sábado, 18 de novembro de 2017

A Gratidão (Conto), de Camilo Castelo Branco


A Gratidão

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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CAPÍTULO 1

Estávamos nos últimos dias de dezembro de 1846. Uma camada muito espessa de neve cobria o solo. O ar, sombrio e carregado, indicava que mais neve não tardava a cair. Os ramos nus das árvores dos montes tremiam soprados pelo vento norte gelado. Estava tudo num perfeito sossego, e tristeza; nem o mais leve murmúrio se ouvia.

Uma velha, e uma criancinha, apesar do rigor do frio, seguiam com dificuldade o caminho, que da serra de Valongo conduz a São Cosme. A criança, de espaço a espaço, soprava às mãozinhas inteiriçadas pelo frio, e não se podendo sustentar sobre os pés, que tinha inchados pelas frieiras, caminhava vacilante; mas vencendo todos os obstáculos, com uma energia superior à sua idade, tomava galhardamente o seu lugar ao lado da velha. Esta parecia ter sessenta anos. Estava corcovada mais pela miséria, do que pela idade, e tinha no rosto profundas rugas. Pelo modo como andava, e tateava o caminho com a muleta, via-se que era cega.

— Aonde vamos nós, Rosa? — perguntou a velha à rapariguinha.

— Em meio caminho, a minha avó.

— Jesus Senhor, valei-me, — disse a cega, — pois que as minhas pobres pernas já estão cansadas, e parece-me que não chego ao fim da jornada.

— Encoste-se ao meu ombro, avozinha, que eu não estou cansada.

— Não, não. Tudo está acabado. Eu morro aqui, Rosinha. Tenho muita fome, e muito frio para vencer o caminho até São Cosme. Ai meu Pai do céu, que me sinto desfalecer...

Fez um gesto de desespero, e a cega caiu sobre o caminho.

— Avozinha, avozinha, — gritava Rosa assustada, — volte a si, que lho peço eu; mais um pequeno esforço e chegaremos a São Cosme.

A cega não deu acordo de si.

— Avozinha, — continuou Rosa chorando, e cobrindo-a de beijos, — se me abandona, que hei de fazer? Quer que eu morra de paixão?

— Morrer, tu, minha Rosinha, — disse a cega levantando-se. — Oh! meu Deus, não permitais tal.
— Então levante-se que lho peço eu; se fica aqui mais tempo o frio matá-la-ia. Em São Cosme nos aqueceremos.

— Ai de mim, — disse a cega, levantando-se ajudada de Rosa, — e a Sra. D. Teresa receber-nos-á?

— Há de receber sim, minha avozinha, eu lho afianço. Não creio que a boa Sra. D. Teresa nos despeça. Quando eu lhe ia vender flores silvestres, que apanhava no monte, abraçava-me, e dizia-me muitas vezes, que desejava que eu fosse sua filha.

— Não duvido que ela te receba, porque és muito linda e agradável; agora o que eu não creio é que me receba a mim, que sou uma velha e cega, que para nada sirvo.

— Se assim acontecer, voltaremos à nossa aldeia, e os bons lavradores, que conheceram meus país, terão piedade de nós, socorrer-nos-ão, e eu trabalharei para lhes pagar, o que eles vos derem.

A avó, muito comovida, apertou ao coração a pequena, e murmurou palavras de ternura e gratidão; e reanimada por esta felicidade, que Rosa lhe tinha feito experimentar, retomou com passo mais firme o caminho de São Cosme.

O vento soprava já com mais força; o ar tinha escurecido mais, e pequenos flocos de neve se viam voltejar no ar. Rosa, tiritando com frio, fazia esforços sobre-humanos para poder andar, e cada passo, que a pobre cega dava, era acompanhado de um suspiro surdo. O vento aumentou, e os flocos de neve, que ao princípio eram raros, caíam em maior abundância.

— Rosinha, — disse a cega, — bem queria andar, mas não posso; deixa-me ficar.

— Avozinha, eu já avisto a torre da igreja de São Cosme.

— Estás bem certa disso?

— Eu não queria mentir...

— Vamos andando. Permita Deus que eu possa vencer o caminho.

— Não tenha receio de me cansar, minha avó; sou forte, e não estou fatigada. Encoste-se ao meu ombro.

— Meu querido anjinho, que Deus te pague tudo o que me fazes.

Chegaram finalmente a São Cosme, à quinta de D. Teresa de Sousa, depois de mil esforços, que cansaram completamente avó e neta.

Era tempo; mais um instante e teriam caído ambas no chão. Entrando na cozinha da casa, o calor produziu-lhes uma reação tão violenta, que desfaleceram.


CAPÍTULO 2
  
D. Teresa de Sousa, e mais algumas vizinhas, que se tinham reunido para cirandar, acercaram-se das duas infelizes. Depois de lhe ter ministrado todos os cuidados necessários para as reanimar, como o seu principal mal era a fome, mandou-lhe dar um bom caldo, e acomodá-las a um dos cantos do lar, em que ardia uma grande fogueira.

— Agora, Rosinha, — disse D. Teresa, ameigando-a, — conta-nos, como a esta hora, e com este tempo vieste até aqui com esta boa mulher.

— Desculpai, minha boa senhora, — disse a cega, — Rosinha é a minha neta.

— Sim, Sra. D. Teresa, é minha avó, de quem tantas vezes tenho falado a vossa excelência e...

— Então por que não continuas? — lhe replicou D. Teresa.

A pequena levantou para D. Teresa os seus lindos olhos azuis, com uma tal expressão de súplica, que a comoveu.

— Fala, fala, minha menina. Não tenhas receio. Queres pedir-me alguma coisa, não é assim?

— Vede, minha boa senhora, — disse Rosa, contendo as lágrimas a custo, — eu e a minha avó, somos muito desgraçadas. O meu pai, que era rachador de lenha, feriu-se pelo São João num a perna com o machado. A minha mãe mandou-me chamar a toda a pressa o Sr. Pereira, que é um homem muito entendido. Fui, o mais depressa que pude, e quando cheguei a casa do Sr. Pereira estava ele para sair, e não queria vir comigo para não torcer o seu caminho; mas eu tanto lhe pedi, que sempre me acompanhou. Quando viu a perna o meu pai, logo disse, que estava muito mal, e que não prometia curá-lo. Duas semanas depois veio à ferida uma moléstia, de que me não lembra agora o nome, e o meu pai morreu.

Rosa calou-se chorando, e a cega também soluçava. D. Teresa abraçou a rapariguinha, apertou a mão à pobre velha, e disse:

— Para hoje já é demais, amanhã...

— Perdoe-me, Sra. D. Teresa, — replicou Rosa, — mas é melhor que eu termine hoje, — e continuou:

— Havia um mês que o meu pai tinha morrido, quando a minha mãe caiu de cama; a febre não a deixava. Eu ia aos campos apanhar as ervas, que a minha avó me ensinava, para lhe fazer remédios, mas nada sarava a minha mãe. Um dia abraçou-me e disse-me:

“Minha pobre Rosinha, eu vou unir-me com o teu pai, mas que será de ti?

Trabalharei, lhe respondi.

És muito nova para isso; mas entretanto rogarei muito a Deus para que te receba sob a sua santa guarda, e te não abandone. Nunca desampares a tua avó, sê-lhe obediente e carinhosa... ainda queria falar, mas não pôde, abraçou-me e à avozinha, e expirou.”

Desde então alguns rachadores, amigos do meu pai, nos recolheram e socorreram; mas como não são ricos, e precisam de mudar de terra por não terem aqui que fazer, lembrei-me de vir pedir agasalho à senhora, pois que, sendo tão boa, não deixaria de nos recolher, que somos tão desgraçadas. Sou fraquinha, mas posso trabalhar. Sei fiar, e começo a lavar. Guardarei os bois, e os carneiros e tratarei do galinheiro. A minha avó também fia muito bem e estou muito certa, que a há de satisfazer com o seu trabalho. Oh! senhora — disse Rosa ajoelhando-se aos pés de D. Teresa — não nos abandoneis; satisfazemos-nos com pouco, e faremos todo o possível para vos agradar, e rogaremos continuamente a Deus pela vossa vida e felicidade.

D. Teresa comoveu-se tanto, com a singeleza e candura desta súplica, que duas lágrimas lhe brilharam nos olhos.

— Levanta-te, Rosinha, amanhã falaremos nisso. Tu e a tua avó ide-vos deitar. Sempre te direi, que és muito linda e corajosa, para que se não tenha piedade de ti.

Rosa beijou com reconhecimento as mãos de D. Teresa, e a cega encheu-a de bênçãos. D. Teresa mandou-as conduzir a um pequeno quarto, limpo e quente, em que um sono reparador lhe reanimou as forças.


CAPÍTULO 3

Ainda mal a aurora tinha raiado, já Rosa estava a pé. Fatigada, como estava, da jornada do dia antecedente, custou-lhe muito a levantar-se cedo, mas fez um esforço para mostrar os seus desejos a D. Teresa.

Arranjou-se, o melhor que pôde, com os seus velhos vestidos, e, depois de ter dirigido mentalmente a Deus uma oração fervente, desceu ao andar térreo.

— Já a pé, — disse-lhe alegremente D. Teresa.

— Estava tão cansada do caminho de ontem, que receei, já fosse tarde; mas graças aos vossos benefícios, minha senhora, já estou pronta, para o que me determinardes.

— E a tua avó?

— Ainda dorme. É tão velhinha e tão doente, que vos peço tenhais piedade dela.

Rosa ergueu as mãos, e esperou trêmula a resposta da dona da quinta.

D. Teresa de Sousa era, o que vulgarmente se chama, uma mulher de casa. Tendo viuvado há doze anos, geria com tanto acerto e economia as suas propriedades, que a sua fortuna tinha aumentado consideravelmente.

Os vizinhos do lugar diziam que, pela avareza e mesquinharia, é que tinha alcançado a fortuna, que possuía, pois que em qualquer coisa sempre tinha que diminuir, e acrescentavam ironicamente, que, dando tantas esmolas, o dinheiro nunca lhe havia de faltar.

Fosse como fosse, o que sei é, que D. Teresa sensibilizou-se tanto com a história de Rosinha, que, quando ela ergueu as mãos, e a viu com os olhos arrasados de lágrimas, esperando a resposta, disse para si; que a uma súplica tão humilde e cheia de tanto amor filial, era impossível resistir.

Neste momento quem acusasse de avarenta D. Teresa de Sousa, seria injusto com ela, porque, recolhendo a avó e neta, tomava um encargo bastante pesado. Rosa era ainda muito pequena, e para além do mais muito fraquinha, para poder ter utilidade real! A pobre criança estava a fazer dez anos, mas era muito franzina e delicada. O seu rosto, cercado de compridos caracóis louros, e animado com uns grandes olhos azuis escuros, inspirava simpatia. Tinha as maneiras delicadas, e a linguagem menos rude, que a dos camponeses dos arredores. Esta distinção numa criança, ainda tão tenra como Rosa, nascia da sua inteligência muito desenvolvida.

A mãe, logo que ela teve tino para se não perder nos caminhos, mandava-a apanhar flores silvestres, que ia vender às famílias mais abastadas das aldeias vizinhas. Como Rosa era muito linda as senhoras das casas acolhiam-na muito bem, divertiam-se com ela, ouvindo-a tagarelar, e demoravam-na muitas vezes a brincar com as suas filhas.

