sábado, 11 de novembro de 2017

A cornucópia (Conto), de Humberto de Campos


A cornucópia

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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O Gabrielzinho havia regressado da rua intrigadíssimo com aquela novidade. Por que motivo, realmente, a prosperidade havia de ser simbolizada sempre por um chifre repleto de moedas, que uma mulher despejava de cima, com o sorriso nos lábios? Que significaria aquele anúncio berrante da casa de loterias, no qual se via a Fortuna a derramar o ouro da sua cornucópia sobre a cabeça irrequieta dos homens? Ingênuo, puro, infantil, o seu primeiro cuidado, ao chegar em casa, foi perguntar ao velho Gabriel:

— Papai, por que é que a Fortuna é representada, sempre, com um chifre na mão?

O honrado comerciante coçou a calva, atrapalhado, mas D. Lavínia o tirou da dificuldade, insistindo:

— Responde, Gabriel! Você não tem lá dentro um livrinho que trata dessas coisas? Essa figura, como ele diz, representa, mesmo, a Fortuna. Se você duvida, veja o livro.

— É verdade! — exclamou o velho. — Aquele livro deve dar.

E, indo buscar um volume, pequeno, miúdo, edição popular, do "Dicionário da Fábula", de Chompré, tradução portuguesa, leu, alto, à pag. 165:

— "FORTUNA —, deusa que preside ao bem e ao mal."

— Não é aqui, — acrescentou.

Folheou para trás, e tornou a ler, à pag. 4:

— "ABUNDÂNCIA — divindade alegórica que se representa na figura de uma donzela no meio de todo o gênero de bens, grossa de carnes, com vivas cores, e tendo na mão um corno cheio de flores e frutos. Dizem ser filha de Acheres ou da cabra Amaltea."

Folheou para a frente, e continuou, à página 31:

— "AMALTEA — É o nome da cabra que deu leite a Júpiter. Em reconhecimento deste bom serviço, ele a colocou, com dois cabritos, seus filhos, no céu, e deu um dos seus cornos às ninfas que cuidaram dele desde a sua infância, com a virtude de produzir quanto elas apetecessem. Chamava-se-lhe o "Corno da Abundância".

Terminada a leitura, D. Lavínia observou, teimosa:

— Então, é ou não é?

— O quê? — indagaram, ao mesmo tempo, o pai e o filho.

— O chifre, nas mãos de uma mulher, é, ou não é, o símbolo da Fartura?

Os dois calaram-se, e D. Lavínia continuou, ingênua, na sua honestidade:

— Eu, que digo, é porque sei.

E, simples, boa, cândida na sua virtude, recomeçando o seu "crochet":

— Eu estou cansada de dizer a teu pai...

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