sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A "Canção das Gaivotas" (Conto), de Virgílio Várzea


A "Canção das Gaivotas"

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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I 
Naquele dia, a Regina despertara mais cedo que de costume. Mas também na véspera se deitara às ave-marias, com as galinhas. A primeira coisa que fizera, apenas deixara o leito, fora correr à cozinha, abrir a janelinha que deitava para os fundos, para o pomar, e olhar o tempo, pois havia três dias que chovia a cântaros e lestava. Que alegria! o céu resplandecia, “cheinho” de estrelas, na madrugada alta. De olhos erguidos, lançados para o Azul, pelas abertas rendadas do cafezal e do laranjal espesso que cercavam carinhosamente a casita, toca a procurar a “papa-ceia” — a estrela d'Alva — a ver se o dia já andava perto. Encontrou-a logo, a leste, ainda baixa num recanto do Espaço enoitado, sobre a densa fronde do velho chorão que cobria a cacimba do pasto, linda e luminosa no seu disco astral, e tão grande como o foco do farol do Arvoredo que, em certas noites, punha-se a olhar, horas e horas, obcecadamente, sentada à janela da sala, no escuro, ao lado da mãe, que com ela desfiava lentamente, nas mãos, em silêncio, os bugalhos do rosário, experimentando uma vaga melancolia e saudade, ao clarão vivo e dourado, que se acendia e apagava de instante a instante, desse guia da costa e dos Nautas, a iluminar sempre, do poente ao nascente, a negrura noturnal da barra, dos cachopos em torno e das ondas iradas do Oceano ao largo. Olhava, embevecida, o imenso esplendor sideral, quando se lembrou de repente que ainda era noite morta e que podia aparecer-lhe de súbito — livrasse a Deus! – alguma “alma penada”.

Fechou então apressadamente a janelinha, sentindo-se bem disposta e alegre como nunca, a solfejar baixo, no prenúncio certo do bom tempo:

Santa Clara, mandai sol
Para enxugar o vosso lençol.

Correu à prateleira da cozinha, apanhou os fósforos e acendeu a candeia de azeite, a velha candeia roceira de quatro bicos, que colocou a um dos ganchos de pau suspensos aos caibros do telhado baixo, inclinado em meia-água e com frestas por onde espiavam trêmula e faiscantemente as estrelas. Curvou-se sobre o rude e mal feito girau de barro e tijolo que servia de fogão e, numa atividade feminina e artística, a gestos simples e galantes, ajeitou as três pedras-trempe, colocou entre elas paus finos de lenha, e gravetos, armazenados em molho a um canto do girau, e pôs-se a fazer o fogo com uns trapozinhos que embebia na candeia. Rápido crepitou a lareira, em chamas dançantes e num chuveiro de faíscas de um clarão de ouro vermelho. Depois foi ao pote encher a chaleira: voltou e colocou-a sobre as pedras para o “aparado”. Em seguida, entrou a lavar o bule e as xícaras, com apuros de asseio, num grande alguidar de barro. Lavou também, uma e muitas vezes, o saco de coar café, enfiando-o pelas alças em um pau delgado e pontudo como um espeto, que fincou à parede, por sobre o fogão. Pegou com uma das mãos a candeia, agarrou com a outra um braçado de rinchão ainda verde, amarrado ao lado do pé com embiras de bananeira, e saiu a varrer a casa, da sala para os fundos, toda curvada, abaixada, o lindo rosto rosadíssimo do sangue afluindo à cabeça, o torso cheio e airoso, bem como os quadris rotundos e virgens de cachopa robusta estourando o corpete colante, tufando a leve saia de chita. Não sabia o que tinha, o que adivinhava em espírito, mas sentia-se profundamente alegre e feliz...

Já então, em toda a casa sem teto, pela telha vã, esburacada e corrida num ou noutro ponto, se viam, lá fora, no Espaço, desenhar-se, alastrar e subir gradualmente, em triunfo, os primeiros clarões da alvorada.

A esta hora, a mãe, a Candinha Paiva, conhecida geralmente, em Canasvieiras, pela Candinha da Praia, por morar na praia dessa freguesia desde que casara, havia muitos lustros, pois o marido fora mestre de redes até morrer, na faina incessante das pescarias e das contínuas viagens por mar à cidade, à capital; a essa hora, a mãe, exemplar madrugadora, se não levantara ainda, devido à pontada de que sofria ultimamente, e que, na véspera, à tarde, com a horrível umidade e ventania que reinavam, lhe aparecera mais forte que de costume e a afligira de tal modo que só aliviara e a deixara dormir já por noite alta...

