sábado, 18 de novembro de 2017

O Filho Natural (Conto), de Camilo Castelo Branco


O Filho Natural

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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PRIMEIRA PARTE

Os fidalgos de terras de Basto vão-se acabando. Tenho pena e saudades. Aqui há trinta anos, com os brasões e apelidos das famílias heráldicas dentre Vizela e Tâmega recompunha-se a história lendária de Portugal. Quem soubesse ler a simbólica das arrogantes armas encimadas nos portões das quintas podia lecionar um curso de História Pátria com tanta filosofia como Fr. Bernardo de Brito e o Sr. João Félix Pereira, o das várias faculdades. Em redor daqueles paços senhoriais pesava um silêncio triste e torvo. Era o luto de Portugal de D. João II e de D. Manuel.

Cada portal bojava os seus granitos folhados de acantos, entre dois ciprestes; as legendas dos escudos denegridos e musgosos pareciam inscrições tumulares; por sobre os paquifes dos elmos desgrenhavam as suas madeixas os chorões, escurentando as avenidas daqueles solares carrancudos, como se por ali se entrasse para as catacumbas da Ordem Terceira de São Francisco, na, sobre todas, honrada e pia cidade do Porto.

Não era assim melancólico o viver intestinal daquelas baleias de pedra que pareciam esmoer de papo acima as famílias em soporosa digestão. Se lá dentro as tradições históricas apenas se conservavam em alguns pires e jarras esbeiçadas de louça, que um sétimo avô trouxera da Ásia, a Ideia Nova, que esvoaça na atmosfera como os aromas de todas as flores e os eflúvios de todas as podridões, chegara a terras de Basto, aninhara-se brincando nos açafates das meninas como as andorinhas alegres nas cornijas dos seus palacetes sombrios. A Ideia Nova, que brincava no açafate da costura e no bastidor, eram as traduções da Biblioteca Econômica, em que a velha virtude e a velha linguagem portuguesa soluçavam os últimos arrancos, nos braços do Feliz Independente, do padre Teodoro de Almeida. O romance deu aos corações das senhoras de Basto feitios e jeitos novos, ensinando-lhes o que diz a aurora, o que segredam as transparências cetinosas do arrebol, o que se deve pensar quando as fontes trépidas murmuram, e tudo o mais respectivo a flores, brisas e pássaros.

Desde a fundação da monarquia até el-rei D. João VI, o Minho não florejara poetisa conhecida, salvo a Viscondessa de Balsemão, D. Catarina; porém, desde 1848 a 1860 contam-se por dúzias as cantoras que pousaram gorjeando nos periódicos do tempo com grande riqueza de charadas e muitíssimos Suspiros dignos dos círculos mais lagrimosos do Dante. O amor, que até então fora de frutos, fez-se de flores; a mulher entrou na idealização; obrigou o cavalheiro de Basto a ser psicológico e sujeitar-se nos seus desejos amorosos um pouco ao metro e à rima. Foi ela, pois, quem refez o homem, descascando-o, adelgaçando-o, cepilhando-lhe as rudezas, obrigando-o a cantar a xácara dos Dois Renegados. Por este tempo entrou em terras de Basto a caixa de música, e logo depois o manicórdio. Faz agora vinte anos que ali se inaugurou a perfectibilidade lírica: ouviu-se um piano-forte em Cabeceiras e outro na Raposeira. Era o último ponto da craveira nos avanços do progresso. Como Babilônia e Cartago, Basto, refinando em civilização, começou a desandar. Não houve em Refojos nem em Mondim um Catão Censorino que se levantasse, como em Roma, contra a inoculação pestilencial das belas-artes e letras. A poesia e o piano tinham corrompido a terra de Santa Senhorinha.

A degeneração do fidalgo de Basto promoveu-a o sistema representativo. O ato eleitoral foi a rampa traiçoeira por onde aqueles partidários do trono absoluto escorregaram à democracia. Verdade é que o sufrágio cedido aos seus correligionários era um sincero sufrágio pelos fiéis defuntos. Os seus enviados ao Parlamento sentavam-se venerabundos, cheios de Febo Moniz, com, ares de senadores romanos em frente das zombarias daqueles Brenos, que tinham as línguas de Cunha Sotomaior e José Estêvão, cortantes como as achas galo-celtas. Não pediam estradas, nem abadias, nem campanário, nem comendas, estavam ali com os ouvidos atentos à espera do que vinha da Rússia. Afinal, o temperamento sanguíneo dos cavalheiros de Basto borbulhou em comichões de novas ideias, e todos eles se coçaram mais ou menos com a Carta Constitucional. A liberdade vencera; mas as proeminências congênitas daquela plêiade de Bayards, quase todos capitães-mores, desvaneceram-se nas brumas da epopeia, que nunca mais terá pessoa em que pegue naquela região, onde já não há tradição da velha tirania dos patíbulos, exceto o vinho; que ainda é de enforcado.

***

Um dos mancebos mais completos, por patrimônio, nascimento e gentileza, no concelho de Celorico, era o fidalgo de Agilde, Vasco Pereira Marramaque, vigésimo terceiro neto de Gonçalo Mendes, o Lidador. Se eu tivesse de ir, ao arrepio, na peugada genealógica deste sujeito, encontrava-me com o macaco de Darwin. É família muito antiga a dos Marramaques — são anteriores à história e talvez aos macacos. E, se me não falha a conta dos avôs apurados nesta linhagem, o dilúvio universal está desmentido.

Vasco era um rapaz moderno então. Em 1846 tinha vinte e três anos e trocava costaneiras genealógicas encadernadas em vitela por canastras de romances de Arlincourt e Eugêne Sue. Não era caçador nem potreiro: era um sonhador trigueiro familiarizado com certas estrelas, hipocondríaco, olheiras, fastio, um grande aborrecimento de tudo e principalmente do estilo dos parentes, que lhe chamavam mágico.

Ele tinha dado à luz no Periódico dos Pobres uma poesia na qual declarava que era um anjo caldo em lodaçal de javardos. Aludia aos primos. Isto fez sensação em todo o Basto. Um poeta de Refojos mordeu-o com uma sátira que começava assim:

Ó bardo de Celorico,
Quem te deu tamanho bico?

Vasco Marramaque enviou-lhe o seu cartel por dois intrépidos ex-oficiais de milícias de Braga. O outro, que era discípulo de Alceu e de Horácio no lirismo e no amor do seu corpo, fugiu de Basto como o seu mestre fugira dos legionários de Otávio.

Poetas, por via de regra, não querem nem devem morrer em batalhas: o seu ofício é dar a imortalidade aos bravos. O de Refojos pensava assim; e O de Celorico ia mais para os citaristas das cruzadas, que morriam como Raul de Coucy entre duas rimas e três cutiladas.

Este incidente deu ares heroicos a Vasco. Fizera fugir o versista de Refojos, que satirizava as autoridades nas gazetas, assinando-se Juvenal em Cabeceiras.

As senhoras amaram-no quase furiosamente.

As mulheres das terras frias e regadas pelas torrentes das montanhas amam os trovadores valentes. Querem que o poeta lhes diga:

Para sentir-vos, braço às armas feito; Para cantar-vos, mente às musas dada.

Vasco provou a mão nos solaus, e dizia sempre que ia afinar o arrabil. Era o instrumento de 1848, o arrabil. Mas, de vez em quando, no Eco Popular, do Porto, aparecia uma pergunta anônima:

Ó bardo de Celorico,
Quem te deu tamanho bico?

***

Vasco Marramaque viveu do amor das castelãs dos seus solaus com exemplar castidade por espaço de seis meses. Os frutos destas inocentes mancebias eram umas trovas em redondilha, quase todas aleijadas. Procurava uma menina acomodada ao molde da sua imaginação; mas terras de Basto não lha forneciam. Ali as meninas eram cheias como as abóboras — abóboras-meninas. Ele queria a mulher vaporosa. Naquele tempo era moda o vapor nas senhoras como encanto; hoje os poetas realistas malsinam-nas de anêmicas e cloróticas. Nós, os rapazes que tínhamos alma e lira, queríamos que as nossas amadas, por várias razões, se alimentassem do aroma das finas flores, como Camões refere de certas famílias vizinhas do Ganges; ora os poetas da última hora, com o zelo de corretores de restaurantes, arguem, acaudilhados pelo Sr. R. Ortigão, as senhoras magras porque não digerem uns tantos quilos de boi com mostarda, nem bebem cerveja preta, nem barram de manteiga fresca o seu pão.

Não eram assim que o fidalgo de Agilde anelava a mulher que lhe preluzia dentre a poeira de ouro das suas visões.

Procurou-a no Jardim de São Lázaro do Porto. Se vai no domingo anterior, encontrava cinco meninas de transparência cristalina, bastante lidas no Telémaco, sabendo de cor as passagens mais sentimentais do Eurico e a Vivandeira, de Palmeirim.

Eram as cinco joias do Porto em delicadeza de espírito e de cintura — tão sutis que pareciam almas deplorativas da Divina Comédia envoltas em tarlatanas. Estas meninas, de famílias diversas, davam preocupação aos pais; porque, em matéria de matrimônio, diziam todas à uma que não achavam no Jardim de São Lázaro, nem na Filarmônica, nem na missa das onze, homens que as compreendessem. Cada uma delas, portanto, devia ser a visão realizada de Vasco Marramaque; infelizmente, porém, ele chegou oito dias tarde, porque as cinco incomprises tinham casado naquela semana com cinco brasileiros.

Percorreu o país, farejando todos os centros, todas as constelações de senhoras neste o nosso sistema planetário de terra a terra. Esteve em Sintra, em Cascais, no Circo Laribau, nos gineceus doutos das excelentíssimas Kruzes e nos celebrados bailes dos senhores Marqueses de Viana. Ouviu de perto o rugido das leoas e o metálico frescor da frase sacudida das damas aristocratas. Apertou na sua mão fria os dedos febris e opalizados das filhas dos marqueses; sentiu no rosto, em polcas vertiginosas, as doces crispações dos boucles, que descobririam o galvanismo no homem, se Galvani o não tivesse já achado nas rãs. Pois não sentiu nada! Pela palavra nada! Quando saiu a barra de Lisboa, com o coração a disputar à algibeira primazias do vácuo, conta-se que, pendido o rosto para o peito, chorara copiosamente; e que, em frente das Berlengas, perguntara ao destino surdo se a mulher dos seus sonhos estaria naqueles penedos.

Voltou para a sua casa de Agilde, aprendeu a jogar o gamão com o farmacêutico Macário Afonso e enfronhou-se em política com o juiz ordinário. Este magistrado, galopim condecorado com o hábito de Cristo, incitava-o a ir ao Parlamento, assegurava-lhe a uma, contando-lhe os rombos que fizera nela sempre que foi preciso fazer triunfar a justiça.

Entretanto, Vasco, enquanto o boticário manipulava os seus basilicões, namorava-lhe a filha, com uns jeitos cínicos de quem vinha de Lisboa. Era ela uma rapariga fresca e perfumosa como o rosmaninho e sécia de alegres cores como a flor da hortênsia.

Chamava-se a Tomazinha da botica. Lia novelas, que o fidalgo lhe emprestava, traduzidas do francês. A Salamandra, de E. Sue, fez-lhe estranhos abalos no organismo.

Aquele personagem chamado Saffie, por quem as mulheres morriam de amor, enxertou-o em Vasco. Assimilava capítulos como quem ingere cabeças de fósforos. O pai gostava da ouvir declamar os diálogos dos romances; e, moralizando aquelas histórias com bastante juízo, dizia:

— Tomásia, isso parecem-me petas!...

E, a respeito do Saffie, acrescentava:

— Dá-me vontade de dar dois pontapés nesse safio!