Sendo muito viva tomou facilmente as maneiras, e modo de falar, das pessoas com quem tratava, de modo que os rachadores denominavam-na a fidalguinha.

Se tinha adquirido maneiras delicadas, não havia perdido as boas qualidades, de que era dotada; humilde e carinhosa para todos, quem a conhecia adorava-a.

O que a mim, minhas caras leitoras, me levou tanto tempo a dizer, passou num instante pela ideia a D. Teresa de Sousa, e fixou-lhe a resolução de recolher a avó e a neta.

— Vou-te mandar vestir uma roupinha melhor, Rosinha, — disse-lhe D. Teresa, animando-a com uma brandura, que lhe não era habitual, — porque espero hás de ser uma boa criada, serviçal e trabalhadeira.

— Então fico em casa de vossa excelência? — disse Rosa, não podendo crer em tanta ventura.

— Ficas, sim, e parece-me que nunca me darás motivo para me arrepender do que hoje faço.

— Oh! minha senhora, estai certa que me esforçarei o mais possível, para vos agradar e satisfazer os vossos desejos.

— Assim o espero. Anda vestir-te.

— Desculpe-me, senhora. Mas a minha avó... — e Rosa parou corando.

D. Teresa, querendo experimentar a sua protegida, disse:

— Que quer a tua avó?

— Ela também fica?

— Não. A tua avó é cega e velha, para nada serve, e eu não sou rica bastante, para me encarregar da sustentação de duas pessoas.

— Então, senhora, agradeço os vossos benefícios, e todo o bem que me queríeis fazer, mas não posso abandonar a minha avozinha, que morreria de paixão.

Vou ajudá-la a levantar-se, e regressaremos à nossa aldeia.

— E que hás de fazer na tua aldeia?

— Irei humildemente pedir a um mestre tamanqueiro um pequeno cantinho da sua casa, que estou certa me não negará. Não sou robusta, mas tenho coragem, por isso trabalharei nos socos durante o inverno. Quando vier o verão irei vender flores e frutos, como os demais anos, e como eu, e a pobre cega, de pouco precisamos para viver, parece-me que ganharei para ambas. Logo que chegue a primavera não seremos pesadas a ninguém...

D. Teresa apertou Rosa nos braços, e chegou-a ao coração.

— Basta, Rosinha, tu és um anjo do céu, que Deus enviou a minha casa para me trazer a felicidade. Vai-te vestir, e depois irás participar a tua avó, que ambas ficais para sempre na minha casa.

Descrever a alegria da avó, quando soube a decisão de D. Teresa, é-me impossível fazê-lo, minhas caras leitoras; vós, que deveis ser dotadas de bom e piedoso coração, melhor a podereis imaginar. Abraçava Rosa, agradecia a D. Teresa com um reconhecimento muito sincero, prometendo fazer todo possível para ser menos pesada à sua benfeitora. Rosa nada dizia, mas a eloquência do seu olhar provava a D. Teresa a sua gratidão.


CAPÍTULO 4

Rosa, ainda que novinha e de fraca organização, tornou-se útil em casa. Incansável no trabalho, de manhã cedo tratava da capoeira e do pombal; depois ia guardar os bois e os carneiros, e, enquanto que os vigiava, fiava na sua roca.

Ao jantar, quando recolhia a casa, tinha sempre que fazer. Era um gosto ver esta criança tão tenrinha arrumar, limpar e lustrar os móveis, como o faria a melhor mulher de casa.

D. Teresa cada vez mais estimava a sua protegida, e felicitava-se pela ter recolhido. A avó também não era inútil. A cegueira não a impossibilitava de fiar desde pela manhã até à noite, e o seu trabalho era perfeito. Tudo corria bem, e todos andavam contentes e satisfeitos.

Chegou a primavera. Começaram a desabrochar com o tépido sopro desta estação, e mostraram as suas galas, a bela pervinca azul, o narciso de coroa de ouro, o lírio de campanas odoríferas, e a bela violeta de cálices perfumados.

Rosa, quando ia à serra, era para ela um dia de alegria. Procurava os caminhos tapetados de musgo, os regatos, que tantas vezes tinha passado, as fontes escondidas pelas sarças, e as árvores, sob as quais tinha encontrado as mais lindas flores. Rosa sentia-se mais livre e mais feliz na serra, do que nos campos da quinta; a todo o momento parava extasiada diante das belezas da natureza, e cada sítio novo, que achava, era como se fosse um amigo. Quando o sossego voltava, depois desta alegria e animação, esta poética criança fazia cestinhos de vimes e juncos, que guarnecia com musgo e flores silvestres, mas com um gosto e beleza esquisito, os quais D. Teresa mandava vender, dando sempre bom preço.

Ganharam renome os cestos de Rosa.

Em todas as quintas e casas ricas dos arredores não queriam outros, e até muitas famílias da cidade, que iam passar o verão àqueles sítios, compravam e procuravam com avidez os cestos desta gentil ramalheteira.

D. Teresa, como mulher que compreendia os seus interesses, entendeu que lhe era de mais proveito o empregar Rosa, durante a primavera, a fazer cestos e ramos, do que na quinta, por isso assim o determinou. Quando Rosa o soube, saltou de alegria, porque se dava melhor à sombra dos pinheiros e carvalhos, do que em casa.

Passou-se assim o verão, e D. Teresa não teve que se arrepender da sua resolução. Um certo número de meias coroas de prata provou o bom resultado do negócio de cestos e flores.

O inverno pareceu triste e monótono a Rosa. Tinha-se habituado de tal maneira a ir todas as manhãs para a serra, que chegava muitas vezes a esquecer-se do trabalho, e ir insensivelmente até à baixa dela. Voltava então muito apressada à quinta e redobrava de atividade, para fazer esquecer as suas faltas involuntárias.

Ocupou-se a fiar quase todo o inverno, e o produto do seu trabalho foi aumentar o pequeno tesouro começado com a venda dos cestos e flores.

D. Teresa considerava Rosa como sua filha, não podendo estar sem ela um único instante, e nos dias de feiras e romarias tinha gosto em que Rosa aparecesse entre as mais lindas e mais ornadas lavradeiras do lugar.

A amizade, que tinha a Rosa, refletia-se na avó; tratava-a com tal respeito e afabilidade, que a poderiam tomar por mãe de D. Teresa, tanto ela a cercava de cuidados e desvelos.

A felicidade da pobre cega, e bem assim o futuro de Rosa poder-se-iam julgar seguros; mas como nada neste mundo é imutável, o momento, em que a adversidade ia estender o seu braço de ferro sobre as duas infelizes, não estava longe.


CAPÍTULO 5

Voltou a primavera e com ela as encantadoras ocupações de Rosa. Foi com entusiasmo, que a cândida e poética criança encontrou as flores, suas amigas, com que preparou os primeiros ramos, que apareceram no mercado.

Os cestinhos e ramos de Rosa obtiveram uma grande extração, como no ano anterior. Ia entregá-los pessoalmente nas casas ricas, e muitas vezes as senhoras morgadas, se julgavam felizes por ter na sua companhia esta linda criança por algum tempo.

Rosa, vestida à lavradeira, era muito galante e modesta; o seu metal de voz era agradável, e as maneiras tão delicadas, que quais sempre as freguesas, ao preço do ramo, juntavam um presentinho para a vendedeira; mas quando perguntavam a Rosa o que era que mais estimava, respondia sempre, que o seu maior desejo era possuir um livro para se instruir.

Rosinha tinha uma paixão ardente pelo estudo; quase sem mestre tinha aprendido a ler correntemente, e a sua maior alegria consistia em obter um livro para se entregar à leitura.

D. Teresa pela sua parte também não obstava aos desejos de Rosa, tanto que se lhe não dava que ela faltasse às suas obrigações; mas devemos fazer-lhe justiça dizendo que sabia aliar a satisfação dos seus desejos, com o cumprimento dos seus deveres, por isso só depois de ter terminado os seus afazeres é que se dava ao estudo.

Estava Rosinha uma ocasião sentada à borda de um ribeiro, entretida a colher juncos para fazer um cesto, quando, sem ela o pressentir, se lhe aproximou uma senhora ainda jovem.

— Para que estais escolhendo esses juncos, minha menina? — disse-lhe a jovem senhora com modo afável.

Rosa levantou a cabeça, e vendo a desconhecida, saudou-a e respondeu:

— Faço cestinhos com flores para vender.

— Quero então já avaliar a vossa habilidade. Amo muito as flores, por isso queria que me fizesses um cestinho já, e se eu ficar contente hás de me fazer um todos os dias. Aceitais?

— Aceito, sim, minha senhora, e ainda que tenho muitas encomendas a satisfazer, vou já preparar o vosso.

— Assento-me aqui ao pé de ti e vamos conversando. Como te chamas?

— Rosa de Jesus, uma sua criada, minha senhora.

— Assim, Rosa, o teu trabalho é fazer cestos de flores para depois os ires vender?

— Sim, minha senhora.

— E teus pais em que se ocupam?

— Já não tenho pais; só me resta a minha avó, que é cega.

— És órfã, e onde moras?

— Estou em casa da Sra. D. Teresa de Sousa, proprietária em São Cosme, tão boa, como rica.

Há um ano, que eu e a minha avó não sabíamos aonde nos havíamos de recolher; estávamos em dezembro, e havia dois dias que não tínhamos comido, quando de repente me lembrei da Sra. D. Teresa. Eu e a minha avó, que então morávamos na serra de Valongo, pusemo-nos a caminho para São Cosme. O caminho é muito mau, por isso mais de uma ocasião julguei que a minha avó ficava na estrada, porque já não podia andar; mas o Senhor teve misericórdia de nós, e felizmente terminamos a jornada. A Sra. D. Teresa tratou-nos com muita bondade, e recolheu-nos na sua casa, apesar de sermos um encargo muito pesado.

— Amas então muito a Sra. D. Teresa?

— Se a amo. Não queria mais nada, senão poder reconhecer todo o bem, que nos faz. Não desejo senão crescer e robustecer para lhe poder servir de utilidade.

— Estou muito contente, minha pequena, por te ouvir falar assim. Quando te vi senti-me atraída para ti, e ficaria muito desgostosa se te não encontrasse com sentimentos dignos da estima que te consagro.

Parece-me que o meu cesto está acabado?

— Ainda lhe falta uma cercadura de não me deixes. Permiti, senhora, que eu vá ao próximo ribeiro colher estas flores, porque ali as há mais frescas, e em mais abundância.

— Ide, que aqui te espero.

Rosa partiu correndo.

D. Júlia de Andrade, que tanto interesse mostrava pela protegida de D. Teresa, tinha vinte anos.

O cabelo preto muito comprido, e naturalmente encaracolado, fazia-lhe sobressair ainda mais a palidez do rosto. Os olhos castanhos tinham um brilho de febre. A fisionomia demonstrava um padecimento interno, numa palavra, estava afetada de uma tísica pulmonar.

A sua mãe, a Viscondessa do Candal, receando pela vida de D. Júlia, tinha consultado os mais acreditados médicos de Lisboa e Porto, e todos tinham aconselhado os ares do campo, e o não constrangimento, como os meios mais profícuos para debelar a moléstia. A Viscondessa tinha portanto deixado o Porto e ido habitar com as suas filhas D. Júlia e D. Berta uma quinta próximo da serra de Valongo.

