quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Solidão (Conto), de Salomão Rovedo


Solidão

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“Quem quiser ir às estrelas não busque companhia”.
(Friedrich Hebbel)

Quando conheci Adélia e vi brotar em mim a intenção de casar com ela, estava numa fase religiosa muito oriental. O mundo da espiritualidade chinesa se abria para mim. Dava os passos iniciais para aprender a jogar as varinhas do Yi-king depois de haver desvendado um pouco os segredos das cartas mágicas do Tarô Cigano, fazia momentos de meditação, lia – para contrabalançar – Gandhi e Krishnamurti.

Hoje aqui sentado à beira do mar, vendo crianças jogando peteca na areia da praia, fitando o horizonte, sem me dar conta do céu remexido por nuvens chuvosas, começo a pesar o imenso desastre que causa a falta de Adélia.

Nunca pensei que a ausência dela fosse se tornar assim quase insuportável, nunca pensei que a partida de um ser humano e a solidão dela decorrente fosse provocar uma catástrofe não apenas emocional, mas metafísica, espírita, incapaz de me fazer compreender o significado da palavra partida, da palavra ausência.

Será esse um sentimento daqueles do qual não nos consolamos jamais?

O Aterro do Flamengo estava sendo construído. Caminhões caçamba passavam o dia trazendo terra e pedras removidas do morro de Santo Antônio. As enormes pás mecânicas bufavam fumaça do óleo diesel arrumando aquela tralha para ser jogada no mar, operários suados, o mestre de obra, plantas nas mãos, berrava ordens. Eu e Adélia ficávamos perto do Museu de Arte Moderna, onde a obra estava terminada, o capim dava sinais de vida, namorando a silhueta do Pão de Açúcar, vivendo a faina, estimulando desejos, pensando que a vida seria desgraciosa se fôssemos vivê-la separados.

Nem tudo era simples, alguns tempos eu andei sentindo insegurança a respeito da união com Adélia e fiz as experiências do jogo várias vezes, mas o Yi-king sempre me colocava longe dela com respostas determinantes – significativas ou não, apesar de que nada me demovia da dúvida: esse oráculo chinês, cuja origem remonta a 4.000 a.C., seria capaz de promover a ligação entre fatos psíquicos e físicos? Mas o resultado do hexagrama era sempre o mesmo: “A mulher é poderosa, não se deve casar com uma mulher assim”.

Sempre dizem que a própria existência em sua natureza será forte o suficiente para rebater esse desconforto que parece se eternizar em mim, eu sei, a vida tem segredos para assegurar ao ser humano, mesmo que de forma miraculosa, uma substituição, um refúgio, uma fuga – seja que nome queira dar, para que a existência se refaça enorme, grata, pujante. Recomeçar, recomeçar – eis a palavra de ordem da vida.

Não, não era o caso de ter complexo, nem medo do poder e da influência materna, uma segunda mãe dominadora, o que me preocupava era casar desastrosamente, uma união que fosse obrigado a detonar em pouco tempo, como muitos exemplos me passavam pela frente, era aquele eco, mentalmente repetido: “Não se deve casar com uma mulher assim. Não se deve casar com uma mulher assim. Não se deve casar com uma mulher assim”.

Apesar de tudo, os planos começaram a se realizar sem que percebêssemos, coisa simples como alugar apartamento, comprar móveis, montar enfim um lugar que fosse o nosso jeito de ver a vida a dois, a nossa cara e em consequência foi muito natural o dia em que também os objetos mais chegados fossem sendo transferidos para o novo endereço e mais normal ainda o dia em que dormimos juntos, sentindo a sensação de estarmos enfim sós numa ilha deserta.

Toda a nossa vida é pontuada de mortes de entes queridos, de partidas das pessoas que amamos, cada qual comportando uma dose exagerada de grandes sofrimentos, mas ainda acreditamos religiosamente que mais vale suportar todo o tropeço sofrido do que lastimar para sempre o fato de não ter conhecido a presença dessas pessoas quando elas existiam. As pessoas que amamos nos valem muito mesmo ausentes.