Ele bem via que a filha desatremava no governo da casa; não pegava em meia nem fazia peruas de miçanga; dava-lhe as peúgas esburacadas e as ceroulas sem nastros. Trauteava as xácaras da Moura e do Pajem de Aljubarrota com o lacerante sentimento das enormes desgraças. Às vezes chorava sem saber porquê. Punha a mão na testa, afastava com frenesi os cabelos e murmurava: “Anátema!”, como Cláudio Frolo.

E o pai dava-lhe chás de tília e de valeriana para o nervoso e óleo de mamona de quinze em quinze dias para o flato.

Tomásia, medicada com diluentes enérgicos, esmaiou-se e desmedrou; mas alindava-se com a palidez doentia do sangue empobrecido, afilaram-se-lhe os dedos, desceu a cinta dos vestidos quando os quadris abaixaram, tinha um languir, um desfalecer tão senhoril, que o pai, ao vê-la morbidamente reclinar-se no escabelo, dizia sorrindo sobre posse:

— Pareces-me a Inês de Castro que eu vi representar em Amarante!

Este bom homem, noite alta, folheava a sua livraria, copiosa em veterinária; erguia-se para escutar a respiração da filha e correr-lhe a vidraça nas noites quentes; porque ela, quando a aurora de alvava a curva do horizonte, estava ainda na janela a ouvir os últimos gorjeios dos rouxinóis.

Contemplai uma vítima dos romances, é pais e mães de famílias!

***

Por uma noite de calma, o boticário acordou estrouvinhado com um áspero choque de raspão na face esquerda. Sentou-se espavorido no leito e viu dois morcegos a esvoaçarem-se contra a vidraça com fortes pancadas e voltearem pelo ar uns voos estridentes que faziam oscilar a luz da lamparina. Pareceu-lhe agouro; mas a reflexão levou-o a meditar no modo como os morcegos se lhe meteram no quarto, estando a janela fechada. Conjeturou que a invasão se fizera pela janela de Tomásia, ou pela porta do quintal, e afligiu-se na suposição de que a pequena adormecera exposta ao relento. Foi de mansinho, envolto no lençol, pelo corredor, com um rolo aceso; parou à porta da alcova, que estava aberta; ergueu a luz para projetar a claridade sobre a janela, e viu-a fechada. Fez com a mão direita um abat-jour, a fim de não despertar a filha com o clarão, e manteve quieto a ouvi-la ressonar. Nem o leve ciciar das expirações lhe ouvia. Assustou-se; e, roçagando o lençol como os espectros dos Mistérios de Udolfo, transpôs o limiar do quarto. A cama estava feita; a dobra do lençol alvejava na colcha escarlate.

— Tomásia! — exclamou o pai, como se ela pudesse estar naquele pequeno recinto.

— Minha filha!

Assalteou-o uma suspeita angustiosa. Desandou, desceu à cozinha precipitadamente e viu aberta a porta do quintal. Neste lance assomou à porta do seu quarto a criada, que despertara com õ rumor dos passos; mas, vendo o amo vestido tão insuficientemente como o poderia estar o nosso primeiro avó, se fugisse do Paraíso depois de inventar o lençol, recuou trespassada de pudor.

— Onde está a menina?! — perguntou o atribulado pai.

— Onde está a menina?! — repetiu a criada com as costas voltadas para o escândalo.

— Sim... Onde está?

— Onde há de estar? Na cama.

— Não está! — bradou ele.

— Vossemecê está a sonhar... Faça favor de sair daí, que eu vou procurá-la... Estará no quintal.

Nisto deu três horas o relógio da botica.

— No quintal às três horas? — observou ele menos alvoroçado.

— Pois então? Era a primeira vez!... Faz favor de sair daí, Sr. Macário? Olha que feitio de homem! Que preparo! Quero sair.

Foi então que o boticário, reparando em si, viu que estava quase indecoroso.

Voltou aceleradamente ao seu quarto e vestiu-se, enquanto a criada chamava Tomazinha do patamar da escada; e, como lhe não respondeu, correu ela o quintal com uma luz e, vendo aberta uma porta que entestava com a rua, levantou um grande choro, chamando as almas benditas.

O amo estava já encostado ao beiral do poço, porque não podia mover-se nem falar desde que ouviu o chorar da criada. Aquela dor nunca o ameaçara nos seus sobressaltos de pai. Atormentara-o o susto da perder; mas nunca se lhe antolhava a filha desonrada; morta é que ele a chorara e preferira.

— Eu estou acordado?! — dizia ele entre si. E friccionava com a mão o rebordo do poço, para se afirmar na consciência da vigília.

Nas árvores do quintal começaram a chiar os pássaros; ao longe soaram as nove badaladas das ave-marias; na rua passavam ranchos de jovens que iam para as segadas cantando o São João com acompanhamento de viola. Que formosa aurora de um dia de Julho!

***

Ilustremos o sucesso. Quando Macário chamou de rijo a filha na alcova vazia, estava ela com Vasco no quintal, e já três vezes se tinham despedido, e três vezes reabraçado. Não me lembram agora uns versos maviosos de Ovídio que ele fez em conjunção análoga; mas toda a gente que teve namoro num terceiro andar — altura onde os suspiros exalados desde a rua chegam em temperatura honesta — sabe quantos adeus se repetem, quantos juramentos se renovam, até que a patrulha vem chegando com a Moral e com a baioneta. Tomásia, quando ouviu bradar o pai, encolheu-se como criança espavorida ao seio de Vasco e soluçou:

— Estou perdida! Não me deixes!

O lance era apertado — não havia tempo a refletir. Se ele a amava cegamente, o expediente inquestionável era a fuga; se ele a amava nos limites ordinários da prudência, tinha de ser uma de duas coisas — infame ou cavalheiro. Ora ele era da geração dos Marramaques: tinha brios.

— Vem comigo! — disse fidalgamente, e deu-lhe o braço.

E ela sentia-se feliz e invejável ao transpor a soleira da porta como se por ali se evadisse ao desdouro. Aconchegava-se ao braço do amante com estremecimentos de gratidão e vaidade, na sua doce turvação nem sequer a imagem do pai lhe azedou com uma lágrima a taça daquele haxixe das ébrias do amor. Vasco parecia contente do seu feito pundonoroso. A submissão amorosa da sua protegida para uma desonra incondicional era-lhe agradável ao orgulho. Como a paixão lhe não empoava já os olhos da alma, podia ver em si um homem extraordinário que, por simples impulso de cavalheirismo, dava na sua casa bizarra homenagem para uma rapariga da baixa condição de umas a quem a sociedade não costuma pedir contas...

Parece-me que estou a fazer frases.

A falar verdade, se Vasco, em vez de levar Tomásia, lhe fizesse um discurso admoestando-a a conservar-se na casa paterna, e ela transigisse, perdendo ao mesmo tempo a estima do pai, a estima de si própria e o amor do amante, nós, os que temos em conta de infames aqueles que o mundo chama finórios, havíamos de pôr aquele opróbrio dos Marramaques a tormento nestas páginas, cheias de cóleras sagradas, e fustigá-lo a ele e aos seus parceiros com os alexandrinos tartarizados do Sr. Guerra Junqueiro:

...Brutos sem B maiúsculo,
A consciência é um ventre e o coração é um músculo!
Cantai, gozai, bebei até romper a aurora!
Atirai o pudor pelo janela fora
Como um charuto mau que se apagou. Canalhas!

***

Macário não abriu a botica naquele dia, nem consentiu que se abrissem as janelas.

— Faço de conta que ela morreu. Está morta. Aconteceu o que eu esperava, mas doutro modo. Tanto choro eu por ela assim como choraria se lhe estivessem agora rezando os responsos na igreja.

E, dizendo, as lágrimas rolavam-lhe a quatro pelas faces e pareciam sulcar-lhas como se dez anos de vida amargurada se condensassem na tortura de algumas horas.

No fim de três dias, o farmacêutico apareceu vestido de luto carregado. Se alguém proferia palavra a respeito do luto ou da filha, ele, apertando os beiços com o dedo polegar e o indicador, fazia um gesto de silêncio. E, em seguida, sumindo-se na casa traseira da botica, ia chorar. Passados oito dias, quem abriu a botica foi um caixeiro que viera de longe.

Macário saiu de Celorico de Basto e foi administrar outra farmácia de uma viúva, dali quatro léguas, onde eu estudava latim. Ali o conheci. Teria cinquenta anos. Foi o meu mestre de gamão e damas. Durante onze meses nunca lhe ouvi falar de Tomásia. No fim do ano, aliviou o luto; mas, como não pudera despi-lo da alma, entrou a embriagar-se. E então falava da filha, fazia-me confidências, vociferava palavras brutais e tinha arrebatamentos de fúria em que os olhos lhe ofegavam e rompiam das órbitas. Estas crises terminavam dormindo.

Tomásia devia conjeturar tamanhas dores que a Providência lhe estava debitando no grande livro que um dia se abre diante do devedor. Que livro esse quando se abre! Parece que as pessoas, as coisas, as forças vivas e as impassibilidades mortas, tudo nos pede contas, tudo tem uma garra invisível que nos arranca do coração as mais pequenas parcelas!

***

Vasco Pereira Marramaque contava vinte e seis anos quando a filha de Macário, ao cabo de dezoito meses de incauta alegria na convivência do fidalgo, lhe ouviu dizer:

— Esta vida não pode assim continuar. — E prosseguiu enchendo o cachimbo. — É preciso ter alguma utilidade. Não hei de ficar toda a vida metido em Agilde...

Tomásia escutava-o com dolorosa estranheza, enquanto ele, com ares enfastiados, dizia que o viver das aldeias era estúpido; que envelhecia naquele sequestro de gente com quem falasse; que cortara as suas relações com as casas de Basto, para que o deixassem só, e que as não queria atar de novo. E concluiu:

— Arranja-se-me ocasião de poder ser eleito deputado por Braga, e estou resolvido a fazer todos os esforços para ir à Câmara.

— Tomara eu ver-te fazer figura! — acudiu Tomásia com este sincero plebeísmo; e acrescentou carinhosa: — Eu vou contigo, sim?

— Para Lisboa?... Ora essa! Nem os deputados casados levam as mulheres.

— Isso que tem? — replicou ela amorosamente. — Eu não te deixo ir sem mim...

— Demais a mais, não vês que eu, se for eleito, venho a ir daqui a três meses? Para esse tempo...

— Ah! — atalhou Tomásia. — É verdade... E tu nessa ocasião não hás de estar ao pé de mim... e... do teu filhinho?! Serás capaz de me deixar sozinha...

— Com as tuas criadas...

— Ora!... Tomaram as tuas criadas ver-me pelas costas... Têm-me um ódio!...

— Imaginações tuas... Demais, eu venho de Lisboa assim que for tempo, menina.

Está descansada, que eu hei de ser sempre o mesmo para ti...

— Já não és o mesmo, Vasco... Acho-te tanta diferença que... desde que estou contigo, a primeira vez que tenho vontade de chorar... é agora.

E, proferida a última palavra, as glândulas lagrimais golfaram como se obedecessem à pressão de uma mola.

— Por que choras? — interrogou Vasco asperamente. — Querias que eu ficasse estagnado nesta aldeia?! Levas a mal que eu me eleve sobre esses fidalgos lorpas que ensinam bestas e passam as noites a jogar à bisca?

— Quem te diz isso? Vai, vai para Lisboa, que eu ficarei aqui, ou onde tu quiseres.

E engolia as lágrimas, provando o primeiro trago amargo do seu cálix de expiação.

Ele ergueu-se sacudindo o resíduo do cachimbo, mandou pôr o selim no alazão e saiu sem olhar para a sacada onde ela costumava ir dar-lhe o adeus saudoso.

Neste dia pensou Tomásia muito e com tristeza no pai.

