temor a Deus!

— Temor a Deus, sim, padre! E que posso eu mais do que esperar dele que a sua piedade infinita alumie a minha alma numa inspiração que salve a vida do meu Pedrinho!

O cura encolhia os ombros, amofinado por não poder comover-se. Um pouco de espírito torna os corações bons: espírito demais, creio que os perde: mas ele,, coitado, tinha-o de menos! e enquanto ao coração... é melhor não falarmos nisso!

Formou-se um silêncio de alguns minutos, em que a morgada parecia concentrar-se numa ideia fixa e o seu olhar tomava a expressão desanimada de uma mãe que pressente a morte ao filho. O cura torcia o guardanapo, rolava uma bolinha de pão entre os dedos, e bocejava a intervalos breves. As pulsações de um relógio de parede quebravam apenas aquela mudez; e os latidos do cão da quinta, rolando pelo espaço, vinham perder-se ali tristemente...

— O senhor desembargador, se bem me recordo, morreu antes do nascimento deste menino? — perguntou enfim o padre, para dizer alguma coisa.

— Na véspera do seu nascimento! — respondeu a mãe. — Olhe, padre, fale-me outra coisa. Nunca se deve andar por cima de flores secas, para nos livrarmos de pisar memórias...

O cura, que estava à espera de uma frase que lhe parecesse própria a ficar sem réplica, ergueu-se e procurou o chapéu, com os ares molestos de quem recolhe o espírito.

— Todos temos a nossa cruz! — disse, ao retirar-se. — Peço ao Divino que lhe abrande as suas mágoas, e lhe resolva tudo para bem!

— Deus há de ouvir-me, padre. É por um inocente que o imploro.

A criada, que fora alumiar ao cura, principiou a trancar as portas, como era costume depois da retirada desta visita de cada noite. A morgada conservou-se imóvel, fixando a vista vagamente num e noutro objeto. A noite ia agreste: o vento açoitava as vidraças, e gemia por entre a rama das árvores da quinta. A morgada tirou os pés de dentro do cesto em que uma botija de água quente lhos aquecia, pegou num castiçal, e dirigindo-se ao quarto de seu filho entreabriu brandamente a porta.

O pequeno estava acordado, e olhou para a mãe sorrindo. Era uma fisionomia angélica em que reluzia o gênio, e que deixava adivinhar que alguma suprema ideia, raio divino da sua alma, não podia sair do corpo opaco que a sufocava, senão quebrando-se!... Tinha olhos negros e magníficos, uns lânguidos e aveludados olhos de mulher: a fronte alta, a expressão inquieta, e uma vaga melancolia no sorriso, que raramente suavizava o arco inflexível dos lábios pálidos.

Não havia ainda amado, mas sonhado. Desenhara mil vezes na fantasia os traços poéticos de uma visão encantada, mas debalde a imaginação dos 15 anos tentara dar cor e vulto àquela sombra adorada no êxtase de um sonho... Era o vago anelo de um coração de criança, que já receava não poder esperar da vida a felicidade que se atrevesse pedir-lhe!

— Ainda não pegaste no sono, filho da minha alma? — perguntou-lhe a mãe, abraçando-se a ele entre carícias.

— Já, e sonhei! — respondeu a criança num tom de abatimento. — Sonhei e vi-a, a ela. Vinha tão bonita, hoje!

— Quem, meu filho?

— A sombra! A sombra com quem sonho sempre, que vem falar comigo às noites enquanto durmo, tão discreta e medrosa que me foge ao despertar do sono, fazendo-me chorar o momento em que acordei!

A morgada misturou de lágrimas os beijos com que cobria as faces de Pedrinho.

— Dorme, dorme, filho! Tenho medo desses sonhos. Esses sonhos fatais! Vê se sossegas, para te ergueres,cedo e partirmos!

— Sempre vamos, mamã?

— Ao romper do dia havemos de ir na estrada. Por que não foi ontem já? Não terá a vida das cidades o condão de desvanecer na tua alma a vaga melancolia que a existência da aldeia faz nascer?

A partida teve lugar nessa noite, mas a esperança tornou-se inútil. Pedrinho pareceu cada vez mais triste e mais enleado no labirinto dos seus sonhos. Era uma febril e doente imaginação de criança! Dir-se-ia que não era um anelo, um desejo vago, uma indefinida esperança o que lhe devorava o espírito; mas uma recordação, uma saudade, uma reminiscência... Ele vira já essa mulher, que nunca encontrara: falara já com essa mulher, a quem nunca vira: vivera com essa mulher, a quem jamais falara!... Mas, onde e quando?

