domingo, 26 de novembro de 2017

A nota (Conto), de Lima Barreto


A nota
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Por ocasião de passar pela Índia naquela minha vertiginosa volta ao redor do planeta, toda a gente está lembrada que perguntei ao caixeiro do hotel em que almoçava se a lebre que eu acabava de comer havia miado quando pegaram-na.

Lembram-se ainda de que eu a comi vagarosamente, voluptuosamente; e que, só pelo fim do almoço, fiz tão inocente pergunta ao garçom. É da minha filosofia culinária que garoupa é cação com um molho especial; e nisso não faço mais que generalizar a sentença dos sábios que a substância que forma as coisas, vivas e inanimadas, é uma única com aparências diversas e manifestações várias. Tudo vai do molho; tudo vai da aparência.

Se o está na carreira, é um mineral vulgar; se o trabalhou Rodin, é divino. Fui seguindo tão insignificante ordem de ideias, em presença da denúncia de que, ontem, ao acabar meu jantar, num pequeno restaurante barato, perguntei ao copeiro:

— Filho, o leite com que se fez esta manteiga foi tirado pela teta?

— Não sei, não, senhor.

— É sábia a sua ignorância.

Demais, eu nada tinha que perguntar. Eu não comi sebo, comi manteiga, bem que a queria comer, e como tal tinha saboreado e o pus respectivo.

Sebo pode ser manteiga, desde que o meu paladar queira assim; e o meu paladar é de pobre sobremaneira domesticado à intensa civilização do nosso tempo.

A questão dos quiosques tem sido para o Rio de Janeiro uma questão obsedante. Vem agitando a opinião há muitos anos e, há dias, vimos a que extremos pode chegar esse irritante problema.

Nessa coisa toda há um pequeno mal-entendu. Os quiosques não são assim tão indignos de uma cidade civilizada como se quer fazer supor. Paris os têm e muitos. Tudo se resume em fazê-los mais próprios, isto é, limpos, elegantes para que eles preencham um alto fim estético, qual o de enfeitar e quebrar a monotonia das grandes ruas e praças. No seu destino também não se devia permitir que os quiosques fizessem cozinha e vendessem bebidas alcoólicas ou fermentadas; tão somente deviam vender cigarros, fósforos, selos, estampilhas etc. etc.

Dessa maneira, ver que se transformassem em núcleo de cachaceiros, alguns quiosques graciosos, convenientemente espalhados por larga rua de 33 e comprida de dois quilômetros, enfeitavam-na positivamente, pois leva a fazer dessas ruas não ser uma escola de tédio, mas uma classe de enfado; o calçamento igual, polido e úmido; o alinhamento tiranicamente retilíneo, a altura igual das casas e a sua arquitetura pouco variada.

Por hora, nós recebemos essas coisas como novidade; mas em França, segundo li há tempos no Mercure de France, já há quem se queixe da uniformidade dos seus boulervards.

É justo que, atendendo-se ao capital empregado pela companhia de quiosques, se procure resolver a questão, consultando tanto os interesses dela como os da população. E o único seria o de modificar a feição dos atuais, fazendo-os limpos, elegantes e airosos, como os que a própria companhia mandou buscar, e que o prefeito Passos não consentiu que ela os armasse.

O fabricante de Rodin não é pouco criminoso do que a divindade oculta que faz com que um bastão mospulgarlhado me pareça quebrado, quando não está.

Ele me engana com seus rótulos sugestivos, com o colorido que dá ao seu artefato musical, abusa da minha faculdade de argumentação das coisas, mas também me engana quem me organizou de maneira a encontrarem-se trilhos que nunca se encontram.

É no fundo, o tal fabricante do Rodin, um metaplugas. Experimenta nossa grande população a força e o poder das imagens preconcebidas, e a credulidade dos nossos sentidos.

O governo, ao meu ver, deve lhe apreender a manteiga; mas, à de uma Academia própria, é conveniente que o mande para a de Letras ou para o Instituto, com uma pensão.

Phileas Fogg.

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