Ao anoitecer, Vasco voltou mais agraciado de rosto. Ela pensou que era o pesar da ter magoado, remorso que se dilui em carícias quando o coração acusa; confundiu este sentimento, misto de júbilo e dor, com o sentimento da compaixão. O que ele sentia era dó — uma piedade preventiva que se condói da mulher destinada ao abandono, piedade que não torna quando afinal soa a hora do tédio e do desamparo.

O candidato vinha de conversar com os influentes de dois concelhos. Revelou os primeiros entusiasmos de homem público. Parecia andar-se já ensaiando retoricamente. Explicava o que eram regeneradores, falou do herói de Almoster, desfez nos méritos do Sr. Ávila e João Elias, sarjou fundamente as carnes dos cabralistas, gesticulando e passeando, com as mãos no cós das calças como José Estêvão. Tomásia escutava-o, seguia-o com os olhos fascinados naquelas energias desconhecidas. Nunca lhe vira mímicas tão veementes, tamanhos assomos de cólera política, olhando às vezes fixamente para um ponto elevado. Tomásia não sabia que ele erguia os olhos para a cadeira da presidência, e às vezes para a galeria das senhoras, in petto. Era uma vocação que estoirara de súbito, imprevista e fatal. Ele mesmo, a sós com a sua transformação, espantava-se de ter tido na sua pessoa uma incubação surda e tanto tempo apática.

Nos dias seguintes, poucas horas passou em casa. Acompanhado dos homens notáveis de Basto, foi conferenciar com as autoridades a Braga. Opuseram-se-lhe grandes obstáculos — atritos, diziam os políticos no seu calão. Vasco, beliscado no orgulho, jurou ser eleito à sua custa, comprando a consciência aos eleitores. Naquele tempo uma consciência de eleitor rural regulava entre dois pintos e quartinho, com jantar de cabrito guisado e vinho à discrição.

O Abade de Pedraça disse-lhe que seguisse o conselho de Luís de Camões se queria vencer o candidato realista, o seu competidor; que o seguisse à letra, principalmente no artigo “regedores”. E, como Vasco se risse do anacronismo de Camões com regedores no século XVI, o Abade tirou da estante Os Lusíadas e no canto VI, estância LII, apontou-lhe os dois versos finais, que rezam assim:

Por manhas mais sutis e ardis melhores,
Com peitas adquirindo os regedores.

— Adquira-me os regedores com peitas — acrescentou o Abade de Pedraça, tocando-lhe com a lombada do poema no ombro. — Estes versos são de profética e perpétua serventia em Portugal. Tão preparados estamos hoje para o sistema representativo como em tempo de Camões. Que anda a vossa excelência aí a desbaratar pérolas de eloquência por esses lameiros? Querer meter ideias sociais na cabeça destes lavradores é querer furar o badalo daquele sino com uma verruma (e apontava para a torre). Isto aqui são varas de porcos que se movem para onde os puxa o instinto da bolota. Bolota, Sr. Vasco, bolota, e nada de palavras! Pois a vossa excelência persuade-se que pode haver um deputado escolhido pela inteligência dos eleitores que não têm um mestre-escola? Nós, os minhotos desta corda de Basto, demos fé de que não reinava D. Miguel quando os frades despiram os hábitos e os capitães-mores as fardas; porém, quando por aqui se alastraram os executores da fazenda, dissemos aos realistas que acendessem as luminárias, porque,

D. Miguel chegou à barra
Sua mãe deu-lhe a mão, 
Anda cá, o meu querido filho, 
Não queiras Constituição.

E cantarolava o folgazão Abade de Pedraça, batendo o compasso na capa de Os Lusíadas.

***

Vasco Pereira Marramaque saiu eleito... por novecentos mil-réis, trinta e nove cabritos e duas e meia pipas de vinho verde — vinho que devia ser um exagerado castigo daquelas consciências corrompidas dos cidadãos. Graças a Camões e ao Abade de Pedraça, o fidalgo de Agilde foi proclamado contra os protestos de duas mesas eleitorais que estavam vendidas ao competidor.

Tomásia chorou em segredo para não aguar o contentamento do representante do povo. Redobrou de afagos a Vasco, pedindo-lhe, em nome do filhinho, que a não esquecesse. Sentia-se descaída e desnecessária na vida dele; fiava-se, ainda assim, nos maviosos enleios da porvindoura criança. O egoísmo não lhe dava lanço de recordar-se com angústia da causa que a fazia esperar tanto do amor paternal: devia ser o grande amor que o seu pai lhe tivera, o insano mimo com que ele a criara, acalentando-a nos braços, desde os quatro anos, em que ficara órfã de mãe. Era cedo. As disciplinas do remorso começam a macerar quando a alma não tem evasiva por onde lhes fuja, nem alegria que lhes verta bálsamo nos vergões.

Saiu Vasco Pereira para cores, estadeando um aparato condigno dos seus apelidos. Como não ia bem seguro na transcendência dos seus discursos e na distinção exequível por esse meio, fez-se preceder de cavalos e lacaio, escudeiro e jóquei preto. Conhecia o Chiado e tinha sondado a índole de Lisboa. Conjeturou que dois cavalos o levariam mais depressa aos sonoros átrios dos palácios do que dois discursos a respeito das estradas concelhias de Gondiães e Painzela, para os quais levava apontamentos em que tencionava encravar Aristides, e citar, a propósito de estradas decretadas pelos Cabrais e Elias, o Timeo Danaos et dona ferentes. E, dizendo isto, tinha dito todo o latim que se sabia nas duas Câmaras e no jornalismo, excetuada a Revolução de Setembro, onde o Sr. Antônio Rodrigues Sampaio motivava latinamente invejas apopléticas ao Sr. Conselheiro Viale.

Os fastos parlamentares deste deputado provincial não nos são mais conhecidos que os discursos de Hermágoras, retórico de Temnos. Ao entrar na sala de São Bento, cada cabeça frisada dos seus colegas foi para ele uma cabeça de Medusa; petrificaram-no. Conhecia-se interiormente grávido de patriotismo, cachoavam-lhe as ideias no cérebro; mas sentia-se sem gramática. Chegou, no delírio da sua alucinação, a imaginar que no Parlamento era necessário saber a língua portuguesa! Ouvia discursar alguns colegas, e não se convenceu que eles estavam ali autorizados pelo poema do Abade Casti. Em casa repetia os dois sabidos discursos sobre estradas com ênfase e modulações um pouco demostênicas e talvez imitadas do Sr. Arrobas; porém, aberto a oportunidade de pedir a palavra, não sabia por onde começar este peditório. Dir-se-ia que o presidente era Perseu, que lhe mostrava no fundo do seu chapéu a cabeça da Górgona; ou, para melhor o compararmos a sabor cristão, o presidente impunha-lhe silêncio como o conhecido frade do Buçaco que perfila o dedo na ponta do nariz.

Desistiu de falar, reservando-se para as ocasiões imperiosas em que a Pátria necessitasse das explosões dos seus Brutos — aludia àquele Bruto I que estivera calado até ao momento em que Lucrécia foi violada; e mais, o deputado por Braga estava já tão apestado dos miasmas do Café Marrare que não acreditava em Lucrécias.

Verdadeiramente corrompido — diga-se isto com a breve energia de Tácito nos formidáveis lanços da história —, Vasco Pereira Marramaque estava irremediavelmente corrompido pela convivência de uns leões que sacudiam as crinas ungidas das lágrimas das mulheres, nos seus divãs do Hotel de Itália. O conde da Taipa, o seu primo por Marramaques, Manuel Browne, José Vaz de Carvalho, D. Francisco Belas, José Estêvão, e outros que ainda vivem expiando o passado, eram os seus íntimos. Também era dos seus Almeida Garrett, que dourava o bordo do cálix por onde se bebiam aqueles venenos diluídos nas palestras de uns homens que se vingavam do tédio dos prazeres, desfolhando com sarcástica e gentilíssima nonchalance — era o termo — as flores em cujas pétalas havia lágrimas. O poeta das Folhas saldas relia e comentava ali os seus madrigais com umas facécias juvenis tão congeniais da sua alma sempre criança que os mais novos do grupo lhe invejavam as reflorescências do estilo e as mulheres que ele perpetuou até nós de parçaria com os fluidos transmutativos.

Pasmado das proezas destes homens, olhou para si e achou-se miserável nos seus amores sertanejos para uma obscura filha de boticário. Não tinha façanha que contar quando lhe pediam casos da sua vida; via-se forçado a inventá-los para não ser ridículo, nem dar suspeitas que passara do seminário de D. Fr. Caetano Brandão para o Parlamento. Relatava então raptos e adultérios, pondo os maridos nas cenas grotescas das tragédias e caricaturando as desgraças para não desafinar do tom dos seus amigos. Era um tartufo de patifarias — o que aí há de mais covarde e perverso no canalhismo das salas.

Entretanto, dava-se pressa em adquirir a certeza prática de que tinha direitos a contar aventuras menos fantásticas. Ser-lhe-ia mais custoso ser honesto se ensaiasse a fábula de Daniel na caverna dos leões, ali em Lisboa, onde mais tarde se perdeu outro deputado de melhor casta — aquele Calisto Elói de Silos Benevides de Barbuda que eu chorei n'A Queda de um Anjo.

Em breve prazo ombreou tom os mestres. Não direi, todavia, que Vasco baldeasse pelas trapeiras a desonra ao seio das famílias. Estavam já cheias disso. Ele, no seio dessas gentes, entrava impercetível como um regato no bojo do mar Morto, que esconde as relíquias de Sodoma. Algumas, com tal hóspede ainda não carmeado inteiramente de lã minhota, julgar-se-iam em via de regeneração. Vasco, na sua panóplia amorosa, tinha coroas de Baronesas e condessas; mas Cunha Sotomaior dizia-lhe que os tais troféus pareciam arranjados na Feira da Ladra, ou roubados ao gabinete arqueológico do Abade de Castro, Deus lhe perdoe.

***

Nem tanto. 

O deputado escondia ao exame dos seus amigos uma luva branca de cinco pontos e a medalha de um retrato. Sagrava estes dois objetos um amor incontaminado, uma paixão que se urdira com duas fibras puras do coração de Vasco. A menina amada era ilustre, formosa, inviolada na sua reputação e pobre. O seu pai era conde, representante de condes que já o eram no reinado de D. Manuel. Os seus irmãos eram dois fadistas, as melhores duas navalhas da Travessa dos Fiéis de Deus e arredores. Velaram as armas no sótão da Severa e remedavam o conde de Vimioso nas carácterísticas farsolices do alto banzé. Mordia-os uma aspiração ardente: queriam ser boleeiros. Aquele grande batedor José Mulato, em domingo de tourada, jantava com eles no Penim ou no Colete Encarnado; abraçavam-no, beijavam-no, estudavam-lhe os trejeitos na bebedeira, e atemperavam-se tanto às suas gingações que ainda no estado normal pareciam ébrios.

O conde resvalava vagarosamente à sepultura, carregado com a ignomínia dos dois filhos. Amparava-lhe a cabeça branca uma filha. Era esta a mulher que Vasco Pereira vira em Sexta-Feira de Paixão na capela do seu parente o conde de Redondo. Aquela capela, naquele tempo e na Semana Santa, era o confluente das famílias de mais alta estirpe, que não reconheciam a soberania de D. Maria II. Vasco Pereira Marramaque, o representante dos castelões e ricos-homens de Lanhoso, tinha ali parentes; e em contato com eles sentia-se abalado pelas reações da raça e entorpecido por um magnetismo miguelista.