Um tio que tivera, frade de São Domingos, velho desconfiado da vida e da ciência, contara-lhe uma vez algumas passagens tristes de uma triste história. Eram os amores de duas crianças, que se haviam reconhecido numa vida, depois de se haverem amado noutra. Pedrinho sonhou com isto três noites, e lembrou-se às vezes da transmigração das almas.

— Haverei eu já vivido? — perguntava ele a si próprio, nas longas noites de insônia em que esse amor vago e sem esperança, concebido por uma mulher impalpável, vinha apoderar-se dele ao chegar do sono, para apenas lhe fugir ao acordar. A semelhança de uma figura, como que há muito tempo esquecida, aparecia-lhe então duma forma distinta; mas, como por encanto, a visão apagava-se-lhe entre os dedos, no momento de querer tocar-lhe.

E era criatura bela, que parecia não ser da terra! Dir-se-ia a sua pele resguardava a chama sedutora e esplêndida do sol quando está nascendo: dentre os seus cabelos, saíam raios luminosos, e os seus olhos, que deviam ser o espelho da sua alma, pareciam dourar o mundo num relâmpago.

— Anjo, anjo ou sombra! — exclamava Pedrinho, despertando em êxtase. Por que me foges?

Uma vez, a senhora morgada levou Pedrinho ao teatro. É uma sensação que se não repete na vida, o êxtase supremo de quem passa pela primeira vez a noite num teatro! Era um conto do oriente a peça dessa-noite, e a fantasia de não sei que dramaturgo arruinara-se em mil prodigalidades de imaginação. Pedrinho sentia-se outro, e a sua alma passava por aquela fase amena e grata, que os franceses chamam rêverie, e que não é mais do que sonhar acordado!

Uma atriz sobretudo, prendia-lhe a vista. Era incumbida de um papel de fada, e parecia querer alargar até ele o seu condão.

— Quem é — perguntou ele a alguém — esta deliciosa criatura? Vai ela, a prestigiosa fada, empalidecer ao acabar da noite, e expirar aos primeiros clarões do sol?

— É Margarida, menino: uma rapariga perdida, que deixou pai e mãe pelo teatro!
— Que gentil talento! 

E Pedrinho, ao sair do teatro, já tinha n’alma um desejo: ver Margarida outra vez! A sua vida pareceu acordar ao seu primeiro desgosto, quando na noite seguinte encontrou fechadas as portas do teatro.

— Ó Margarida!... Margarida! Por que pensei eu assim em ti, rainha de uma noite? Que há em ti de maior e mais poético do que nas outras mulheres, para que a tua imagem ficasse gravada na minha alma e o teu nome ressoe ainda no meu ouvido! Poderás ao mundo parecer má ou vulgar, mas a minha alma adivinha-te, a minha alma que não se ilude! e bem sinto que não és semelhante às outras, tu que nasceste de um sopro de poesia!...

Há duas récitas que não vejo o pequeno! — disse dali a tempo Cândida a Margarida, durante um intervalo em que espreitavam pelo óculo do pano de boca. — Morreria acaso, por haver aturado a mágica oito noites, acompanhado pelo criado?

Cândida e Margarida eram duas atrizes que se estimavam muito, mas que disputavam sempre uma à outra os melhores papéis e os melhores amantes. Com ambas as coisas, porém,, era Cândida infeliz. Uma natureza triste e inquieta, um temperamento desconfiado e nervoso originavam nesta pobre rapariga a amargura perpétua que suscitam os reveses da fortuna e os pesares do coração.

Enquanto a Margarida, era uma criatura bem alheia ao que os 15 anos do meu herói a figuravam. Tinha uma voz falsa, que disfarçava no calor da dicção, tirava às vezes partido de um gesto, de uma inflexão, de um olhar, mas exagerava sempre o olhar, a inflexão, o gesto: ardente, sincera, excêntrica, havia momentos todavia em que o seu entusiasmo a salvava, e em que ela tinha lágrimas na voz, lágrimas nos olhos, lágrimas no coração.

— Disseram-me que o seu nome é Pedro; Pedrinho, lhe chamam; acha-o bonito? — perguntou Margarida a Cândida.

— Se tem um defeito é sê-lo demais.

— Rico?