Em pouco tempo estávamos quase cem por cento no novo endereço, mas fazíamos ainda aquela cena de morar cada qual com a sua família (na verdade a ideia era morar os dois juntos, mas um dia – quando a situação permitisse – faríamos o casamento religioso, com direito convite, igreja, álbum de fotografia, vídeo, festinha, etc.), coisa que todos percebiam, mas aceitavam porque era tão visível o quanto eu e Adélia nos dávamos bem.

A verdade é que o tempo passa sem que percebamos, quando uma situação de harmonia se estabelece igual à nossa, cercados de ótimos espíritos, pessoas que nos amam elaboram uma cumplicidade ampla, sem restrições, não se prenuncia nenhuma tragédia, nenhuma alteração orgânica, a natureza que não vive ameaçada por tornados, furacões, tempestades, o tempo flui destelhado, a casa se compõe com uma aura azul, feliz, acompanha-nos a sensação religiosa de bem estar como se o próprio Paraíso transferisse seus desígnios para o local, assim passa o tempo inaudível como um templo budista silencioso e calmo.

Eu e Adélia vivemos assim, não interessa saber por quantos anos, até que ficou subitamente enferma, em três dias foi hospitalizada, descobriu-se que era portadora de vírus violentíssimo, desses que acometem uma pessoa a cada cem milhões, como dizer, sem deixar-nos respirar nem raciocinar sobre o que estava ocorrendo, em quatro dias ficou inconsolável, enfraquecida ao extremo, pronta para morrer, sem dar tempo de rezar, de pedir o milagre, sem dar tempo de assumir a consciência do problema, mesmo que não pudéssemos encontrar solução, sem dar tempo à esperança.

Assim, se ficamos a sós com os espíritos, as fotografias, os escritos, os quadros que nos repassam na mente como filmes antigos, a verdade é que o mundo pessoal se reconstitui por si mesmo, apesar de sabermos que nem mesmo o Universo dura para sempre. Mas a distância das coisas humanas é bem mais finita que a grandeza do espaço einsteiniano, habitamos o inexplorado para sempre inexplorável, terreno onde não se deve penetrar nem se pode forçar – o domínio que não aceita a intervenção humana quando somos chamados, quando a vida e a morte nos tomam firme e ternamente pela mão.

Um dia antes da sua morte, deitado na cama, estava para dormir ajudado por um comprimido, já naquela hora que flutuamos entre a luz e o sono, que não estamos mais em vigília nem nos afundamos no sono profundo, tive uma visão que me manteve imaginando estar acordado: ao lado da cama um velho monge chinês vestido com uma bata azul marinho, braços cruzados dentro das mangas, inclinou-se profundamente como me transmitindo uma mensagem. No momento em que seus olhos cintilaram em luz, encontrei a hora da paz e da tranquilidade, dormi profundamente até ser acordado no dia seguinte para o enterro de Adélia.

Morre cedo aquele que é amado pelos deuses.

Muito tempo passou (intimamente acho que nunca passa), para que eu completasse a desencarnação de Adélia, para que fosse capaz de reconhecer que ela estava em outro mundo e que eu deveria tocar a vida sem ela para sempre. O sonho que me perseguia mais renitente era o que me fazia recordar o lugar em que ficávamos namorando perto do MAM, sentado nas pedras do Aterro, conversando, rindo, nos abraçando e beijando. O detalhe fora da realidade – que eu não compreendia – é que Adélia e eu não estávamos só namorando, mas também com o caniço nas mãos tentando pescar alguma coisa.

Na disciplina religiosa tibetana o noviço se retira do isolamento, por um ano às vezes, para aprender a criar em espírito, peça por peça, o personagem divino, protetor.


Depois sai e seu protetor o acompanha sem perder de vista apesar das distrações do mundo. Em seguida ele volta à sua cela e desfaz-se, peça por peça, do personagem que criou e volta ao absoluto, sem forma. E isso vale para todos nós.


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Fonte:
Salomão Rovedo: Sonja Sonrisal. Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2016. (Imagem: Páginas pessoal do autor)

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