Sobejavam-lhe predicados agraciáveis, além da prosápia e fama de rico. Vestia com primoroso bom-tom. Era perfeito homem na corporatura e naturalmente esbelto nas atitudes. Trigueiro-pálido, bigode farto e negro, a cara sentimental dos romances. O sorriso sincero, sem os vincos labiais com que alguns artífices de chalaças se narcisavam ao espelho para se inculcarem medonhos frecheiros de sarcasmos. Era, enfim, a flor do Minho e o querido da sua prima em grau desconhecido, D. Leonor de Mascarenhas, filha do conde de Cabril.

O ideal, que o preocupava antes de se materializar nas lides eleitorais e na sensaboria das intimidades monótonas com Tomásia, reapareceu-lhe na angélica beleza de Leonor, na santidade do seu viver, na piedade filial com que lenimentava as acerbas dores do conde. Respeitou-a e adorou-a, como se a visse na candura dos dezoito anos, quando lia O Menino na Selva. Retraia-se acanhado, se lhe cumpria ser um agradável conversador. Parecia ter perdido no comércio de amorios despejados a moeda do fino ouro — a frase sã, simples e afetiva de que as almas singelas se contentam.

Leonor sabia que era amada; e o conde, fiado na probidade da filha, consentia que o rico e ilustre Vasco Pereira a cortejasse, tirando a partido que o casamento se fizesse sem precedências de cartas, rendez-vous e outras frivolidades que deterioram a gravidade de tal ato. Sistema antigo e bom. O conde havia assim casado. Não constava que na sua família, muito mais antiga que a instrução primária, desde o seu trigésimo avô Leovigildo, rei visigodo na Lusitânia, alguém se matrimoniasse por cartas.

Nesta conjuntura recebeu Vasco a notícia de que era pai de um menino. Escrevera o feitor a carta que Tomásia ditara e num P. S. acrescentara pelo seu punho: Há treze dias que não me escreves!!! Não te esqueças do leu filhinho.

O pai do menino achou exagerados os três pontos de admiração e não pôde sofrear a zanga que lhe fazia aquela espécie de violência. Com que direito se admirava a filha do boticário? Cuidaria ela que era a baliza do destino de um Marramaquê? Talvez se persuadisse que o filho era o remate da sua felicidade! Imaginava certamente que ele, o esperançado noivo de uma Mascarenhas, ia logo, a jornadas forçadas, para casa, doido das alegrias de progenitor, acocorar-se ao pé do berço e babar-se de risos paternalmente palermas!

Ele pensava isto pouco mais ou menos; mas não respondeu assim.

Dizia que ficara muito jubiloso com a notícia; arranjasse ama e mandasse criar fora o menino, porque a estação ia muito agreste; mandava que recomendava à mãe que se acautelasse do frio, que o batizasse em nome dela e lhe pusesse o nome que lhe agradasse; ordenava finalmente ao feitor e à mulher que fossem padrinhos. Era uma carta em que não ressumbrava sentimento amoroso de pai nem de amante, salvo a recomendação de que tivesse cuidado com as constipações.

Tomásia leu a carta por entre lágrimas e disse de si consigo: “Está tudo acabado.” E, descobrindo o rosto da criança que aquecia sobre os seios, soluçou: “Quê será de nós?”

Respondeu a Vasco, dizia que o menino seria batizado sem nome de pai e com os padrinhos indicados; quanto, porém, a mandá-lo criar, declarava que a ama do seu filho havia de ser ela; mas, se Vasco instasse pela criação fora, em tal caso teria ela de sair com o filho. E acrescentava com uma serenidade que a dor atabafada igualava para um raro heroísmo no infortúnio: Recebo a tua carta na mesma hora em que recebi a notícia da morte do meu pai.

***

A notícia enviara-lhe o praticante e administrador da botica, perguntando se devia continuar a dirigir a farmácia da qual ela era a herdeira. E mandava-lhe inclusa uma recente carta de Macário Afonso em que aprovava as contas do caixeiro, agradecendo-lhe e louvando-o pela probidade com que fiscalizara a sua casa. Dizia mais que tinha tido ameaças de apoplexia, a que o cirurgião chamava febre cerebral; e concluía: "Se eu morrer de repente, o meu testamento está feito. A minha herdeira é essa filha que me matou. E herdeira da sua mãe, porque essa casa e tudo o que está nela era da minha defunta mulher Tudo lhe deixo; mas não posso perdoar-lhe a ingratidão com que me desamparou".

As angústias mais cerradas deixam sempre clareira iluminada por uma réstia de esperança. A alma opressa é engenhosa em achar fenda por onde se desafogue. Assim Tomásia, entre a carta de Vasco e a do pai, entre a desesperação de amante e o remorso de filha, amparava-se à certeza de ter uma agência bastante à sua independência.

O fidalgo não desgostou da expressão seca e altiva da resposta de Tomásia. Como receava lamúrias e queixumes que complicassem o inevitável desenlace, foi-lhe agradável supor que ela transigiria com a separação sem violência nem escândalo. Por outra parte, a sua vaidade sentiu-se da sobranceria de Tomásia, da hombridade com que ela o tratava como de igual para igual, com a fácil transigência da mulher enfastiada. Como quer que fosse, Vasco, sacrificando o seu amor-próprio, antes queria ser aborrecido que importunado pelas lástimas.

Mas as lástimas apareceram na carta do correio imediato. Quebrantado o orgulho ferido e aplacado o despeito, afluíram as lágrimas ternas e suplicantes. Tomásia, com o filho no regaço, e ainda no leito, escreveu com eloquente paixão as suas saudades, as lembranças do que Vasco lhe dissera e lhe prometera naquelas noites em que ela, corajosa como a culpa sem pudor, descia ao quintal a recebê-lo nos braços, e a lançar-lhe aos pés a sua honra, e a honra e vida do seu pai. Implorava-lhe que não enjeitasse o seu filho, que o batizasse no seu nome, que o fosse ver, se queria ficar preso às asas daquele pequenino anjo.

A dor era sincera nesta carta; mas a leitura de novelas fornecera-lhe bastantes frases, não menos conhecidas do deputado.

Isto inquietou-o. Havia já pedido a mão da sua prima Leonor. Devia recebê-la passados dois meses. Preocupavam-no os presentes de noivado. Precisava ir a casa buscar as joias da sua mãe para engastar os diamantes em adereços de feitios modernos. Queria vender para um brasileiro uma quinta em Lanhoso e a outro brasileiro os seus foros de Felgueiras. Carecia de arredondar uma dúzia dê contos para estabelecer-se na corte com cocheira e salão, com parelhas e amigos. Calculava, feitas as vendas, oito contos de renda, afora umas presuntivas sucessões em vínculos e prazos. O futuro sorria-lhe como a todos os namorados e noivos com oito contos de renda; mas Tomásia era-lhe um estorvo irritante. Enquanto ela estivesse em Agilde, Vasco, se ali fosse, expunha-se a grandes sensaborias.

Nesta urgência, acudiu-lhe ao pensamento o seu velho amigo e mestre de Lógica, o já conhecido Abade de Pedraça.

Sentou-se e escreveu compridamente.

***

Tomásia não recebera resposta à carta das lágrimas humildes. Sentia-se outra vez em reação de orgulho. Punha todo o seu coração nos lábios que beijavam a criança e pensava, outra vez, no contentamento de ter uma casa a sua com uma farmácia acreditada. Pesava já sobre ela esta atmosfera crassa e brusca do positivismo moderno. Gostava de ter do seu. Não lhe metiam medo os senhorios, nem a carestia dos comestíveis, nem o desprezo sovina de parentes. Tinha seguro o pão do seu filho. Começava a odiar o pai dessa criança tão linda; mas de súbito marejavam-lhe as lágrimas, lembrando-se do prazer que sentiria Vasco se sentisse nas mãos o seu filhinho...

Em um destes lances, anunciou-se o Abade de Pedraça, que queria falar à Sra. Tomazinha.

Ela estremeceu. Aquele padre nunca lhe falara nem a cumprimentara, tendo-a encontrado de passagem quando procurava o fidalgo. Era um clérigo severo, egresso da Ordem de São Bento, liberal, mas de costumes austeros, e talvez acintemente exagerados para demonstrar que liberdade não é licença e que somente o clero estúpido é desculpável de ser devasso.

Foi a trêmula Tomásia à sala, onde o Abade passeava com estrondosos passos e rijas pontuadas da bengala no tabuado.

— Viva, Sra. Tomásia — disse ele quando a viu erguer o reposteiro de baeta escarlate com armas.

— Senhor Abade... — murmurou ela. — Passou bem?

— Graças a Deus, bem; e como está a menina?

— Muito agradecida...

— Com licença — e sentou-se. — Faz favor de sentar-se, que temos que conversar.

Por aqui não está nenhuma curiosa que nos escute? Veja lá...

— Esteja a vossa senhoria descansado que não está ninguém. — E foi fechar a porta por onde entrara, recomendando para dentro que a chamassem se o menino chorasse.

Esta recomendação sem rebuço escandalizou algum tanto o padre, severizando-lhe o aspeito.

— Ora, senhora — disse ele — Já que falou no menino, comecemos por aí. O Sr. Vasco Pereira não pode reconhecê-lo no ato do batismo, isto é, não quer, porque, reconhecendo-o, prepara complicações e dificuldades aos filhos legítimos, se os tiver. E é natural que os tenha, porque o Sr. Vasco é rapaz, é rico, é fidalgo, e, mais hoje mais amanhã, casa.

Rosou-se ligeiramente o rosto de Tomásia, e sentiu uma forte e súbita opressão no respirar.

O Abade, que por falta de vista não dera tino da comoção, agourou favoravelmente da apatia de Tomásia e prosseguiu:

— Devo ser franco, senhora; com meias palavras não fazemos nada: o Sr. Vasco vai casar com uma a sua prima, filha do Sr. Conde de Cabril.

Tomásia ergueu-se soberanamente, admiravelmente, e disse:

— Não tem mais nada que me dizer? Dê-me licença, e queira esperar um pouco, enquanto eu vou buscar as chaves das gavetas do Sr. Vasco para lhas entregar.

— A mim?

— Pois a quem? Eu vou sair desta casa com o meu filho. O Sr. Abade vem despedir-me, e por tanto há de ser testemunha de que eu saio desta casa como entrei...

— Eu não venho despedi-la, senhora! — Volveu ele, sentindo-se apoucado diante daquele gentil e arrogante desprendimento. Faz favor de me ouvir. Sente-se...

Tomásia sentou-se, com os olhos intumescidos de borbotões de lágrimas, represadas pela força da vontade.

— O Sr. Vasco Pereira — continuou, pausando as palavras que proferia e acentuava com inflexões mais respeitosas — quer que a senhora e o seu filho tenham o necessário, e até mesmo o supérfluo à sua subsistência...

— Isso temos nós, Sr. Abade — interrompeu ela. — Tenho a minha casa e a minha botica.

— Não obstante, o Sr. Vasco Pereira quer fazer à Sra. Tomazinha doação do casal de Paços, que anda arrendado por dez carros de milho...

Levantou-se ela de golpe outra vez e exclamou atropeladamente:

— Não dou direito a vossa senhoria nem mesmo ao Sr. Vasco a ofenderem-me. Eu não me aluguei nem me vendi a esse senhor. Também não entrei nesta casa como criada, e por isso não quero ordenado. Já lhe disse que tenho com que viver sem esmolas; e, se precisasse delas, não as pediria ao Sr. Vasco. Enfim, eu vou sair imediatamente daqui. Se a vossa senhoria quer tomar conta dos objetos de valor que aí estão, receba as chaves; se não quer, vou entregar tudo com testemunhas ao feitor.

— A menina destempera! — redarguiu o Abade. — Ora venha cá, menina! Que necessidade temos nós de levantar aí por essas aldeias uma poeira escandalosa que vai dar pasto aos dentes da calúnia? Lembre-se que tem um filho e que esse menino pode ser que ainda venha a ser considerado pelo seu pai. Não rejeite a doação, porque o casal de Paços é um bonito patrimônio para o seu filho, se o quiser ordenar; e, quer ordene, quer não, é uma legítima que o habilita a casar-se vantajosamente... Pense, Sra. Tomásia, pense...