D. Júlia parecia que revivia no meio da luxuosa natureza, que a cercava. Todos os dias dava grandes passeios, e distraía-se ou sentando-se à sombra dos carvalhos e sobreiros, ou embrenhando-se entre as sarças. Ao princípio a Viscondessa receou que estes passeios tão longos prejudicassem a saúde da sua filha, mas vendo-a mais alegre e mais vigorosa, e que se a palidez não tinha desaparecido, a expressão sofredora do rosto era menos pronunciada, ficou mais sossegada e esperou obter o triunfo sobre a moléstia.

D. Júlia era tão boa, e ao mesmo tempo tão prudente, que a sua mãe não temia deixá-la em plena liberdade, e gozar da vida segundo as suas fantasias.

A Viscondessa queria que D. Berta acompanhasse sua irmã nos seus passeios; mas D. Berta, que era uma jovem de 16 anos de idade, orgulhosa do seu nascimento e beleza, recusou obstinadamente acompanhar sua irmã, dando como razão, que lhe repugnava o juntar-se como ela com esses estúpidos e rudes aldeãos, que habitam os campos, e a quem ela acariciava, e que além disso estragava os seus vestidos seguindo D. Júlia pelos caminhos estreitos e escabrosos dos campos e da serra. As mil vozes da natureza eram mudas para D. Berta; no seu coração só imperava o egoísmo.

Num destes passeios é que D. Júlia encontrou Rosinha, e que ficou encantada com a sua inocência.

Havia muito que D. Júlia esperava Rosa, e já receava que ela não voltasse, quando a viu vir correndo.

— Perdoai-me, senhora, o ter-vos feito esperar tanto tempo, mas eu fui muito longe colher as violetas e os não me deixes, porque queria que o meu cestinho vos agradasse. — Assim falando Rosa apresentou a D. Júlia um cestinho, que era um primor de arte no gosto, e esperou toda confusa, a sua apreciação.

Uma alegre exclamação de D. Júlia lhe fez vir o sorriso aos lábios.

— Quero abraçar-te, minha querida menina; há muito tempo que não vi nada tão lindo, e como me causaste um grande prazer, quero recompensar-te; mas deixa-me ainda admirar o teu belo trabalho.

Este cestinho podia ver-se. No centro tinha raminhos de violetas com as folhas verdes, ainda úmidas; uma coroa de lírios cercava as violetas, e em volta uma grinalda de musgo, semeada de raminhos de rosas amarelas e gerânios. Dois ramos de madressilva serpenteavam por entre os juncos formando as azas.

— Não quero — disse D. Júlia, depois de alguns instantes de silêncio — que uma obra tão bela tenha um viver efêmero; vou já bordar um quadro, cópia deste cestinho, que há de ficar muito rico. Mas, Rosinha, quanto queres por este trabalho?

— Dar-me-á o que quiser, minha senhora, como costumam fazer as outras minhas freguesas.

— Mas quanto é que custam ordinariamente?

— Três ou quatro vinténs.

— Quatro vinténs! — disse D. Júlia admirada.

— Acha caro, minha senhora? — disse Rosa com acanhamento.

— Caro, não, minha pequena. Quando estava no Porto pagava, por muito maior preço, ramos que tinham muito menos valor, que o teu cestinho. Toma, Rosinha, não tenho aqui senão esta meia coroa, mas amanha a esta hora aparece aqui, e falaremos...

— Não posso aceitar o que me dais, minha senhora, porque é muito.

— Queres fazer-me zangar?

— Não, senhora. É a primeira vez que a vejo, mas já a estimo muito. Eu não preciso de nada; a Sra. D. Teresa é muito minha amiga e...

— Não é uma esmola que te dou — replicou D. Júlia, metendo a moeda de prata na mão de Rosinha — não te esqueças da recomendação, que te fiz, de estares amanhã aqui a esta mesma hora.

E antes que Rosa tivesse tempo de recusar, já D. Júlia tinha desaparecido, levando na mão o cestinho.

Rosa ficou um instante sem saber o que havia de fazer, mas recomeçou ligeiramente o trabalho. Quando ao jantar voltou a casa, contou a D. Teresa o seu encontro de pela manhã, o que lhe tinha acontecido e perguntou-lhe se devia ou não guardar os cinco tostões.

— Não te autorizo a pedir, Rosa, mas isso não é uma esmola, é um presente, que te fazem, podes portanto arrecadar esse dinheiro. Ris-te. Já sei. Esse dinheiro vem a propósito para aumentares o teu mealheiro, com o qual te hei de comprar um rico jaqué para o São Miguel.

— Não, senhora — replicou Rosa com a alegria nos olhos — não é esse o meu pensamento, e que me causa tanta alegria.

— Que é então?

— Rogo-vos que me não façais perguntas; depois o sabereis.

— Guarda o teu segredo, porque sei que não és desgovernada, e que o não hás de gastar mal gasto.

Rosa abraçou ternamente D. Teresa, e foi entregar as suas encomendas de flores e cestos.


CAPÍTULO 6

D. Júlia recolheu-se para casa muito tempo depois da hora, que tinha determinado.

A Viscondessa, impaciente e sobressaltada com a demora, saiu, no caminho, ao encontro da sua filha.

— Estiveste incomodada, minha filha? — disse-lhe ela.

— Não, minha senhora. Este cestinho, que aqui trago, é que foi a causa da minha demora.

E D. Júlia mostrava a sua mãe o cestinho, que Rosa tinha feito.

— Como é lindo — respondeu a Viscondessa — Não sabia Júlia, que tinhas a prenda de fazer cestos de juncos entrançados.

— Não fui eu que fiz este cestinho, minha mãe.

— Então quem foi?

— Foi uma lavradeirinha, que encontrei no meu passeio.

— Uma lavradeira?!

— Sim, minha senhora. E acreditareis, minha mãe, que por todo este trabalho me pediu a grande quantia de quatro vinténs?

— Não te pergunto quanto lhe deste, porque conheço a bondade do teu coração, e tenho a firme convicção de que não abusaste da sua simplicidade.

— Dei-lhe só meia coroa, porque não tinha mais na minha bolsinha. Não queria recebê-la, ajuizando que lha dava como uma esmola; mas tanto fiz que a aceitou, e convencionei com Rosa, (pois a minha ramalheteira assim se chama) para nos encontrarmos amanhã, no mesmo sítio, à mesma hora; e se ela, como penso, for digna da simpatia, que me inspirou, e do interesse que já me causa, consentir-me-eis, minha boa mãe, que a tome sob a minha proteção?

— Consinto em tudo, minha filha, que te dê prazer, e distração. Se a tua protegida for digna dos nossos benefícios, unir-me-ei contigo, e acordaremos no que devemos fazer para seu bem.

D. Júlia abraçou com ternura a Viscondessa, e agradeceu-lhe a sua bondade.

Neste comenos, a Viscondessa e a sua filha, chegaram a casa.

D. Júlia colocou com muito cuidado sobre uma mesa da sala o cestinho, e correu com presteza ao seu quarto a preparar um cavalete, pincéis e tintas para dar princípio ao quadro projetado, e, tendo tudo disposto, desceu à sala a buscá-lo.

D. Berta estava examinando o cestinho com atenção e minuciosidade.

— Não estão tão bem dispostas e combinadas essas flores, Berta? — disse D. Júlia.

— Assim, assim. Não gosto destas violetas, que formam o centro do ramo. Podias ter tido melhor gosto e fazer coisa melhor.

— Não concordo com a tua opinião. Estou convencida de que Rosa não podia ter melhor gosto.

— Rosa?

— Sim, Rosa. Ah! é verdade; ainda te não contei o encontro, que tive esta manhã. Ora ouve.

D. Júlia contou a sua irmã minuciosamente toda a conversa, que tivera com Rosa.

Quando ela acabou, D. Berta fez um gesto de desdém.

— E, sem dúvida, Júlia, já te afeiçoas-te a essa pequena; não é assim? — disse D. Berta.

— Rosa, — respondeu unicamente D. Júlia — tem merecimento bastante, que a torna digna da proteção, que se lhe dispensar.

— O que mais me admira e me espanta, Júlia, é a rapidez com que simpatizas com qualquer, e como instantaneamente conheces e decides, que essa pessoa é digna da tua afeição e amizade... Não quero tomar-te o tempo; julgo que vinhas buscar o teu lindo cestinho, não é assim?

— Vinha, sim, para o ir copiar num quadro, pintando-o.

— Pintá-lo?! — disse D. Berta, dando uma grande gargalhada. — Que liguemos alguma atenção às flores dos nossos parques e jardins, concedo; mas que empreguemos o tempo e o talento com as silvestres, que só tem os perfumes para si, parece-me uma singularidade esquisita.

— A minha opinião, Berta, é exatamente o contrário. Mas isso não admira, porque nós raras vezes estamos acordes sobre qualquer matéria. Ponhamos isso de parte; queres tu vir amanhã, comigo e com a nossa boa mãe, ver Rosa?

— Não posso. Combinei com a Francisquinha e Ritinha Meireles virem amanhã aqui passar o dia. Além disso, falar-te-ei francamente, não há nada para mim mais antipático do que todas essas lavradeiras; e andar uma légua para me ir achar face a face com um monstrozinho, parece-me um tanto aborrecível.

— Rosa é muito linda e interessante.

— Para ti, Júlia, todas as lavradeiras são lindas e interessantes. Para mim todas são feias, e broncas. O calor começa a incomodar-me — disse D. Berta,
sentando-se indolentemente sobre um sofá. — Vai, Júlia, vai pintar o teu lindo cestinho, que eu vou sonhar com o meu Porto, para onde espero ir muito breve.

Estas últimas palavras já mal se perceberam, porque foram acompanhadas com um bocejo, e D. Berta cerrou os olhos.

D. Júlia lançou sobre sua irmã um olhar de compaixão e saiu.

Alguns instantes depois deu princípio ao quadro.


CAPÍTULO 7

No dia seguinte Rosa saiu para a serra, muito cedo, para adiantar o seu trabalho, e poder assim dedicar mais tempo à jovem senhora, que tão amável e generosa tinha sido com ela.

Trabalhou com tal desembaraço, que, muito antes da hora marcada por D. Júlia, tinha terminado o seu serviço.

Aproveitou portanto o tempo entregando-se à leitura de algumas páginas de um livro, de que lhe tinham feito presente no dia anterior. Lia com atenção, e, quando encontrava algum trecho rico e belo, parava, para exprimir a sua alegria e entusiasmo.

Estava Rosa de tal sorte entregue à leitura, que não pressentiu a chegada da Viscondessa e da sua filha D. Júlia.

— Que livro estás lendo, com tanta atenção, minha menina — disse-lhe a Viscondessa.

Rosa saudou-a, apresentou-lhe o livro e respondeu:

— São as Meditações religiosas de Rodrigues de Bastos.

— E encontras grande prazer na sua leitura?

— Se encontro, minha senhora. Quando estou sentada à borda de um regato, ou debaixo de um carvalho anoso, lendo neste livro, parece que a minha alma se despe de todos os seus invólucros terrenos e mundanos, e se põe em contato com Deus, autor de todas estas maravilhas da natureza, que nos cercam, e a quem no fundo do meu coração adoro e venero.

A Viscondessa e a sua filha, admiradas do que ouviam a uma pequena do campo, trocaram entre si um olhar de inteligência.