A outra encolheu os ombros.

— Se tem outro defeito prosseguiu Margarida, rindo — é talvez sê-lo de menos!

— Querê-lo? — perguntou Cândida.

— Para qual de nós olha?

— Para ambas.

— Não!

— Gosta tu dele?

— Mais que de mim.

— E se eu gostar também?

É mais uma coisa em que me contrarias.

Bem! retrucou Margarida, depois de cismar um instante. — Decidirei amanhã.

No ensaio?

Na récita, à noite.

E se não o quiseres?

— Dou-to.

— Guarda-o já! — redarguiu Cândida. — Nem eu o quereria agora!

— Espera! — disse Margarida, encontrando com a vista um copo de dados, que tinha de figurar na peça. — Tiremos à sorte qual de nós o há de ter! Impar por mim. Atira!

A outra chocalhou o copo: os dados marcaram 11.

— Ímpar, ganhei! O pequeno é meu! — exclamou Margarida entre gargalhadas.

— Pobre criança! — redarguiu Cândida. — Sabes que é horrível havermo-lo jogado aos dados?

Passaram dias. Depois de mil diligências tímidas para chegar até Margarida, Pedrinho conseguiu ser-lhe apresentado numa ceia. A atriz nesse dia fazia anos, o que lhe costumava suceder a miúdo, tendo de janeiro a dezembro pouco menos aniversários natalícios do que o ano tem de meses!

Margarida recebeu Pedrinho com um olhar e um sorriso; sorriso de esperança, e um olhar de promessa: estendeu-lhe uma bonita mão, que ele beijou, e ofereceu-lhe ao seu lado um lugar, que uma vista dos seus olhos parecera implorar-lhe.

Dali a um instante todavia, oh! Deus piedoso! ele olhou petrificado e atônito a sua heroína adorada, sem já lhe ouvir a voz com que o tinha encantado, nem lhe avistar o ardente olhar que o seduzira! Era uma voz áspera, era um olhar embaciado! E nem os mais leves traços daquela fisionomia cativadora lhe apareciam senão desfigurados, extintos, perdidos...

Nem brilho na pele, nem luz nos olhos, nem cor nos lábios. Que fizera dos gestos rasgados e sublimes com que acompanhava as palavras? Que fizera mesmo das inflexões suavíssimas, que lhe matizavam cada frase? Que havia feito da graça, do gesto, da beleza da Margarida da cena, esta Margarida da orgia, cujo hálito acusava o abuso dos licores, e de que até o olhar revelava os extravios da impureza?

A ceia tinha todo o aspecto de uma ruim festa. Pedrinho nunca vira coisa mais feia do que gente grosseira a comer.

— Como seríamos felizes — disse um dos convivas a Margarida — se este Porto fosse tão seco como o teu coração!

A rapariga riu-se. Era estupidez? Era bondade? O bem e o mal tocam-se de tão perto, que é impossível saber onde acaba um, e onde principia o outro.

— Dize mais! — retrucou ela. — Todos nós sabemos que é uma condição do teu caráter não abrires a boca — quer para falar, quer para beber — senão a custa de alguém!

Eram destas as galanterias que ali se trocavam, e a sociedade parecia divertir-se assim. Propôs-se uma saúde a Pedrinho, e aos seus amores. Todos os olhos se fixaram em Margarida.

— É inútil! — redarguiu ele. — Se não amo ninguém!

— Ninguém! — disse a atriz, sorrindo —, nessa idade e com esses olhos não amar ninguém!?

— Considero-me muito inferior para que aspire a ser amado como eu sonho, e sinto-me muito altivo para aceitar o amor que me poderiam dar!

— Ah! ah! — replicou a rapariga, numa gargalhada. — Como é então que preciso ser para lhe agradar?

Ter alma e ser bela! 

— Duas coisas menos raras exijo eu no homem que me fizer a corte! — redarguiu ainda Margarida em tom azedo, ferida no seu amor-próprio. — Contar 20 anos e ter bigode!...

Pedrinho fez-se corado. Era o adorável pudor dos 15 anos que o arguia de ainda não ter barba! Também, para que fora ele ali, se por mais que quisesse corromper a sua consciência, ela podia absolvê-lo em voz alta, mas tinha de o condenar baixinho! Sentia-se só, coitado dele, e a solidão mais terrível é a que, ao entrar da vida, se encontra no centro da sociedade!... Margarida tentou reconciliá-lo, e estendeu-lhe a mão, que ele repeliu frenético com uma expressão de cólera indomável.