— Tenho pensado, Sr. Abade... Tenho pensado... Vou sair... Que sou eu aqui?... O meu Deus! Quem me diria há dois anos!... Como eu vivi enganada... Que ingratidão...

Estas palavras balbuciadas entre soluços romperam a represa das lágrimas. Tomou-se de uma grande convulsão, arquejando, debatendo-se como em ânsias de estrangulada. Rasgava o decote do vestido, expedia gritos histéricos e resvalava da cadeira ao pavimento quando o Abade a tomou nos braços, desmaiada, álgida, e a recostou no espaldar de uma poltrona. Acudiu aos brados uma criada com a criança no colo. Tomásia cravara os olhos pávidos no filho; mas parecia fitá-lo com o íris imóvel como na amaurose. A criada chegava-lhe a criança ao rosto e com alto choro perguntava se a senhora tinha morrido.

O Abade, que só conhecia os ataques levemente nervosos de algumas confessadas, estava assustado, confuso e compadecido.

— Mal hajam os vícios, mal hajam as paixões! — murmurava o egresso, tomando-lhe o pulso, com o receio de ter sido o portador da morte àquela pobre mulher que deixava orfanado um filho de quinze dias.

A mulher do feitor, que tinha sido criada da fidalga, mãe de Vasco, senhora histérica, disse que conhecia aquela doença que atacava a sua ama, quando se afligia com o fidalgo por causa das fêmeas. (Em Basto — permitam o parênteses —, as mulheres que motivam desmaios nas damas casadas chamam-se fêmeas. Parece que a intenção é aviltá-las à baixa condição das espécies em que há machos.)

— Vamos levá-la para a cama — disse ela —; é preciso desapertá-la e pôr-lhe a cabeça bem alta. Janelas todas abertas, e vinagre na testa com água fria, e sinapismos bem fortes nos pés. Ajude-me a levá-la, Sra. Rosa.

— E o menino? — disse a criada.

— Dê cá o menino — acudiu o Abade.

— Vossa senhoria não o deixe cair — recomendou a Rosa.

— Você é tola, mulher! Eu deixo lá cair este passarico!

E, pegando nele sem jeito nenhum, sentou-se, enquanto as duas mulheres conduziam a desfalecida.

— Que é do meu pequerrucho? — dizia o Abade com a criança de barriguinha ao ar nas palmas das mãos. O pequeno chorava franzindo a testa em refegos escarlates. — Que queres tu, o meu chorincas? Parece que tens mau gênio? Psiu, psiu! Cala-te. Quem tem um nenê? — E cantava-lhe um improviso, que o pequenito parecia patear rabeando com pés e mãos. — Ora esta! a minha missão acabou por ficar eu ama-seca do crianço do Sr. Vasco! Psiu, olha, engrimanço, pataratinha! Oh, oh, oh! — E acalentava-o, embalando-o nas mãos de cima para baixo, como quem padeja uma broa.

A criada veio buscar o pequeno e disse alegremente que a senhora já falava e perguntara logo pelo filho.

— Pois leve-lhe, que já não é sem tempo. Apre! Estou a suar! E — ouviu? — diga-lhe que eu quero ser o padrinho dele; e que brevemente cá volto.

***

O Abade informou o fidalgo dos sucessos ocorridos; e, depois, acrescentava que no mesmo dia, ao anoitecer, recebera um molho de pequenas chaves de gavetas que Tomásia lhe remetera, oferecendo-lhe a humilde casa onde nascera e agradecendo-lhe o favor de lhe batizar o filho.

Meu amigo — ajuntava o padre — a vossa senhoria não conhecia com certeza os elevados espíritos desta mulher. Este caso prova que as ações excelentes não são privilégio das castas fidalgas. Vi que ela tinha alma de mulher porque chorou; porém, quando esmagava o coração debaixo dos pés da sua dignidade, era sublime! E porque o era, Sr. Vasco, ouso dizer-lhe que a vossa excelência foi cruel com esta malhes e lá pela vida fora, se não encontrar outra semelhante, há de recordar-se desta com pesar. Com que desplante os homens atiram aos abismos da irreparável desgraça umas criaturas que levam consigo os escondidos tesouros de felicidade que lhes rejeitaram!

Quantos bens da vida íntima a vossa excelência gozaria ligado honestamente a esta mulher e a esta criancinha! Veja que nobre coração! O que ela queria era que não a julgassem mulher vendida. O casal de Paços, que a vossa excelência lhe doava, pareceu-lhe uma injúria sobre a ingratidão. O Sr. Vasco. Ou se enganou com ela, ou me quis enganar a mim. Devia dizer-me que esta mulher do povo tem brios que não são comuns; dissesse-mo, se o sabia, para eu me esquivar a mensagem tão alheia dos meus deveres de padre, e até de amigo que fui, e desejo continuar a ser, da vossa excelência. Mas, olhe, senhor o meu, se o mundo lhe não condena esta ruim ação, condeno-lha eu, que sou da religião de Jesus, que santificou Madalena. Escute o que lhe diz o eco da divina justiça, que nos repercute na consciência. O que eu lhe assevero é que a justiça está da parte desta infeliz mãe; e os que fazem iniquidades não são decerto os bem-aventurados...

Prosseguia neste estilo, algum tanto de sermonário, e concluía dizendo que ia ser padrinho do menino: porque o tivera cinco minutos nas mãos; e lhe parecia que, se a mãe lho desse, o levaria consigo, aquecendo-o entre o seio e a batina, debaixo da qual só é permitido sentir pulsar no coração a piedade que Jesus Cristo sentira pelas criancinhas.

***

Esta cana não comoveu profundamente Vasco Pereira. Estranhou que o Abade de Pedraça, nascido numa das mais nobres casas do Minho, filho de capitão-mor e neto de um chanceler, alvitrasse o casamento de um Marramaque com a filha do farmacêutico Macário! Os tópicos religiosos da epístola pareceram-lhe jesuíticos e incompatíveis com o espírito liberal do egresso, que fora o primeiro a abandonar o Mosteiro de Tibães. Aborreceu-me a hipocrisia caturra do seu velho mestre de Filosofia Moral, que em assuntos de metafísica citava, sorrindo, uma frase de Protágoras: “A respeito de deuses, não sei se eles existem nem se não existem.”

Quanto a Tomásia, sinto dizer, em desonra do meu sexo, que o noivo de D. Leonor de Mascarenhas viu em tudo aquilo que maravilhara o padre uma simples reminiscência de certa Augusta — personagem de um mau romance que então se lia, chamado Onde está a felicidade, e até lhe quis parecer que o Abade de Pedraça se metera nas romanescas veleidades de imitar o outro personagem piegas que lá se chama o poeta. Com esta interpretação das agonias de Tomásia e das austeridades equivocas do egresso, Vasco Pereira ficou satisfeito.

Escreveu entretanto ao Abade agradecendo-lhe os conselhos e admirando-lhe o sentimentalismo — isto com uns períodos facetamente arredondados e umas agudezas de espírito fone que deram em resultado passar a carta feita pedaços das mãos do padre às asas do vento. Mas, como o fidalgo dizia vir na próxima semana a Basto, e ir por Pedraça receber as chaves, deu-se pressa o Abade em avisá-lo que procurasse as chaves em casa do seu reitor. As graçolas não redarguiu. O egresso, como era de nobilíssima linhagem, olhava sem preconceito para fidalgos, e no de Agilde não achava ressalva que o estremasse do comum dos homens indignos da sua estima.

Do que ele curou foi de batizar o filho de Tomásia. Deu-lhe o seu nome, o sobrenome do seu avô boticário e o apelido da sua avô materna. Chamou-se o menino Álvaro Afonso da Granja.

A mãe assistiu à cerimônia, por instâncias do compadre, que a levou a casa em companhia da sua irmã, madrinha do menino. Dizia esta senhora que, enquanto se não demonstrasse que as mulheres seduziam os homens, havia de ser indulgente com as seduzidas. Tinha amado, tinha chorado e encanecido aos vinte e cinco anos. Cativou-se tanto da resignada paixão de Tomásia que a visitava a miúdo e a levava consigo para Pedraça.

***

O noivo queria as joias da mãe, queria vender a quinta de Lanhoso e os foros de Felgueiras. Era forçoso ir.

Entrou por uma noite feia em Agilde. Recebeu do reitor as chaves das cômodas e dos contadores. Encontrou o feitor no patamar da larga escadaria com uma lanterna de luz mortiça; parecia um vulto de granito a iluminar a porta de um jazigo enorme. Quando entrou na sala de espera sentiu-se incomodamente impressionado. Por aquela vasta quadra zuniam nos forros as correntes da ventania.

— Acendam velas! — exclamou ele com desabrimento. — Que é das ciladas?

— A minha mulher está doente...

— E as outras?

— Quando a senhora se foi embora, elas foram também — respondeu o feitor.

— Quem me há de servir?

— Se a vossa excelência mandasse dizer que vinha, eu teria arranjado criadas; mas só já de noite o Sr. Vigário me mandou avisar. Amanhã se arranjará tudo.

Passando de sala em sala, chegou à saleta do seu quarto de dormir. A entrada, tropeçou num móvel.

— Que é isto? Alumie, Antônio!

Era um berço de mogno, suspenso em colunatas com dossel e cortina de musselina. Este berço enviara-o ele de Lisboa, logo que ali chegara, prometendo ser o primeiro que embalasse o seu filho. Deteve-se dois segundos a olhar para o berço. Recordava-se; mas não saberia dizer o que recordava; talvez estivesse escutando o sibilar do vento, que parecia um concerto de gemidos.

Entrou no quarto, acendeu as velas dos castiçais e fechou a porta. Atirou-se para uma das camas. Sobre uma banqueta próxima do leito; em que se reclinara, estava papel, tinteiro e duas cartas abertas; uma era a última que ele escrevera a Tomásia; e a outra carta inclusa nas duas páginas era a primeira que Vasco lhe escrevera, jurando-lhe por alma da sua mãe ser ela o primeiro, o infinito amor da sua vida. Esteve alguns minutos como absorvido na contemplação da luz da vela, com as duas cartas entre os dedos. Parecia contrariado. Ergueu-se, fez um gesto de repugnância, sacudindo com a mão o que quer que era que lhe fazia pressão na testa. Abriu as gavetas de um contador preto com lavores metálicos. Tirou um cofre de joias, cuja tampa de prata dourada tinha brasão esculpido. No côncavo dos relevos do escudo estavam dois anéis de diamantes miúdos, que ele dera a Tomásia. Examinou-os um momento, abriu o cofre e juntou-os às outras joias, que não examinou. Relançou os olhos em redor. Pendentes de cabides de pau estavam dois vestidos de Tomásia. O seu guarda-roupa era modestíssimo. Como não pusera pé fora daquela casa desde que entrara até que saíra para sempre, recusara-se a aceitar atavios inúteis. Levara consigo os vestidos que o ajudante da botica lhe remetera quando o pai se retirou.

Perguntam-me se Vasco Pereira Marramaque já enxugou três, ou ao menos duas lágrimas?

Quando chamou o escudeiro e lhe perguntou se estava pronta a ceia, tinha os olhos enxutos; mas isto nada prova contra as suas qualidades sensitivas. O querer cear também não demonstra insensibilidade nem míngua de aflição. D. Fernando, duque de Bragança, quando passou do oratório para o cadafalso, pediu figos e vinho. Comer é uma brutalidade fisiológica independente da alma. Deixar-se morrer de fome para extinguir os elementos da dor moral é hoje impossível. Só se morre de fome nas condições de Ugolino. A mitologia tem muitos casos como o do marido de Andrômeda; na história da Roma imperial há muitos como o de Diocleciano e de Júlia, mãe de Caracala, e na história lendária alguns como Gabriela de Vergy. Ora criações infantis dos meninos do conde, quando se exercitavam no jogo da navalha.

