sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Terrível blasfêmia (Conto), de Virgílio Várzea


 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Aparelhamos a alma para a morte
Que sempre aos Nautas ante os olhos anda.
Camões

Era inverno. Rompia a manhã com uma luz lívida e fria, indecisa, neutra, cor de chumbo e enevoada, como nas longas noites polares. Cúmulos e nimbos torvelinhavam no céu, condensando-se numa grande nuvem negra e espessa. Havia mais ou menos uma hora que o pampeiro bufava, duro, em São José do Norte. E que pampeiro! Um “pampeiro sujo”, como dizem os marítimos, com trovoada e relâmpagos terríveis, chuva grossa, açoitadora, incessante e de alagar tudo. O vento do norte tinha rondado primeiro para o noroeste, depois para oeste, e, atingindo já grande violência, se fixara, por fim, ao sudoeste. O mar, na Lagoa dos Patos, mar raso, torturado e apertado entre terras, sem campo para dobrar ou correr livremente, era um imenso e alvíssimo lençol de espuma fervente, todo empolado em flor e estourando em serras de água.

A bordo do Lima I, um belo patacho de Pernambuco, esguio e veleiro como um fuste da Catalunha, com a mastreação airosa e artística um tanto curva e puxando um pouco pelos estais dos mastaréus grandes e do joanete, ia uma faina de mil demônios, sob a lupa dos marinheiros e tling-tling sonoro e alegre do bolinete, virando e tesando as amarras:

Oi-oi... oi... oi...

Leva à riba!

Em terra, homens da plebe, na maior parte catraieiros e embarcadiços avulsos, atentavam com pasmo para aquelas contínuas tilintadas metálicas. De momento a momento, cresciam e se adensavam mais esses ajuntamentos, nas praias e cais. E todos exclamavam, apreensivos e surpresos:

— Era o Lima I que ia largar. Com semelhante tempo, forte temeridade! Mas por que o prático consentia em tal? Aquilo não era decerto do pobre homem, mas do capitão João Esteves, o estupor do “galego” minhoto, que não tinha nervos nem alma. E com a mulher a bordo, o desgraçado! Só visto, porque contado ninguém acreditava. Ele, porém, quando se lhe metia uma ideia no casco, não havia quem lha arrancasse mais. Ou ia, ou rachava! Sempre teimoso que nem um bode, e afoito que nem o diabo. Mas não lhe andassem lá com “chetas”, em coisas de náutica. O “pé de chumbo” não queria saber de conselhos, não se submetia a coisa alguma nem a ninguém. E era feliz, o temerário, pois nunca lhe sucedia uma rascada, um desastre. Mas também marinheiro como só ele, marinheiro às direitas, de quatro costados. Entrementes, ele que não facilitasse muito, porque lá rezava o ditado: “andar no mar, andar a enterrar”. Não se fiasse, não se fiasse demais! Um dia o mundo acabava e, o demônio fosse surdo! podia bem ser daquela vez, e naquele patacho, que não era pior do que um peixe, o raio. Aquilo, num momento de azar, enfiava na vaga, “adormecia” e não voltava mais: e lá ficavam todos no “charco”... Muito tento e preceito, muito tento e preceito, senhor capitão João Esteves, que a Lagoa não está para graças!...

E continuavam a olhar o navio, com interesse e curiosidade.

Destacava-se, entre todos, no grupo dos marujos desembarcados que ali andavam à gandaia e ao léu gozando boemiamente as soldadas de três ou quatro meses de mar, o Mateus Sabrosa, velho marinheiro transmontano, de barba em colar, olhos verdes pequeninos, maliciosos e chasqueantes, metido sempre a improvisador e humorista, comediante e alcoólico, pessimista e má-língua, pornográfico e sensual, apesar da senectude que lhe vergava já o largo dorso de atleta e lhe nevava os cabelos e barbas. O Sabrosa trazia perenemente engatilhada nos lábios uma pilhéria ou uma chalaça, em prosa ou verso, da própria lavra ou de outrem, que desfechava, a propósito de tudo e de todos, no momento oportuno. Quer a bordo, quer em terra, era por isso muito querido dos companheiros, que mantinha em contínua hilaridade com as suas cantigas, os seus “ditos” ou piadas. Todos o ouviam com grande gáudio, e pediam-lhe mesmo: “ó Sabrosa, venha de lá uma trova, uma larachita”, para alegrar cá a alminha! E agora, por entre trejeitos e pinchos, numa declamação truanesca, começava o velho a soltar, perfidamente, uma das “suas”, em alusão ao capitão João Esteves, que aliás conhecia desde piloto, tendo com ele viajado alguns anos para a Índia e para a Oceania. Eram quadras de uma antiga peça teatral portuguesa, a tragicomédia O Capitão Valentia:

CAPITÃO  
No meio do mar cavado
Eu rolei noites e dias,
E nunca me deu cuidado
A fúria das ventanias.

CORO DOS OFICIAIS DE RÉ  
E nunca me deu cuidado
A fúria das ventanias.

UM VELHO GAJEIRO
A fúria das ventanias
Nunca a ti te deu cuidado,
Porque tu sempre vivias
No teu beliche deitado.

CORO DE MARINHEIROS 
Porque tu sempre vivias
No teu beliche deitado...

A marujada ociosa ria-se a perder, rusticamente, a grandes gargalhadas. Saboreava assim, mais por chulice, vadiagem e desfastio que por outra coisa, a, mesmo em troça, injusta e descabida aplicação daqueles versos ao capitão João Esteves, então um dos maiores marinheiros mercantes que conheceu o Brasil e mestre, como poucos, na navegação das costas do sul. E essa chusma sem barco, vivendo, naqueles dias de repouso, unicamente para o amor livre da Mulher e para as suavidades amplas e sem perigos de terra, já meio “alegrete” de certo, pelas contínuas libações nas tascas ou ship-chandlers próximos, festejava com alarido as facécias grotescas do velho:

— Olha que esta é de se tomar barrigadas! E veio bem a calhar... Mais um bocado, ó Sabrosa; só um bocadito... Anda lá, homem! Olha que o dia, hoje, é pra isto...

E o bom do velhote embarcadiço, já tão babado de álcool como de satisfação e vaidade por se ver assim aplaudido, redobrou de momices e saltos; e, batendo castanholas com os dedos, voltou a recitar os mesmos versos, numa declamação ainda mais exagerada e ridícula que a primeira...

À popa e à proa, a bordo dos outros barcos, capitães, pilotos, contramestres e marinhagem, fixando também atentamente o patacho, tinham os mesmos comentários que os de terra para aquela saída. E até o comandante da barra do Rio Grande, o segundo-tenente Manoel Moreira da Silva, cuja bravura e perícia náuticas não eram, então, muito comuns ali, como em todo o Brasil, e que lhe valeram, juntas às inauditas e numerosas façanhas sempre por ele praticadas nas ondas a todo instante e com todo o tempo, a expressiva e bem cabida alcunha de Manoel, Diabo; até o comandante da barra, no alto da sua atalaia, de binóculo aos olhos — um magnífico binóculo que lhe fora dado pela rainha Vitória, como prêmio às grandes salvações no mar — seguia minuciosamente, sem desviar um momento a vista, a “loucura varrida” do seu amigo e colega João Esteves, a levantar ferro sob um tal pampeiro, um tal furacão. E achava, agora, bastante desavisado e irrefletido o tão experiente e íntegro capitão do Lima I. Augurava mal, muito mal, daquela saída para Porto Alegre em semelhantes condições.

Navio da carreira entre o Recife e a capital rio-grandense, esse patacho de duzentas e cinquenta toneladas, de fundo de prato e duas toldas, era uma espécie de paquete à vela, empregado em conduzir passageiros e cargas de uma para outra dessas duas cidades provincianas, nesse tempo em que eram ainda raros, em águas brasileiras, os paquetes a vapor. As suas viagens redondas duravam de dois a três meses, segundo as épocas e monções favoráveis. Dispunha de vasto porão para mercadorias e de uma câmara alegre e confortável, bem disposta, bem iluminada e arejada, lembrando, mais ou menos, o salão e mais dependências que têm, hoje, os pequenos vapores costeiros. A câmara, pintada a branco, com filetes azuis e ouro nos embutidos e almofadas, ficava sob o tombadilho, balaustrado em toda a volta da popa: apresentava uma fila de largas vigias circulares às amuradas, e uma extensa gaiuta envidraçada, aberta de vante à ré no teto, protegida por delgados varões de cobre reluzente, e deitando para o salto. O seu porte e tonelagem eram maiores que comumente os dos patachos de então. Alongado, asseteado, esguio, de grande pontal e bordas altas, tinha as entradas e saídas de água magníficas. Compunha-lhe harmoniosamente o conjunto uma grande elegância de linhas. De velas soltas, ao longe, parecia um albatroz, um grande pássaro do mar. E, tal qual um albatroz, sentia-se tão bem sob as bonanças e carinhos do Oceano, como sob as suas tempestades e cóleras. Novo, cortador de água e de bom pé, era de fina proa alterosa, de onde se debruçava para as ondas uma Sereia alegórica, em colossal escultura de pinho, à enora quadrangular do gurupés, Sereia que, apesar da sua feminilidade rígida, insensível, de pau, e da sua dúbia forma extravagante e mítica de mulher e peixe ao mesmo tempo, despertava, às vezes, em dados instantes, quando contemplada de repente, um certo enternecimento e impressão sensual nos marujos, pelo seu túrgido colo virginal, todo nu e tentador, branquejando voluptuosamente sob a ondulosa e esparsa cabeleira verde gaio. Velejando a qualquer vento, dir-se-ia um galgo estranho das vagas, tal a galopada da sua marcha. Fora propositalmente construído para os rijos ventos e mares do sul do Brasil. Reunia condições de navegabilidade verdadeiramente sem iguais, nessa época, entre os navios da sua espécie. Aguentava todo o tempo, todo o pano, todo o mar. Governava quase com a exatidão de um pêndulo. E esta era, decerto, uma das suas melhores qualidades. Enfim, o Lima I, modelo de construção naval mercante, era um “barco de cima de mesa ou de redoma”, como se usa dizer no mar das embarcações muito estéticas: e, com esse conjunto de perfeições, não havia, talvez, em toda a América do Sul, navio de pequena ou grande cabotagem que se lhe pudesse comparar...

Mas o tling-tling do bolinete continuava ainda a cantar, mais espaçado e moroso agora, porque as amarras estavam tesas, portando por todo o peso do ferro. O vento soprava já com tanta intensidade e tão cavado mar, dando tamanhos empuxões ao casco, que todos, até o próprio capitão, se admiravam de que o barco não começasse ainda agarrar. E, temendo ou prevendo isto, o contramestre, que estava com dois homens em cima do castelo, ao lado do turco onde tinha de ser içada a âncora, apenas ficasse a pique, gritava à gente do bolinete:

— Vira, chusma; vira com vontade. Vivo, mais vivo!

Sob estas palavras que, a bordo, quando a faina é violenta e de safa-rascada e com o perigo aos olhos, assumem sempre proporções e poderes de chicotadas, de aguilhoadas ou de ordens à pena última, os marinheiros deram grande impulso às manivelas do bolinete, e este ganhou um correr de voltas rápidas, seguidas, mas para recair logo na lentidão em que ia pouco antes, devido à força do vento do mar.

Com efeito, a impetuosidade do pampeiro parecia recrudescer de momento a momento. O horizonte estreitava-se cada vez mais. No céu os bulcões de nuvens moviam-se em espirais vertiginosas, em pastas torvas e negras. De vez em quando fuzis abriam-se instantaneamente, em sulferinos ziguezagues trágicos. Trovões estouravam. A chuva, descendo em rajadas, era um dilúvio. O patacho jogava como um berço vazio, rangendo e zangaleando de popa à proa, pelos moitões, cordoalha e mastros. A ventania desfeita, passando nos finos cabos dos mastaréus, fazia uma zoeira lúgubre, gemente, de casuarinas em ciclones. As perspectivas cerraram. Não se avistava mais a casaria de São José do Norte senão por minúsculos e quase indistintos fragmentos, como um alto de oitão ou terraço, uma linha reta de cimalha, um pano em pendor de telhado, uma abóbada de torre de igreja, ou uma claraboia refletindo fantasticamente o relâmpago, — tudo isso surgindo através os rasgões momentâneos e aéreos da névoa que se abria, aqui, ali, sob as cordas enviesadas das incessantes, furiosas bátegas de água.

No entanto, o capitão João Esteves permanecia na sua resolução de partida. Embalde os seus velhos amigos Luís Clapp e Zé Bom, que iam a Porto Alegre a negócio, e eram, com o alemão Carlos Schmidt e a filha, a Ema — sem falar em D. Júlia, a esposa do comandante — os únicos passageiros que levava o navio nessa viagem, porque em geral ninguém queria arriscar-se às fúrias do inverno do sul, preferindo sempre viajar no verão, em que o tempo era seguro; embalde essas pessoas tinham instado com ele para que adiasse a partida por mais um dia ou dois. O capitão não acedera porém, alegando que não era possível, não podia...

Pouco antes, ao amanhecer, quando ele surgira na tolda a dar as primeiras ordens para se levantar ferro, o prático Gil Coelho, um velho rio-grandense de setenta anos mas ainda lépido e robusto, antigo e experimentado patrão de iate, conhecedor de toda a navegação e bibocas da Lagoa desde menino, correu ao seu encontro, a ponderar-lhe que não suspendesse com um tempo daqueles, porque, já agora, lhe não atrasaria uma demora de mais dois ou três dias. E acrescentara, fixando com os seus olhos pequeninos e argutos o “carrascão” do horizonte, no terceiro quadrante:

— Capitão, repare bem que este tempo é de aguentar. Isto vai-se parar de arrepiar o cabelo. Eu conheço o que são estes “pampeiros sujos” aqui dentro, onde não há mar largo para correr. Nós, se sairmos assim mesmo, vamos ficar mas é aí no meio da Lagoa. Ouça bem o que lhe digo: vamos ficar aí no meio da Lagoa...