— Vai-te, disse-lhe. Não mereces o amor que eu te podia dar, nem o amor que cheguei a sentir por ti! O teu reino não é o coração, é o palco; o teu futuro não é a serenidade dos afetos, mas o ruído dos aplausos. Estremeço agora ao encarar o abismo em que a paixão ia precipitar-me. Podia comprar as tuas carícias e os teus beijos, mas a quem compraria para tas dar a ti! às sensações que o meu amor ia pedir-te? Não! Tu guardas a alma no camarim, onde conservas o pó de arroz com que nos seduzes!

Margarida olhava-o pasmada, e estava a ponto de o tomar por doido.

— Adeus! — disse-lhe ele ainda, erguendo-se e apertando-lhe a mão. — Adeus para sempre! Tenho pena que não pudesses entender-me, porque és incapaz de sentir e compreender e igualar! Sabes tu! Se eu elevasse a Deus um voto pela tua felicidade, seria pedir-lhe que não te desse bexigas!... Aliás ficará perdido o teu futuro, que tudo depende dessa pele suave e magnífica que à noite, ao clarão das luzes, encanta e desvaira. Adeus, Margarida! Fica com a tua frieza, que eu fujo com o meu amor!

Instantes depois de Pedrinho partir, Cândida foi encostar-se à cadeira de Margarida, e balanceou-a para a acordar do torpor e atonia em que caíra.

— De que esteve ele a falar?

— De um sonho que tivera. Viu uma mulher que sou eu, e que não se parece comigo. É meio louco!

— Pareceu-te meigo?

— Vaidoso como tu!

— Lisonjeou-te alguma vez?

— Ofendeu-me sempre.

— E sofreste-o?

— Se me agrada, se lhe quero assim!

O resto da noite, para Pedrinho, passou-se em claro. Tudo foi cismar, e empreender mil planos. A coragem de nunca mais ver Margarida pareceu consolar a sua alma. Com o chegar do dia, porém, veio o desejo de ir ainda uma vez ao teatro, e adquirir a certeza de que não a amava se nenhuma impressão sentisse ao vê-la. Baldado empenho. O fogo daqueles olhos e o som daquela voz tiveram o poder de encantar novamente, e a sua alma de criança não teve forças para repelir uma hora de sedução. Loucura é isso? Quem sabe?! Os efêmeros não vivem senão um segundo; mas, se é um segundo de felicidade vivem bastante!...

Isto passava-se pelo carnaval. Os atores haviam ajustado entre si irem depois do teatro a um baile público. Duas ou três atrizes tinham prometido fazer parte do rancho, e do número destes era Margarida. Esta notícia deu-a um ator a Pedrinho, convidando-o a ser da caravana. Na ideia de matar impressões de amor pela Margarida da cena com o inevitável desgosto que a conversação e as maneiras de Margarida da vida real lhe iam ministrar, Pedrinho aceitou. Logo depois do espetáculo, subiu para um dos caleches, de que só restou um lugar a preencher. Noutro, já os quatro lugares estavam tomados. Faltava Margarida apenas.

— Teremos que esperar boas horas! — disse um ator. — Margarida entra na última cena, e levará séculos a despir-se!

Neste momento, porém, ouviu-se uma gargalhada penetrante e fina: era a atriz que subia para o caleche, vestida ainda com o traje da cena.

— Para os não fazer esperar! — disse ela, fixando a vista em Pedrinho, que estremeceu quando a sentiu a seu lado.

Os caleches partiram. Pedrinho contemplou a atriz, sem poder sequer falar-lhe. Que surpresa foi a sua ao vê-la vestida e caracterizada assim! A mão de Margarida descansava sobre a dele, e os olhos de ambos encontravam-se num febril e apaixonado olhar. Vinha num costume de princesa grega, com uma larga túnica de damasco amarelo bordada de vermelho, cinto de seda, e as mangas largas do traje oriental. Pedrinho nunca a havia visto tão bela, tão moça, e tão poética! Uma atmosfera de milagrosa claridade parecia cercá-la e apoderar-se das almas convidando-as a adorá-la. Brilhava por uma graça ideal, e o olhar parecia fixar-lhe no infinito. Pedrinho dizia a si próprio que aquela singular beleza não era da terra! A cena da véspera, a fatal cena da ceia, impediu Margarida de lhe dirigir a palavra; a ele, impedia-o de lhe falar o encanto em que ela viera mergulhá-lo. Que de inefáveis revelações traiu o úmido olhar do pequeno, enquanto a atriz permanecia calada olhando-o, e que ele sentia todo o seu sangue afluir-lhe ao coração! No momento de se apearem, Margarida pôs a máscara, e estendeu a mão a Pedrinho, que lha apertou cheio de paixão: mas, nem uma palavra de algum deles cortou o silêncio que toda essa noite guardaram.