Eis que, um dia, abertas de par em par todas as janelas e portas do vasto palácio, o sol, o ar, a alegria, as decorações modernas entraram naquelas salas, com grande faina de estucadores, de estofadores e de marceneiros.

Dir-se-ia que tinha chegado á Ajuda o Sr. D. Miguel I, e que o conde de Cabril levantara do cofre da fazenda — que os liberais deixaram cheio, como era de esperar — os primeiros cem contos por indenizações, autorizando-se com os ilustres exemplos de seus primos Terceira e Saldanha.

A causa dessa transformação não pertencia ao numero das calamidades sociais. Tudo aquilo era obra do amor conjugal e de doze contos de réis.

Vasco Pereira Marramaque estava em Cintra com sua esposa, com seu sogro, e com seus cunhados, em quanto se preparava o palácio de Andaluz para os bailes de inverno.

SEGUNDA PARTE

As aparências, que deixavam supor em Tomásia uma alma ou muito briosa ou muito despegada, eram fingimentos que secretamente lhe custavam ásperas pelejas. Enquanto a saudade não cedesse ao ódio, qualquer ostentação de desprezo ou de submissa conformidade devia ser-lhe uma frecha, tanto mais entranhada no coração quanto a ofendida abafava em si o desafogo dos queixumes. Nas doenças de amor, a peçonha do ciúme supurando pelas palavras desabridas deixa muitas vezes a alma curada.

Tomásia velava as noites à beira do berço do filho. Aconchegava-se dele como se a criança lhe fosse alívio e defesa de uns pavores que a estremeciam naquele quarto onde, pela última vez, ouvira a voz aflita do pai que a chamava. O administrador da farmácia, que dormia por baixo, aplicava o ouvido e escutava soluços. Erguia-se de pé sobre o leito e ajustava a orelha à parede, por onde se lhe coavam os rumores do pavimento.

Esta curiosidade tresnoitava Dionísio José Braga.

Era um sujeito entre trinta e trinta e quatro anos. Praticava na botica do hospital de Braga e tinha o curso farmacêutico na escola do Polo. Sabia a preceito a sua arte e estava inventando pastilhas para moléstias incuráveis quando foi despedido do Hospital de São Marcos por ter desencaminhado a filha da enfermeira, uma rapariga de bons costumes, como são todas as raparigas antes de terem maus costumes. Foi ser ajudante de botica no Porto, em casa do Januário da Rua Chã, que o despediu porque ele lhe seduzia epistolarmente uma a sua comadre e comensal. Passou para casa do Eusébio da Rua de Cedofeita, donde saiu por motivos igualmente eróticos. Era um frágil; mas o seu vício não procedia do despotismo do temperamento, nem da materialidade irreligiosa. Era, pelo contrário, muito espiritualista, constelava no azul as mulheres todas, e conversava-as lícita e misteriosamente com a lua cheia por medianeira. Construía uns ideais ratões, e tinha nas alamedas da Lapa e Fontainhas, por noite morta, umas aparições alvas como a Dama Branca, de Walter Scott. Até certa altura, este boticário, posto que não fosse bonito, era um anjo; mas decerto ponto para diante degenerava para homem trivial. Parece que as mulheres dos seus amores — quase todas formadas nas indelicadezas da cozinha — faziam-lhe às asas de anjo o que faziam às asas dos patos; e ele aí ficava o homem de Platão, “um animal implume que ri”.

Quanto a rir, nem sempre. Passou por desgostos sérios. As mulheres amadas e os credores perseguiam-no. As farmácias fechavam-se-lhe, cortando-lhe a carreira da ciência e o êxito de várias pílulas inventadas. A mão gélida da pobreza amarrara-o ao caldo negro de Esparta, que chamam verde no Minho, em casa do seu pai, pequeno lavrador de Vilar de Frades. Aí mesmo, era sensível às noites perfumadas e serenas, ao murmúrio dos ribeiros e a todas as provocações da rica natureza de Maio. Aquele amor panteísta envolvia toda a criatura de merinaque de molas de aço, ou de saia de estopa com barra escarlate. As raparigas da sua terra consultavam-lhe a ciência médica; e ele, compondo-lhes o estômago, desarranjava-lhes o coração. Estas felicidades pagam-se caras. Chegou a levar pancada. O Sr. Guerra Junqueiro deu cabo do último D. João com um poema; porém, os lavrador de Vilar de Frades começaram a obra com estadulho na pessoa de Dionísio José Braga. Sistema muito pior para os dom-joões.

Nesta conjuntura, propiciou-lhe a sorte a botica de Macário Afonso. Foi de ânimo feito a estrangular o ideal que lhe infernara a existência, enforcando-o na costela que levava fraturada.

Dois anos e meio de exemplar comportamento asseveravam uma reforma radical. O arcanjo São Miguel da balança não era mais sério que ele com as freguesas. Dir-se-ia que Dionísio pisava no almofariz o grão da mostarda e as próprias febras do coração. Nem uma chalaça, nem um beliscão em polpa de mulher! Sentava-se na testada da botica num mocho, lendo e anotando a lápis a Farmacopeia Geral do Agostinho Albano. Se alguma rapariga o saudava passando, ele respondia sem erguer os olhos do livro, como se fosse o beato Pacômio a meditar os Santos Evangelhos. E nem por isso granjeara grandes simpatias no sexo feminino: é porque tinha ares de neutro.

— É um trombelas! — dizia a Rosa do Cruzeiro.

— Não olha direito para a gente, o casmurro! — invectivava a Josefa da Fonte.

— Aqui há tempos, a Maria do Moleiro quis-lhe mostrar uma nascida que tinha num joelho, e vai ele disse-lhe: “Menina, vá ao cirurgião; que eu avio remédios e não vejo pernas.”

— Credo! O homem é tolo! Olha a santantoninho, que lhe não fosse dar volta o estômago! — acudiu a Rosa, cruzando os braços e balançando os seios sobre o largo decote do colete amarelo. E escarneciam-no com palavras desonestas e casquinadas de riso com lardo de equívocos torpes.

E como é o mundo, em cima e em baixo.

Vá de história. Havia em Roma dois santuários consagrados ao Pudor, num dava-se culto ao “pudor das senhoras” (pudicitia patricia); no outro ao “pudor do mulherio” (pudicitia plebea). Não sei qual dos dois pudores era menos envergonhado. Hoje é difícil estremar duas coisas que não existem; porquanto ponho os óculos, tomo rapé e leio em Ovídio, e na Teogonia, de Hesíodo, que a Pudicícia, assim que viu lavrar o cancro da corrupção no seio do gênero humano, fugiu para o Céu com a sua irmã a Justiça. Que fosse para o Céu, duvido; não me parece que seja lá necessária; mas em Celorico de Basto é que ela realmente não estava, quando aquelas raparigas, a meia voz, e com estridentes gargalhadas, comentavam o pudor do boticário, respectivamente ao joelho da Maria do Moleiro.

***

Oito dias estivera Tomásia na sua casa sem que Dionísio a visse.

Mandou-o chamar à saleta e agradeceu-lhe a probidade e zelo com que administrara os seus interesses. Pediu-lhe que a desculpasse de tão tarde cumprir aquele dever e a não julgasse grosseira.

Respondeu ele com a voz trêmula que muito se honrava em ter correspondido à confiança que em si depositara o finado Sr. Macário; que sentia infinitamente os seus dissabores...

E engasgou-se.

Tomásia tinha-o encarado fita e penetrante como um tiro. A vaidade picou-se-lhe daquele ar de atrevida compaixão. O aspeto de Dionísio tinha uns tons de ternura equivoca, nos olhos principalmente, onde se transverberava a doçura de uma alma apaixonada. Esta expressão escandalizara Tomásia, por duas causas: primeira, ser olhada daquele feitio por um caixeiro de botica — ela que embalava nos braços um filho de Vasco Marramaque e cerrava ao coração o perpétuo luto do único homem que vingaria perdê-la! Por isso, o sensitivo amador das famílias dos Januários e Eusébios ficou entalado quando Tomásia, levantando o rosto, avincou a testa e lhe arremessou de flecha os olhos rutilantes.

Aquela mulher era então mais linda que no tempo em que as graças lustram mais no pudor que na plástica. Dois anos antes inspiraria Lamartine; dois anos depois teria o seu lugar de honra ou de desonra entre as mulheres refeitas e perfeitas dos poemas de Alfred de Musset. O boticário estava na compreensão das boas coisas e não era hóspede na matéria sujeita. Cinco anos de pousio deram-lhe ao coração rebentos luxuriantes. O molosso da natureza sacudiu a mordaça e deu aqueles grandes latidos interiores que se chamam a paixão.

Tomásia evitava-o desde a primeira e curta conversação em que ele, aturdido pela arrogância daquele olhar, se retirara tartamudeando algumas palavras insignificantes; Dionísio José Braga, porém, ia ofendido no sentimento generoso e virgem que lhe entrara no peito à primeira vez que a vira. Pensara em casar-se com ela, assentar de vez, e arranjar-se, dizia ele no lirismo das suas meditações. Portanto ela possuía a botica bem afreguesada, posto que as drogas fossem revelhas e substitutas das que não havia; possuía a casa e o quintal, casa envidraçada, e quintal curioso com pomar, parreiral, hortas, mirante com trepadeiras de maracujá, bancos de cortiça numa gruta de madressilva à maneira de cubata As arcas estavam cheias de bragal, peças de linho e meadas antigas, tudo anterior à invasão dos romances naquele recinto de ignorância e bom senso. Estas concomitâncias cooperavam talvez no propósito honesto do farmacêutico; mas, descascada a ideia, lá está dentro a cândida pevide como semente das ações nobres — a bonita ideia de casar-se e reabilitar aquela menina.

O seu amor medrou nas surdas raivas como as belas flores nos resíduos imundos.  Tomásia, todavia, não o estremava do jornaleiro que granjeava o quintal. No fim do mês, mandava-lhe entregar o seu ordenado e examinava a escrituração singela das linhaças, dos citratos e das mostardas.

Dionísio denotava profundas alterações orgânicas na parcimônia dos alimentos. O seu jantar voltava quase intato. Dizia a criada à ama que o praticante estava escanifrado como um étego e não comia tanto como isto; e, dizendo, mostrava a unha gretada das ulcerações de um panarício erisipelatoso.

Tomásia adivinhava-o, aborrecia-o e quase que o odiava. Algumas vezes por entre as cortinas da janela, quando contemplava cheia de lágrimas os sítios do quintal mais prediletos de Vasco, via o boticário reclinado no escabelo da gruta, com a face na palma da mão e os olhos na vidraça do seu quarto. Retraia-se como se ele a visse e dava um estalo tirado com a língua do céu da boca — a trivial expressão com que se esconjura um estafador e se enxotam os cães.

A criada velha, que conhecia o ânimo da senhora, e sagazmente penetrara na causa do fastio de Dionísio, já quando o via no pomar, ia dizer à ama:

— Lá está o estupor.

Esta mesma criada foi inconscientemente a portadora de uma carta inclusa no rol mensal das drogas entradas e saldas.

— Que é isto? — exclamou Tomásia, vendo a carta fechada com três obreiras amarelas, simbólicas de desesperação. — Ele deu-lhe esta carta?! E você recebeu-a?...

— Ó menina, mal haja eu, se sabia que o diabo do homem...

E justificou-se plenamente.

Ao primeiro assomo de raiva, quis rasgar a carta; depois, resolveu devolver-lha fechada e despedi-lo; mas neste conflito entrou o Abade de Pedraça, que ia convidar a comadre para assistir ao jantar de anos da sua irmã.