Mas a Regina, vinda da sala da frente pelos quartos, acaba de varrer a sala de jantar. Notou então que, já na rua, ia tudo claro. Abriu a porta que dava para o terreiro. Era, com efeito, a manhã que rompia, com o horizonte, ao oriente, cheio de nuvens rosadas. Os campos, ao fundo, na paisagem que se desenrolava até as montanhas interiores, verdejavam enegrecidos e úmidos ainda da lestada. O laranjal e o cafezal em torno escorriam pérolas das bastas ramagens balouçando ao vento, ao brando nordeste que caíra momentos antes, garantia segura do bom tempo e das bonanças de estio no litoral do sul. Os passarinhos gorjeavam idealmente, num incomparável hino à Luz, a Deus, ao Homem, ao Amor, à Esperança, ao Sonho, à Bondade, à Verdade. E a criação, deixando os poleiros das árvores próximas, enxameava por toda a parte, debicando os bichinhos e grãos de areia do solo...

— Nossa Senhora, que belo dia vamos ter! exclamou a Regina, cada vez mais alegre, a sorrir, a passear os negros olhos fascinantes pela enorme cúpula azul do Firmamento que, de instante a instante, se fazia mais iluminado e mais claro.

E, numa corridinha graciosa, foi até a cozinha e volveu com uma pequena cuia cheia de milho, que jogou, em mancheias, às galinhas, fazendo-lhes, com os frescos lábios cor de rosa, um sonoro brurrrr de chamamento, a fim de atrair no terreiro algumas daquelas aves que, porventura, andassem já pelas sebes afastadas, ou lá para as bandas do pasto.

Entretanto, na cozinha, já a chaleira chiava em fervura, e ela correu a coar o “aparado”, para o ir levar afetuosa e meigamente à mãe, que ainda continuava deitada. Depois de tudo isso feito, e de ela própria tomar o seu café com beijus, foi varrer, à sua vez, o terreiro da frente da casa.

Que encanto, Virgem Santíssima! Já o sol, subindo de trás dos montes a leste, cobria tudo com o seu infinito e transparente dossel de ouro. O mar, azul e manso, malhado aqui e além de panos de escamas rútilas, rugia apenas, de espaço a espaço, na rebentação espumosa, abrindo-se em rendas de prata. Em frente, a três quilômetros de distância somente, a ilhota dos Franceses parecia um ninho boiante, nos seus tufos de esmeralda. A ponta de São Francisco, ao sul, e a Ponta das Canas, ao norte, formavam o vasto crescente da praia, de uma extensão de légua e meia, crescente de alvaiade ou de giz em pó, com remates alterosos de ônix, feitos pelas rochas basálticas dos cabos, onde os vagalhões batiam, fremiam, espoucavam. As serras do continente passavam fronteiras, em direção polo a polo, num afastamento saudoso, cercando a soberba baía como uma muralha sem fim de turmalina nublada. Ao setentrião, havia uma amplíssima aberta para o Atlântico — eram os pórticos da barra, com o Arvoredo a um dos lados, no seu todo de rinoceronte monstruoso de argila e pedra, tendo por arma, numa ponta ao sul, que é como um focinho colossal, a torre esguia do farol montando vedeta às vagas. As primeiras redes começavam a andar, nos recantos longínquos da praia. Pequenas velas, em bando, com os seus retângulos e ângulos de uma alvura de geada, voavam leves nas águas. Um grande palhabote de alcaxas, parecendo o Boa Sorte, que ali às vezes tocava, na sua costumada carreira do Rio a Paranaguá, e de Paranaguá ao Rio Grande, latinos soltos ao vento, que lhe batia de popa em aragem favorável, demandava alegre o porto, numa perfeita bordada. E uma multidão de gaivotas, de asas abertas no ar, saudando a bonança amada, cruzava, em gritos contínuos, sobre a praia e sobre o Mar...

A Regina, antes de entrar a varrer o terreiro, quedou-se a olhar, um instante, o espetáculo da baía e o Atlântico no mar alto. E, sempre num crescente bem-estar e num alvoroço feliz, que ela mesma não podia e nem sabia explicar, vendo o navio que chegava e acompanhando com os olhos a revoada inquieta das gaivotas pairando às vezes sobre sua cabeça, rompeu expansivamente a cantar, numa toada roceira mas adorável, os versos minhotos, tão comuns nas costas catarinenses, da expressiva Canção das Gaivotas:

Toda vez que eu vejo vir
Gaivotas a praiamar,
Cuido que são meus amores
Que vêm para me levar...