— E que mais costumas ler? — perguntou D. Júlia.

— Não tenho muitos livros. Além deste possuo um catecismo, uma vida de santos, de que leio uma página cada domingo, e mais uns livrinhos de histórias bonitas. Esquecia-me dizer-vos, que também tenho um livro de geografia, que me deu o mestre escola da minha freguesia, mas que não leio, porque tem muitas palavras, que não entendo.

— Pelo que me dizes conheço que tens desejos de te instruíres. Se te proporcionassem os meios do fazeres, serias feliz?

— Seria, sim, minha senhora; mas infelizmente isso é impossível, porque, para ir todos os dias à mestra, é preciso ser muito rica.

— Mas se te mandassem à mestra? — insistiu D. Júlia.

— Seria muito feliz, mas nem quero pensar nisso.

— Pelo contrário; eu e a minha mãe, viemos procurar-te para que nos conduzisses a casa da Sra. D. Teresa, e, se a tua protetora estiver satisfeita contigo, pedir-lhe-emos para te deixar ir todos os dias à mestra. Então não respondes?

— Perdoai-me, senhora. Estou muito contente e alegre, e queria agradecer-vos, mas não posso. Que fiz eu para merecer tantos benefícios?

— Mostraste-te reconhecida aos benefícios da Sra. D. Teresa, e isso indica um bom coração; és trabalhadeira e tens desejos de te instruíres; mereces portanto que nos interessemos por ti — disse-lhe a Viscondessa. — Vamos, ensina-nos o caminho para a quinta da Sra. D. Teresa.

Rosa, comovida, dirigiu-se para a quinta com a Viscondessa e a sua filha. Pelo caminho respondeu modestamente, e com graça, a todas as perguntas, que lhe fizeram, e cada uma das respostas confirmou mais, as duas senhoras, no bom conceito, que tinham formado de Rosa.

Quando chegaram à quinta, D. Teresa não estava em casa, mas não devia tardar muito, por isso esperaram. Rosa apresentou às duas senhoras cadeiras para se sentarem e ofereceu-lhes um copinho de leite fresco e morno.

D. Júlia, a quem o caminho tinha fatigado, aceitou o oferecimento.

Rosa trouxe então uma toalha de linho, alvo como neve, que estendeu sobre uma mesa, na qual colocou o melhor pão, que havia em casa, manteiga e um copo de leite.

D. Júlia, com uma alegria infantil, aceitou este lunch frugal, e, reanimadas com ele as suas forças, pediu para visitar a quinta.

A avó de Rosa estava sentada no jardim, debaixo de um caramanchel de clematites, fiando, e cantando com voz trêmula o estribilho de um romance antigo. Nesta boa velha, bem vestida e de boa presença, ninguém seria capaz de reconhecer a pobre cega, que dezoito meses antes, quase morrendo de fome e frio, e podendo apenas suster-se em pé, encontramos seguindo o caminho da serra de Valongo para São Cosme.

A Viscondessa do Candal e a sua filha saudaram a pobre cega, e esta, prevenida pela netinha, correspondeu-lhe respeitosamente.

— Não vos incomodeis, boa mulher — disse-lhe a Viscondessa — permiti-nos somente que conversemos por um instante convosco.

— É muita honra para mim, minha querida senhora; — respondeu a cega — estou portanto às vossas ordens.

— Visto isso não vos recusareis a dizer-me se estais satisfeita com a vossa neta?

— Se estou contente com a minha Rosinha?! — exclamou a cega — com ela, que é a minha bênção sobre a terra. Quando o meu genro morreu, por causa de uma ferida, que fez num a perna com o seu machado, porque ele era rachador de lenha na serra, e a quem minha filha, mãe de Rosa, seguiu passado pouco tempo, quase que enlouqueci, porque não sabia o que havia de fazer. Rosa, disse-me com a sua voz meiga e humilde: avozinha, eu conheço uma senhora muito caritativa; vamos a sua casa, que estou certa nos há de recolher. E foi verdade.

A Sra. D. Teresa, essa boa e caritativa senhora, para quem peço a Deus todos os benefícios e bênçãos, teve a caridade de recolher na sua casa uma velha enferma e inútil como eu. Mas isto devo-o a Rosinha, porque ela sabe dizer as coisas de tal maneira, que, penetrando até o coração, comovem e decidem à compaixão. Vai em dezoito meses que aqui nos achamos. Fio um pouco para não estar em descanso; mas Rosinha, senhora, Rosinha, cantando sempre, trabalha desde pela manhã até à noite. Em quanto que dura o verão, ocupa-se a colher flores na serra e no campo, e a fazer cestinhos com elas; mas isto não obsta a que, quando se recolhe, lave a roupa, limpe os móveis, e ajude a cozinhar, e se quisesse dizer-vos tudo o que ela faz, ou sabe fazer, levar-me-ia muito tempo.

Assim, amo muito a minha querida Rosinha. Mas onde estás tu, que te não chegas a mim para te dar um abraço?

Rosa, com o pretexto de ir colher um ramo para D. Júlia, tinha-se retirado, quando a avó começara a elogiá-la.

A Viscondessa e a sua filha ouviram com prazer o panegírico de Rosa, feito pela avó, e iam fazer novas perguntas, quando D. Teresa chegou.

Depois de terminados os comprimentos preliminares, a Viscondessa expôs a D. Teresa como sua filha simpatizara com Rosa, e estava resolvida a tomá-la sob a sua proteção, se D. Teresa a isso se não opusesse.

— Primeiro que tudo — respondeu D. Teresa — desejo a felicidade e venturas de Rosinha, ainda que me há de custar muito a separar-me dela: porém, se for sua vontade, não me oponho, porque julgo lhe procurais a sua felicidade; mas ponho por condição, que lhe não proibireis vir algumas vezes visitar-me.

— Isso, senhora, é um dever sagrado, que Rosa tem a cumprir. Vamos porém interrogá-la, porque ela nada sabe do que acabamos de falar.

D. Teresa chamou a pequena, que veio correndo, e disse-lhe:

— Rosinha, queres ir viver com esta senhora e a sua filha?

— Pois vós, senhora — respondeu Rosa tremula e tímida — quereis mandar-me embora?

— Não. Pergunto somente se me queres deixar, para te tornares uma menina da cidade, instruída e de maneiras polidas?

— Não, minha senhora. Nunca — disse Rosa chorando, lançando-se nos braços da sua benfeitora — nunca vos deixarei. Tenho muitos e muitos desejos de me instruir e de aprender, mas, se para isso é necessário o deixar-vos, antes quero ficar ignorante toda a minha vida. Recolheste-nos, senhora, quando eu e a minha querida avozinha, estávamos quase a morrer de fome, e havia de ser tão ingrata, que, quando princípio a servir de alguma utilidade, vos abandonasse? Não, senhora, nunca, nunca vos deixarei.

— Ouviste-la, minhas senhoras — disse D. Teresa enxugando os olhos, rasos de lágrimas.

— Pelo que vejo, Rosa, estás bem decidida a não vir conosco? — disse-lhe a Viscondessa.

— Seria feliz e muito feliz, minha senhora, se pudesse ir viver na sua companhia, e da sua estimável filha; mas antes de vós, está a Sra. D. Teresa, que salvou a minha pobre avozinha de estender a mão à caridade pública e que sempre tão minha amiga tem sido. Perdoai-me, senhora, se assim falo...

— Dá-me um abraço, minha menina — disse-lhe a Viscondessa interrompendo-a — dá-me um abraço, porque te mostraste tal, como eu desejava, boa, humilde e reconhecida aos benefícios, que te fazem.

Não tenhas receio, que te separemos da Sra. D. Teresa. Pediremos somente à tua benfeitora, que nos deixe entrar com metade nos benefícios, que te prodigaliza.

— E eu, Rosa — acrescentou D. Júlia — quero ser a tua preceptora. Quando o tempo estiver bom, dar-te-ei as lições na serra, à sombra de um sobreiro, ou de um pinheiro, ou à borda de um regato; e quando estiver mau, dar-tas-ei na minha casa, porque ouso esperar, que a Sra. D. Teresa me não negará este favor, e prazer.

— Oh não, minha senhora, esteja certa disso. Logo que termine o seu serviço dos cestinhos fica livre para vos ir procurar.

— É objeto convencionado — disse a Viscondessa — por isso a Sra. D. Teresa há de me permitir licença de oferecer a Rosa, para si e a sua avó, o que contém esta pequena bolsa. É para comprar no nosso nome um vestido novo.

E como D. Teresa, Rosa e a avó lhe fizessem muitos agradecimentos, a Viscondessa impôs-lhes com brandura silêncio, e retirou-se, prometendo voltar muito breve à quinta.

D. Júlia abraçou a sua pequena discípula, e retirou-se dizendo-lhe “até amanhã”.

Nas proximidades de casa a Viscondessa e a sua filha encontraram D. Berta, que estava esperando pelas meninas Meireles.

— Meu Deus, como estou aborrecida — lhes disse ela.

— Pois eu, minha irmã — respondeu D. Júlia — venho muito alegre; o espetáculo, que acabo de gozar, dar-me-á felicidade não só para hoje, mas também para muito tempo, porque será contado no número das minhas mais gratas e queridas recordações.


CAPÍTULO  8

D. Júlia, na forma convencionada, começou no seguinte dia o curso, que queria fazer seguir a Rosa. Tomou com ardor a obrigação, que se tinha imposto desempenhar, mas o seu zelo não excedia, o que mostrava a sua aluna. Inteligente, e ansiosa por aprender, Rosa era incansável, e muitas vezes foi preciso que D. Júlia moderasse a sua aplicação; as lições tinham lugar umas vezes na serra, outras vezes em casa da Viscondessa.

Decorreram assim três meses. No fim deste tempo, os progressos, que Rosa tinha feito, eram espantosos, e como tanto a professora, como a discípula não afrouxavam no seu zelo, era de esperar que, no fim dos dois meses que D. Júlia ainda tinha a passar no campo, Rosa estivesse bastante desenvolvida para continuar, sem nada esquecer, a estudar sozinha, durante o inverno.

Mas, quando menos se esperava, a terrível moléstia, que parecia ter deixado D. Júlia, reapareceu com uma intensidade violenta.

A pobre menina não teve forças para resistir a este ataque, e não podia sair do quarto.

Rosa, que no auge da sua desesperação, com risco da própria vida, quereria dar algumas forças à amiga do seu coração, podia a custo conter as lágrimas, contemplando-a, pálida e cadavérica, recostada numa cadeira de braços, forcejando por se levantar sem auxílio, para não aterrar a sua querida mãe e a sua discípula predileta.

Neste momento Rosa tinha um único pensamento; o de sacrificar-se por aquela, que tanto a amava e lhe queria. Os mais pequenos desejos, e os mais vagos caprichos eram adivinhados de Rosa, e executados antes mesmo que D. Júlia os tivesse enunciado. Se queria descer ao jardim, o braço de Rosa é que a amparava; se queria ouvir alguma passagem dos seus livros favoritos, Rosa lia-lha imediatamente.

D. Júlia, muito sensibilizada por tanta dedicação, afligia-se com a lembrança, de que o progresso da sua discípula estava parado. D. Berta podia substituí-la, mas essa nunca consentiria em ser a preceptora de uma lavradeira. A Viscondessa resolveu-se a dar as lições a Rosa, para sossegar a inquietação de D. Júlia.