A mãe de Álvaro, enquanto o padrinho acariciava o pequeno, referiu-lhe o caso. O padre sorriu-se, deu pouco peso à calamidade e aconselhou que, em bons termos, devolvesse a carta fechada com as seguintes palavras escritas no verso do sobrescrito: Enquanto lhe servir o emprego que honradamente ocupa na minha casa, peço-lhe que me respeite.

E, motivando esta conceituosa e lacônica intimação, o Abade alegou que Dionísio era um ótimo farmacêutico, o único que sabia química e botânica naqueles sítios; que muita gente o preferia ao médico Ferreira — hoje famoso clinico do Porto e então médico de partido em Basto —, que as suas pastilhas das lombrigas estavam acreditadas em toda a província e que tinha curado as alporcas a várias pessoas. Disse mais o Abade que sabia que um cirurgião da Ponte de Pé lhe oferecera duzentos mil-réis, cama, mesa e roupa lavada para lhe administrar a botica paterna, e além disso o quinto nos interesses, e metade nas invenções, obrigando-se o cirurgião a propagá-las. Posto isto, concluía que, se Dionísio, untado pelo desabrimento de Tomásia, se despedisse, a botica se devia considerar perdida, por falta de tão hábil farmacêutico.

— Não me dá outras razões mais fortes, o meu compadre? — perguntou Tomásia.

— Ainda as quer mais fortes?...

Ela então chamou a criada e disse:

— Entregue esta carta a esse homem e diga-lhe que eu o despeço.

— Que faz, comadre! — atalhou o Abade.

— Se eu não fizesse isto — respondeu ela moderadamente, sem atitudes —, devia ter aceitado o casal de Paços que me dava o pai do meu filho.

— Mas... — respondeu o compadre — a senhora tem a certeza de que essa carta lhe faz alguma afronta?

— Pois que é isto, senão uma afronta? À mulher, na minha posição, abandonada, com um filho, que dirá a carta de um homem?

— Pode ser, e é talvez certo, que ele queira ser o seu marido...

— Olha o estupor! — interrompeu a criada com o mais desdenhoso engulho.

O Abade, surpreendido pela exclamação, abriu uma risada inoportuna, enquanto a criada continuava:

— Que procure forma do seu pé!... Sempre é muito asno! Um rapaz de botica atrever-se...

— Vá! — ordenou Tomásia com intimativa; e voltando-se para o compadre: — Não lhe dê preocupação a minha sorte, o meu amigo; mas peço-lhe que tenha em vista o meu filho. Confesso-lhe que sou mais fraca do que eu pensava. Olhe... Tenho chorado muito; passo aqui noites tão cruéis, tão atormentadas, que se não fosse esta criança... eu conheço os venenos... tinha descido à botica, e, a troco de uma agonia de poucos minutos, descansaria desta horrível batalha com que não posso... Não posso mais... E o amor e o remorso a despedaçarem-me. Vejo o pai deste infeliz, vejo a sombra do meu velho pai...

E, afogada pelos soluços, arquejava com o rosto apertado nas mãos.

***

O Abade previra com juízo.

Dionísio José Braga, recebido o recado pela criada, que se excedeu — por estar ofendida na insidiosa recovagem da carta —, enfardelou a sua roupa num caixão de lata e exigiu uma declaração abonatória da sua honradez. Lavrou-a o Abade e Tomásia assinou-a.

Depois, o padre desceu à botica e disse ao farmacêutico, por entre coisas agradáveis, que ele devera ter respeitado o melindroso infortúnio de uma senhora que inspirava mais compaixão que amor.

E então Dionísio, numa explosão de raiva irônica, perguntou ao Abade:

— E que lhe inspira ela a vossa senhoria?

— A mim? Amizade e respeito: o que pode inspirar para um sacerdote dos meus anos.

— Conte-me lérias, Sr. Abade — retorquiu o outro com sarcástica brutalidade.

O padrinho de Álvaro, que tinha cinquenta e sete anos fortes e sangue turdetano nas veias, sentiu na espinha dorsal um formigueiro extraordinário, e ainda olhou para a mão do almofariz; porém, sotopondo o brio do fidalgo à paciência de padre cristão, disse-lhe com violenta brandura:

— Vá com Deus; e... vá com Deus!

Dionísio, nos lances apertados da sua vida de amores perigosos, só levou pancada quando não pôde esquivar-se pela porta da prudência, e até pela janela, conforme a necessidade. O rosto do clérigo e o trejeito diagonal dos olhos ao almofariz tocaram-lhe na costela fraturada em Vilar de Frades; pelo que, abafando as cóleras, prometeu esvurmá-las com ressalva das costelas sãs.

Nesse mesmo dia funcionou na farmácia da Ponte de Pé e divulgou que saíra de Agilde em consequência dos ciúmes do Abade de Pedraça. Os cavalheiros da localidade, sequiosos de escândalos, propalaram a calúnia e confirmaram o boato de que ele, o hipócrita, já havia mandado para o Brasil um filho, que lá na Residência era conhecido pelo Álvaro Enjeitado.

— Que eu conheço perfeitamente — disse um cavalheiro do Arco. — Esse rapazola esteve em Pedraça no ano passado, e ouvi dizer que casara muito rico no Rio de Janeiro; mas lá diziam que o padre era padrinho.

— E pai — confirmaram todos.

E cada qual fez o seu relatório de devassidões de padres. Um dos relatores era o já celebrado poeta de Refojos, que, na ausência de Vasco Pereira, pudera repatriar-se e reassumir as funções de Juvenal em Cabeceiras. Ele esfregava as mãos, arregaçava um sorriso cheio de ameaças e dentes cariados e dizia, trincando o charuto, que ia escrever um romance fulminante contra os padres. Foi muito aplaudido e arranjou logo cinquenta assinaturas. Tecendo o enredo, explicou que o ex-frade de Pedraça seria protagonista e Tomásia a heroína.

Se os padres escrevessem romances contra os novelistas, quantas obras de execução prima e de primeira verdade nos não dariam! Faça-se o clero romancista e descreva os padres levados à desmoralização pelo exemplo das altas capacidades seculares que os arguem de ignorância. Quando vierem a medir-se nesse torneio de armas iguais, então saberemos quantos devassos verossímeis e não tonsurados correspondem para um PADRE AMARO que prende o filho para uma pedra e o afoga com as suas mãos. Enquanto, porém, o romance urdir crimes descomunais, sendo tantíssimos os vulgares, não se receia que a literatura amena faça grandes males.

***

Tomásia fechou a farmácia, enquanto o Abade contratava no Porto quem a dirigisse. O boticário que veio não tinha mais habilitações que o comum dos praticantes analfabetos. A farmácia administrada por Dionísio era nova, fornecera-se de remédios franceses, tinha fundas de camurça, seringas de bomba e frascos variegados na vitrina de pau-óleo. Os facultativos recomendavam-na. A botica de Agilde restavam só os fregueses da mostarda, das malvas e da flor de sabugueiro.

O praticante era imberbe e lorpa; e, como tinha tempo, fazia gaiolas para grilos, e também fazia ratoeiras, por não saber fazer colheres. A receita não dava para o ordenado do caixeiro...

Aconselhou o Abade à comadre que trespassasse a botica, alugasse a casa e fosse para Pedraça. Anunciou-se o negócio nas gazetas do Porto. Dionísio dava gargalhadas na farmácia da Ponte de Pé, quando leu o anúncio, e disse que não queria a botica pelo carreto, asseverando que as drogas eram anteriores à invasão dos Franceses. Não mentiria muito.

O Abade já sabia que o caluniavam e difamavam a pobre mulher à conta dele.  Queria socorrê-la, mas com delicadeza e cautela. Não sabia, porém, como tirar-se desta dificuldade.

Um dia, Tomásia resolveu-se: foi à Vila do Arco, onde tinha um parente. Alugou uma casinha e anunciou-se mestra de meninas. Quando o compadre o soube, já ela estava instalada e exercia o professorado com seis educandas. O Abade, com os olhos úmidos de lágrimas, disse-lhe que ela era uma alma rara e que tinha virtudes tamanhas que até a sua fragilidade parecia um ato meritório, porque da queda procediam tão nobres procedimentos. O que ele fez, melhorando-lhe a vida, foi conseguir-lhe a nomeação de mestra régia.

Tinha muitas prendas de bastidor a filha de Macário, escrevia bem e ortograficamente, aprendera história nos compêndios de Vasco e nos romances. Deu-se zelosamente ao magistério, e chegou a tocar o sumo bem de uma vida conformada e serena. As famílias do Arco estimavam-na, recebiam-na e presenteavam-na liberalmente. A mancha estava delida. Álvaro, o pequenino anjo, parecia pedir indulgência para a mãe. A calúnia de Dionísio sumiu-se na obscuridade das grandes infâmias. A miúdo, o Abade e a irmã visitavam a comadre e a levavam consigo nas férias para Pedraça.

***

Neste tempo, Vasco Pereira Marramaque visitou com a esposa as quintas do Minho. Traziam consigo a primeira filha de poucos meses. O fidalgo soube em Agilde que Tomásia fechara a botica e, obrigada pela necessidade, abrira escola no Arco. Teve pena e más recordações. Lembrou-se da inocente alegria daquela rapariga; do bom Macário Afonso, que o recebia na sua casa e consentia que a filha lhe desse às mais raras flores; da docilidade e abnegação com que ela o amara; do júbilo com que lhe falava do filho; a morte do velho longe da filha e do seu leito, desterrado voluntariamente; o desinteresse da mulher sem reputação nem bens de fortuna; enfim, estas imaginações ali, naquela casa, onde Tomásia estivera, não lhe seriam muito aflitivas, mas eram incômodas. E, conquanto estivessem cortadas as relações com o Abade, não se dedignou de lhe escrever, pedindo-lhe que convencesse Tomásia a receber uma mesada bastante à sua independência. E, feito isto, ficou contente consigo, como quem diz: “Sempre sou um Marramaque! Dou-lhe alguns pintos que me não fazem falta, e honro o meu nome.” O ser fidalgo tem Isto de bom: quando a consciência não obriga, obriga o apelido. Pior é quando não há apelido nem consciência.

O Abade respondeu com três palavras: Tomásia está independente.

Casualmente encontrou Vasco o primo Abreu de São Gens. Falou-se de mulheres conquistadas na mocidade de ambos.

— E a boticária? — perguntou o bacharel de Refojos. — Já sabes que está Abadessa?

— Abadessa!

— Sim; passou da botica para a igreja, mas em melhores condições que muitas, que vão da botica para a cova.

— Não te entendo — respondeu o de Agilde.

Monsieur, ce n'est pas ma faute, dizia o Boileau a quem o não percebia. Então não sabes que a Tomásia é mestra de meninas e é menina do Abade de Pedraça?

— Isso é calúnia! — acudiu Vasco.

— Olha o vaidoso!... Repugna-te querer que na herança de uma mulher educada pelo teu amor gentilíssimo sucedesse o velho frade de Tibães!... Pergunta por essa história ao boticário da Ponte de Pé...

E contou-lhe o que sabia, convencendo-o. Vasco riu-se muito, daquele rir que está todo no maquinismo dos queixos e da laringe. Lá por dentro mordia-o o despeito de ver que um homem de cãs e barriga proeminente vingara estancar as lágrimas de Tomásia, que não podia consolar-se do apartamento de Vasco.

— Fortes asnos somos nós, afinal! — dizia ele ao primo Abreu. — A gente a pensar que tem grande responsabilidade porque faz voar estas andorinhas de um telhado para o outro!...

— Ainda aí estás!... Eu é que me considero sempre o seduzido e me lastimo sinceramente porque ando a fazer saltar da cama as lebres que os outros abocam.