O capitão João Esteves, posto que homem normalmente delicado e brando, não tolerava nunca, de boa cara, observações de quem quer que fosse, e muito menos de profissionais como ele, sobre o seu navio, a sua arte, as coisas de seu comando. E não obstante a navegação do patacho dever achar-se, dali por diante até Porto Alegre, sob a inteira responsabilidade do prático, acudiu logo, já um tanto insofrido e carrancudo:

— Ora deixe-se disso, sor Coelho! Pois você quer dizer-me o que é mar, a mim, que me nasceram os dentes a bordo?! Era o que faltava! Uma destas não lembraria a ninguém, só a você! Lições de “estopeiro”? Ora essa! Sim, senhor! É de benzer-se a gente três vezes... Se quer levar o navio até Porto Alegre, muito que bem; se não, levo-o eu... Mas antes disso, fique sabendo de uma coisa: meto-o no bote de bordo e mando-o jogar ali assim, no lameiro... Você sabe que não preciso de prático para nada. E se eles ainda me entram pelo portaló, é por causa da Capitania, do seguro do casco e do carregamento. Se não, nunca! Isso é gente que muita satisfação me daria se eu pudesse enforcá-la, toda, ali ao lais do traquete... E, reparando que se estava a exceder com o pobre velho, concluiu a sorrir: ― Mas venha cá, sor Coelho. Diga-me cá com franqueza: então isto é tempo de meter medo a ninguém? Ora vamo-nos embora, que o vento é todo da popa, do Estreito para o norte... Depois o navio é seguro... E vale a pena jogar este lance, mesmo que os aguaceiros aguentem...

João Esteves Várzea, mais conhecido pelo capitão João Esteves, era um homem de alta estatura, espadaúdo, musculoso. Estava, nessa época, em plena posse de todo o seu vigor, de todo o seu desenvolvimento físico. Contava apenas quarenta e dois anos de idade. Uma saúde de atleta, poderosa, exuberante, unida a tudo isso, fazia dele um bom espécimen de homem e um dos melhores, mais característicos tipos de leão do mar que se conheciam, então, na cabotagem e no longo curso. Era português e filho do Minho, da aldeia de Souto Fiscal ou de São João de Longos Vales, perto da antiga praça forte de Monção, já à fronteira da Galícia, província de Espanha. Tinha o rosto comprido mas cheio, com um nariz aquilino, proeminente, muito acentuado. Os olhos, castanhos escuros, com vagas manchazinhas verdes na íris — de certo um atavismo físico dos Celtas, de quem o minhoto conserva ainda alguns traços remotos — não eram grandes, nem alongados, porém um pouco redondos, expressivos, de uma forte e extensa visão, lembrando os das grandes aves de alto voo e possança, como a águia, o condor. A cabeça, dolicocéfala, muito bem desenhada nos contornos, de cabelos sedosos e não muito densos, sempre trazidos à meia escovinha, evocava de repente a dum imperador romano. Tinha a fronte ampla, elevada. Era inteligente e mais ou menos culto. Em menino, frequentara primeiro uma escola régia rural, depois um colégio de cidade, e por fim um seminário. Aí estava a ponto de receber ordens menores, quando uma rixa com um camarada e uma insurreição a vias de fato contra um reitor violento e brutal, lhe valeram uma expulsão. Certo de que à volta ao lar o esperava uma tremenda coça de pau, pois conhecia muito bem o pai, resolveu fugir para o Porto, à aventura, ao Deus dará, ao acaso, e abraçar a vida do mar. Embarcou numa galera inglesa que ia para Canadá, a Killarney, a qual lembrava o célebre lago azul da Irlanda que O’Connel e Parnell amavam. Sofreu todos os martírios do meninote embarcadiço, o verdadeiro boy, sob a tirania e as agruras inenarráveis da vida de bordo, nos antigos veleiros britânicos. O piloto da galera, um gigante de músculos insuplantáveis, cara escarlate e cabelos de sol, epiléptico e alcoólico, a princípio quase o matara a pancadas. E assim todos, o capitão como a dura marinhagem intratável. Mas, ao meio da viagem, tudo isso começara a suavizar-se, ante a sua extraordinária intrepidez e aptidão náuticas. Em pouco, pois, soube fazer-se homem, viajar todo o globo e tornar-se um marinheiro notável. Quando lhe veio o buço, encontrou-o já piloto de carta geral e conhecedor de todos os mares. Começou então a rapar toda a barba, que ele próprio escanhoava todas as manhãs, conservando apenas umas patillas, à moda do tempo, densas e crespas, terminando ao lóbulo inferior das orelhas. A boca, a bem dizer sem lábios, era muito rasgada. Estava aí, talvez, o principal característico desse homem, justificando bem o seu temperamento afirmativo, calmo, corajoso, obcecado às vezes por uma ideia qualquer, de uma teimosia violenta, invencível... Depois, o sentimento da disciplina no trabalho, da retidão no dever, da obediência aos chefes, apesar de qualidade própria de todo o bom marinheiro, assumia nele proporções de uma hipertrofia, de uma nevrose. Assim, quando lhe parecia que uma demora demasiada o retinha inativo, e que tal demora podia prejudicar os interesses a que servia, punha em todas as deliberações uma solicitude e impaciência extremas, não medindo, nunca, para as levar a efeito, nem o perigo, nem o sacrifício da própria vida. Por isso, investia agora com a tormenta desfeita, sem atender a coisa alguma, a ninguém. Investiria contra a própria Divindade, se ela pudesse ter uma representação individual no mundo contingente e quisesse, acaso, impedir-lhe os desígnios, e, sobretudo, o daquele momento. Ia pois partir, porque já perdera cinco dias — três, lá fora, no oceano, por causa da barra grossa; e dois ali, em São José do Norte, à espera do vento favorável. Não podia, portanto, estar mais a aguardar boa monção. Boa monção era aquela, era o sudoeste, embora de “carranca” e de arrancar tudo.

E, metido na sua longa capa e botas de borracha, de pé no tombadilho, junto ao homem do leme, logo que o ferro veio a pique, mandou largar velas rasteiras — bujarrona, polaca, traquete e vela grande. Apenas o patacho fez cabeça, aproando ao noroeste, com amura de estibordo e vento largo, e entrou mesmo no rumo — arrancou para vante com tal ímpeto que ameaçou dar um tombo, afundar, soçobrar. Tudo, a bordo, estalou e vibrou tão violenta e tumultuosamente, sob as vagas embatendo e rebentando às bochechas de proa, galgando o castelo e atravessando-o de lado a lado, carregando o que apanhava na sua crista espumosa, no meio de balanços brutais, ao fulgurar dos fuzis e ao ribombar dos trovões, — que a esposa do capitão, e mais o Luiz Clapp e o Zé Bom, não obstante o aguaceiro furioso, a agitação febril e atroadora das manobras, surgiram de repente no tombadilho, pálidos de emoção e pavor...

Mas o Lima I já ia a todo o seguimento do seu galope de alado parelheiro do Mar. Rompia e saltava airosamente as ondas, envolvido, assaltado, fustigado braviamente pelo pampeiro.

Moços e marinheiros, sentados ao castelo ou de pé num recanto das amuradas, ao bordo de barlavento, encolhidos e trêmulos de frio, nas suas já alagadas japonas de oleado, os olhos amorosos e nostálgicos, ora fixando a larga esteira do navio, ondulando na direção de São José do Norte, ora os vagalhões de vendaval, cantavam pressagamente, numa melopeia lenta e triste:

Seu capitão, este mar
Não é pra gente correr:
Nós podemos naufragar,
Podemos, todos, morrer...

Ao descobrir a esposa e os outros no cimo da escada do salto, o capitão João Esteves, deixando o prático ao cata-vento, onde se achava também o piloto, correu para eles, e, fazendo-os retroceder à câmara, entrou a dizer-lhes, muito sereno e risonho:

— Mas que é isto, meus amigos? Coragem! O tempo não é ainda de meter medo. Este vento e este mar devem amainar dentro em pouco. Vencida a boca do rio São Gonçalo e montada a ponta de Cabuçu, a corrida é quase à popa. E à popa, lá diz o rifão, “todos os Santos ajudam”. Amanhã pela manhã, estaremos talvez em Porto Alegre...

Tomou a esposa pela mão, por causa do grande jogo do navio, e encaminhou-se com ela e os dois passageiros para o salão de ré, cujas vigias de vidro estavam corridas à chuva e ao marouço espumante. Aí acomodaram-se os quatro, nas cadeiras girantes de uma das mesas e nos sofás das amuradas, a bombordo. E o João Esteves, sentado ao lado da esposa, entrou a caçoar meigamente:

— Ora até você aterrada, senhora Júlia?! Até você, filha de marinheiros e velha navegadora, com três viagens ao Prata e uma ao Estados Unidos!...

Ela, ainda pálida do grande susto experimentado, e não de todo tranquila com os trancos em que rolava o navio, num temporal que jamais vira igual na Lagoa dos Patos, depois que para ali viajava com o marido, havia três anos — retorquia a sorrir:

— Pudera não, Esteves! Você sabe, muito bem, que isto aqui é pior que lá fora, no oceano, onde, ao menos, em último caso, há recurso de correr com o tempo. Mas nesta Lagoa, apertada e cheia de bancos, em que é preciso procurar-se o canal, quer esteja o tempo em bonança quer em tormenta como agora, é um perigo, um horror! E você conhece isso melhor que ninguém... Mas põe-se a gracejar, com sentido de nos ocultar a verdade e ver se esquecemos o pampeiro. Se assim fosse, ainda bem, era uma felicidade... Entretanto, olhe o que lhe disse o prático antes de suspendermos, ele que nasceu nestas águas e é velho marinheiro... Só você mesmo podia sair com este tempo de São José do Norte! Só você que, às vezes, fica como um louco, diante dum imprevisto, e não se teme de nada, nem mesmo de Deus!... Depois, teimoso como ninguém, teimoso a mais não poder... E, dirigindo-se ao Clapp e ao Zé Bom: ― O Esteves, meus senhores, quando tem um intento qualquer e surge um embaraço repentino, inesperado, fortuito, quer levar tudo de roldão, à valentona e à força. Não atende a conselhos, a nada... Nem a mim própria, que sou sua mulher! Nessas ocasiões, as coisas, para ele, só se podem resolver de uma só maneira, por um “vai ou racha” tremendo. E esta “balda” lhe é muito conhecida. Não há companheiro que lhe não note isso, dizendo que um dia ele há de arrepender-se... Mas não se emenda este homem! Cada vez faz pior, bem pior... Todo o meu medo é que lhe não aconteça, de repente, um desastre. E se já lhe não sucedeu ainda algum, é porque tem “boa estrela”. Boa estrela como poucos, creiam! E é o que lhe vale... Um dia, porém, a sorte pode mudar... Deus permita que não... Mas olhem o que já diziam os antigos: “Quem brinca com o Mar, pode, se afogar...”

O capitão, cheio de grande jovialidade e meiguice, porque, quanto tinha de lobo para o mar, tanto tinha também de cordeiro para a esposa — são sempre assim os fortes! — caçoava ainda:

— Ora não diga isso, senhora Júlia! Este mar, se não é propriamente um “mar de rosas”, é pelo menos um “mar em flor”, que quer dizer a mesma coisa... Sou um teimoso e um louco, é verdade, mas um teimoso e um louco pelo dever, pelo lar... Entretanto, que me lembre, nunca tive uma “teima” com você, nem nunca pratiquei “loucura” alguma, hein? Fique tranquila, amanhã havemos de fundear em Porto Alegre, sem a menor novidade.

Ela ainda ajuntou, risonha:

— Que Deus assim o queira, Esteves, e que Nossa Senhora também nos ajude!...