Havia já três semanas que D. Júlia estava doente, e cada dia ia a pior; a sua mãe já não tinha esperanças algumas. Três médicos, que do Porto tinham sido chamados, não deram esperanças da doente melhorar.

A Viscondessa, porém, não podendo convencer-se de que a sua filha estava irremediavelmente perdida, cria que os médicos se tinham enganado, e resolveu recolher ao Porto, para lhe fazer uma nova junta.

D. Berta, contristada ao princípio com a moléstia da sua irmã, consolava-se com a ideia de voltar ao seio da sociedade, que ela tanto amava.

Só à força de muitas instâncias e esforços é que D. Júlia consentiu em deixar o campo; mas, ainda assim, com a expressa condição de para lá voltar se piorasse.

Quando Rosa soube que a Viscondessa se ia retirar do campo, não pôde conter a sua desesperação. Queria acompanhar D. Júlia, e não a desamparar um só instante. D. Júlia procurava sossegá-la, mas tudo era baldado, porque Rosa estava inconsolável.

Na véspera da partida Rosa veio despedir-se de D. Júlia; lançou-se-lhe aos pés, chorando, e pediu-lhe que lhe escrevesse muitas e muitas vezes. A doente assim lho prometeu, e, tirando debaixo do travesseiro uma bolsinha de seda, apresentou-a a Rosa.

— Aceita, minha menina — disse-lhe ela — esta bolsa; contém cem mil reis, que são as minhas economias do verão; põe a juros este dinheiro, para que se aumente este capitalzinho.

É um presente muito pequeno; mas se nos não tornarmos a ver, minha boa mãe, dar-te-á, no meu nome, mais alguma coisa.

Rosa beijou as mãos de D. Júlia, e queria recusar a bolsa.

— Não recuses, Rosa — disse D. Júlia — senão for para ti, é para a tua avó. Sabes lá o que tem para vos acontecer, e se esta pequena soma ainda vos será útil? Adeus, Rosinha; ama-me sempre muito, e reza muito ao Senhor, para que me dê saúde.

Rosa quis responder, mas as lágrimas e soluços embargaram-lhe a voz. A Viscondessa, testemunha desta cena tão tocante, temendo as funestas consequências, que a sua filha sofreria com tão grande comoção, levantou Rosa, e pediu-lhe com instância e por favor que se retirasse. A pobre menina cedeu a custo, mas antes de se retirar ainda pôde ver D. Júlia, que, com um olhar maternal, a abençoava.


CAPÍTULO 9

Já tinha decorrido mais de um mês, desde que D. Júlia recolhera ao Porto, e Rosa ainda não tinha recebido carta da sua amiga. A pobre criança afligia-se, julgando, que este silêncio, para com ela, não tinha outra causa, senão o estado cada vez mais perigoso de D. Júlia. D. Teresa, que partilhava do pesar da sua filha adotiva, procurava por todos os meios consolá-la, e fazer-lhe conceber esperanças. Uma carta de D. Júlia veio confirmar as prevenções de D. Teresa.

D. Júlia, com mão trêmula, escreveu à sua querida discípula. Participava-lhe que a sua doença parecia estar um pouco mais debelada, e que os médicos davam algumas esperanças da poder subjugar, e embargar-lhe o seu progresso.

Terminava a carta aconselhando Rosa a que não descurasse os seus estudos, e pedindo-lhe que lhe escrevesse.

Rosa cobriu de mil beijos esta carta, e no mesmo dia respondeu a D. Júlia, assegurando-lhe que não desprezaria os seus conselhos, e que tinha esperanças, de, para a primavera, renovar as suas lições sob as árvores da serra; que nas suas orações rogava todos os dias a Deus, com fervor, que lhe restituísse a saúde, e que esperava as suas súplicas fossem atendidas.

Rosa, cumprido este dever sagrado, lançou mão do seu trabalho com mais vigor.

Estava próximo o dia natalício de D. Teresa. Rosa preparava em segredo um lindo presente para oferecer naquele dia à sua benfeitora, e para isso tinha reunido todo o dinheiro, que lhe tinham dado de mimo, e julgava-se bastante rica para poder apresentar a D. Teresa um brinde, de que ela admirasse o valor e o gosto.

Faltavam só quatro dias para que, esse dia tão ansiosamente esperado, chegasse, e Rosa ainda queria poder suprimir o tempo, tão longo lhe parecia.

Na véspera de manhã D. Teresa queixou-se de uma dor de cabeça, mas julgou que um passeio lha dissiparia. Saiu pois; mas passado uma hora voltou ainda mais indisposta, do que tinha saído.

Desprezando o seu estado, ainda presidiu, na forma costumada, ao jantar dos criados da quinta; mas, no meio dele, caiu sem sentidos.

Os criados, assustados, cercaram D. Teresa. Recolheram-na à cama, e partiu imediatamente um criado a chamar, a toda a pressa, um cirurgião.

Chegou este, e, mal viu a doente, não deu esperanças da salvar.

— Foi uma apoplexia fulminante — disse ele — é já tarde para se lhe dar remédio.

O desespero e a consternação espalharam-se na quinta.

Os criados em geral estimavam muito D. Teresa, porque, apesar de ser muito vigilante, era boa e justa.

Os menores movimentos do cirurgião eram seguidos com ansiedade por todos os criados, mas entre eles tornava-se saliente Rosa pelo zelo e atividade, que desenvolvia em executar as prescrições do cirurgião, ainda bem não estavam dadas.

Rosa não podia crer que Deus lhe quisesse roubar a sua benfeitora, e esperava ainda que uma crise feliz a restituiria à vida.

A avó de Rosa estava consternadíssima, e o seu maior pesar consistia em não poder fazer coisa alguma.

De joelhos; junto do leito de D. Teresa, rezava com fervor e devoção.

Entre as alternativas da esperança e desconforto se passou o dia. À noite o cirurgião declarou que já lhe não restava esperança alguma; que D. Teresa ainda podia viver mais um dia ou dois, mas que não proferiria mais uma palavra, nem faria um único movimento.

Descrever a aflição de Rosa e de a sua avó é-me impossível; bastará dizer que a dor as tinha quase enlouquecido.

D. Teresa não tinha filhos, por isso foram avisar do sucedido a D. Eusébia, sua irmã, rica proprietária em Rio Tinto.

D. Eusébia, por causa do seu gênio forte, e caráter duro, não estava em intimas relações com D. Teresa. Assim que teve notícia da doença da sua irmã pôs-se logo a caminho, não por amizade que tivesse à moribunda, mas sim para vigiar que lhe não roubassem a mais pequena parte da sua herança.

Logo que D. Eusébia chegou a São Cosme, tomou o governo da casa, e deu ordens como se já estivesse senhora da herança. Rosa e a sua avó inspiraram-lhe antipatia, e não podia compreender como sua irmã voluntariamente tinha tomado ao seu cuidado aquelas duas pessoas.

D. Teresa ainda viveu dois dias, conforme o cirurgião dissera, mas sem fala, e sem movimento, porque a apoplexia tinha-lhe paralisado todas as faculdades. Só os olhos é que conservavam ainda alguns sinais de vida e inteligência, os quais fixava sobre Rosa, fazendo esforços para falar, naturalmente para fazer o seu testamento; mas este último consolo dos moribundos não lhe foi permitido.

O Abade da freguesia, que veio administrar os últimos sacramentos à moribunda, tentou mitigar a dor de Rosa, mas a jovem menina estava muito consternada para poder ser consolada. Recusou obstinadamente retirar-se de junto do leito, em que jazia D. Teresa, conservando-lhe a mão gelada apertada nas suas.

— O meu lugar é este, — dizia ela entre soluços, — só deixarei a minha segunda mãe no túmulo.

Finalmente chegou o terrível momento da morte. Uma convulsão, alguns murmúrios sufocados... e D. Teresa tinha deixado de existir entre os vivos, e a sua alma, desprendendo-se das ligações terrenas, voara ao céu a receber da mão de Deus o prêmio das suas virtudes.

Ao princípio não se ouviam mais que os choros de todos os criados da quinta, mas em seguida uma voz forte e imperiosa se fez escutar. Era a de D. Eusébia. Colocou uma pessoa junto do cadáver da sua irmã, deu as ordens para os funerais, e passou a inspecionar as caixas e cômodas, que fechava com cuidado, guardando as chaves.


CAPÍTULO 10

Apenas D. Eusébia fechou as cômodas e caixas, compareceu o juiz eleito da freguesia para selar e tomar conta de tudo o que pertencia a D. Teresa.

— Aqui estão as chaves, senhor juiz eleito — disse D. Eusébia, — mas é inútil esse trabalho, porque eu sou a única herdeira da minha irmã, e ela não podia deserdar-me.

— É verdade, minha senhora, — respondeu o juiz — mas cumpro o meu dever, porque a lei protege os direitos de todos.

— Só eu é que tenho direito à fortuna da minha irmã, pois ela não tem filhos.

— Sim, minha senhora, mas esta orfãzinha, a quem ela deu asilo?

— Minha irmã — replicou com cólera D. Eusébia — seria porventura capaz de me deserdar, testando os seus bens a favor destas duas mendigas, que ela teve a fantasia de recolher na sua casa?

— Não o afirmo, minha senhora — respondeu com brandura o juiz; — mas sua irmã pode ter feito testamento, no qual deixe a Rosa alguma prova da sua estima e amizade.

— Não julgaria suficiente o sustentá-la e mais à avó, — disse D. Eusébia com voz forte — ainda lhe havia de deixar algum legado? Ah! minhas velhacas, viríeis vós roubar o que de direito me pertence? Sr. juiz eleito, queira também selar a porta do quarto dela, pois quem sabe lá, o que ela tem roubado. A minha irmã era tão pouco cautelosa...

— Oh! senhora — respondeu Rosa com muita tristeza a esta suposição ofensiva — acreditais que pagasse com o roubo os benefícios, que eu e a minha avó recebemos da Sra. D. Teresa?

O juiz eleito ordenou com brandura a Rosa que se calasse, para que D. Eusébia não continuasse, diante de um leito de morte, com uma discussão tão vergonhosa, e feia.

Logo que o juiz se retirou, Rosa viu-se de novo a braços com as suspeitas da ambiciosa herdeira. Chegaram a tal ponto as coisas, que Rosa não pôde refrear a sua indignação.

— Não me injurieis, senhora, — disse Rosa com energia e dignidade — não me injurieis diante do corpo da vossa irmã, de quem só a vista bastaria para me proteger. Dizei-me, senhora, sai eu porventura um só instante de junto da cama da minha benfeitora, desde que ela foi atacada pela apoplexia?

Não, senhora. Então como podia eu subtrair coisa alguma? Examinai, e examinai bem, senhora, que achareis tudo intato, porque eu e a minha avó preferíamos antes morrer de fome, do que tocar na coisa mais insignificante, que nos não pertencesse. Louvado seja o Senhor, sou forte; posso e quero trabalhar, por isso não serei pesada a ninguém. Deixai-nos, senhora, chorar em paz a perda da nossa benfeitora, que, logo que o seu corpo saia desta casa, não vos pediremos asilo.

Esta linguagem, firme e digna, impôs silêncio a D. Eusébia, que ficou corrida de vergonha.

