domingo, 26 de novembro de 2017

A conferência do Dr. Assis Brasil (Conto), de Lima Barreto


A conferência do Dr. Assis Brasil
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

---

A Liga da Defesa Nacional, com as suas filiais pelo país, resolveu fazer propaganda dos seus intuitos, difundi-los, passá-los, por meio de conferências. A conferência entrou deveras nos nossos hábitos mentais... porquanto não haveria tanta gente a fazê-las, se não houvesse muita gente para ouvi-las.

Desde as suas antepassadas, as da guerra no Império, que elas pedem novos conspícuos, homens de respeitáveis posições e costumes puros, sem vícios ostensivos, mesmo o de firmar, ricos e por muitos modos felizes, para que não fujam delas ouvintes veneráveis, pela riqueza, posição, virtudes... e felicidades.

A Liga da Defesa Nacional estados não se quis afastar da tradição e chamou para as suas conferências pessoas notáveis merecedoras, por todos os modos e, por que não, do meu respeito.

Atrevo-me a observar que ela fez e faz mal, por um motivo muito simples: os graves senhores que lá vão fazer as suas prédicas patrióticas só podem ter o auditório dos seus homens como já disse; e toda essa gente deve ser por força patriota e estar disposta a defender bem a pátria pelo muito que ela já lhe fez.

Eu quisera que os seus oradores pudessem converter aquele famoso mendigo de Londres que mendigava num dos cantos da grande capital da Grã-Bretanha:

— Eu tenho o Egito, o Canadá, a Jamaica, a Austrália, a Índia, a Birmânia, o Tibete, entretanto não tenho nem uma roupa para vestir.

São Paulo, para falar no maior dos apóstolos, certamente não iria pregar o Evangelho a s. Pedro; ele o pregou aos gálatas, aos romanos, aos efésios, a todos aqueles que necessitavam dessa pregação, e aos mais humildes deles.

Os apóstolos da Liga e filiais deviam seguir o exemplo dos grandes pregadores da fé cristã, antigos e modernos, e não ficarem fazendo aquilo que um dito popular chama chover no molhado.

Buda era príncipe e fez-se mendigo para pregar na religião, e Dr. Calmon, que se quer nobre, e é rico, bem podia vir falar certamente... matutos miseráveis sobre as excelências da devoção da pátria antes que eles se convertam à temível e ignóbil heresia de que o mundo é largo e o mato é maior.

Mas o Sr. Calmon de qualquer modo precisa falar e não se lhe está discursar para caipiras do interior desde que possa orar ali, na avenida, para uma centena de damas e diante de uma aristocracia transitória, mas aristocracia.

Talvez vá mais direto ao seu fito como está fazendo, ele não quer a espada de Amadis, a “Ardiente”, de que falava Dom Quixote a Sancho que a não queria de forma alguma, escudeiro que era.

A não ser com o Sr. Dr. Calmon, eu tenho com quase todos os outros conferencistas, ou conferentes, como quiserem, anunciados; e, conquanto tenha com alguns outros laços que parecem ser sólidos, não direi literários, mas de camaradagem, sou capaz de ir assistir, à de Afrânio Peixoto.

Ele vai falar da “Educação” e ilustre romancista não pode sofrer aquela censura que Voltaire, ao aparecer o Émile arranjou ao infeliz Rousseau, a que notável fisiocrata quis saíssem da Áustria para pôr em cabanen. O sábio professor não é Rousseau; é um moço educado e pode falar de cadeira das duas educações, sobretudo da cívica, a que se propôs. Afrânio é de fato um cidadão respeitador das instituições e autoridade entre nós.

O mesmo não direi do Sr. Homem Batista, sua excelência é diretor do Banco do Brasil, mas creio que desse negócio de economia individual pouco entende. Quando se fala nisto, pensa-se logo no pé-de-meia e sua excelência, em matéria de finanças, sempre alto nos relatórios da receita da República, onde só se lida com cem, duzentos, quinhentos, mil, dois mil, três mil, dez mil, cem mil, duzentos mil, trezentos mil contos.

Para falar em “economia individual”, eu indicaria o senador Pires Ferreira ou o Zé Bezerra, o nosso bom Sully do Açúcar.

Porém, eu nada tenho a ver com a organização das conferências, onde vejo o meu amigo Félix Pacheco e o Gregório Fonseca tratando de coisas militares, ainda por cima Bilac, a puxar a espada, para defender a língua nacional. Está aí uma coisa muito própria de cavalheiro e de grande poeta que Bilac é: vai defender um sonho, uma criação da sua imaginação.

Eu quisera saber, meu caríssimo Bilac, onde está esta língua nacional? É a minha ou a do precocemente respeitável Aloísio de Castro, descendente em linha reta de João de Barros?

É a do Sr. Alberto Rangel, quando trata do Amazonas, ou é a do Seixas Maia, quando trata do Rio Grande? É a do Coelho Neto ou a do velho Sousândrade? É a do insigne Ataulfo ou a desconhecida do Sr. Lauro Müller, da Academia de Letras?

Embora tenha dito que não tenho nada com isto, ia continuar a meter-me onde não sou chamado.

O meu fito era comentar aqui a conferência que o Sr. Assis Brasil fez em S. Paulo. Eu a li na íntegra no Estado de São Paulo e o fiz porque tinha por tema a ideia de pátria, sob os auspícios da Liga de Defesa Nacional. De lá, o título me seduziu e espantou.

Como é que se vai discursar sobre uma coisa tão árida, tão maçante para um auditório tão pouco curioso do exame dessas coisas por assim dizer de nefelibatas.