Nisto a Candinha, que já se levantara e a ouvira estar cantando muito ancha, abriu uma das janelas da sala da frente e, muito agasalhada, por causa da pontada, no seu eterno xale preto de viúva, debruçou-se ao peitoril, e disse-lhe, enternecidamente, revendo-se, num encanto, naquela filha adorada, a única que Deus lhe dera para sua felicidade:

— Olha, menina, acordaste hoje que ninguém pode contido! Estás contente como nunca te vi! Não sei o que andas a adivinhar... Valha-nos Deus, antes assim!... Quem canta, seus males espanta... Mas não te fies nas gaivotas que, às vezes, são de mau agouro...

E, muito satisfeita também com o belo dia e com a saúde que voltara, citou-lhe, a galhofar, os versos que, em Gaia, como em Santa Catarina, se dizem brincando às gaivotas:

Fugi, gaivotas
Que aí vem o Diabo co'as botas!

Pôs-se então a contemplar a costa, a magnífica marinha do golfo e a barra ao longe. E dando com o iate que singrava serenamente, à popa, em direção ao porto do Teixeira, exclamou, dirigindo-se à filha que andava agora a ver as roseiras do terreiro, bastante viçosas e floridas, apesar do seu encarceramento dentro de latas de querosene cheias de terra vegetal, enterradas na areia salitrosa do alto da praia:

— Já viste, Regina, aquele barco que ali vem? Está-me a parecer o Boa Sorte, do capitão Leão Magno. Decerto é ele mesmo, que lá vai para o Teixeira, carregar amendoim ou farinha para o norte...

A rapariga, que estava agachada a limpar as roseiras, ergueu-se logo, sacudiu as mãos cheias de terra, levou a direita em pala sobre os olhos, para os proteger contra a luz deslumbrante do sol já meio alto no céu, e, fixando de novo o navio, respondeu:

— Sim, mamãe! Eu também penso que é o Boa Sorte. E é bem bom, porque vamos ter, como das outras vezes, um nunca acabar de fandangos no Cipriano e no Pinheiro...

Era efetivamente o iate do Magno, que daí a instantes ferrava pano e fundeava em frente ao Teixeira, no arraial das Canas. Canoas e baleeiras de pesca cercaram-no imediatamente. O Magno desembarcou horas após. E à tarde, toda Canasvieiras e sítios em volta alvoroçavam-se expansivamente à presença do iate, como sucedia sempre que apareciam grandes navios no porto, porque eles traziam alegrias desusadas e impressões novas à vida obscura, pobre e humilde das populações daqueles pequenos povoados.

II
No outro dia, cedo, pelas seis horas, o Magno, que se dirigia no escaler de bordo para a capital catarinense, acompanhado do Pinheiro — delegado de polícia, chefe político do lugar e seu amigo íntimo — a fim de apresentar os papéis do palhabote à Alfândega e à Capitania do Porto, e ratificar e registrar o protesto de arribada, pois ia do Rio de janeiro para o Rio Grande do Sul com carregamento de fazendas, e só ali aportara, daquela vez, por força maior e por causa da lestada em que se vira quase perdido, — mandara embicar o bote em frente à casa da Candinha, a convidá-la e a filha para o terço e fandango com que pretendia festejar a salvação do navio, da sua companha, e a feliz chegada àquele porto, terço que devia realizar-se, no outro dia, sábado da Conceição, na Cachoeira, em casa de outro seu amigo — o Cipriano Vale.

Ele e o Pinheiro encontram a Regina e a mãe no terreiro da frente, a assistir a um dos lanços que a rede do Delfino andava a dar, às primeiras palombetas e corvinas de estio aparecendo na costa; e, apenas trocaram os recíprocos cumprimentos de venturas e boas-vindas, o Magno, que tinha pressa de cumprir as obrigações marítimas que lhe incumbiam e não podia retardar por mais tempo a viagem, contou-lhes, de pronto, ao que ia, e despediu-se logo, dizendo que as esperava, no outro dia à noite, sem falta, na sua “festinha”.