Rosa esperou com sossego o dia seguinte, em que se devia fazer o enterro a D. Teresa.

A pobre criança, com a avó pelo braço, seguiu chorando o préstito. Depois de terminado o ofício, Rosa e a sua avó, ajoelharam-se junto da campa, em que D. Teresa foi sepultada: era já noite cerrada, e ainda as duas desgraçadas não pensavam em se retirar.

O frio, que fez dar um gemido à avó, advertiu Rosa de que se devia recolher; só então é que pensou para onde havia de ir.

— Vamos, minha avozinha — disse Rosa — a casa da Sra. Maria da Gandra, que estou certa, sendo tão nossa amiga, nos não há de deixar na estrada.

A Sra. Maria da Gandra era uma boa e caridosa mulher, que, como todos os moradores de São Cosme, e os seus arredores, estimava muito a protegida de D. Teresa, e censurara o procedimento de D. Eusébia.

— Oh! Rosinha, foi Deus que te dirigiu para minha casa — disse-lhe ela logo que a avistou. — Que prazer me não causa teres procurado a minha casa para te recolheres. Tinham-me dito, que ias para casa da Joana da Quintela, por isso é que te não ofereci para vires para aqui com a tua avó.

— Agradeço-vos, senhora — disse Rosa — a vossa bondade, e a caridade com que vos ofereceis para nos recolherdes; mas não venho pedir-vos casa e sustento de graça, porque tenho duas inscrições de cem mil reis cada uma; o que vos rogo é que me aboneis tudo o que eu precisar e a minha avó, que vos satisfarei logo que termine a liquidação da herança da Sra. D. Teresa, e receba as minhas inscrições.

— Sim, sim, minha menina, — lhe respondeu a Sra. Maria da Gandra — Não preciso do teu dinheiro para te sustentar e a tua avó. Mas diz-me, como obtiveste essas inscrições?

— A Sra. D. Júlia, antes de partir para o Porto, deu-me cem mil reis, com os quais a Sra. D. Teresa, em cumprimento do seu desejo, comprou duas inscrições no meu nome.

— Foste feliz, Rosinha, em que fossem compradas no teu nome, porque de outra maneira D. Eusébia tomaria posse delas. Tem resignação, assim como vós, minha boa velhinha; vinde cear, que eu depois vou-vos conduzir ao vosso quarto.

Rosa e a sua avó ficaram portanto habitando na Gandra.

A pequena não estava ociosa, antes pelo contrário era tão zelosa e trabalhadeira, que a Sra. Maria, muito satisfeita, propôs-lhe que ela e a avó, ficassem para sempre na sua casa. Rosa aceitou prontamente, e com reconhecimento, pois naquela ocasião era a maior felicidade, que lhe podia aparecer.

No dia em que se deviam tirar os selos em casa da defunta D. Teresa, Rosa ali compareceu por convite do juiz eleito.

Quando Rosa atravessou, como estranha, a soleira da porta da casa, que tinha sido para ela tão hospitaleira, o coração comprimiu-se-lhe e não pôde reter as lágrimas.

Tudo se passou sem novidade; só de vez em quando D. Eusébia mostrava por gestos e exclamações o seu desapontamento por encontrar menos dinheiro, do que imaginava.

Quando se abriu a caixa, que pertencia a Rosa, não foi uma exclamação de surpresa, que D. Eusébia soltou, mas sim de raiva, na qual se divisava um acento de triunfo.

— Bem certa estava eu, — disse ela — que esta velhaca havia de ter empalmado alguma coisa. Ah! se eu não viesse logo... o que teria acontecido. Examinai, senhor escrivão, o que é que aí existe.

O escrivão tirou da caixa um magnífico vestido, que, a julgar pelo tamanho, não pertencia decerto a Rosa.

— Dize velhaca, — disse D. Eusébia — como é que este vestido veio aqui parar? — Não preciso perguntá-lo, porque a culpada está-se denunciando pelo rubor, que lhe cobre as faces.

— Senhora D. Eusébia — disse o juiz — o seu proceder para com esta criança é digno de censura. Ainda, até agora, não encontramos coisa alguma, que fizesse, nem ao menos, suspeitar da sua probidade. Deixai-a portanto dar-me as explicações, que tiver a fazer.

Responde Rosinha, — disse o juiz com modo afável — como é que este vestido se acha na tua caixa?

Rosa fez-se muito corada e respondeu:

— Este vestido, senhor, foi comprado com as minhas economias.

— Que é; que é? — interrompeu D. Eusébia.

— Senhora — disse severamente o juiz — ordeno que vos caleis.

— É bem público e sabido, que eu, durante o verão, fazia cestinhos de flores, que ia vender às casas abastadas dos arredores.

Quase sempre me davam, como presente, mais do que o custo dos cestos: entregava-me a Sra. D. Teresa, para guardar no meu mealheiro, estas pequenas quantias, que reservei com muito cuidado para poder brindar a Sra. D. Teresa no seu dia natalício.

Estava muito indecisa, por não saber o que lhe devia oferecer, e foi a minha avó, que me sugeriu a ideia de lhe comprar um vestido. Para levar a efeito este meu desejo combinei em segredo, com a costureira da Sra. D. Teresa, para o fazer, e estou muito certa de que a minha benfeitora não desprezaria a minha oferta, se tivesse a felicidade de lha apresentar.

Esta explicação, simples e clara, que demonstrava um coração sincero e grato, fez borbulhar as lágrimas nos olhos de todos os circunstantes. Devemos contudo excluir deste número D. Eusébia, que persistia em negar a verdade.

Quando se encontraram as duas inscrições, D. Eusébia chegou ao auge do desespero e da cólera, e de boa vontade as inutilizaria, se lhe fosse possível obtê-las à mão; mas, felizmente para Rosinha, não pôde consegui-lo.

Finalmente, pelos cuidados e proteção do juiz eleito, Rosa e a sua avó, apesar de todos os obstáculos e vontade de D. Eusébia, receberam tudo o que lhes pertencia, e deixaram sem maior desgosto a casa, de que a mais cruel e mais requintada avareza as expulsava.


CAPÍTULO 11

Estamos no ano seguinte.

Rosa escreveu à Viscondessa do Candal e a sua filha uma carta tão afetuosa e consoladora, que fez despertar em D. Júlia um veemente desejo de tornar a ver a sua querida discípula e protegida.

Os dias, que faltavam para Rosa poder abraçar a sua amiga, pareciam-lhe séculos. Esperava com uma impaciência impossível de descrever, a chegada da primavera, porque então é que devia, e podia estreitar ao coração a sua querida amiga e preceptora.

Raiou finalmente o dia tão ansiosamente almejado. A primeira pessoa que D. Júlia avistou foi Rosa, que, louca de alegria, viera esperar a sua amiga querida, para lhe apresentar um cestinho, igual ao que tinha estabelecido e sido causa das relações e íntima união, que existia entre elas.

D. Júlia ao vê-la deu um grito, e quis imediatamente descer do coupé; mas não pôde fazê-lo, porque estava tão magra, fraca e desfigurada que, quem a via, só a um milagre podia atribuir a sua existência. Era na verdade um milagre, devido ao amor maternal, e contínuos cuidados e desvelos, de que a cercava a Viscondessa.

Rosa passou todo o dia na companhia da sua querida amiga e protetora. D. Júlia tinha muito que lhe perguntar, porque queria saber minuciosamente tudo o que tinha acontecido, desde que ela se tinha retirado para o Porto.

Apenas teve conhecimento da morte de D. Teresa, D. Júlia pediu imediatamente a sua mãe, que recebesse na sua casa Rosa e a sua avó.

A Viscondessa, que desejava e queria satisfazer o mais pequeno desejo, ou pedido da sua filha predileta, acedeu sem demora.

Rosa e a sua avó vieram portanto morar para casa da Viscondessa do Candal, que foi pessoalmente dar parte desta sua resolução à Sra. Maria da Gandra.

— Estou satisfeitíssima, minha senhora — disse a Sra. Maria da Gandra — pela felicidade de Rosa; mas ao mesmo tempo sinto um grande pesar, e é com dificuldade que me separo dela. Nunca mais encontrarei uma pequena, que seja tão humilde e trabalhadeira.

A Viscondessa em seguida quis satisfazer à Sra. Maria da Gandra toda a despesa, que Rosa e a sua avó tinham feito na sua casa; mas a honrada e digna aldeã não quis aceitar a mais pequena e insignificante recompensa, e respondeu — Que Rosa havia ganho o que ela e a sua avó tinham despendido.

A despedida de Rosa e da Sra. Maria da Gandra foi patética, e só a muito custo se desprenderam, chorando, dos braços uma da outra, prometendo Rosa vir visitá-la a miúdo, porque o carinho, com que a Sra. Maria a tinha tratado havia sido tal, que seria uma ingrata se lhe não tributasse um profundo reconhecimento.

A alegria, que se apoderou da pobre cega, quando disse-lhe que ia viver em casa da Viscondessa do Candal, foi tal, que só acreditou depois de muito lho asseverarem, porque lhe parecia impossível que semelhante ventura lhe sucedesse.

— Que a minha Rosinha — disse ela — algum dia se havia de tornar senhora da cidade, sempre eu o julguei, porque era muito gentil e linda para ser camponesa; mas que eu partilhasse tal ventura, nunca o imaginei.

Rosa e a sua avó foram alojadas, em casa da Viscondessa, em dois quartos, muito perto daquele em que habitava D. Júlia; que assim o tinha exigido para ter a sua protegida junto dela, o que se executou com muita censura e reparo de D. Berta.

— Era só o que faltava — dizia um dia, a orgulhosa D. Berta, a D. Francisca de Meireles, sua amiga — trazer para nossa casa estas duas mendigas. Podes tu, minha querida, explicar-me como é que Júlia pôde afeiçoar-se tanto a estas duas criaturas?

— Tua irmã, Berta, tem o coração muito sensível; basta que lhe façam uma choradeira, ou que lhe contem uma história triste para acreditar em tudo, e logo se afeiçoar a qualquer, e lhe dedicar carinho é proteção.

— Mas na verdade, esta sociedade não é tão agradável e atraente? — disse D. Berta com um sorriso irônico. — Se a cega e a neta contam comigo para lhes fazer companhia, afirmo-te que lhes hei de deixar muito tempo para se aborrecerem.

Conforme com estas belas resoluções D. Berta evitava o mais possível dirigir a palavra a Rosa e a sua avó, e, quando por necessidade o fazia, era com um modo tão sobranceiro, imperial e chocarreiro, que as duas infelizes ficavam confusas e envergonhadas.

D. Júlia tentou por diversas vezes fazer nascer no coração de D. Berta sentimentos mais nobres e mais cristãos, mas infrutuosamente, porque, procurar comover e sensibilizar o coração empedernido e orgulhoso de D. Berta, era um trabalho ímprobo e estéril.

D. Júlia, feliz por ter na sua companhia a querida do seu coração, a sua discípula, recuperou algum vigor, e ainda pôde recomeçar as lições. A fadiga, que deste trabalho lhe podia provir, era atenuada pela atenção e estudo, que Rosa prestava às preleções.
D. Júlia ainda quis ensinar desenho a Rosa.

— Queres dar a Rosa — disse uma ocasião a Viscondessa a sua filha — uma educação e instrução superiores à sua posição na sociedade, e não receias que isso para o futuro lhe cause embaraços e dissabores?