Doutora Júlia era catarinense, filha de Canasvieiras, lindo lugarejo marítimo da ilha de Santa Catarina, pousado entre alcantis alterosos, verdes planícies e risonhos montes, pastagens e matas, entre alvuras castas de praias e a vastidão murmurosa de um mar azul, infindável. Contava então vinte quatro anos. Tinha o rosto oval e cheio, a pele branca, rósea, acetinada, apesar de levemente tocada de sardas. Os seus olhos castanhos, pequenos e vivos, externavam uma constante expressão de doçura, ao mesmo tempo que uma certa altivez senhoril. A boca, de lábios estreitos, era curta e bem carminada, de belos dentes claros. Usava os cabelos, negros e densos, em graciosos bandós sobre as têmporas, as orelhas, conforme àquele tempo se usava. O conjunto da sua fisionomia, se bem que sem linhas estéticas supremas, tinha um encanto natural — a beleza simples, primitiva, das filhas de beira-mar ou das camponesas. Forte, planturosa, sadia, de estatura regular, era de uma elegância simples, espontânea, atraente. Vestia-se com modéstia e sobriedade, mas com um certo quê artístico. As suas toaletes eram sempre confeccionadas no Rio de janeiro ou em Buenos Aires, pelas contínuas viagens que fazia a essas grandes capitais. E ninguém descobriria jamais, nela, mesmo nos momentos de descuido insopitável em que um temperamento se revela tal qual é, apesar da disciplina e cultura sociais, a rusticidade, o enleio, o desalinho de movimentos e atitudes, de ademanes e gestos, que têm em geral as roceiras. E, diante do seu cativante desembaraço, da sua conversação agradável e fluente, revelando um espírito claro e vivaz, da sua palavra variada e colorida, desenhando bem os assuntos, devido, talvez, à vida multicor, cosmopolita, de bordo, e às suas constantes viagens— ninguém, muito menos, a julgaria uma filha dos campos ou das praias, criada no meio isolado, acanhado e rude das fazendas. Seu pai era o major Luiz Alves de Brito, conhecido chefe político, senhor de engenho e senhor de escravos, em Canasvieiras e em todo o norte da ilha de Santa Catarina. No seu vasto casarão de quinta, erguido no alto de colina, entre os famosos laranjais e cafezais da Rua Velha, esse opulento fazendeiro recebia, constantemente, os personagens mais altos da administração e da política da província. Famílias e famílias da capital passavam dias, semanas, meses, nesses deliciosos e pitorescos domínios. E, por ocasião das grandes safras agrícolas, essa espécie de solar campestre regurgitava mais festivamente de moços e moças, tornava-se um verdadeiro palácio encantado, em que as cavalgatas por montes e vales e as excursões marítimas às risonhas ilhas próximas, durante o dia, bem como os jogos e danças, à noite, traziam em ruidosos esplendores e júbilos todo o sítio e circunvizinhanças. Fora por ocasião de uma dessas memoráveis festas anuais, havia cinco anos, que o capitão João Esteves casara com doutora Júlia, então uma das filhas mais novas desse fazendeiro. O capitão, cujo barco, como muitos outros, ia frequentemente a Canasvieiras tomar carregamento de farinha para o norte do Brasil, era um velho conviva da casa, pois a frequentava desde os dezoito anos, quando aí aportara, pela primeira vez, como piloto de uma polaca portuguesa — a Estrela, que, procedente do Porto, arribara do alto mar, de água aberta, e ficara a desfazer-se lentamente na praia, bem em frente ao rio do Meio. Doutora Júlia era então uma galantíssima pequerrucha de meses, e o jovem marítimo, amigo de crianças, muitas vezes a pegara ao colo. Meses após sua chegada, esposara ele uma mocinha do lugar, a Chiquinha Andrade, que falecera quinze anos depois, deixando-lhe dois filhos rapazes — o João (que andava a bordo, como praticante) e o Maneco (agora caixeiro do Zé Bom, em Pernambuco). Nesses quinze anos de primeiras núpcias, o João Esteves, sempre que ia a Canasvieiras, procurava afetuosamente a casa do major Luiz Alves, onde era assíduo com a Chiquinha, durante a estadia do navio no porto. Viúvo, ainda se tornara mais íntimo dessa gente, e fazendo a corte a doutora Júlia, a quem votava verdadeiro amor, três anos passados, esposava-a, na mesma igrejinha da freguesia onde se unira à Chiquinha. Logo na primeira semana do casamento. doutora Júlia saíra a viajar com o marido, volvendo, de tempos a tempos, a Canasvieiras, quando ali ia carregar o barco. Tinha já três filhos — o João, a Julinha e o Virgílio — todos três com diferença de um ano uns dos outros: os rapazes, nascidos na Rua Velha, na fazenda do major Luiz Alves; a menina, no Rio de Janeiro, um dos pontos principais de escala do navio. Essas três crianças, que viajavam sempre com Da. Júlia e o esposo, haviam ficado, desta vez, com os avós, porque a varíola estava fazendo grande mortandade no Rio Grande do Sul. Mas doutora Júlia é que não deixava nunca de acompanhar o marido, não só pela grande dedicação que lhe votava, como pela sua predileção às viagens e à vida de bordo, arriscada e cheia de emoções, sim, mas sempre esplêndida e sugestiva. Nos seus quatro anos de mar era esta, verdadeiramente, a primeira vez que se via na horrorosa situação de um naufrágio iminente...

Mas a conversação entre o comandante, a esposa e os dois passageiros, sobre a tremenda borrasca e a segurança do navio em momento tão crítico, prosseguia animadíssima, esforçando-se João Esteves por tranquilizar a todos com a sua admirável coragem e presença de espírito...

Enquanto assim confabulavam os quatro, apareceu, na câmara, vindo do lado dos camarotes, a Ema Schmidt, a quem doutora Júlia convidou logo, carinhosamente, a sentar-se ao seu lado. O capitão e os dois pernambucanos perguntaram então à mocinha como ia seu pai, retido, como sempre, no camarote, porque era paralítico. Uma ou outra vez, com bom tempo e mar chão, é que ele passava alguns momentos na tolda ou no salão, conduzido por dois marinheiros, na própria poltrona em que jazia.

Ema era ainda uma menina. Tinha apenas quinze anos. O seu desenvolvimento, porém, era o de uma perfeita moça. Alta, esbelta, delgada, encantava pela sua ingênua, natural simplicidade. Era clara, de pele fina e rosada, olhos grandes, azuis, de um azul límpido e virginal. Os cabelos, densos e louros, de um louro seco de feno maduro, molduravam-lhe, como uma auréola de sol, o lindo rosto oval, estético e loução, dessa estética e louçania que têm as raças europeias do norte, e que tanto fascinavam os meridionais. Uns dentes esplêndidos sublimavam de graça e frescura a sua boca pequenina, bem feita, inefável. Era inteligente e bem educada, de uma afabilidade meiga e discreta para com todos. Embora procedente de pais alemães, era brasileira e rio-grandense, pois nascera na antiga colônia de São Leopoldo, onde o pai era professor de humanidades e jornalista. Voltava agora, com ele, de uma viagem ao Recife, onde tinha ido visitar uma irmã mais velha e batizar-lhe o primeiro filho. Tivera a desgraça de perder sua mãe aos oito anos, e logo depois ver seu pai paralítico para sempre. Dedicara-se exclusivamente a esse venerando enfermo, apenas sua irmã casara e deixara São Leopoldo. Era para ele, pois, que vivia presentemente, reclusa do mundo, numa serena e melancólica soledade. Por esse lado, ainda, mais dignamente cativava e se impunha a todos os que a conheciam.

Naquele dia, era a primeira vez que Ema vinha à câmara, mesmo porque aí não aparecia senão à hora das refeições ou quando acompanhava o pai até a tolda. E ali se encontrava agora pela razão de estar próxima a hora do almoço geral a bordo e ter de falar ao despenseiro para fazê-lo servir, primeiro, ao pai, como sempre sucedia. Fora por isso que doutora Júlia a chamara para ao pé de si, pedindo ao marido que mandasse aquele empregado do navio preparar o almoço para o doente. E enquanto isso se fazia, entrou a palrar, afetuosamente, com Ema.

O capitão João Esteves saiu então para o convés, a dar as suas ordens ao despenseiro, ao mesmo tempo que o Clapp e o Zé Bom, esquecidos por instantes da borrasca, recolhiam ao camarote a preparar-se para o almoço.

Nesse momento vinha descendo o salto, direito ao salão de ré, o João Várzea Júnior, praticante do navio, que estivera de quarto com o piloto até aquela hora. Trazia o sueste acachapado sobre a nuca e longo casaco de pano amarelo oleado, impermeável, deixando após si, por onde passava, já no enxuto da coberta que antecedia a câmara, pegadas negras e úmidas, e grossas poças de água, que manchavam destacantemente o asseio imaculado das tábuas. Da porta, enquanto se detinha a esfregar e secar as solas das botas no capacho, viu a linda Ema a conversar com a madrasta. Tinha de atravessar todo o salão para ir ao seu camarote, mas vacilava, com o rosto subitamente afogueado, no seu habitual acanhamento, a refletir se devia dirigir-se resolutamente à moça, e saudá-la, se aguardar que ela se retirasse, para não parecer que, sabedor da sua presença ali, descera propositalmente àquele encontro. Sim, porque no seu natural embaraço diante de moças, ficava sempre, na presença desta, num enleio incomparável, por lhe haver ela inspirado casualmente a primeira simpatia, a primeira impressão de amor. Fora isso logo ao começo da viagem, ainda no porto do Recife, quando ela chegara a bordo com o pai. Enquanto ambos permaneceram na tolda até o patacho fazer-se ao mar, ele, enlevado pela doce beleza setentrional dessa mocinha e pelos seus modos símplices e meigos, de uma ingenuidade cativante, quedou-se a olhá-la e admirá-la muito tempo, de longe, quase sem ser visto, num recanto solitário dos balaústres. Ema não o notara quase, muito menos sob qualquer impressão de simpatia ou afeto, razão pela qual ele pudera, tanto e tão livremente, contemplá-la então. Daí por diante, só se viam ao almoço e ao jantar, isto mesmo nem sempre, porque ele, às vezes, justamente a tais horas, estava de quarto e não podia baixar à câmara senão muito mais tarde. Desde o dia da saída de Pernambuco até aquele momento — e já levavam vinte dois dias de viagem — poucas vezes ela pousara nele os seus lindos olhos azuis, ainda assim mais geralmente quando se saudavam, na cortesia comum do primeiro encontro diário. Ema, no entanto, embora se mostrasse aparentemente despercebida à simpatia, ou começo de paixão, que lhe votava o rapaz, no íntimo, contudo, o percebera já. Mas, contrariamente ao que em regra sucede às jovens nascidas e medradas sob os flamantes climas intertropicais, nessas femininas organizações norte-europeias ou boreais, o amor, raramente ou nunca, surge de repente, fácil e espontâneo, ao primeiro olhar ou ao primeiro sorriso trocado entre duas almas, sobretudo na adolescência, quando a Mulher oscila entre menina e moça, não tendo ainda preocupações imperiosas firmes, definidas, sobre a sua vida e o seu futuro destino: o amor só vem então lentamente, insensivelmente, sem precipitações ou prematuridades, no tempo próprio, quando a admirável compleição feminina atinge inteiramente a sua plena evolução orgânica e se abre, então, virginal e em flor, com encantos irresistíveis e mágicos, para a Graça e para a Fecundidade. Era este, decerto, o caso desta formosa teuto-brasileira. Por isso tratava sempre ao rapaz, não propriamente com indiferença, mas com o desprendimento natural, ingênuo, por que o fazia a todos. Ele também, por sua vez, tímido e acanhado como era, nunca se lhe revelou de modo claro, decisivo. Depois do dia em que a conhecera pela primeira vez, olhava-a sempre vagamente, fugidiamente, às furtadelas, com receio de que o seu afeto viesse a ser percebido pelos outros e desvendado flagrantemente por ela própria. Por forma alguma desejaria que a inspiradora dessa paixão a pudesse perceber assim de chofre, claramente, abertamente. Sofria com isso, é certo, mas era o seu temperamento, a sua maneira psíquica, a sua nevrose. Poderia morrer, embora! mas dificilmente sairia daquilo, a não ser levado pela necessidade de um desfecho urgente e rápido, que via por enquanto impossível, pois não consultara, ainda, a respeito, seu pai, nem tampouco podia ainda constituir família...

Mas doutora Júlia, com a admirável e genial perspicácia do seu sexo em tais assuntos, notara, em pouco, a viva afeição do enteado pela bela e loira Ema. E conhecendo o gênio esquisito e recluso do rapaz, vendo-o suspiroso e melancólico como nunca, resolveu, em momento próprio, falar a respeito à moça. Contudo, ainda o não fizera até ali, em virtude do ar quase impenetrável de Ema, discreta sempre, puritana em extremo, não se detendo ao seu lado senão momentaneamente, mostrando-se sempre apressada, tímida, fugidia. Entretanto, avistando agora o enteado, de pé à porta da câmara, julgou chegado o instante oportuno e lançou-lhe um rápido olhar expressivo, como convidando-o a entrar sem detença. E, arrebatando, habilmente, o ensejo exclamou a sorrir:

— Então você não vem falar à Ema, menino? Ora deixe-se de acanhamento. Que tolice! Isto, num moço como você, não se explica. Os moços são para as moças... Faça-se, pois, estimável, gentil...

A tais palavras, o rapaz não mais hesitou: transpôs imediatamente a porta e veio apertar a mão da moça, mas tão tímida e acanhadamente que mal pôde murmurar, muito baixo:

— Bom dia, Ema!

A menina, tudo compreendendo, fez-se muito escarlate. Mas erguendo graciosamente para ele os seus doces olhos azuis, estendeu-lhe a mão e disse, com um vago sorriso à boca pequenina e bem feita:

— Bom dia, senhor praticante!

E reatou a conversação com doutora Júlia, enquanto ele, pedindo vênia a ambas, se dirigia ao seu camarote, entre jubiloso e “enfiado” pela surpresa que lhe armara de repente a madrasta, desejosa de o ver bem correspondido e feliz no seu primeiro amor de rapaz...

Às onze horas da manhã, depois do almoço, andando o patacho cinco ou seis milhas por hora, passava à boca do rio São Gonçalo e, logo após, montava a ponta de Canguçu. Aí, na virada para leste, acompanhando as sinuosidades do canal, todo ladeado de bancos, onde a rebentação era tremenda, o Lima I embarcou dois vagalhões que o iam pondo a pique. E a sua salvação, como a de todos, foi vir ao leme o próprio capitão João Esteves, que não confiava em ninguém, senão em si mesmo, quando havia manobras que demandavam perícia e grande precisão. Felizmente, um tal risco de naufrágio durou apenas segundos.

No entanto, o mar castigava o navio de través e os balanços eram tão insuportáveis que a mastreação, o massame ameaçavam ruir. Foi preciso então que o chefe marujo mandasse largar outras velas, sendo também necessário, para os homens de quarto se moverem em cima, no convés, lançar-se um cabo de vaivém de popa à proa, do contrário todos seriam levados, borda fora, às ondas.

Os aguaceiros continuavam furiosos. O vento, os fuzis, os trovões não tinham a menor intermitência, — pareciam cada vez mais sinistros. A cerração só deixava clara a zona limitada ao convés, ao casco, deitados ou inclinados medonhamente, a bombordo, sob o poder irresistível do rebojo no pano. O capitão, o piloto, o prático e o praticante tinham-se amarrado aos balaústres de estibordo para poderem manter-se no tombadilho, tanto como os dois marinheiros do leme que, às vezes, para virar duas ou três malaguetas à roda, haviam de pôr um dos pés no cilindro onde se fixavam os gualdropes, e agachar-se quase ao chão. À proa, a maruja de quarto em cima tiritava, abrigada à larga “casaca de pau” do castelo, salmodiando modorrentamente, varada pela invernia intensa e pela viva nostalgia do sol:

Por que tardas, sol de inverno,
Em aquecer, qual costumas,
Este ar gélido do inferno
E desfazer estas brumas?!