E voltaram ambos ao bote que, remado herculeamente por quatro marujos possantes, se afastou rapidamente, em direção ao Desterro, na calmaria morta da manhã, por entre o cantar rítmico das toleteiras metálicas, abrindo, com o seu alongado e esguio casco de esquife, uma esteira sinuosa de espuma que parecia uma gigantesca peça de renda a desdobrar-se infinitamente sobre as águas azuis da baía...

Que doce e esplêndido dia! o sol deliciava rutilamente no alto. O mar, embaixo, era um espelho sem fim. E as gaivotas voavam, como sempre, em felizes revoadas.

A Candinha voltara às lides da casa assim que os homens partiram. Mas a Regina, que ficara de pé ao terreiro, a acompanhar com interesse a singradura do bote, ainda sob o encanto irresistível e másculo da fisionomia do Magno, que lhe impressionara como nunca e que a deixava, agora, numa felicidade e enlevo que jamais sentira, ao ver as gaivotas amigas enxameando o ar e as águas, começou docemente a cantar, como na véspera:

Toda vez que eu vejo vir
Gaivotas a praiamar,
Cuido que são meus amores
Que vêm para me levar...

III 
O terço e fandango em casa do Cipriano foram muito concorridos. As principais famílias da Cachoeira e do arraial das Canas, como algumas da freguesia de Canasvieiras, estiveram presentes. As Teixeira, as Pinheiro, as Dutra, as Brito, as Lisboa e Coelho — as famílias mais abastadas do lugar, salientes entre as outras pela proliferação quase comparável à dos peixes daquelas paragens, pela ostentação, o luxo e a beleza das filhas— foram as que mais primaram em trajes e elegância, todas a disputarem para noivos o Leão Magno e os oficiais de bordo — piloto e contramestre— bem assim os rapazes da cidade, que o capitão do palhabote, desta vez, como das outras, arrastara consigo até ali.

Mas o Magno, que pela sua posição e ganhos era a suprema atração dessas raparigas, desta feita e com pasmo geral, despeito e decepção de muitas, voltara-se todo para a Regina que, realmente, agora, no esplendor dos seus dezesseis anos, era uma morena adorável e, sem dúvida, ao momento, a maior formosura daquelas redondezas. Conhecia-a desde os dez anos e afagara-a multas vezes, quando a encontrava na praia, indo ou vindo da escola régia, sozinha ou com as companheiras que habitavam no Canto das Pedras. Vendo-a então menina, não pensara jamais que, moça, viesse um dia a impressioná-lo. Vira-a crescer pouco a pouco, durante os seus seis anos de viagens contínuas ao sul com escalas naquela parte da costa catarinense, e, diante da criança que se tornava púbere, se expandia em mulher, notara que a franqueza e liberdade ingênuas que tinha dantes, ao fazer-lhe meiguices e afagos, iam-se limitando, extinguindo-se insensivelmente depois, sem que ele percebesse bem por quê. Ela, por seu lado, entrara a retrair-se, a esquivar-se, não permitindo mais que lhe fizesse cócegas, lhe pegasse nas mãos, a enlaçasse, a beijasse no rosto, falando lhe cerimoniosamente, tratando-o gravemente de “senhor”. Naquele tempo as simpatias e pendores amorosos do jovem nauta dirigiam-se só às outras, que já eram moças e podiam casar. Depois raras, raríssimas vezes frequentara ele a casa da Candinha, e isto mesmo sempre de passagem, quando ia para a sede da freguesia, para a Rua Velha ou para os Morretes, pois a casa ficava mais ou menos à meia-praia, entre o Teixeira e o Canto das Pedras, necessitando, para a frequentar, do fazê-lo propositalmente, para o que não havia razão. Além disso, na penúltima estada ali, havia seis meses, não vira a Regina, nem imaginava que estivesse realmente tão bela como a encontrava desta vez. De sorte que, ao vê-la, quando fora convidá-la e à mãe para a sua festa, tivera uma surpresa e impressão deliciosas, e, agora, que a tinha junto a si, nas danças, experimentava por ela uma verdadeira e irresistível paixão. Assim, desde a primeira roda de fandango — com quadrilhas, polcas e valsas de permeio — até a última, não a deixou mais, apesar das censuras discretas de velhos e matronas e da visível murmuração de raparigas e rapazes rivais ao procedimento de ambos, enlaçando-se, ininterruptamente, a noite inteira, nas danças.