No meio do baile, a atriz, que dera o braço a um dos seus companheiros, dissera-lhe com um fundo suspiro:

— Por que não consenti eu que a Cândida gostasse dele?!

— Disseram-me que é rico! — replicou o ator.

— Que me importa?

— Não te importa que seja rico? — redarguiu o homem espantado.

Gosto dele! — disse Margarida.

— Deste pequeno?

— Desta admirável criança, de cujo amor não sou digna!

— Que loucura! Que uns copos de Porto te apaguem essa ideia! Vamos cear ao botequim!

Quando Pedrinho tornou nessa noite a avistar a atriz, encontrou-a a uma mesa, cercada de homens, com quem ria, a gritar e a contender com os que passavam. Ao ver Pedrinho, tornou-se pálida e escondeu a cabeça entre as mãos. A embriaguez a que chegara, porque o ator a obrigara a beber até se embriagar, não lhe riscara todavia da lembrança as feições dele, e ao reconhecê-lo, tremeu de vergonha e de raiva pela consciência do estado em que se achava. Pedrinho deixou logo o baile, e na manhã seguinte escreveu esta carta à atriz. Pobre Pedrinho! era a primeira vez que escrevia a uma mulher! É-me impossível permanecer aqui, Margarida! O meu espírito acusa o meu coração, e é triste sempre o amor que a razão desdenha! Por que não pode a gente amar e detestar, quando quiser? Para que me está Deus condenando a um amor sem amor, e a um ódio sem ódio?! Conheço agora que irresistível encanto me prende à sua voz e ao seu olhar... Mas — pois que é preciso assim! —, não tornarei a encontrar esse olhar, nem a escutar essa voz. Julguei que tinha esquecido tudo, vencido tudo. Louco! Quando te vi junto de mim, prestigiosa e sedutora, naquele traje de teatro, a minha paixão incendiou-se de novo pelo primeiro raio de luz que os seus olhos despediam sobre mim! Vence-me e prostra-me. Quando a minha alma se julga livre do amor, tento ver-te outra vez e encontro-me a amar de novo! Fraqueza é isto! É força; força funesta do teu poder. Mas, teimar num amor assim, que há de morrer ao aproximar-te, e nascer quando eu te vir na cena... Teimar num amor assim, para quê? Adeus, e sê feliz! Pela minha salvação te juro, que te fujo para te adorar! Esta noite irei ainda ouvir-te, e depois nunca mais! Tenho na vida, como se tem nos campos, medo da altura em que se vê de mais perto o céu! Margarida, adeus!...

Quando, à noite, criança imprudente, quis ir pela última vez brincar com o fogo, o porteiro do teatro entregou-lhe uma carta com a recomendação instante de que a lesse antes de sair do palco. Pedrinho voltou ao salão e leu estas palavras: “Fica, e serás feliz. A Margarida da noite da ceia há de desaparecer para sempre, e cairá ao seu primeiro amor a frieza que lhe vivia n’alma; porque Margarida é outra agora! Margarida ama! sofre! espera! Quero ver-te esta noite depois do espetáculo. Se a tua obstinação fosse tão longe, que desdenhasse agora o amor que me acordou; se, apesar dos meus rogos, insistisses em partir, seria esta a minha última noite de teatro. No intervalo do segundo ato, mandarei procurar-te à plateia. Dirás então a quem eu aí te enviar, se consentes em ter dó de mim! Livre-me Deus que a resposta não seja marcar-me a hora a que devo esperar-te depois da récita: o público não me ouviria no terceiro ato”.

Pedrinho sentiu uma singular impressão por esta carta.

— Quem me diz que não seja chalaça de bastidor, aposta entre cômicos que se propõem a rir à minha custa, se eu não partir depois do que escrevi?

Deu-se o sinal do erguer do pano, e Pedrinho entrou na plateia. Representava-se não sei que negro drama de conspiradores.