Às amuradas, só se viam os vigias que não paravam na sua atenta e constante espreitação às águas, buzinando pelo porta-voz para que qualquer embarcação não viesse abalroar, de repente, o Lima I. A desolação aumentava, sob a nenhuma esperança de que o tempo, em pouco, amainasse. Depois os rumores de bordo, casados aos do vento e das ondas, formavam uma orquestra tristíssima, que desalentava os corações, como a executar sinfonias de exéquias à luz fria e pardacenta do dia, sob a alta nave do céu torvo e cheio de bulcões. A cordoalha retesa zunia tetricamente, à maneira dos bordões de uma harpa colossal feridos por mãos de gigante — zom-zoôm!... zom-zoôm!... As vergas, mastros, escotas e bordas rangiam e zangaleavam, por sua vez, metricamente, no furor dos balanços, em monótona e pressaga cantilena — ráh-curráh!... ram-currham!...

E o navio rolava, na formidável dança macabra em que o levava o pampeiro, em meio à fúria das vagas.

Um dos vigias que, agarrado ao estai da bujarrona estava de pé sobre o gurupés, justamente no ponto de interseção deste com o castelo, de onde ele sai a encravar-se no convés, entre a roda-de-proa — muito ancho, nas suas roupas de lã, tendo por fora a japona amarela de pano oleado, cantava, numa toada rude e nostálgica, fixando muito a crista elevada das ondas, através do úmido e espesso véu de bruma que fechava o horizonte:

Ó vagas de temporal,
No vosso furor insano,
Não caveis o nosso mal
Nas profundas do Oceano!

O Lima I chegava, agora, à parte do canal designada Estreito, em frente à povoação do mesmo nome. Era uma hora da tarde. Aí, os vagalhões, vergastados pelo vento, numa zona toda rasa e só profunda na delgada fita do canal, elevavam-se e atiravam-se, ainda mais furiosamente que até aquele ponto da viagem. Eram amplas, extensíssimas franjas efervescentes de espuma, de seis a dez metros de altura, sucedendo-se, umas às outras, quase sem pausa ou jazigo, alagando o navio, batendo-o pelo través... O jogo continuava formidável.

À saída do Estreito, o capitão deu a popa ao vento e ao mar, rumando ao nordeste, com proa a rachar a ponta do Bojuru. Então mandou largar velacho-alto, porque, numa corrida à popa, “todos os santos ajudavam”, dizia o ditado. Mas, infelizmente, não era assim com o temporal desfeito que reinava, um temporal como de nenhum outro igual se tinha notícia, no Rio Grande do Sul, havia muitos anos. Aquilo não era verdadeiramente uma corrida à popa, porém uma corrida com o tempo. O patacho não andava, voava! Quando o piloto deitava a barquinha, logo quatorze ou quinze “nós” lhe ficavam nas mãos. Era um pensamento! Aquela singradura não tinha nada de uma marcha a cortar água, e água cavada e em flor, pois mais parecia uma desfilada de veado ou de galgo, numa livre e extensa planície! Carregado como estava, o barco, no seguimento vertiginoso em que ia, ameaçava, às vezes, adormecer sob os escarcéus furibundos, quebrando, de quando em quando, fragorosamente, por sobre o espelho da popa. Os dois homens do leme, como o capitão e oficiais, amarrados rijamente, a voltas de cabo, nos pontos onde se achavam, quase nadavam, asfixiados no marouço espumante — invadindo, varrendo, inundando tudo, com invencível furor.

Alguns da marinhagem que já haviam tirado a primeira roupa molhada, estendiam-na debaixo do castelo, para secar ao vento. E como aí era enxuto, abrigado, e o mar não alagava ainda, esquecidos por instantes dos escarcéus e dos raios, naquela pequena ocupação, saudosos já do bom tempo e do sol, solfejavam a pulmão largo:

Vento em popa, vento em popa,
Sem o bom sol a brilhar,
Enxuga bem esta roupa
Mas não a jogues ao mar!

E como um contraste a esse canto, lá fora, no alto do mesmo castelo que o mar agora castigava menos, agarrado ao estai da bujarrona, e firme como uma estátua, sob o aguaceiro contínuo jorrando do céu e escorrendo-lhe pelo sueste, pela japona e pelas calças de oleado — um dos vigias, espreitando incessantemente as águas em torno, continuava a cantar, monotonamente, com a voz já rouca e arrastada:

Ó vagas de temporal,
No vosso furor insano,
Não caveis o nosso mal
Nas profundas do Oceano!

No entanto, pela força do vento e do mar, pela indicação do barômetro, via-se claramente que a borrasca tendia a engrossar, ainda mais, para a noite.

O velho prático rio-grandense, ele próprio, que, podia dizer-se, estava nos seus domínios, mas que nunca presenciara em sua vida tempestade igual — quando o rolo estourante das vagas passava e podia respirar mais livremente, voltava-se para o capitão e exclamava:

— Então, não lhe dizia, capitão João Esteves? O tempo está de aguentar, de arrepiar o cabelo... Nós vamos mas é ficar para aí, no meio da Lagoa. E então?! Agora é que se está vendo, se era ou não de atender-se a minha prevenção, ao meu receio... Isto, se continuar, vamos todos a pique, aqui em pleno canal; ou o mar nos enrola e desfaz, sobre qualquer destes bancos... E, muito humilde e súplice, porque sabia que de outro modo não conseguiria convencer o leão que tinha pela frente, propunha: ― Capitão, vamos arribar ao Bojuru. Conheço aí um ponto regular, a estibordo, onde há fundo para o navio e ele poderá aguentar bem a dois ferros: fica logo depois da ponta do Estreito, a três milhas do Capão do Meio... Afrontar este tempo, só por um capricho, uma teimosia, como estamos fazendo, já não é mais temeridade, é loucura! Quem tal prática não tem amor à própria vida e arrisca até a dos que lhe foram confiados... Arribemos ao Bojuru, capitão! Doutora Júlia está aflita, os passageiros também... Além disso, vai aqui um enfermo, unicamente acompanhado pela filha, uma menina de quinze anos... É uma obra de caridade, um descanso pra todos. Depois a companha já está que não pode... Diga que sim, capitão! Diga que sim, por quem é!...

Mas o bravíssimo marinheiro minhoto permanecia impassível. Na sua teimosia inata, constitucional, orgânica, no seu denodo inexcedível para o mar, no seu sangue frio inaudito, não atendia a coisa alguma, a ninguém. O seu fito único, arrancando de São José do Norte com um pampeiro assim, era fundear em Porto Alegre no outro dia, cedo — mais nada. Homem que levava sempre o cumprimento do dever até os últimos limites, achava que a viagem do navio já estava assaz delongada e que o proprietário, os carregadores, iam ter com isso, talvez, grandes prejuízos. E repetia ao prático:

— Ora deixe-se disse, sor Coelho! Verdade, verdade, o tempo não está para graças. O pampeiro cala rijo, de minuto a minuto. O mar ferve como só de Cabos a dentro, ou como no Mar do Norte e na Biscaia, no inverno... Contudo, não é ainda para se “ir a pique, aqui no meio da Lagoa, ou ser envolvido e desfeito sobre um destes bancos”, como diz você. Ainda há recursos para se fugir disso. Há a ancoragem em qualquer embate da costa, como você lembra; há o acachapamento da mastreação, para segurar mais o casco e evitar os balanços perigosos; há a corrida em árvore seca, caso este demônio não possa mais com o pano; e há, enfim, o embicamento ou encalhe, na praia mais próxima, para salvação de todos... Já vê que estou prevenido, atento a tudo, e que tenho amor à minha vida e à daqueles que me foram confiados... Realmente, porém, quando levantamos ferro de São José do Norte, ninguém diria que o tempo viria a chegar ao que está... Contava eu que desse e cessasse logo, como as mais das vezes sucede... Mas o raio, desta feita, enganou-me. Caiu com vontade, e cada vez vai a mais. E ameaça calar ainda com maiores borrifos para a tarde, para a noite... Pelo que se está vendo, deve ter causado muitos danos e sinistros por aí fora... Felizmente, temo-lo aguentado muito bem até aqui, e só agora é que as vagas começam a invadir-nos com mais violência... Por enquanto, porém, não aceito o seu alvitre, porque vou tentar mais um esforço, a ver se, com a marcha em que vamos, podemos montar a ponta de Cristóvão Pereira, pelas quatro da tarde. Daí por diante — pode o tempo dar à vontade — estão passados os grandes bancos, está passada a rebentação de temer— e lá se foi o maior risco... E, mais gigantesco agora, nas suas vestes de borracha, pesadas e alagadas pelos aguaceiros, imperativo e poderoso, inspirando a mais profunda confiança a todos os comandados, absolutamente íntegro na sua profissão, de uma coragem e calma inteiriças, excepcionais, imperturbáveis, concluiu, a sorrir, a fitar o prático ironicamente, com um brilho de triunfo nos grandes olhos de águia: ― Tentemos, pois, montar a ponta de Cristóvão Pereira! E se o tempo continuar, como está ou pior, arribaremos então. Esse é um bom ponto para se demandar Porto Alegre, logo que o vento amaine...

O prático concordou, posto que ainda desconfiado, apreensivo com o pampeiro, porém sem ânimo algum para rebater a lógica do grande marinheiro, que só por desmedida audácia e consumada perícia náuticas continuava a afrontar aquela horrível tormenta, conhecendo melhor que ninguém o perigo em que se achava com todos os que levava a bordo.

Todavia, era certo que, se lograsse alcançar a ponta de Cristóvão Pereira sem que a borrasca intenseasse mais, o navio achar-se-ia, senão de todo a salvamento, ao menos em condições de tomar para leste e arribar ao saco daquele nome, abrigado inteiramente dos ventos do segundo e terceiro quadrantes. Além disso, daí por diante, com efeito, conforme dizia o capitão João Esteves, acabavam os grandes bancos de oeste que quase atravessavam a Lagoa de uma margem à outra, como o do Quilombo, o de Dª. Maria e dos Tapes e o dos Desertores — e então a viagem se tornaria menos arriscada até Itapoã. Desse local para cima, no Guaíba, podia dizer-se que era um singrar em lago manso, comparado como do ponto em que estavam. A questão suprema, porém, era que a tempestade abrandasse.

Nesse instante, o patacho pairava a duas ou três milhas ao sul do Capão do Meio, na parte mais estreita do imenso pontal ou península arenosa que, correndo na direção nordeste-sudoeste, fecha a Lagoa dos Patos, por oriente, até a Barra, separando as suas águas limitadas e rasas das águas sem fundo e sem fim do Oceano.

Um enorme bando de gaivotas, que aumentava e se adensava mais e mais, a cada momento, rompeu de repente o nevoeiro, grasnando e voando, em círculos contínuos, em torno às velas e mastros do Lima I. Impelidas pelo furor do temporal que devia bramar lá fora, no Atlântico, com irresistível inclemência, arrasando e desolando tudo na costa, elas tinham vindo — aladas e graciosas povoadoras do Mar, sempre tão queridas dos marujos! — abrigar-se, decerto, nos recessos remansosos das praias interiores desse pequeno Mediterrâneo brasileiro. E a súbita presença ali desses pássaros marinhos, atenuando um pouco, com os seus gritos agudíssimos, os flá-chuáhs! fló-chuóhs! rítmicos das ondas batendo no costado e borrifando o tombadilho, como o seguido e monótono sibilar da ventania, nas suas notas graves e lúgubres — zom-zôóm! Zom zoôm! e o chiar ininterrupto e rijo dos aguaceiros nas velas e convés— chló-chloóhs! Chló-chioóhs! — veio espalhar, por todo o barco, uma vaga animação e alegria. Todos, em cima, olhavam as gaivotas com satisfação e enlevo, acompanhando-as nos seus caprichosos volteios, na música áspera e selvagem dos seus procelosos gritos.

Embaixo, na câmara, que se conservava de portas, vigias e vidros da meia laranja fechados, só se respirava pelas quatro largas persianas que deitavam para a tolda, porque o vagalhão inundava o convés, onde se precipitava em cachões, escoando lentamente pelos embornais de ambos os bordos. Justamente no recanto de sofás almofadados e cobertos de capas brancas de linho onde se abriam essas janelas retangulares, estavam outra vez reunidos, desde que o navio transpusera o Estreito, a senhora do capitão, o Luiz Clapp e o Zé Bom. Conversavam ainda sobre a procela, que parecia não querer mais amainar, e estariam ainda muito apreensivos e obcecados nisso, se não fora o aparecimento das gaivotas que, como havia sucedido aos oficiais e marinheiros, lhes trouxera também uma certa distração e prazer. Cada um dos três tinha-se postado a uma das vigias circulares das amuradas; e, apesar do embaciado dos vidros, por onde a chuva escorria e uma ou outra mareta desmontada roçava às vezes a sua grande crista espumosa, distinguiam-se perfeitamente as gaivotas, passando e repassando, em círculos, de asa aberta no ar, da esquerda para a direita, contra o eixo do vento, na estreita clareira que o denso nevoeiro deixava, aberta, em torno ao navio.

Mas doutora Júlia e os dois passageiros aguardavam com ansiedade que o comandante descesse do tombadilho, para se informarem sobre o estado do tempo e as possíveis probabilidades de bonança. E pensavam que ele não podia demorar-se muito, por faltar apenas um quarto para as três e os criados estarem já a pôr a mesa do jantar.