— Como resposta a essa pergunta tenha, minha querida mãe, a bondade de ouvir o que a minha protegida me dizia outro dia:

“O meu maior desejo, minha boa amiga e mestra, é alcançar bastante instrução e saber, para um dia ser professora. Como me julgaria feliz podendo dizer às minhas discípulas: era uma aldeã muito ignorante e rústica; uma boa menina, a Sra. D. Júlia, filha da Sra. Viscondessa do Candal, teve a bondade de me tomar sob a sua proteção e de me ensinar. É a ela, meninas, a quem devo o que sei e o que vos ensino. Se me amais, deveis igualmente amar a Sra. D. Júlia, minha benfeitora; e então elas vos renderão graças, assim como eu vo-las rendo agora.”

— Não te torno a dizer mais nada — disse a Viscondessa — Continua, minha filha, pois Rosa é digna dos teus cuidados e desvelos, e para que eles se tornem mais profícuos ajudar-te-ei a lecioná-la.

A Viscondessa cumpriu a sua promessa e, alternadamente com D. Júlia, dava as lições a Rosa.

Estes estudos não fizeram pôr de parte a preparação de Rosa para receber dignamente a primeira comunhão. Foi com uma piedade exemplar que ela cumpriu este solene ato, e o futuro provou não ter sido estéril para o seu coração.

D. Júlia passou o verão entre as alternativas de melhoras e recaídas nos seus padecimentos, que tinham uma sucessão quase regular e periódica. Umas vezes nem levantar-se da cama, ou de uma cadeira de braços, para onde a levavam, lhe era possível; outras vezes chegava a poder dar uns pequenos passeios pelos campos das vizinhanças. Aos próprios médicos custava a compreender como ela vivia.

D. Júlia, porém, não se iludia sobre o seu estado de saúde. Quando a sua mãe a entretinha fazendo projetos, ou, como ordinariamente se diz, castelos no ar, para o futuro, ela sorria-se e respondia: que ainda faltava muito tempo para a sua realização, e que não chegava a vê-los confirmar.

A sós com Rosa D. Júlia falava livremente sobre a próxima terminação da sua existência, e então ela suplicava-lhe com instância, que repelisse da sua imaginação tão sinistras ideias.

— Não posso crer, — dizia ela — que Deus nosso Senhor me queira tirar deste mundo todos os meus protetores: não sei que crime tenha cometido, que mereça semelhante castigo.

— Resta-te ainda a minha mãe, minha Rosinha — respondia D. Júlia — que estou certa nunca te há de desamparar.

Rosa terminava esta penosa conversação abraçando D. Júlia e procurando distraí-la por todos os meios possíveis.

O que a dedicação mais sincera e real pode sugerir de mais belo, tudo Rosa executava, recebendo, por galardão, ou recompensa a mais grata, um terno sorriso de D. Júlia, ou um agradecimento da Viscondessa, e para os merecer faria o impossível se necessário fosse.


CAPÍTULO 12

D. Júlia aparentava exteriormente um sossego de espírito, que interiormente não sentia, porque receava muito a chegada do outono, época, que os médicos tinham marcado, a mais longa a que poderia chegar. A ansiedade, pois, que todos sofriam pela aproximação desse termo fatal, era geral.

Chegou o outono. Por um destes fenômenos, que a tísica muitas vezes apresenta, a moléstia não ofereceu nesta estação alteração alguma.

A esperança, de que D. Júlia ainda poderia vencer a fatal doença, começou a penetrar em todos os corações, e até no da própria enferma. Rosa chegou a dizer à Viscondessa, que tinha uma convicção firme de que D. Júlia não morreria, porque Deus Nosso Senhor era bom e não a havia de privar da sua protetora.

A Viscondessa, que até aí estava convencidíssima, de que a sua filha não passaria além do termo marcado pelos médicos, vendo-o passar sem que a sua fatal predição se realizasse, começou a crer que se tinham enganado, e que D. Júlia ainda lograria saúde.

Houve portanto grande alegria em casa da Viscondessa. Todos os criados, que não amavam só, mas que veneravam D. Júlia, porque era sempre boa e afetuosa para eles, crendo que a sua jovem ama, não tendo morrido na época marcada, estava salva, pediram unanimemente para a felicitarem; tal foi a alegria e contentamento, de que se apoderaram com esta esperança e crença.

Estas demonstrações respeitosas de simpatia e amizade, que os criados lhe deram, penhoraram e comoveram muito D. Júlia. A todos agradeceu com reconhecimento esta nova prova de afeto.

Porém, de todas as felicitações, a da sua discípula e da sua avó, foi a que mais a impressionou.

Quando Rosa, conduzindo a sua cega avó, se ajoelhou com ela junto da cama de D. Júlia, e lhe exprimiu, com candura e ingenuidade, a alegria e prazer, que sentiam pelas suas melhoras, e os votos, que faziam a Deus, para que o seu restabelecimento fosse real e breve, não pôde sofrear a sua comoção, e as lágrimas correram-lhe em fio pelas faces, agradecendo a Deus o prazer que tinha gozado com a felicitação que acabava de lhe ser dirigida.

Passou-se o inverno, sem que o estado de saúde de D. Júlia sofresse alteração sensível.

Com a chegada da primavera D. Júlia recomeçou os seus passeios pelos campos e pinheirais vizinhos, na companhia da sua inseparável Rosa, a que algumas vezes se agregava também a Viscondessa.

Na quaresma seguinte Rosa recebeu pela segunda vez o sacramento da comunhão, e pouco tempo depois, D. Júlia, querendo que a sua protegida progredisse nos seus estudos, pediu a sua mãe que lhe escolhesse uma professora.

A Viscondessa anuiu imediatamente ao pedido da sua filha.

Pouco tempo depois entrou para casa da Viscondessa, sob recomendação e abono do Abade de São Cosme, uma jovem senhora, a quem há pouco acabava de ser concedido o título de capacidade.

Rosa esforçava-se por todos os meios possíveis para corresponder dignamente aos benefícios, que, D. Júlia e a sua mãe, lhe estavam constantemente prodigalizando; procurando sempre não dar o mais leve desgosto às suas protetoras; contudo, é preciso dizer que Rosa não era perfeita. A sua vivacidade natural levava-a muitas vezes a impacientar-se, e o seu ainda pouco peso ou juízo a cometer algumas faltas nos seus deveres; mas reconhecia com tanta facilidade os seus erros, e mostrava-se tão arrependida e desejosa de os emendar, com tanto afinco e perseverança, que era impossível tratá-la com rigor por muito tempo.

Rosa dava as suas lições, umas vezes no quarto de D. Júlia, quando o seu estado de saúde o permitia; outras vezes no da Viscondessa, que sentia um verdadeiro e sincero prazer em observar os progressos da predileta e querida da sua filha.

D. Maria de Almeida, assim se chamava a professora, correspondeu dignamente à confiança, que a Viscondessa nela tinha depositado, confiando-lhe a instrução da sua pupila.

O progresso e desenvolvimento, que Rosa sob a sua direção experimentou, foi grande, dando já sinais de que em breve a discípula se tornaria uma excelente professora.

Rosa, assim que as suas obrigações e deveres estavam terminados, dedicava-se exclusivamente a D. Júlia, e a sua avó. Esta, desde que viera viver para casa da Viscondessa do Candal, andava alegre e folgazã, e ainda julgava estar sonhando, tal era a placidez e amenidade do seu viver.

Tinha já decorrido parte do ano; o outono estava quase findo, e o estado de saúde de D. Júlia não denunciava sinal algum de pioramento; a moléstia, porém, que até então estivera encubada, reapareceu com grande violência, e em oito dias as crises sucederam-se tão próximas umas das outras, que puseram a enferma em estado de se não conceber esperança alguma da salvar.

A ilusão, que até aí existira em todos, desapareceu completamente: já não esperavam senão o golpe final... Rosa, nem um só momento desamparava a sua querida protetora, e juntamente com a Viscondessa, cuidava e tratava de D. Júlia; não consentiam que mais ninguém lhe prestasse o mais insignificante serviço, chegando até a ter zelos uma da outra.

Tanta dedicação e amizade teriam feito com que Deus revogasse a fatal sentença dada a D. Júlia, se o Criador, na sua alta sabedoria, não tivesse resolvido chamar à sua presença, a receber o prêmio das suas virtudes, aquele anjo de bondade e resignação.

D. Júlia, já moribunda e quase expirante, pediu a sua mãe, como última graça que lhe fazia, que não abandonasse Rosinha, a sua querida discípula e amiga; que se não afligisse, nem desanimasse, porque em Rosa lhe deixava, estava certa disso, uma filha obediente e dedicada, que havia de substituir no seu coração o lugar que ela deixava vazio, e a Rosa recomendou-lhe que amasse sempre muito a sua mãe, porque nela encontraria um sincero apoio, e uma terna e carinhosa amiga.

Apenas D. Júlia proferiu estas palavras, a hora fatal tinha soado; abraçou a sua mãe, e Rosinha e, pronunciando os nomes de Rosa... e a minha mãe... expirou, voando a sua cândida alma à presença de Deus a receber a glorificação das suas virtudes.

Assim terminou D. Júlia a sua existência, que, se tinha sido breve para o mundo, fora longa pelas boas obras, que sempre praticara, e pela pureza em que sempre vivera.


CAPÍTULO 13

Já decorreram seis anos depois das cenas descritas no capítulo antecedente.

Não deixaremos, porém, a nossa muito conhecida casa, perto de São Cosme, pertencente à Viscondessa do Candal, porque é no caminho, que a ela conduz, que tem lugar o que passamos a contar.

Uma senhora ainda jovem, e outra já de mais idade caminham em silêncio, e comovidas.

A mais idosa é a nossa muito conhecida Viscondessa do Candal.

O pesar da morte da sua querida filha Júlia desfigurou-a muito. O rosto tem-no emagrecido, e sulcado de profundas rugas, e os cabelos embranquecidos antes do tempo.

A sua companheira é uma jovem que figura ter dezessete para dezoito anos, de aparência ingênua e modesta; é a nossa Rosa, a pequena dos ramos e cestinhos.

A Viscondessa caminha apoiada no braço da sua companheira. Depois de alguma hesitação Rosa decidiu-se a dirigir-lhe a palavra.

— Receio, minha querida senhora — disse Rosa respeitosamente — que esta visita vos cause uma grande comoção e vos prejudique a saúde, por que a não deixais para quando estiverdes mais restabelecida?

— Não, Rosa, não. Há oito dias, que não vim visitar a campa onde jaz a minha Júlia, e oito dias já é um espaço muito longo. Sinto-me hoje melhor, não desprezarei portanto esta ocasião que se me oferece, porque, quem sabe se recairei?

— Não penseis em tal, senhora Viscondessa. Creio que ainda haveis de ter muitos anos de vida; tenho fé, que Deus vos não roubará à minha ternura e reconhecimento.

— Se as orações de um anjo, Rosa, pudessem deter a morte, conheço que as tuas me preservariam dela. Mas, ai de mim, a morte da minha sempre lembrada Júlia despedaçou-me o coração. Não estou eu só neste mundo? Berta não me abandonou logo que casou? Que faço então aqui neste ermo, a que chamam mundo?

— Ah! senhora, esqueceis então a pobre Rosa, que vos estima e ama, e que vos é tão dedicada como se fora vossa filha?

