sábado, 11 de novembro de 2017

O triunfador (Conto), de Humberto de Campos


O triunfador

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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O ano de 1940 decorre tranquilo e próspero na cidade do Rio de Janeiro. As festas do Centenário, celebradas em 1922, legaram à metrópole dos cariocas uma grande série de melhoramentos, que a tornaram a capital mais formosa do mundo. A Avenida da Independência, aberta a cães e o antigo Campo de Sant'Ana, fulge ao sol, soberba e larga, com os seus prédios monumentais, de doze a vinte andares. Inaugurados, há quinze anos, o carros elétricos da Empresa Aérea de Transportes atravessam o espaço em todas as direções, indo, em poucos minutos, do alto da Gávea à fortaleza de Santa Cruz, à semelhança de insetos monstruosos que voassem, rápidos, ligados pelas antenas a invisíveis fios de arame. Das estações do Pão de Açúcar, do Corcovado, de Santa Teresa, da Babilônia, levantam voo a todo instante aerobus enormes, que fazem o serviço para Petrópolis, para Teresópolis, para Friburgo, para Minas, para São Paulo e para as ilhas, de bordo dos quais se agitam lenços esvoaçantes, de pessoas que se despedem saudosas, de parentes ou amigos que lhes dizem adeus do terraço dos grandes edifícios.

Embaixo, na Avenida da Independência, a estátua de Epitácio Pessoa faísca, monumental. Vendedores de jornais, montando pequenos veículos de duas rodas, apregoam, alto, as novidades do dia, entre as quais avulta a notícia de que o Loyd, nesse ano, não deu "déficit". As ruas, as praças, as avenidas, e o próprio espaço, fervilham de passeantes e de veículos, quando um guarda civil do serviço aéreo anuncia, pelo telefone sem fio a aproximação de um aeroplano esquisito e de marcha retardada, que procede do Sul.

Afixados os cartazes elétricos no alto dos morros, os transeuntes elegantes retiram os binóculos da cintura, afixam-nos na direção indicada, esperando o viajante desconhecido. Será um selenita, um dos misteriosos habitantes da Lua? Será um emissário de Marte? Nariz para o ar, chapéu na mão, os cariocas acompanham a marcha do gafanhoto de aço, que desce, aos poucos, trepidando e zumbindo, até pousar, em frente ao Club Revolucionário Maurício de Lacerda, na praça Carlos Sampaio, onde era antigamente o morro do Castelo. Curiosa, a população precipita-se, correndo e voando, naquele rumo, para ver o recém-chegado, que salta com dificuldade do seu aparelho. É um ancião alto, magro, de cabeça alva, e com uma barba de neve que lhe desce, abundante, até o estômago.

Admirado, olha ele para um lado e outro, como a perguntar-se a si mesmo se não terá errado o caminho, quando um cavalheiro idoso o encara, e recua. E um grito de entusiasmo estruge, reboa, troveja, abalando a cidade.

— De Lamare! De Lamare!

É De Lamare que regressa, vitorioso, do "raid" a Buenos Aires!...

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