Efetivamente, daí a momentos, a porta de estibordo se abria e, com a cortante rajada de vento álgido úmido que entrou, apareceu o capitão João Esteves. Vinha sereno como sempre, não obstante lhe passarem já pelo espírito, iluminando-o de uma luz sinistra, que felizmente era instantânea como um meteoro, vagos relâmpagos de superstição e presságio sobre o bom êxito e felicidade do resto da viagem até Porto Alegre. Desde o começo ninguém, a bordo, se mostrara favorável à saída do patacho com semelhante tempo: ao contrário, todos se haviam oposto a isso terminantemente. Até o próprio prático, velho e experimentadíssimo marinheiro, único responsável, perante as leis marítimas, pela navegação de barra a dentro, logo que pisava o tombadilho de uma embarcação qualquer — até o próprio prático se opusera, veementemente, a uma tal partida. Só ele, João Esteves, teimoso e inflexível nas suas resoluções, fiado no seu valor e na sua boa estrela, fechara ouvidos a todos, depondo o prático da sua investidura ao cata-vento. Só ele, senhor supremo, espécie de Tzar marujo, que o era de fato para tudo a bordo, à exceção da praticagem em si mesma, constituindo função inteiramente à parte, a qual só lhe cabia fiscalizar, porém sem modificação ou intervenção teórica ou prática, sob pena de chamá-la a si em total responsabilidade; só ele, enfim, temerário e decidido, ousava investir com tamanho pampeiro. Mas se estava já acostumado a tantas dessas, e com os melhores resultados! Costume era costume, fazia lei... Queira Deus, porém, não tivesse de arrepender-se desta vez!...

Assim meditava o capitão João Esteves, enquanto esfregava e enxugava as grossas solas das botas de borracha no espesso capacho da entrada da câmara. Como entretanto a esposa e, principalmente, os seus dois amigos o fixavam com olhos expressivos e cheios de ansiedade, para saberem como ia o tempo e se prometia melhorar, esboçou um sorriso e caminhou para eles, numa aparente satisfação, murmurando:

— Então ainda todos aqui neste cantinho?! Contudo, um pouco mais tranquilos já, embora tenham aumentado de algum modo os balanços e os vagalhões. Mas tudo isto vai cessar, dentro em breve. Chegando à ponta de Cristóvão Pereira, ou prosseguimos na viagem, se o tempo aguentar sempre assim, ou, em caso contrário, tentaremos uma arribada, fundeando na enseada ali existente. Felizmente, tem fundo de prato este Lima I. Em qualquer lugar ou biboca da costa, ficará muito bem. Não continuem, pois, a pensar em maior contratempo... E voltando-se para a esposa: ― E você, senhora Júlia, já lhe passaram de todo as apreensões, os sustos, os medos? ou ainda está como uma marinheira de primeira viagem?... E, curvando-se um pouco e pousando-lhe carinhosamente a mão sobre as espáduas, dirigiu-se de novo ao Clapp e ao Zé Bom: ― Cá a minha “capitoa”, desta vez fraquejou...

Doutora Júlia volveu então, muito risonha e tranquila, porque, com o esposo ao seu lado, lhe parecia que todo o perigo cessava, como por encanto:

— Fraquejei, é verdade. Não admira, entretanto, porque sou uma mulher. Mas o nosso velho prático, o Sr. Coelho?! Esse, sim! esse é que é para admirar! Agora, no que você não pode deixar de concordar, é que há muitos anos não se vê, nestas águas, um temporal como este...

O capitão João Esteves erguera-se, pedindo licença aos dois passageiros para ir ao camarote mudar de roupa, “pois andara lá acima a nadar no marouço”. Doutora Júlia acompanhou-o. E, daí a pouco, volviam ambos à câmara, onde o Clapp e o companheiro conversavam ainda, já um tanto animados pelas palavras do capitão.

O relógio do salão batera três horas. O despenseiro, à porta da câmara, tocava a campainha para o jantar. E as sonorosíssimas tilintadas metálicas rompendo e dominando, um instante, o clamor da tormenta, ecoavam festivamente por todo o navio, levantando as almas.

O comandante sentou-se logo à cabeceira da mesa de estibordo, tendo à esquerda a esposa e, a seguir-se, os dois passageiros. Minutos depois chegavam de cima, do tombadilho, o piloto e o praticante, abancando ambos ao outro extremo da mesa, conforme a disciplina de bordo, após informarem ao capitão que tudo, lá fora, ia no mesmo. O prático estava agora ao cata-vento.

Apenas chegara ao salão e relanceara o olhar em torno, o jovem João Esteves Júnior teve uma contrariedade, por não encontrar à mesa a formosa e loura Ema. Supunha, porém, que ela tardava, ocupada ainda com o pai paralítico. E olhava ansiosamente o estreito corredor dos camarotes, que vinha dar ao salão. Mas já se servira a sopa, e Ema não aparecia.

Doutora Júlia, percebendo o desconsolo do enteado e conhecendo-lhe a causa, chamou o despenseiro ordenando fosse participar à menina Ema que o jantar estava na mesa. Porém, mal acabara de falar, o homem declarou-lhe que a mocinha não podia sair do camarim, porque o pai estava a passar mal desde o almoço, com o grande jogo do navio, e, por isso, mandara servir-lhe o jantar no camarim. A tal resposta, D. Júlia lançou um doce olhar expressivo ao rapaz, como a aconselhar-lhe resignação e paciência, por aquela vez.

Ele, coitado, numa decepção e num desânimo, baixou os olhos melancolicamente, a meditar, apreensivo e nervoso, sobre qual viria a ser, na verdade, o desfecho desse seu grande amor, ainda tão em começo e mal correspondido já. Às vezes, enquanto esperava o criado lhe servisse um novo prato, erguia os grandes olhos negros, cheios de uma luz nostálgica, e punha-se a seguir, docemente, através o grosso vidro da vigia que lhe ficava fronteira, o branco voo circular das gaivotas. E, desatento de tudo, só pensando em Ema, murmurava de si para si, como embalando intimamente as suas mágoas, a quadra de uma cantiga que dizia:

Como tu tardas em vir
A este encontro de amor,
De que o teu e o meu porvir
Dependem, mimosa flor!

O mar, os aguaceiros, a trovoada aumentaram ainda, durante o jantar. Endureceu mais o vento, de pleno sudoeste. Havia, de quando em quando, um torvelinhar surdo e vago de coisas no tombadilho: eram as ondas que, às vezes, à menor guinada, apesar de todo cuidado no leme, embarcavam pelo través, pela alheta, espraiando à proa em monstruosos rolos de espuma. De meia nau para vante, no convés, a gente andava toda alagada, ensopada, enterrada na água até o pescoço, nadando, boiando, mergulhando, quando Deus queria, agarrada a pulso ao cabo de vaivém, como se já fosse, de fato, náufraga, e só lhe restasse uma tábua, um cabo, para salvação, e temesse, desesperançada, alucinada, perdida, a arrastassem, para sempre, ao abismo, as horrendas serras de água bramantes. O castelo era o único ponto de bordo, não falando no arvoredo, em que, mesmo nas caturradas mais tremendas, a vaga não lograva chegar, inundante e compacta, na sua força gigantesca, mas, sim, por borrifadas e cusparadas violentas, cujas orlas subiam, em bruma tenuíssima, até meio traquete, enquanto o núcleo das suas coroas caíam logo, com a fúria de mangas de água ou tresdobrados aguaceiros, já sem ímpetos, contudo, para arrebatar objetos e homens, nas volutas frementes.

Fundo de prato e pontaludo o navio rolava, atirava-se, ora a um bordo, ora a outro, agachava-se, rastejava-se, enterrava-se nos fossos fundos das ondas, ou erguia-se, investia, saltava no dorso alto das roladoras coxilhas marinhas, como um estranho cabrito sobre uma movediça, infindável, penedia em cabaços.

No salão da câmara, o despenseiro e os criados, para poderem manter-se de pé e servirem as pessoas, agarravam-se às anteparas, às mesas, aos sofás, às cadeiras e aos esguios pés-de-carneiro, que suportavam a longa aberta da meia laranja e todo o tombadilho. Os porta cálices de madeira recortada e envernizada, girando nos sensíveis eixos de metal amarelo rutilante, faziam um tim-tim-tim de cristais entrechocando-se e quase batiam no teto, aos balanços, com a sua leve bordadura bizarra de bibelôs chineses. Na mesa, tendo sobreposta à toalha a artística quadrícula de sarrafos lustrados, toda repartida em escaninhos que fixavam e prendiam os pratos e mais peças dos aparelhos de louça aos seus competentes lugares por ocasião de mau tempo, tudo dançava e tinia como nunca— talheres, copos, garrafas, pratos...

Quando, no meio dos balanços em geral, vinha um mais terrível, como sucede sempre a bordo, durante as borrascas, D. Júlia involuntariamente amparava-se à mesa, e murmurava, toda nervosa:

— Nossa Senhora, Esteves! Parece que isto vai cada vez pior! Que horror de balanços! Nunca jogou assim este Lima I!...

O Clapp e o companheiro, outra vez impressionados com o tempo, no terror de um sinistro iminente, avivado agora pelas exclamações de doutora Júlia, senhora aliás viajada e habituada ao mar, filha e mulher de marinheiros, repetiram a uma:

— É verdade, capitão, parece que isto vai cada vez a pior!...

O grande chefe marujo, fazendo rodar vivamente com as mãos, na toalha, a argola de prata do guardanapo, conforme o seu hábito nos intervalos dos pratos, fixou-os um instante e respondeu a sorrir:

— Isto é coisa que vai passar já, não tem a menor importância... É que estamos a montar a ponta de Cristóvão Pereira. E, neste ponto, como em todos os cabos, devido à vizinhança de terra e à menor profundidade, o mar estoura sempre mais forte, com mais deslocação. No entanto, daqui por diante até Porto Alegre, mesmo com este tempo, não há muito perigo. Na marcha em que vamos, se acaso não surgirem transtornos, antes de meia-noite, estaremos em Itapoã...

Mas vendo que a tempestade parecia chegar ao seu maior auge, demorou-se ainda à mesa, a entretê-los com algumas curiosas e interessantes narrações de passadas viagens, feitas a vários pontos do Globo, sob temporais como aquele ou piores, as quais todavia haviam sempre findado sem novidade e a salvamento.

Nisto, o praticante, que subira momentos antes com o piloto, entrou esbaforido, a dizer-lhe:

— O prático mandou-o chamar lá em cima, já e já. O mar e o vento estão cada vez mais desfeitos. As rajadas levam tudo pelos ares. Agora mesmo, vela grande abriu-se contra o mastro e na amura. O navio governa mal, às guinadas, desviando-se às vezes do rumo. Não aguenta o velame largo que leva. É preciso meter pano dentro, e quanto antes, para evitar alguma...

Ao ouvir tais palavras, o capitão João Esteves, que agia sempre no perigo com presteza e perícia, ergueu-se de um salto, investiu para o convés inundado da chuva e das vagas, e galgou de ímpeto uma das pequenas escadas que levavam ao tombadilho. Do catavento, onde se conservava amarrado, apenas o viu surgir ali e encaminhar-se para a popa, o prático falou-lhe, quase suplicante:

— Capitão, ninguém aguenta mais isto. Nem o navio... O vento, como vê, é de levar tudo e vai crescendo sempre para a noite. Agora dá de rajadas medonhas, infernais. O vagalhão, nas culapadas, alaga a tolda qual enchente. E aguaceiros que parecem um dilúvio. Trovões e relâmpagos ameaçando mar e céus. A maruja não tem parado, a trabalhar sem repouso desde as 6 da manhã. Já se não pode com tal faina. É mais uma loucura que outra coisa. E olhe para a esteira, olhe para esta corrida. Vai-se botando por aí vinte milhas. Mais, talvez. Está-se com pouco pano, e este mesmo, já o casco mal pode com ele. Ainda há pouco, quando uma grande vaga embarcou, o patacho chegou a adormecer um minuto. Pensei que íamos a pique, o que aliás não está longe. Veja se há quilha nenhuma que se aguenta num jogo como este. Nem um cabrito montês. Estamos aqui, estamos fazendo fundo portaló. Não podemos continuar a afrontar este tempo, capitão! Se insistirmos, vamos ficar, para sempre aí no meio da Lagoa. Não lhe aviso mais, porque o senhor não faz caso e vive a teimar, a zombar do que eu digo. Prometeu arribar a Cristóvão Pereira, se a tormenta se parasse mal; no entanto Cristóvão Pereira já lá vai para trás uma milha, e já temos São Simão ao gurupés. E que é da arribada? Nem viste! Prosseguir, porém, nesta viagem é buscar pelas próprias mãos o naufrágio, a more. E que doidice varrida, além do mais! Por quem é, arribemos, capitão João Esteves! Arribemos à primeira praia... São Simão é muito bom para isso... E salvamos este casco, e todas estas vidas!... Vamos para São Simão, pela Virgem Santíssima!...

João Esteves, já de pé ao cata-vento, observando perfeitamente, agora, contra toda a sua expectativa, que o furacão atingia a suprema desenvoltura e extremo furor, com o semblante glabro e enérgico já meio carregado, a boca sem beiços marcada apenas por um traço rubro arqueado, e os olhos de águia fuzilando, extinta de todo a jovialidade em que viera até ali, gritou-lhe na sua voz vigorosa e troante:

— Tá! tá! tá! sor Coelho, que não temos tempo a perder. Sabe que detesto os poltrões. Poltrões, comigo, é ali assim, pendurados pelo pescoço ao lais de uma verga... Parece que você nunca apanhou um temporal. Quem anda no mar sujeita-se a tudo. Não resta dúvida que vamos agora num ciclone desfeito, de arrasar tudo... Mas que se há de fazer? É aguentá-lo, e aguentá-lo a pé firme. Não há outro remédio... Arribar, nestas alturas, é que não! Ninguém agora me faria arribar, nem o próprio Jesus! Com mil milhões de raios! este navio ou vai, como até aqui, em seguro e salvamento, ou será o nosso esquife! Arribar, isso nunca!... E rompeu em manobras:

— Piloto, bote a barquinha! A barquinha, quanto antes! Quero ver o seguimento do navio... Olhe alguém pra safar a barquinha...