Margarida abria a peça por uma longa fala; a franqueza e o abatimento, que se lhe revelavam nas feições, faziam supor que convalescente apenas de alguma doença, que a houvesse afastado do teatro, deixara naquela noite o leito pelo tablado, e tentara a luta suprema da vontade contra a fraqueza física. Quanto mais pálida se mostrava, mais negra profundidade tinha o seu olhar; quanto mais emagreciam as linhas da sua gentil fronte, mais deixavam transparecer o fogo sombrio da sua alma; e quando a inspiração chegou e a languidez se extinguiu a pouco e pouco, saíram daquele colo de cisne gritos e ais, que quebrariam um tronco de Hércules... Palpitante de amor, ébria, inquieta, delirante de raiva e de ciúme, estremecia e elevava-se em agonias de gigante... Por um momento os seus olhos, aqueles olhos soberbos de voluptuosidade e de luz pareceram procurar o lugar de Pedrinho, e despediram sobre a criança um olhar suave, meigo, humilde, um doce olhar de esperança!

— Impossível! — disse Pedrinho a si próprio. — É impossível partir se continuo a ver-te. Que instinto me conduz para ti, não sei! Dir-se-ia que na tua fronte vejo brilhar a minha estrela!...

E impetuoso e desvairado ergueu-se e saiu. A atriz acompanhou-o com a vista, e sentiu-se tremer de terror. Ele fugia-lhe!

Pedrinho vagou pela rua como louco, e pediu à sua alma o ânimo e a fé. — Margarida! Margarida! — dizia ele. — Oh! deixa-me partir! À semelhança das princesas encantadas, de que rezam as lendas, perderias o encanto se um dedo te tocasse! E a cena e a arte a tua vara de condão... Quando as luzes se apagam e o público te abandona, a tua vara mágica quebra-se, como o poder instantâneo das fadas, que morrem ao nascer do dia... O imprudente que se atreve a fixar o sol encontra a vista perseguida por um aterrador círculo escuro; pois sim: seja a recordação e a saudade o castigo de te haver amado! Ficar a ver-te de perto, seria a queda do teu reinado: o meu amor é o trono que te ergui, e a ilusão o reino em que te adoro; se saísses desse reino, perdias o trono!

Um indefinido desejo, um vago pressentimento talvez, pareceu conduzi-lo de novo ao salão do teatro.

Encontrou-o apinhado de gente e, apesar de conseguir romper por entre os grupos e chegar até à plateia, ninguém encontrou ali. Os camarotes estavam desertos e o lustre principiava a apagar-se.

— Às dez horas! Mas, são dez horas! Pois é possível que o espetáculo terminasse já?

Acabava de atirar esta pergunta ao primeiro vulto que topou, quando lhe apontaram um anúncio em que encontrou estas palavras: “Por haver desaparecido a atriz Margarida, não é possível continuar o espetáculo. O público pode receber o importe dos seus bilhetes”.

Ao lembrar-se então da carta que Margarida lhe escrevera, e que ele em tão pouca consideração tomara, um terror súbito se lhe apoderou do ânimo e as lágrimas do remorso escaldaram pela primeira vez aquele rosto de criança.

A atriz não havia prevenido ninguém do que planejara. A pobre rapariga saíra no velho capote de uma comparsa, e fora, a pé, andando, andando, até chegar à humilde casa que a vira nascer, e de que a sua alma havia tido saudades muitas vezes. A filha perdida voltava ao lar doméstico, contrita e em lágrimas. Das suas pompas da cena, nenhuma memória, nenhuma recordação levava: abandonara com os aplausos do público os anéis e dádivas dos amantes: voltava pobre, desamparada e triste, como partira. A celebridade e os amores tinham sido para ela um sonho, e a infeliz, ao menos, acordou aos beijos de sua mãe!...

Quando Pedrinho voltou à Dos Negros, a senhora morgada recebeu parabéns gerais das melhoras do menino. Ele falava, cantava e lia. Era a febre! O cura considerou-o salvo quando lhe disseram que para em tudo estar mudado até já dormia horas inteiras. Fez-se uma festa em ação de graças, e o sermão deu-o por pronto. Ninguém imaginou que a criança era mais infeliz que nunca, e que o sono dos olhos é horrível quando o coração não dorme!...

Era possível nesta situação, ainda, fazer dele um poeta mas, a mãe mandou-o a Coimbra para o alcançar doutor. O pequeno viu o Mondego, e atirou-se ao rio.

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