Sabia que, em França, há bem caro e, há bem pouco, Bergson falando de coisas mais áridas, tinha tido auditórios femininos quase mundanos, que é bem outra coisa. Faço justiça às mulheres. Lá em França, porém; mas São Paulo...

Antes de ler quatro dias considerei como trataria do assunto; e concluí que o entenderia como uma análise e consequente exame dos fatos, dos elementos de toda a ordem e natureza, da pesquisa de todas as nações, cuja associação tivessem determinado o aparecimento no nosso entendimento de semelhante ideia.

Li e não vi nada disto.

É verdade que o Sr. Pedro Lessa, muito respeitado nessas coisas de filosofia, aqui no Rio, tinha feito uma parecida. Intitulou de sua também de Defesa Nacional — ideia de Justiça e não quis descer ao exame dessa ideia, nem à sua análise.

O ilustre ministro do Supremo Tribunal falou muito, mas nada disse como semelhante ideia se tinha criado, surgido, quais os fatos internos e externos e externou os dados de consciência que a tinham incorporado ao nosso pensamento.

Falou sua excelência mais em aplicação da Justiça do que sua ideia dela, mais em tê-la na consciência do que como ela havia assim aparecido.

Antes de acabar de me referir a ela de passagem, como estou fazendo, eu tomei a liberdade de lembrar ao ilustre ministro do Supremo Tribunal que não há motivo para lamentar a queda do Império Romano como ele fez. Uns sociólogos, e tantos o têm feito, podem escrever grossos volumes para forrarem as suas camas. É ofício deles; mas falando da ideia de Justiça, como hoje ela se apresenta a todos nós, nada temos que lamentar a morte do Império Romano.

A sua queda alargou essa ideia, porque nos dá uma outra concepção do universo, da vida e dos destinos humanos.

Bendito sejam pois os juízes frouxos que aplicaram frouxamente o atualmente execrável direito romano, tão execrável que, até há bem poucos anos, nos seus textos, se iam buscar argumentos para justificar a escravidão moderna e as suas consequências.

Mas eu não queria falar da conferência do Sr. Pedro Lessa; eu quero falar da do Sr. Assis Brasil, com quem sempre simpatizei, por ser um Cincinato que não foi ditador, nem uma simpatia, entretanto sempre cismado por isto ou aquilo, pela lembrança de quando me acode o seu nome me surge a resposta daquele ateniense que votava pelo crescimento de Aristides por estar cansado de chamá-lo sempre de justo.

Chegarei até à ideia de pátria, do Sr. Assis Brasil, cujo nome prometia um mais forte conhecimento da história, de nossa geografia — de tudo que a agudeza em explicar certos fatos dele ajuda o Brasil.

Na nossa civilização, o amor da pátria é um sentimento de origem religiosa, fazendo do antigo culto familiar aos nossos mortos, que eram supostos, mesmo depois da morte, passando no lugar do seu nascimento e precisando da assistência cultual, dos sacrifícios e oferendas de seus descendentes, para que as suas almas vivessem sossegadas no seu túmulo. Com o tempo, apagando essa origem da nossa memória, ficou, porém, no fundo de nós essa religiosidade ancestral de um modo vago, como se pode ver em frases nossas, tendo ela se mostrado com o sempre presente espetáculo das mentes, das águas, dos céus, das casas, das gentes, do pedaço da terra em que nascemos ou vivemos. Como que tudo isso entrou em nós e nós entramos em tudo isso? A alma humana está pronta a extravasar-se sempre e animar, e harmonizar com todas as coisas, vivas ou mortas que a cercam, sobretudo nos primeiros anos da nossa existência, quando o sentimento e espontaneidade emocional dominam todo o nosso pensamento.

O patriotismo, porém, é outra coisa. Não tem raízes tão vivas e naturais na nossa natureza. É um sentimento político, artificial, que é instilado nos poros, mantido neles pela cultura, pelo ensino oral ou escrito feito pelo funcionário, pelos professores, pelo sacerdote e até pela presença de uma força armada.

Destinado à manutenção da pátria política, ele é tão artificial quanto ela, em geral formada por casamentos reais ou de príncipes, por tratados, por conquistas, ou compras, por trocas, por este ou aquele meio de aquisição de territórios.

Só a ambiência fragílima da cultura constante, da tradição e outros meios semelhantes, é que consegue dar, às vezes, a tais aglomerados uma aparência de corpo vivo e organizado.

Se isto que acaba de ser dito é visto, podem existir os dois sentimentos separados.

Um camponês rústico ama naturalmente a sua aldeia, onde vive a vida toda e mora, cujos arredores conhece e lhe têm dado as emoções que é capaz de sentir, mas não amará naturalmente a sua pátria política de que ele possui as mais nebulosas informações.

Um artista avançado teria grande emoção amorosa diante da cidade em que nasceu, mas será indiferente à pátria subjetiva, quase mística, que os políticos lhe querem dar.

Para as necessidades transitórias da humanidade atual é conveniente que um sentimento se una a outro, mas não integralmente para que a nossa humanidade não se uniformize tolamente e ela seja variada de aptidão, de aspectos e de formas de sentir.

Se o patriotismo matasse o amor da pátria, em breve cada um esqueceria a sua aldeia, o lugarejo do seu nascimento e não trataria de contribuir para o seu progresso, dar-lhe aperfeiçoamentos materiais e homenagear o que tiver conseguido na vida, despertando este, certamente, emulação entre os seus patrícios.

Nenhum comentário:

Postar um comentário