E, enquanto o piloto corria a cumprir as suas ordens, bradava ao contramestre e à gente de quarto em cima:

— Chega à vela grande! Carrega, ferra! Olha essa retranca que não leve alguém borda fora... Cuidado!... Pega nas obras do velacho alto... Ala braços, ala de largo!... Velacho baixo nos rizes, em terceiros... Deixar no que está o traquete, a rabeca, a bujarrona...

Aos homens do governo berrava:

— Leme a meio... Sentido com as guinadas!... E olho vivo com a vaga, que não embarque pelo través, pela alheta!...

E voltando-se para o piloto:

— Já botou a barquinha? Quantas milhas, hein?... Quantas?...

— Dezenove.

— Botou bem a barquinha? Ora torne a botar... Verifique...

O piloto tornou a deitar a barquinha, e dezenove “nós” lhe ficaram nas mãos outra vez. Colhida a sondareza, o capitão, que se conservava voltado para ele, perguntou-lhe de novo:

— Então, quantas?...

— Dezenove.

— As mesmas dezenove?!...

— Sim.

— Escassas ou largas?

— Pelos nós, justas...

— Com os diabos! nunca pensei... isto já não é correr, é voar! Está melhor que um vapor este Lima I...

O vento, entretanto, calava mais duro de minuto a minuto. Era um tempo de fazer tremer. Apesar de todo o cuidado no leme, ninguém aguentava as guinadas. Uma ou duas malaquetas voltadas sem querer, para um bordo ou para outro, era uma arribada ou orçada de duas e três quartas e mais. O governo era péssimo; os aguaceiros, com trovões e relâmpagos incessantes — medonhos. O casco saltava furiosa, desordenadamente, como uma casca de noz num turbilhão. E o mar sempre a crescer, espumoso e bramante.

O prático, que vinha subindo da câmara onde fora tomar café e conhaque, para aguentar o regelamento da constante molhadura das roupas e da temperatura muito baixa, mal chegara junto ao cata-vento e olhara o resultado das últimas manobras, exclamara:

— Muito bem tudo assim, capitão João Esteves, mas se o tempo não passar do que está, aliás, insuportável já para qualquer navio... Senão fora este Lima I, já não estaríamos mais vivos, creia! Ainda assim, ele não poderá aguentar muito tempo com este pano que leva... Que esperança, não pode aguentar muito tempo! E o senhor sabe disso melhor do que eu, capitão! O barco não aguenta, não aguenta... isto é tufão pra se correr em “árvore seca”, e com tal violência que o leme pode vir a faltar, se não houver muito cuidado... Era bom ter-se pronta uma “esparrela” e a lancha ou o escaler safos, para o que der e vier... Sim, porque se o leme de repente faltar — tchungum! — lá vamos nós ao fundão, para sempre!...

— Qual esparrela, nem escaler, nem fundão para sempre!... Havemos de ver... Você o que está é com medo... Depois de velho, isso há de lhe ficar muito bem, sim senhor!... De mais a mais, você nunca foi marinheiro... E se o tem sido é de água doce, de lagoa, de barra a dentro... Marinheiro de alto mar, de oceano, isso é que nunca! Está-se vendo, está-se bem vendo... Você o que é um “asa negra” — o “asa negra” desta viagem levada de mil raios!... Comigo é que você nunca mais embarcará, está entendendo?... Pode benzer-se, nunca mais embarcará!... Esta é a última vez... Agouro a bordo, e a bordo de navio do meu mando, passa fora! — vá pras caldeiras de Pedro Botelho!...

Mas o tempo era “negro” com efeito. E ninguém o conhecia melhor que o capitão João Esteves, que já mandara carregar e ferrar o próprio velacho baixo, metendo o traquete nos rizes, para que o vento os não rompesse de súbito e quando menos se esperasse. Todo o velame do patacho era, agora, unicamente o traquete em terceiros e bujarrona. E ele, vendo que aquilo era mesmo uma corrida com o tempo, ou uma corrida em “árvore seca”, não largou mais o cata-vento, com o olhar, ora nos vagalhões montanhosos, a invadirem tudo pela popa, à meia-nau; ora no equilíbrio da mastreação e nos balanços desordenados. E abanava com o braço, a dizer, de momento a momento, para o homem do leme:

— Uma, duas malaguetas, a estibordo... Duas, três malaguetas, a bombordo... Assim!... Deixe ir assim, que vai bem...

E a tormenta a crescer, a crescer estranhamente, como num cataclismo geológico das primeiras idades.

Doutora Júlia, que a princípio se quedara pálida e estatelada na sua cadeira, à mesa, lá embaixo, no salão da câmara, ante a atitude azafamada e aflita do enteado, a chamar urgentemente o pai para acudir ao tombadilho, onde a instância inadiável de manobras salvadoras reclamava a presença dele, — doutora Júlia, mal voltara a si dessa emoção, percebendo o grave risco em que estava agora o navio, correu para o camarote e, mandando acender velas de cera à imagem da Senhora dos Navegantes, que trazia num pequeno nicho dourado, sobre o largo beliche de palixandre, pôs-se de joelhos, a orar. Os dois passageiros pernambucanos, percebendo igualmente que o momento crítico chegara, refugiaram-se num recanto dos sofás, contra as amuradas, de onde os balanços não poderiam arrancá-los: e aí ficaram em silêncio, o ouvido atento aos menores ruídos de bordo, o olhar ansioso, investigando todos os escaninhos da câmara, lívidos e trêmulos, num profundo pavor...

Súbito, num pegão do vento e num desencontro de jogo que o patacho sofrera inesperadamente, a verga do sobre, rebentando a boca do lobo, os amantilhos, tudo, e presa unicamente pelos braços, desabou, por entre vante do bolinete, com medonho fragor. Foi então, por todo o convés e tombadilho, como no interior da câmara, um pânico, uma balbúrdia, uma confusão de mil demônios. Parecia que todo “arvoredo” vinha abaixo.

Os homens do leme e os de proa, julgando o navio houvesse batido sobre um dos bancos, e estivesse já a afundar-se, gritaram:

— Misericórdia! Misericórdia! Valha-nos a milagrosa Senhora dos Navegantes!...

Mas o capitão João Esteves, logo notando fora a verga do sobre que ruíra, e que a causa disso eram o imenso pendor que levava o navio e a grande guinada não prevista, ao momento, pelos homens do leme, jogou-se do cata-vento, num admirável salto de funâmbulos e, antes de dar remédio pronto ao caso, voou avante, até à beira do tombadilho, inquirindo vivamente:

— Há alguém ferido, ou morto?!...

Ao que os vigias e os de quarto em cima responderam prestos:

— Não! Ninguém, capitão! Foi a verga do sobre que arrebentou e caiu...

O capitão, tornou, como repreensivo:

— Ainda bem! Mas então para que esses gritos? Para que invocar, antes de tempo, a providência? Ainda não é desta, gente... O navio é seguro. Isto também não vai assim da primeira. Este é o último banco. Passado ele, não há quase perigo. O que é preciso, porém, camaradas, é muita calma e sentido, porque, sem isso, podemos ver-nos de repente perdidos...

E chamou pelo contramestre:

Sor Joaquim!

— Pronto, capitão!

— Corra lá à proa. Mande safar aquilo, quanto antes. Desenvergue o pano. Até a verga contra a amurada, junto ao castelo. Recolha a vela, braços, amantilhos. Agora é impossível repor nada no lugar: fica para depois... E distribua nova ração de aguardente à maruja, para a animar e a aquecer...

Entretanto a singradura tornava-se vertiginosa. A velocidade da marcha parecia incrível, o pendor cada vez maior... Guinadas constantes punham tudo em grande risco. A intensidade do vento já não tinha limites. Aguaceiros e trovões, em torvelinho... E montanhas de mar, desmontadas e de tal ordem que, apesar da vela lançada de rastros, pela popa, nas águas, para quebrar a violência das ondas, o tombadilho e o convés eram invadidos e inundados de instante a instante.

Assim, e só puxando pelo pano de proa, com o velacho baixo ferrado, o Lima I afogava-se horrivelmente, de vez em quando, metendo maretas por cima do castelo, ameaçando partir o pau de giba e deslocar o gurupés, que se conservavam ainda nos lugares como por milagre. As caturradas e culapadas paravam-se formidáveis. Os balanços de bombordo a estibordo atingiam, agora, tal furor e gravidade, que o barco chegava a adornar, ora a um lado ora a outro, a ponto de enterrar toda a borda falsa na vaga, à meia-nau. E mesmo adormecia, às vezes, um minuto e mais, pondo em desolação e inteiro risco de naufrágio marinhagem e casco, ao mesmo tempo que fazia empalidecer de desespero e cólera impotentes, o fleumático capitão João Esteves.

Colossal, atlético na sua longa e larga capa de borracha, era ele, sem dúvida, o primeiro vulto, o primeiro personagem do tombadilho; e, com o belo rosto queimado do sol, grandemente viril, animado, iluminado pela bravura e integridade profissionais, diante da borrasca, chegada, ao instante, à sua maior intensidade — tinha um todo à parte, estranho, extraordinário, soberbo, entre os demais marujos. Este simpático e notável homem do mar, além da sua teimosia inata, do seu arrojo inusitado e indomável, possuía uma singularidade que o levaria fatalmente à desgraça ou à morte, se não fora a sua boa estrela. Tornava-se sempre de incomparável violência e fúria, contra tudo e contra todos, quando chegava a reconhecer a importância do seu gênio, da sua perícia, da sua habilidade técnica, da sua força moral e física, para vencer um embaraço, uma impossibilidade, embora impostos pelos elementos em sublevação, ou pela Natureza revoltada e inelutável. Por isso, já ditador por temperamento e sobranceria própria, pelo velho hábito de comando e domínio hierárquico, e, mais certo, pela investidura suprema que tinha na vida de bordo e que confere aos chefes poderes absolutos, discricionários sobre subordinados e passageiros — assumira, agora, uma atitude altiva, inacessível, fulminadora e soberana de verdadeiro Tzar do Oceano. Ninguém ousava, em tais momentos, fazer-lhe a mínima observação, por mais justa que parecesse e do modo mais humilde e brando, nem mesmo o prático, que, na parte estritamente relativa à navegação, era tão soberano quanto ele, pois que arcava sozinho com a responsabilidade das ocorrências náuticas até a ancoragem do navio no porto de destino, não obstante, durante a sua gestão a bordo, ter de pedir sempre, primeiro, vênia ao capitão, para pôr em prática os seus atos.

Assim o prático, o piloto e o praticante andavam só de largo no tombadilho, muito atentos a tudo, aguardando ordens, sem murmurar palavra, no temor de se aproximarem do capitão João Esteves, que não largava o cata-vento nem um minuto, dominando o patacho e o mar em todas as suas minúcias, fotograficamente, sem lhe escapar coisa alguma, com o seu imenso olhar investigador, iniludível, de águia do Oceano...

Entretanto as gaivotas, cada vez mais numerosas, acompanhavam ainda o navio nos seus incessantes pairos circulares e na sua grazinação contínua, lembrando bem, então, o melancólico e interrogativo estribilho da velha canção marítima:

Brancas gaivotas, que voais
Por entre os mastros e velas,
Como podeis ou ousais
Romper tamanhas procelas?

Nesse instante, o sudoeste chegava a uma fúria assombrosa. O nevoeiro, espessíssimo, de se “cortar a faca”, como dizem os marujos, parecia tecido de sucessivas e infindas camadas de algodão em rama, de cor amarelo cinzenta, como se houvesse andado a rolar longamente no pó. Trovões e relâmpagos estouravam e fulgiam por todos os quadrantes, como canhões numa batalha, iluminando, de vez em quando, tudo, com o seu trágico clarão sulferino, correndo no ar em zigue-zagues fantásticos. As bátegas de água caíam com violência nunca vista. Bramiam furiosamente os vagalhões, rolando em monstruosas colinas de espuma, atirando o navio em grandes solavancos e pinchos, quando o não cobriam de jorros e turbilhões salitrosos, que pareciam a explosão de vulcões submarinos. Sentia-se que o casco, com a imensa guinda e pendor do arvoredo, podia, de um momento para outro, desarvorar e submergir-se. Era uma situação extrema, amargurada, tristíssima, sem apelo para coisa alguma, senão para a Providência Divina, no isolamento e desolação da tormenta; situação como sói oferecer o amplo e mobilíssimo teatro marinho, onde os cenários de pavor e de assombro se sucedem, de minuto a minuto, numa profusão inesgotável, sem repetição possível, como as imagens satânicas de um caleidoscópio dantesco, manejado vertiginosamente por uma força apocalíptica...

O gajeiro, à proa, agarrado às malaguetas do mastro, vendo que tudo ia perdido, pedia a Deus misericórdia e, no salseiro estuante, transido de terror e de frio, cantava sonambulamente:

Mastro grande, meu amigo,
Não me abandones nas águas;
Quero ir de rastos contigo
Mesmo pra cima das fráguas!

Com efeito, corria-se a Deus misericórdia, como se tudo já estivesse perdido. A tempestade era horrível.

Diante disso, o capitão João Esteves mandou arriar a verga do joanete, preparar tudo para acachapar mastaréus, dando mais segurança ao arvoredo, ao navio e, enfim, às vidas que ali iam em perigo.