A filha mais nova do Pinheiro, a Helena, que era uma das mais fiéis namoradas do Magno e que tinha esperança de vir ainda a esposá-lo, vivamente agastada e despeitada ante “aquilo”, só uma ou duas vezes dançara, abstendo-se depois por completo, amuada a um canto, numa grande enxaqueca. E o Honório Ribeiro, um rapaz dos Ganchos, matuto de veia poética e improvisador de quadrinhas chuleiras, que acompanhava o tocador de harmonia à viola e que era louco pela Regina, mas a quem ela se mostrara sempre indiferente, de certa altura da noite em diante, nos intervalos das marcas, entrou a vazar os seus ciúmes e despeitos, botando cantigas pérfidas mas engraçadas, picadas de chufas e alusões diretas ao par venturoso que se destacava sobre todos na sala:

Menina, esse Boa Sorte,
Do marujo aventureiro,
Pode dar vida ou dar morte,
Na bonança ou no pampeiro.

Os velhos e velhas roceiras gozavam, as cachopas preteridas sorriam como se se vissem vingadas, e os rapazes fandanguistas gargalhavam e aplaudiam abertamente ao trovador gancheiro, dizendo-lhe intencionalmente, em tom de mofa ao mareante e à Regina:

— Assim, Ribeiro! Esta foi só de truz! Afina bem essa gorja! E bota pra cá outras cantigas como essa, rapaz! Mas que te saiam brejeiras, bem brejeiras, ouviste?...

E o Ribeiro, entusiasmado e em triunfo, dedilhava destramente a viola e destramente improvisava:

Dizem que o leão tem garras
E mata quando tem fome:
A um Leão tu te agarras,
Vê que é um bicho, e não home.

Os aplausos da matutada estalaram, de novo, mais vibrantes e audazes.

E o jovem chefe marujo, em quem o nome que tinha perfeitamente assentava, porque era grande e robusto, bravo e possante como um leão, compreendia claramente as graçolas e remoques, mas não lhes fazia caso, fingindo-se desentendido, rindo-se também, como os demais, no seu invencível desdém de forte, na sua serenidade e bom humor de marujo, sentido-se vitorioso e feliz ao lado da sua amada. Entretanto, esta parecia intimamente encafifada e enfiada, embora fizesse por mostrar-se muito alegre e soberba pelo braço de Magno...

Mas, a cada intervalo das danças, lá vinham as quadrinhas chuleiras, que foram assim até ao amanhecer, hora em que a festa terminou, felizmente, tal qual como no começo, em plena alegria e paz. E a nota encantadora e suprema da despedida foi o pedido da mão da Regina, feito à Candinha, ali mesmo e diante de todos, pelo capitão Leão Magno, sendo marcado o consórcio para daí a dois meses, quando o Boa Sorte, que seguia para o Rio Grande do Sul por aqueles três dias, devia estar de volta. O Pinheiro e o Cipriano Vale, com as respectivas esposas, seriam as testemunhas de ambos. E tudo ficou assim ajustado.

Aquele dia e os dois subsequentes o Magno passou-os inteirinhos, num enlevo e delícia sem nome, com a Regina e a Candinha, que nunca haviam pensado ou sonhado, sequer, com tamanha felicidade.

E na tarde da partida — uma quinta-feira de alegria e de calma — depois de uma despedida emocionada e saudosa, o Magno, deixando a noiva e a futura sogra a soluçarem tristemente, na praia, e a abanarem-lhe contínuos adeuses com seus lenços esvoaçantes e claros, ergueu âncora e soltou velas ao vento, fazendo-se a rumo do Mar...

IV 
Os primeiros dias depois da saída do Boa Sorte foram para a Candinha e a filha — que trabalhavam ativamente nas coisas do enxoval — de intermitentes tristezas e lágrimas, logo transformadas numa doce e longa saudade, avivada grandemente, duas semanas após, por uma carta que lhes escrevera o Magno, participando-lhes a chegada do navio a Porto Alegre, o começo da descarga e a próxima volta a Canasvieiras...

Efetivamente, uma tarde, ainda não fazia dois meses que o Boa Sorte partira, e já ele estava à vista e era reconhecido pela sua pintura de alcaxas a velejar à barra, na altura do Arvoredo, fundeando, horas depois, não já no ancoradouro costumado, mas no da ilhota dos Franceses, bem em frente à casa da Candinha que, de janelas abertas para praia e para o mar, jubilava vivamente, banhada dos esplendores do ocaso.