Estas palavras, pronunciadas com um acento de submissão, penetraram até o imo do coração da Viscondessa: sensibilizaram-na tanto, que abrindo os braços recebeu neles Rosa banhada em lágrimas.

— Sou uma ingrata, Rosa, bem o reconheço, — disse a Viscondessa cingindo Rosa ao coração. Recebo com indiferentismo os teus cuidados e carinhos, e a tua inexcedível dedicação. Perdoa-me, minha filha, minha querida filha. Conheceste Júlia, e melhor que outra qualquer sabes quanto era merecedora da minha ternura e amizade, e quanto é digna de ser chorada. Mas

Júlia, antes de morrer, deixou-te na minha companhia, para me servires de consolação e alívio na minha dor. Abraça-me Rosa, minha filha querida.

Rosa, por única resposta, abraçou com ternura a sua benfeitora.

As lágrimas, que lhe cobriam as faces, diziam bem alto e eloquentemente, o que a comoção lhe embargava nos lábios.

Ainda caminharam por mais algum tempo e chegaram ao cemitério.

A Viscondessa do Candal, como tributo à memória da sua filha, mandara-lhe levantar um lindo e rico mausoléu de mármore branco, no qual ela também queria ser encerrada à sua morte. Em volta das grades viam-se alegretes em que tinham violetas, gerânios e rosas amarelas, que Rosa cultivava e cuidava com muito esmero, como recordação das flores com que enfeitara o cestinho, que fora causa da íntima união, que se estabelecera entre ela e D. Júlia.

A Viscondessa e a sua filha adotiva oraram por muito tempo sobre a campa daquela, que tanto tinham estremecido em vida, e que tanto choravam na morte.

Rosa, depois de ter examinado e regado todos os alegretes e pés de flores, um por um, para que os insetos, ou a secura os não estiolassem, dirigiu-se à Viscondessa.

— Deixo-vos, senhora — disse-lhe ela — por um instante. Vou rezar junto da campa da minha avó.

— Também quero acompanhar-te — replicou a Viscondessa.

Não muito distante do mausoléu de D. Júlia se elevava uma cruz simples. Era aí que jazia, havia dois anos, a pobre cega. Terminara os seus dias sossegadamente, bem-dizendo a ternura da sua neta, e a caridade afetuosa da sua benfeitora.

Devido ainda ao zelo de Rosa a campa da pobre cega, adornada com diversas flores, semelhava um jardinzinho.

Rosa ajoelhou-se, e depois de ter rezado com fervor e devoção por algum tempo, levantou-se, e dando o braço à Viscondessa retiraram-se, fazendo ainda uma última visita ao túmulo de D. Júlia.

Quando se recolheram, Rosa encontrou uma carta da sua antiga professora D. Maria de Almeida, na qual lhe participava, que daí por dois meses se havia de proceder aos exames de habilitação para os títulos de capacidade, por isso, se ainda estava decidida a propor-se a exame, que enviasse os documentos necessários ao comissário dos estudos.

Rosa apresentou esta carta à Viscondessa.

— Sempre estás decidida a propor-te a exame? — disse-lhe ela.

— Sim, minha senhora. É o meu mais fervente e afanoso desejo. Quero, senhora, que a instrução e saber, que vos devo, e a vossa querida e chorada filha, aproveite às crianças, que a pobreza retém na ignorância e na rudeza. Se eu poder ser útil, ainda que seja a uma só dentre elas, como, senhora, me reputarei feliz e bem paga do meu trabalho!

— Tinha a esperança de te conservar sempre na minha companhia — replicou a Viscondessa. — Ocuparias para sempre o lugar do anjo, que Deus me levou, da minha Júlia. Não queres, Rosa, ser minha filha?

— Ah! senhora, quero sim, ser vossa filha; isso ainda vai além da minha ambição. Mas recordo-me que era uma pobre rústica, e que só aos vossos benefícios devo a minha instrução, e a cultura da minha inteligência. Quero, senhora, dar de barato, e ter a vanglória de dizer que os vossos cuidados não foram perdidos, mas com isso não me devo tornar vaidosa, porque faltaria assim aos meus deveres. Serei sempre para vós uma filha adotiva, carinhosa, humilde e terna, e que achareis sempre ao vosso lado, esforçando-se por pagar a sua dívida de gratidão e reconhecimento: Recebendo e aceitando a vossa afeição e amizade, para mim preciosa e apreciável, não me devo esquecer da classe onde nasci. O meu lugar é mais humilde; mas como ele parece belo e grandioso ao meu coração, quando me recordo do bem, que posso fazer a essas infelizes crianças, que vivem na bruteza, ensinando-lhe o que sei e que é obra vossa! Há muito que concebi este meu projeto, e que o declarei a vossa filha: “Às pobres rapariguinhas das aldeias — disse-lhe eu — farei o mesmo que a Sra. D. Júlia me fez. Ensinar-lhes-ei a serem felizes com a sorte, que Deus lhes destinou neste mundo; cultivarei o seu coração e o seu espírito, e por única recompensa não quererei mais do que ouvi-las bem dizer os nomes da excelentíssima Viscondessa do Candal e da sua filha.”

— Rosa, minha querida Rosa — disse a Viscondessa abraçando-a, e com os olhos rasos de lágrimas, — que Deus te pague a felicidade, e prazer, que me fazes nascer no coração com as tuas palavras.

Dois meses depois, a nossa, hoje, D. Rosa de Jesus e Sousa comparecia perante o júri nomeado para proceder ao exame das concorrentes ao professorado. O título de capacidade, em grau superior, foi-lhe concedido por unanimidade e com distinção.


CAPÍTULO 14

Dois anos se passaram já, depois que foi conferido a D. Rosa de Jesus e Sousa o seu título de capacidade.

Estamos em fins de outubro, numa casa caiada de branco, que se encontra ao entrar na freguesia de São Cosme, do lado de São Pedro da Cova. Na frente há um pátio largo e espaçoso. Sobre o muro pendem os ramos verdejantes de dois chorões. Nas traseiras da casa há um pequeno jardim, muito bem tratado, com as ruas areadas com saibro, e que termina por um caramanchãozinho, que, pelo bem cerrado que está, indica que no verão deve ali haver uma frescura agradável, auxiliada pela corrente de uma levada, que corre próximo. Na sala que fica ao nível do jardim ouve-se um murmúrio confuso. Entremos, para examinar a que ele é devido. Que vemos? Grupos de lavradeirinhas, ao todo umas trinta, pouco mais ou menos, vestidas de branco, e tendo todas na mão um raminho de flores do campo, com um laço de fita. Ao fundo da sala vê-se uma rica imagem da nossa Senhora da Conceição, colocada sobre um altar, bem adornado com castiçais de prata, velas de cera e jarras com flores.

Num dos lados da sala há quatro cadeiras de braços; numa delas está sentada a Viscondessa do Candal, a quem D. Rosa, de pé, junto dela, está dizendo os nomes das suas discípulas.

A Viscondessa passeia a vista por todas elas, e conhece-se-lhe na expressão do rosto, que aquele espetáculo a regozija e encanta.

O modo, porque todas dirigem as vistas para a porta e pelas janelas, indica que se espera alguém.

O Abade da freguesia e o administrador do concelho entram neste momento pelo portão.

Um sorriso alegre se vê deslizar em todos os rostos. Eram as pessoas por quem se esperava.

A Viscondessa e a sua pupila vieram recebê-los à porta, e conduziram-nos às cadeiras que lhe estavam destinadas.

As crianças tomaram os seus lugares, e restabelecido o silêncio, o Abade da freguesia tomou a palavra, e fez o seguinte discurso:

“Sinto, minhas meninas, um prazer imenso por vos ver aqui reunidas para a celebração do primeiro aniversário da instalação desta escola, devida à muita filantropia e caridade cristã da excelentíssima Viscondessa do Candal, e à dedicação exemplar da vossa digna professora a Sra. D. Rosa de Jesus e Sousa. Julgo desnecessário o rememorar-vos, que um tal sacrifício merece um eterno reconhecimento, porque entendo que entre vós, minhas filhas, não há ingratas. Vós respeitais e venerais a excelentíssima Viscondessa, e amais com um verdadeiro amor a vossa professora, não é assim? É, assim o creio. Mas há ainda uma pessoa, para quem deveis ter uma saudosa recordação, e que também deveis encomendar a Deus nas vossas orações. Prestai-me atenção, que vos vou dizer quem é essa pessoa, cuja recordação vos deve ser grata. Há pouco mais ou menos doze anos, que uma pobre lavradeirinha ganhava a sua vida fazendo cestinhos de juncos, e ramos de flores silvestres. Uma jovem e nobre senhora, que reconheceu nela amabilidade, modéstia e humildade, simpatizou com ela, e encarregou-se da educar e instruir. Como a sua benfeitora a achou sempre digna dos seus benefícios, encarregou-se também da sua posição futura. Essa jovem senhora, de que vos falo, é a excelentíssima Sra. D. Júlia, filha da excelentíssima Viscondessa do Candal, e essa lavradeirinha, a quem ela dispensou os seus carinhos e a sua afeição, é a vossa douta professora. Há já alguns anos, que a alma da excelentíssima Sra. D. Júlia voou à presença do Deus eterno a receber o prêmio das suas virtudes e das boas obras, que praticara neste mundo; uma das quais ainda existe, que foi o deixar-vos a vossa professora e amiga.

“Mostrai-vos, meninas, sempre merecedoras dos benefícios, que vos fazem, porque isso é o único desejo das vossas benfeitoras e a única recompensa, que recebem da sua dedicação, que estou muito convencido sempre fareis por merecer.

Não quero, porém, retardar por mais tempo o momento de receberem o prêmio e galardão, que merecem pela sua aplicação ao estudo e amor ao trabalho, àquelas que disso se tornaram dignas; e às que desta vez não são galardoadas resta-lhes a esperança e o meio de, pela imitação das suas condiscípulas, se tornarem dignas do merecerem para o ano futuro.

Vamos por tanto proceder à distribuição dos prêmios.”

Um sussurro de alegria acolheu as últimas palavras do digno sacerdote.

A conferência dos prêmios foi esplêndida.

Os prêmios consistiam em livros religiosos e de instrução, que tinham sido cuidadosamente escolhidos pela Viscondessa, e a sua filha adotiva, todos ricamente encadernados. Era interessante e belo ver a alegria, que se deslizava no rosto das que tinham sido contempladas na distribuição.

Terminada a conferência dos prêmios teve lugar debaixo do caramanchão um bem servido lunch.

— Como é magnífico o espetáculo, que apresentam estas crianças, alegres e satisfeitas — disse a Viscondessa — Recordar-me-ei sempre deste dia, como o mais grato e feliz da minha vida. Tu, minha querida Rosa, atrais as bênçãos do céu sobre nós, e sobre a memória da minha querida, e chorada Júlia.

— Ah! senhora, — disse Rosa com os olhos rasos de lágrimas — que a vossa profecia se realize, e a minha mais cara aspiração ficará satisfeita.

O desejo de Rosa realizou-se. A escola está cada vez mais florescente, e a freguesia ufana-se pela possuir. Todos os moradores do lugar ainda hoje bem dizem os nomes da Viscondessa do Candal, da sua filha e de D. Rosa, modelo raro de um coração verdadeiramente grato e reconhecido aos benefícios que recebera.

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