A gente, disciplinada como só ela, porque adorava incondicionalmente a esse valente marítimo, com o qual “iria até mesmo para o inferno”, se isso lhe fosse exigido, acudiu, destra e rápida, ao mastro de proa; e, enxárcia acima e mãos aos cabos, botou a verga e o mastaréu no convés num abrir e fechar de olhos. Eram apenas quatro homens os que estavam então de serviço, não falando nos dois vigias que, a um bordo e outro, no castelo, olhavam incessantemente as águas, a fim de dar, a tempo, sinal para ré de qualquer quilha que surgisse, na direção daquela. O resto da companha — seis homens mais, somente — tinha saído do quarto havia pouco e, ao momento, achava-se de folga no rancho. Quem estava em cima, porém, sustentava com valor o bendito descanso dos outros, nessa faina sem limites. E tanto que, agora, apenas deixaram acomodados o mastaréu e a verga num recanto da amurada, à proa, correram, todos, a uma, para as manobras, à popa. Agarrados, as mãos ambas, ao grosso cabo de vaivém, passado a bombordo e estibordo, a todo o comprimento do patacho, esses portugueses e nacionais, entre os quais havia alguns pretos escravos, pareciam transformados de repente em verdadeiros orangos ou gorilas, tal a excepcional destreza e os estranhos saltos de acrobata ou funâmbulo, postos por eles em ação, para chegarem até o tombadilho, junto ao mastro grande, isto no meio dos balanços disformes que tudo jogavam fora, ao rebentar catadupante das ondas no convés onde, enquanto ao embornais não despediam, em grande, a água invasora, se nadava inteiramente, como no próprio mar largo.

Assim, acudindo às manobras, chegaram todos ao salto, com o contramestre à frente, quando o Lima I recebeu subitamente três voltas de mar pela alheta e uma faísca elétrica sobre o mastaréu do velacho, a qual, fundindo o metal da pega, sapecou o calcês, descendo sobre o bolinete, as amarras, para ir afundar-se no oceano, por um escovém de proa. Felizmente, o raio, além da destruição da pega, nenhum outro dano causou. Mas as voltas de mar eram tremendas, seguidas e, ao embarcarem umas sobre as outras, no salto, fizeram adormecer o casco, pondo em fuga apavorada os dois homens de governo, que deixaram o barco à matroca, desviado do rumo.

Foi então um pânico a bordo, no tombadilho, na câmara. O prático e os oficiais, agarrados fortemente aos balaustres de um dos bordos, mergulhados na espumarada que lhes subia até ao pescoço, numa enxurrada varrida e a escoar-se para fora, aos cachões, — crentes de que aquilo já era o naufrágio e a morte, bradavam ansiosamente por socorro:

— Misericórdia! Misericórdia! Valha-nos a Senhora dos Navegantes!...

Os outros marinheiros acudiam de proa, repetindo os mesmos gritos, num tumulto angustioso, cobertos pela arrebentação furibunda das ondas, bracejando epilepticamente, quase afogados e a chocar-se uns contra os outros nos balanços terríveis, alando-se, aos pulos e aos tombos, pelo cabo de vaivém. Os de folga, fatigados e exaustos da faina excessiva e contínua em que vinham, desde as 6 da manhã, nem tinham dado por aquilo, estirados e a dormirem, a sono solto, nos beliches do rancho.

Embaixo, na câmara, D. Júlia e os passageiros, como o despenseiro e os criados, lívidos e trêmulos de medo, julgando o navio fosse a pique, sem mais salvação possível, rezavam alto, atabalhoadamente, invocando Deus, os Santos, sobretudo os que tinham mais poder nas tormentas, nos mares, e eram patronos bons e leais dos marujos. No desespero do terror e na angústia em que se viam, pareciam presas de uma alucinação, a agitar-se de um lado para outro, desorientados, perdidos, aos trambolhões contra os móveis e anteparas, como em procura de uma saída para o convés ou para o tombadilho. Mas embalde o faziam, porque o comandante, previdentemente, alguns momentos antes, tinha mandado fechar e pregar as duas portas do salão. E tal foi o pânico nesse compartimento de bordo, que a loura Ema, calma e plácida por temperamento, ela que já contava uma viagem à Alemanha e muitas outras ao Rio de janeiro e ao Prata, e que permanecera até ali quase alheia ao temporal e a qualquer consequência de desastre — viera parar de repente, inquieta e assustada, a um dos recantos da câmara, conseguindo arrastar consigo, sem saber como, a cadeira em que jazia o pai paralítico. Este, não obstante a sua fleuma e indiferença, fosse diante do que fosse, particularmente impassível às coisas que lhe não interessavam e lhe não diziam respeito, unicamente preocupado com a ideia de chegar a Porto Alegre o mais depressa possível — sentia-se também apreensivo e nervoso, o que se percebia pela atitude de constante atenção aos menores ruídos e pelos olhares frequentes, desassossegados, interrogativos, que lançava a tudo e a todos que o cercavam na câmara.

No meio da profunda confusão que reinava no patacho ferido pela vaga e o raio, adormecido e quase sem governo, no maior auge de ciclone, só um homem, posto que intimamente, agora, meio abalado pelo sentimento da inteira responsabilidade que sobre ele pesava de ter arriscado àquele tempo as vidas que lhe haviam sido confiadas, dentro do frágil lenho que comandava — só um homem, de pé ao cata-vento, heroico e firme no seu posto, imperturbado, sobranceiro a tudo, guardava ainda a energia, o denodo e a calma indispensáveis a todo o chefe marujo, em momento tão crítico e tão grave. Era o capitão João Esteves, que, ao ver subitamente abandonado o governo do navio, sob a dupla invasão dos vagalhões e do raio, pegou do braço ao piloto e ao praticante e, intimando-os ao cumprimento de dever, colocou-os logo ao leme, dizendo-lhes com autoridade:

— Coragem, poltrões! Leme a meio, sempre a meio! Aguentar, firme, as guinadas! E cuidado, todo o cuidado! Que nenhuma vaga venha mais rebentar aqui dentro!...

Tudo isso foi feito instantaneamente, sem a mais leve vacilação ou lacuna, com segurança e certeza, com a convicção e o sentimento do poder de um gênio ou de um deus. E o capitão consumado, sem mais detença, saltou para vante, para junto do mastro grande, onde o contramestre a gente de proa, já o tombadilho escoado de todo e o barco no jazigo da vaga, acudiam com arrojo à interrompida manobra. Virilmente gritou-lhes então, com a sua imperiosa voz de comando:

— Ânimo, camaradas, que isto não pode aguentar por mais tempo! O pior bocado está passado... Gajeiro e moços lá em cima, prontos a atirar a cunha ao mastaréu! E vocês, cá de baixo, safem bem o andrebelo. Tirem voltas. Que esteja a mover-se, à primeira voz. Cabos bem claros e tudo a um tempo que, no arriar, com estes balanços de cabra, é sem conta o perigo!... Safa! Safa!... Contramestre, chame a gente de folga. É preciso todos aqui... Tira a camisa ao cabrestante. Passa o seio do andrebelo, a quatro voltas. E pronto a arriar...

Recuou dois passos, erguendo a cabeça para olhar o mastaréu e dar ordem ao gajeiro, aos moços, para baterem a cunha, quando o prático se acercou, interrompendo-o, implorando:

— Por quem é, capitão, não persista em seguir para Porto Alegre! Vamos arribar a São Simão, que demora a duas milhas daqui, pela bochecha de estibordo... Isto não é vendaval de se arcar assim. E agora, como está, é impossível evitar um sinistro. Depois este navio não aguenta mais, já quase adormeceu de uma vez quando as vagas o invadiram, já apanhou uma faísca, já andou a bem dizer sem governo... Que espera ainda o senhor, capitão?! Só se for a ida a pique, só se for o nosso fim!... Com este mundo de mar e de vento, havendo porto de arribada à mão, não há ninguém que se arrisque... Também uma temeridade como a sua, nunca se viu!... Por quem é, capitão João Esteves, arribemos a São Simão que está ali!...

Mas o leão do oceano, indignado contra o prático desde a primeira solicitação de arribada que este lhe fizera, mais indignado ainda contra a violência brutal do pampeiro e os primeiros contratempos sofridos, apenas deu ordem de bater a cunha ao mastaréu e solecar brando o cabo, no cabrestante, para ir arriando devagar, voltou-se para o homem e, afastando-o com um safanão, berrou-lhe brutalmente:

— Qual arribada, nem arribada! Você então interrompe-me, debaixo de rascada, só para me dizer isto? Ora suma-se daqui, seu poltrão! E não me apareça mais, veja lá! Se tem medo, tranque-se no camarote... Quem não é homem veste saias... Agora, o caminho é Porto Alegre... E para lá havemos de ir, quer Deus queira quer não queira!...

O prático, que logo se afastara para bombordo, ao ouvir as últimas palavras do capitão, as quais lhe pareciam de uma heresia sem nome, levou as mãos à cabeça, como se um raio ou um castigo de Deus viesse de repente fulminar o herege e a todos os que com ele se achavam, e exclamou a tremer:

— Oh! capitão, que terrível blasfêmia!... Nossa Senhora, que terrível blasfêmia!...

E fugiu precipitadamente dali como de um lugar perigoso, indo-se encantonar para o painel de popa.

Decorrido um segundo, se tanto, tal a instantaneidade do fato, após as iradas e sacrílegas palavras do capitão, apenas o mastaréu pesou sobre o andrebelo, este rebentou de repente, num dos grandes embates das vagas, e o colossal apêndice do mastro grande, disparando pega abaixo, em linha inclinada à do tombadilho, caiu violentamente, de cepo, sobre o pé esquerdo do insigne marujo, e esmagou-lhe os três primeiros dedos contra os grossos pranchões de pinho de riga.

— Foi castigo de Deus! foi castigo de Deus! entrou o prático a gritar.

E corria de um lado para outro, nervosamente, com as mãos na cabeça, como um desesperado, como um louco, aterrado, desorientado com a desgraça do capitão e o choque atroador do mastaréu, estendido agora sobre o tombadilho, o convés, num estranho emaranhamento de estais e enxárcias.

O capitão, assim que foi ferido, aluiu pesadamente sobre um dos bancos postados ao longo da gaiuta, o rosto congesto, arrepanhado em ríctus, frangido em sulcos convulsos, a torcer-se de dor. Não obstante, com o espírito ainda cheio de lucidez e de acerto, vendo a maruja meio estarrecida e atônita, conhecendo perfeitamente o perigo que, mais que nunca, corria então o navio, com aquela trapalhada do mastaréu e o amálgama de cabos rojando no convés, como uma teia de aranha monstruosa a envolver tudo na renda grossa e negra das suas filaças alcatroadas, parecendo tecidas por umas mãos de ciclope, impedindo qualquer manobra que de pronto se quisesse executar — murmurou ainda esta ordem, cujas derradeiras palavras saíram já arrastadas, entrecortadas, trêmulas:

— Safar enxárcias e brandais, gente! Vivo! presto!... Olha o mastaréu bem pealado no convés... E atracá-lo, às voltas de cabo contra... as... amu...ra...das...

E procurava, convulsamente, firmar os pés no tombadilho, agarrar-se com os grossos braços musculosos às costas de ferro do banco, decerto para não rolar, borda fora, no mar.

A marinhagem, tornada a si da emoção e sobressalto que a princípio a levaram a debandar em confusão por todo o navio, só agora notando que o seu comandante se debatia ferido, como aniquilado sobre o banco e muito pálido, correu a socorrê-lo. Já o praticante, que presenciara a queda súbita do pai contra a meia laranja, embora atordoado, aflito, em pranto, aí chegava primeiro que ninguém e tentava segurá-lo, para o não ver rolar de repente no tombadilho que as ondas seguidamente alagavam, ou na medonha sanha invencível do Mar. E todos juntos pegavam, a pulso, o corpo pesadíssimo do João Esteves que, tomado agora de uma síncope, deixava-se invadir morbidamente pela imobilidade e a inércia.

Ao vê-lo assim caído e como morto, os marujos tinham os olhos rasos de água, soluçavam num uníssono funerário e pressago. E o jovem filho do genial mareante que, todo curvo e cheio de cuidados, lhe segurava carinhosamente, nas fortes mãos em concha, a grande e bem modelada cabeça de Netuno, não podia conter as suas lágrimas, a gritar surdamente, comovedoramente, sob a ideia impiedosa e terrível de um desamparo de esperanças e sob a perspectiva tenebrosa e medonha de uma orfandade iminente:

— O papai vai morrer! O papai vai morrer!

Era um quadro aflitivo, compungente, tocante, de uma angústia épica e formidanda, de linhas convulsas e sangrentas, de um colorido estranho e áspero, de um relevo empolgador e grandíloquo, à Doré e à Dante, sobre o campo ou o fundo infinito e nervoso do oceano revolto, sacudido, fustigado infernalmente pelo tufão...

Mas os homens, com o gigante a pesar-lhes nos braços, não puderam logo despegar da gaiuta. Foi preciso esperar que o navio caísse no jazigo do mar. E quando isto se deu, uns segundos depois, é que eles, a cambalear e a saltar, como numa dança macabra satânica, lograram encaminhar-se lentamente, em equilíbrios de ginasta ou funâmbulo, para a escada que descia ao convés, enquanto o contramestre corria na frente, a fazer despregar e descalafetar uma das portas da câmara, para aí dar entrada o ferido e se lhe ministrarem os primeiros curativos.

A porta abriu-se justamente ao instante em que os marinheiros, deixando a escada do tombadilho, pisavam o convés, trazendo em braços o capitão, ainda inerte e em delíquio. Tinham passado já a primeira impressão de angústia e as primeiras exclamações de dor. E como a tormenta continuasse bravia e bramante, sublevando tudo com as suas bátegas de água torrenciais, os seus fuzis e os seus vagalhões, o praticante e toda a companha entoavam, em coro, numa voz suplicante e plangente, uma oração ou um hino à Senhora da Bonança, cujo sonoro e frequente estribilho dizia assim:

Ó Senhora da Bonança,
Vinde dos céus amparar-nos!
Vinde co'a luz da esperança
Deste naufrágio salvar-nos!