Pouco depois, o Magno, bem disposto e radiante, com o seu largo rosto moreno queimado pelo sol da viagem, chapéu de palha a cabeça e um terno azul-marinho envergado, baixava à terra, no escaler de bordo, que voava na vaga, puxado por quatro remeiros possantes a balançarem, num vaivém, de proa à popa, os bustos atléticos, ao jogo dos remos na água.

A Regina e a mãe, vestidas de chita em cassa, como nos dias festivos, correram risonhamente a recebê-lo na praia. E apenas o capitão saltou, trocaram-se, entre os três, afetuosos apertos de mão e abraços.

O Magno trazia o escaler carregado de presentes e peças de enxoval para a noiva, o que tudo foi transportado para a casa pelos marinheiros do iate. E como este vinha do Rio Grande com um carregamento de charque para o Rio de Janeiro, em vista do que lhe era agora impossível delongar por mais de uma semana a sua estadia ali, o chefe marujo marcou o seu casamento para o primeiro sábado, que era daí a seis dias, mandando imediatamente tratar o padre e avisar ao Pinheiro e ao Cipriano Vale...

Assim, no dia aprazado, o belo ato se consumou, com um cortejo e pompa nunca vistos ali até então, pois que nele tomaram parte alguns personagens do Desterro e as principais famílias de Canasvieiras, pelo que veio tornar-se excepcional e memorável, como nenhum outro, naquele lugar e cercanias. Os noivos estiveram um encanto, e o festim de bodas que durou a noite inteira, estendeu-se, com musicatas e danças, por todo o domingo até segunda-feira de manhã, dia em que o Boa Sorte devia largar para o Rio, começando os noivos a sua lua de mel no Oceano.

Pela tarde, realizou-se o embarque dos noivos e da Candinha — que ia com eles, por não poder separar-se da filha — acompanhando-os até bordo, nos escaleres do palhabote e numa graciosa flotilha de canoas e baleeiras de pesca, os amigos e parentes, bem como a gente do Pinheiro, do Cipriano, do Brito, do Lisboa e do Teixeira.

O Boa Sorte, enfeitado e embandeirado em arco, com a maruja toda em festa, nunca tivera tamanha multidão a seu bordo.

O sol, ainda alto no ocaso, alagava tudo de ouro. As gaivotas voavam pela costa e em torno ao navio, em alegres revoadas. E o mar, azul e manso, sob o nordeste contínuo, prometia uma excelente, deliciosa viagem.

Dada a hora da partida, começaram os adeuses. Houve então uma vaga tristeza em todos, nos que partiam como nos que ficavam. E os de terra retomaram à pressa a flotilha, que desatracou e ficou pairando sobre as águas, em volta do Boa Sorte, onde já o molinete cantava, suspendendo as amarras.

Debruçadas à balaustrada da popa, a Regina e a mãe, os olhos mareados de lágrimas, acenavam e falavam ainda às amigas, numa voz de tristeza e saudade, enquanto o Magno se ocupava nas manobras do barco.

E como as gaivotas, agora, mais densamente voejavam, em torno aos mastros do iate, a Regina chamou para elas a atenção das Pinheiro e das outras camaradas, dizendo-lhes afetuosamente, a sorrir:

— Meninas, olhem o que eu lhes contei das gaivotas! Elas aí andam a voar muito alegres... É bom agouro para vocês... Vejam o que a mim me sucedeu... Tomem nota, e esperem em Deus e na Sorte...

E recitou-lhes a primeira quadra da Canção das Gaivotas:

Toda a vez que eu vejo vir
Gaivotas a praiamar,
Cuido que são meus amores
Que vêm para me levar...

Já as velas de proa e os altos latinos alvos do Boa Sorte tufavam à aragem do largo. O palhabote fazia cabeça e começava a deslizar para a barra.

À sua vez, então, a flotilha de canoas e lanchas aproou à terra, com todos os que nela estavam de braço direito erguido, agitando os lenços para a popa do navio, de onde o Magno, a noiva e a Candinha lhes acenavam também, numa emoção e saudade.

E o Boa Sorte distanciava-se pouco a pouco nas vagas. Mas, apesar disso, as Pinheiro e as Vale, que vinham nas últimas baleeiras, ouviam ainda vagamente a Regina repetir-lhes, da borda, os versos da sua felicidade:

Toda a vez que eu vejo vir
Gaivotas a praiamar,

Cuido que são meus amores

Que vêm para me levar...

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