No salão da câmara onde, desde o estouro atroador do mastaréu contra o tombadilho, reinavam a desolação, o terror, e ninguém se entendia, em clamores angustiosos, invocando, num apelo extremo, a Proteção Divina, apenas se ouviram as primeiras pancadas para o despregamento da porta, os passageiros, e todos, com doutora Júlia à frente, jogaram-se impetuosamente para fora, no impulso natural que tem toda a criatura de ver o perigo e agir contra ele, afrontando-o ou dando-lhe as costas, conforme as circunstâncias do momento, com a força invencível e inata do instinto de conservação. De sorte que, ao abrir-se de repente a porta e ao confundirem-se os que desciam do tombadilho com os que se desenclausuravam da câmara, a balbúrdia dos gritos de desespero e ansiedade tornou-se ainda maior, sobretudo quando viram o comandante, desacordado e como morto, nos braços dos marinheiros.

Doutora Júlia foi a primeira pessoa que recebeu, na retina assombrada, a dolorosa cena, antes mesmo de o enteado e os tripulantes poderem penetrar no salão. Compreendendo ou adivinhando subitamente tudo o que se passara, precipitou-se como louca sobre o marido, a abraçá-lo e beijá-lo nervosamente, ao mesmo tempo que lhe apalpava o corpo à procura de algum golpe ou ferimento. E debulhava-se em lágrimas, soluçando e clamando, numa dor lancinante:

— Que foi?!... Que sucedeu?!... Uma grande desgraça... Ó Santíssima Senhora dos Navegantes!... O Esteves está morto... está morto...

— Não! não! acudiu o enteado, em voz chorosa e trêmula. Não! não! Foi o mastaréu grande que lhe caiu sobre o pé esquerdo... Eu corri logo, mas quando o agarrei já ele estava estendido sobre a gaiuta, sem sentidos... Então acorreram os marinheiros e o trouxemos para aqui... Mas não é nada, minha madrasta... Ele há de tornar a si, se Deus quiser... Vamos deitá-lo ali, num dos sofás... É preciso dar-lhe a cheirar alguma coisa e aplicar-lhe arnica às feridas...

Já nos lábios marujos a plangente oração à Senhora da Bonança cessara. Mas os humildes tripulantes, intensamente emocionados de novo com o pranto e exclamações de doutora Júlia, romperam outra vez a chorar. E entrando na câmara, depuseram o capitão sobre um dos sofás das amuradas.

O ferido, muito lívido e com um círculo roxo em torno aos lábios, os olhos cerrados, estendido em decúbito dorsal, dir-se-ia um cadáver, senão fora o calor da pele e a vaga tremura que se lhe notava nos membros inferiores...

Nessa ocasião, já do pé esmagado o sangue fluía, vivo e abundante, pelo cano de uma das botas. A capa de linho das almofadas e o chão de oleado a ramagens começavam a cobrir-se de manchas líquidas de zarcão, dando a todos como um vago arrepio de assassinato ou matança...

O Luiz Clapp, que desde a porta da Câmara ajudara a carregar o Esteves para o sofá e que era meio cirurgião, pois estudara medicina até ao quarto ano e fora interno de hospital, ao começo da sua vida e muito antes de se fazer negociante, vendo a trapalhada e indecisão em que todos estavam e a necessidade grande e urgente de socorrer-se, sem perda de tempo, o ferido, gritou ao praticante que corresse à farmácia do navio e lhe trouxesse amônia, éter, arnica, bálsamo, algodão, algumas tiras de linho e uma tesoura. E voltando-se para o despenseiro e os criados, pediu-lhes que lhe fossem buscar a toda a pressa um travesseiro, para altear a cabeça do enfermo, e uma bacia com água morna...

Enquanto os criados corriam, uns para o interior da câmara, outros para o convés, em direção à cozinha, o Clapp, auxiliado pelo Zé Bom, o contramestre e o praticante — que já estava de volta com todo o necessário para o primeiro curativo — entrou a abrir cautelosamente, com uma navalha de bordo, a bota do pé esquerdo do capitão, desde o cano até ao bico, porque a inchação já era imensa e atingia os tornozelos.

Quando o pé ficou só em meia, parecia o de um enfermo de elefantíase: o sangue corria em mais forte hemorragia.

Nesse instante, chegavam o despenseiro e os criados com o que se lhes pedira.

Doutora Júlia pegou então do travesseiro e o colocou sob a cabeça do esposo, que ajeitou e acomodou com carinho, beijando-o muito. Em seguida, sentou-se ao pé, a acariciá-lo às mãos ambas. E, mais resignada e mais calma, exclamava suspirando:

— Pobre Esteves, quando lhe passaria pela ideia o que lhe estava reservado nesta maldita viagem! Escapou de ser morto, mas vai talvez ficar aleijado para sempre... Antes tivesse arribado, como lhe pedia o prático... Mas não! que havia de seguir, fosse como fosse... Que loucura!... Aqui está no que deu a sua teima...

O Clapp, porém, não perdia um segundo. E, destramente, mergulhando o pé do ferido na água morna, entrou a cortar-lhe a meia, de alto a baixo, com a mesma navalha com que lhe abrira a bota de borracha. A esse tempo, o praticante, ajoelhado no chão, entre uma das mesas e o sofá, dava a cheirar ao doente um vidro de amônia ou de éter.

Afinal, posto a nu o pé e todo o ferimento, e aplicados, logo, reiteradamente e em quantidade, arnica e bálsamo, o Clapp pôs-se a envolvê-los, até aos tornozelos, em grossas pastas de algodão e largas tiras de linho, colocadas, numerosamente, umas sobre outras. Feita assim uma espécie de chumaço, que era constantemente umedecido com bálsamo e arnica, a hemorragia cessou, por fim. E com isso e as frequentes aspirações de amônia e éter, a lividez mortal do capitão João Esteves foi-se desvanecendo pouco a pouco e a cor natural voltou-lhe à face bela e glabra, lembrando agora, mais que nunca, a de um imperador romano...

Anoitecia, quando o infortunado chefe marítimo recobrou de todo os sentidos e começou a falar baixo e pausadamente com a esposa, o filho, o Clapp e demais passageiros, comentando serenamente o que vinha de suceder-lhe.

Acenderam-se então as grandes lâmpadas da câmara, todas de metal do príncipe muito areado e pendendo dos rendilhados porta-cálices de madeira, onde os cristais multicores cintilavam como pedrarias fantásticas.

Ema, que assistira mudamente com o pai a toda aquela cena, ambos bastante abalados e pesarosos, porque queriam muito ao comandante, que os tratava sempre com grande gentileza e carinho, aproximou-se então do recanto em que ele se achava e para onde conduzira também a cadeira do pai e ficaram os dois a conversar com doutora Júlia a propósito do desastre. O praticante estava agora sentado a uma das cabeceiras da mesa, bem em frente à moça, todo atento ao pai que, a conselho de todos, cessara de falar e repousava um pouco, mas que, atacado de grande sede, pedia água de instante a instante. E a linda jovem teuto-brasileira, enternecida decerto ante a imensa dor pungindo naquele momento o rapaz, e como que despertada de repente da sua indiferença e frieza pelo grande amor que ele lhe votava, dirigia-lhe palavras de consolação e afeto, experimentando nisso incomparável satisfação e enlevo. É que, decerto, o Infortúnio polarizava agora as suas almas de adolescentes. Ela tinha, havia muitos anos, o pobre pai a sofrer: ele via agora o seu quase moribundo. O Destino os irmanava assim, numa igual desventura. E por isso Ema sentia enfim que o amava, dedicadamente e para sempre...

Mas lá em cima, no tombadilho, onde após a queda do mastaréu tinham ficado apenas o piloto, o prático e a marinhagem de quarto, amainara de todo a faina das manobras. A gente que acudira ao capitão e voltara logo ao seu posto, com a turma que lhe sucedera no serviço, há muito que safara as enxárcias e brandais deixados, a princípio, em confusão e ao Deus dará, sobre o convés e a gaiuta. O vendaval, como se só houvesse atingido a sua máxima fúria para castigar e suplantar a audácia, a força, o arrojo e teimosia louca, mas por isso mesmo heroica, do insigne capitão, em afrontá-lo e lutar vencedoramente com todos os riscos e perigos— começara a abonançar, apenas o gigante do tombadilho e imperador do oceano rolara terrível e traiçoeiramente ferido pelo maldito acaso. Diminuíam já inteiramente os montanhosos vagalhões espumantes. A trovoada e os fuzis cessavam de todo. Adelgava-se e desfazia-se o grande nevoeiro. A chuva estancava. As gaivotas tinham-se recolhido saudosamente aos seus penhascos ninhos da costa.

Nesse curto, funerário e agrestíssimo dia de inverno, a noite descera precipitadamente, envolvendo tudo no seu lutuoso, denso véu de carvão. E o navio, maltratado, desarvorado e cheio de avarias, mas vencedor glorioso da tremenda borrasca, com os dois faróis já acesos, suspensos a certa altura da borda, a cada banda da enxárcia grande, parecia um monstruoso, fabuloso animal marinho, a iluminar a própria marcha nas ondas, através da escuridão, com os seus dois imensos olhos fulgurantes, espargindo, à esquerda, uma trágica luz rubi, à direita, um melancólico clarão de esmeralda...

No outro dia, pela manhã, ao fulgor alegre e de ouro do sol de inverno, escalando triunfantemente o azul lavado e límpido do Firmamento, o Lima I fundeava em Porto Alegre, por entre a admiração, prazer e pasmo dos habitantes, aglomerados, em grande massa, no cais, e que, avisados desde a véspera da saída do navio de São José do Norte para ali, debaixo da maior tempestade que se conhecera até então no Rio Grande do Sul, o julgavam já afundado e perdido para sempre, na Lagoa dos Patos.

Apenas os escaleres da visita do porto, da Alfândega e Polícia chegaram a bordo, o capitão João Esteves, acompanhado da esposa, do filho e dos passageiros, desembarcava, em maca; e, seguido carinhosamente por toda a multidão que ali se achava e que o distinguia com particular simpatia e estima entre todos os capitães de navio do seu tempo, foi imediatamente levado para a opulenta casa comercial de Vilhena & Castro, consignatários do barco, onde o bravo mareante ficou em tratamento e preparo para a amputação da parte do pé que o mastaréu totalmente esmagara...


***

Oito meses passados, depois de medonha luta com a gangrena na ferida e de extraordinários sobressaltos e angústias, entre a vida e a morte, o capitão João Esteves achava-se inteiramente restabelecido e saía, pela primeira vez, de muleta, para uma missa em ação de graças pela sua saúde, mandada dizer pelos seus admiradores e amigos na pitoresca igreja do Senhor dos Passos, situada num alto do outeiro, de onde se avistava o majestoso Guaíba e velas brancas saudosas andorinhando aventurosamente aos quatro ventos, nas águas...

Durante esse tempo, o célebre e bem assinalado patacho ficara sob o comando do piloto e fizera quatro viagens rendosas e felizes entre a capital rio-grandense e o Recife. Nada se alterara a seu bordo, além de alguns concertos nas avarias feitas pela memorável borrasca. A sua brava marinhagem era ainda a mesma e aguardava, com impaciência e ansiedade, a volta do grande chefe marujo.

E, à quinta viagem do Lima I, o capitão João Esteves reassumia o seu lugar a bordo, sob a mastreação embandeirada em arco e as demonstrações de alegria e afeto da sua boa companha. Nesse mesmo dia, à tarde, realizava-se, também, modesta mas significativamente, na igreja matriz de Porto Alegre, o consórcio do João Várzea Júnior, praticante de piloto, com a formosa e loura Ema Schmidt, graciosa flor germano-latina, nascida e criada ao glorioso sol do Brasil.

À volta da igreja, no júbilo íntimo em que se expandiam as almas dos noivos, dos pais de ambos e dos convidados, entre os quais se não viam mais, infelizmente, os estimáveis negociantes Luiz Clapp e Zé Bom, já há muito de regresso a Pernambuco; à volta da igreja, ao dar entrada o cortejo nupcial no vasto tombadilho do navio, todo juncado de galhardetes e flores dançando à brisa do mar, o Gil Coelho, ainda no seu posto de prático, dando o braço ao João Esteves, que já deixara as muletas mas que manquejava ainda grandemente do pé esquerdo, como daí por diante em toda a sua existência, disse-lhe satisfeito:

— Agora, sim, capitão, agora é que o vejo forte, como dantes! Mas nunca mais me há de esquecer a célebre viagem que o ia matando, e aquele medonho temporal... Parece-me que ainda estou a ver o demônio do mastaréu pendente do andrebelo e a ouvir a terrível blasfêmia que o senhor proferiu de repente, num desespero, quando eu lhe pedia para arribarmos...

E estacaram ambos, junto à borda, com os olhos perdidos ao longe, nas ondas, onde já começavam a refletir-se os primeiros brilhos empalidecidos do ocaso.

Então o comandante João Esteves, que ficara um momento silencioso, sob a impressão das últimas palavras do prático e embalado por uma abstrata e subjetiva evocação do passado, murmurou melancolicamente:

— Sim! Também eu não esqueço, nem jamais esquecerei essa dolorosa passagem da minha vida... Blasfemei, é verdade, mas só da boca para fora: o coração, no íntimo, estava cheio da ideia de Deus...

E foram ambos tomar assento à grande mesa das bodas, armada de popa à proa, sobre a gaiuta, debaixo do toldo de lona, onde já grazinavam deliciosamente D. Júlia e os convidados, com os noivos à cabeceira, a fitarem-se enternecidos, muito juntos e felizes, numa radiação ideal...

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