E, discorrendo largamente neste estilo metaforicamente venatório, concluíram que Tomásia, em remate de cantiga, era a filha do boticário pur sang.

***

A mestra régia ensinava o filho; e, à custa do esforço que faz prodígios, aprendeu quanto ignorava e Álvaro devia saber. Quanto à carreira do educando, estava destinada. O padrinho deliberou enviá-lo para um afilhado que tinha rico no Brasil.

— Foi um enjeitado — contou o Abade — que aqui me trouxe Maria Moisés para eu batizar. Com aquela lábia que ela tem, foi-mo metendo em casa, e cá ficou o rapazinho. Foi à escola, tinha muita habilidade, e queria ser doutor, o meu enjeitado. Mandei-o para o Rio. O rapaz saiu tão honrado, que parecia querer começar em si briosamente a sua geração, visto que não tinha antepassados. O patrão deu-lhe a filha e grande dote. Infelizmente, morreu-lhe a esposa e um filho. Está rico, mas vive triste.

Queria que eu fosse para o Rio, e eu quero que ele venha para a minha companhia. A isto responde que tem medo à ociosidade; que precisa trabalhar e fatigar-se para dormir e esquecer-se. O meu Álvaro irá para o outro que também é Álvaro; eu direi a ambos que se amem como irmãos.

Tomásia escutava-o lagrimosa; mas não contrariava o alvitre do Abade. Álvaro era pobre. A casa de Agilde nem inquilino tinha. A botica era um foco de cheiros maus e aziumados a vaporarem dos velhos frascos de louça amarela desvidrada. Nos gavetões medicavam-se impunemente os ratos roendo as ervas e olhando com o maior cinismo para o frasco do arsênico. O arcanjo São Miguel, com as cores perdidas, envolvia-se em filigranas da teia de uma aranha de barriga preta, que prendia uma das orlas da telilha nas pontas do Diabo e a outra no capacete do anjo. Nos pratos da balança tinham-se passado fenômenos execráveis. As aranhas fêmeas, depois de acariciadas, comiam ali os maridos, consoante o seu mau costume: viam-se nas conchas de latão os restos mortais dos aranhões. A botica esquecera, exceto aos garotos que enfiavam calhaus por uma fresta, e regalavam-se de ouvir lá dentro o tinir das pedras no bojo das garrafas.

Portanto, o filho de Vasco Pereira Marramaque era um menino pobríssimo, que o amor maternal não devia esquivar ao trabalho e ao destino que o padrinho lhe talhara. Aos doze anos, o pequeno abraçava-se na mãe e pedia-lhe que não o deixasse ir para o Brasil. Dizia ele que ia morrer, porque era muito fraco. Na verdade, aquela criança bebera no leite da mãe as lágrimas que ela represara. Crescera tolhiço, magrinho e pálido, como os filhos das casas opulentas e velhas raças. Fatigavam-no os estudos, tinha escuridões súbitas de entendimento, e caia em sonolentas abstrações. Dizia então a mãe ao compadre:

— Este menino vai morrer.

O Abade não fazia cabedal destas profecias, mas profetizava também:

— Álvaro, dentro em poucos anos, virá rico para a Pátria.

— Rico! Para quê?... Trouxesse ele o bastante para a sua subsistência... Com tão pouco se vive! E se lhe déssemos um ofício?

— Sapateiro? É natural que fosse o primeiro na geração dos Marramaques, posto que dizia o meu avô que conhecera a trisavó deste senhor de Agilde palmilhando chinelas em Lanhoso. Ainda assim, não se renove a vergôntea dos sapateiros neste ilustríssimo tronco. Bem bastam os que hão de vir quando os vínculos forem abolidos...

O Abade de Pedraça, sobre ser genealógico de farpada língua, era discursivo em coisas sociais quando a comadre se mostrava complacente em ouvi-lo; mas, neste caso, a sua manha era distraí-la das lástimas e ir contemporizando com o amor de mãe.

Escrevera ele ao afilhado do Rio prevenindo-o de que estava educando um outro Álvaro para lho entregar, e contava-lhe sentimentalmente a história desta criança sem pai. O brasileiro não respondeu; veio pessoalmente buscar o seu prometido filho. "Sê tu pai dele”, dissera-lhe o padrinho.

Tomásia ganhou ânimo quando viu o protetor do seu Álvaro. Era um homem de vinte e seis anos, com o rosto carregado das sombras de uma tristeza maviosa, dulcificando as palavras amargas com o sorriso da resignação.

— Sou muito doente — dizia ele —, mas, se eu morrer, o seu filho, a minha senhora, voltará para a sua mãe com bastantes recursos. Pode confiar-mo; amá-lo-emos todos três.  Imagine que eu, magoado com a abnegação do meu padrinho — que nunca me permitiu dar-lhe meio por mil dos meu haveres — quero vingar-me em beneficiar este o seu afilhado. Eu tenho no coração muito amor sem destino. Não amei pai nem mãe. Tive esposa e filho. Todo o amor que lhes consagrei está para ser dado para um ente que não seja esposa ou filho, porque essa felicidade não se repete.

***

Álvaro Afonso da Granja saiu do Arco para o Rio de janeiro em 1863. Ia nos doze anos.

O brasileiro tinha propensões desacostumadas nos homens grávidos e pesados de dinheiro. Procurava atar os elos da realidade às comoções da vida idealizada nas novelas. Em Lisboa, quis ir ao Parlamento para ver o recentíssimo visconde de Agilde, o pai do seu pupilo. Entrou na galeria do povo com o menino. Perguntou para um vizinho:

— Faz favor de me dizer qual destes deputados é o visconde de Agilde?

— É aquela besta que acolá está falando com outra besta...

E citou o nome da outra, que eu delicadamente não repito, se bem que não receio que ela me leia.

Álvaro não tinha de memória a classificação zoológica daquelas espécies parlamentares. Veio, porém, a saber que o visconde de Agilde era um sujeito de bigode encerado, luneta de um vidro, calvo, de feições duras, trigueiras e descarnadas.

— Ele pediu a palavra — notou o informador, e continuou: —Quanto quer o senhor apostar que o visconde diz três asneiras em duas palavras?

— Não aposto, porque já ouvi dizer quatro — respondeu Álvaro.

— Então o senhor, por mais que me digam, é do Porto, e conversa com os janotas do Suíço? Espere, lá vai o javardo grunhir.

O visconde, desta feita, deixou desairado o crítico, que era da oposição. Ora este critico era o poeta de Refojos, que conseguira ser correspondente político de um jornal portuense.

O visconde pedia estradas no Minho. Disse com sofrível pronúncia inglesa que Braga era um dos nossos rotten-boroughs (burgos pobres) dos quais o Governo não fazia caso. Disse que Basto estava encravado entre serras intransitáveis. Perguntou ao presidente se estávamos na Idade Média.

— Vê o asneirão? — observou o de Refojos. — Pergunta se estamos na Idade Média.

— Deixe ouvir, se faz favor.

O orador observou que nas trevas da Idade Média o rico-homem dispensava estradas, porque vivia circunscrito no seu solar torreado, sem fazer parte do sistema arterioso da Nação.

— Que burro! — observou o correspondente do Nacional, tomando notas. — Que dois burros é aquele homem!

O discurso acabou de repente, quando começava a ter graça. O orador, perorando, repetiu que o Minho sem estradas era o melhor membro da Nação, mas gangrenado, pútrido, paraplégico.

— Onde mora o visconde, sabe dizer-me? — perguntou Álvaro.

— Em Andaluz, no palácio do conde de Cabril. O senhor é pretendente?

— Nada. Sou brasileiro.

— Ah! Quis-mo parecer no sotaque. Provavelmente é do Minho, e quer comprar ao visconde algumas das quintas que lhe restam... Se é isso, vá, que eu sei que ele perdeu em casa do marquês de Nisa quinhentas libras a noite passada... Está ali, está sem nada. Teve oito contos de renda há dez anos; hoje não tem três e tem seis filhos.

No dia seguinte, os dois Álvaros passeavam no Largo de Andaluz; e, quando viram sair de uma cocheira o cupé, que entrou no, vasto pórtico do conde de Cabril, avizinharam-se do pátio.

O filho, de Tomásia era de todo estranho às excentricidades do seu amigo, quando este lhe disse:

— Vais ver teu pai...

— O Sr. Vasco de Agilde? — perguntou o menino.

— Sim, o visconde...

— Ele não é visconde — emendou Álvaro.

— É visconde desde antes de ontem.

Entraram, quando o deputado reeleito descia a escada com um pretendente de cada lado e dois no coice. Ele vinha coberto, com o paletó alvadio no braço e um charuto apertado entre os quatro dentes incisivos. Parecia vesgo por causa da luneta pênsil de um só vidro sem arco que o obrigava a convergir estrabicamente o olho esquerdo. Resmoneava uns monossílabos e dava aos ombros, escutando com fastio um dos importunos.

Quando viu o desconhecido ao lado da carruagem, perguntou, gesticulando de modo que os pretendentes saíram:

— Que pretende o senhor?

— Cumprimentar a vossa excelência pela energia do discurso que ontem tive a fortuna de escutar, pois que, tendo eu sido criado em Basto, muito me congratulo com os meus conterrâneos tão distintamente representados.

— Obrigado... Faço o meu dever — respondeu o visconde com agraciado aspeito.

— E ao mesmo tempo, excelentíssimo senhor, na minha passagem para o Rio de Janeiro, onde resido, tenho a honra de deixar o meu nome lembrado a vossa excelência, para que, se um dia se abrirem estradas em Basto, a vossa excelência me considere tributário de doze contos de réis para esse grande impulso civilizador.

— Oh! — exclamou o deputado. — E muito louvável patriotismo!

Aperto-lhe a mão de patrício, e lamento que Portugal esteja tão escasso de homens da sua têmpera. Donde é?

— Fui criado em Pedraça, Sr. Visconde, sou afilhado do Sr. Frei Álvaro.

— Ah!... do Abade... Como passa ele?

— Robusto ainda com os seus sessenta e quatro. Recordo-me de ver a vossa excelência, quando em menino estudava Lógica com o meu padrinho.

— Sim?

— Perfeitamente me recordo; e a vossa excelência talvez se lembre de um rapazito que lá chamavam o Enjeitado...

— Tenho uma ideia de um pequeno que subia às cerdeiras e nos deitava cerejas...

— Era eu.

— O senhor?... Então enriqueceu? Muito folgo... E este menino é o seu filho?

— Não, senhor — respondeu Álvaro a meia voz. — Este menino é filho da vossa excelência.

O visconde fez dois gestos indecisos entre a surpresa desagradável e o receio de que os lacaios escutassem.

— Vai comigo para o Rio — prosseguiu o brasileiro — e, como a morte por lá é mais frequente, não quis eu que ele, tendo de morrer na flor dos anos, fosse deste mundo sem conhecer o seu pai. Eu aprecio muito este lance, porque fui enjeitado.

O menino fitava como assustado o rosto do visconde, que também o encarava atentamente.

Neste ponto, vinha descendo a Viscondessa com três meninas, clamando com vozes argentinas que retiniam na amplidão do pátio:

— Ainda aí estás, Vasco? Leva-nos contigo até ao Chiado.

— Sim, filha — disse o marido; e, voltando-se para o brasileiro: — Procure-me em ocasião mais oportuna.

— Senhor Visconde, recebo as suas ordens agora — disse Álvaro, recuando com o menino pela mão. — Amanhã salmos no paquete, e não há razão para que torne, visto que o meu intento era simplesmente cumprimentar a vossa excelência.

A Viscondessa estava já ao lado do marido, olhando para o pequeno, quando Álvaro se despediu cortejando-a.

— Quem é? — perguntou ela.

— Um brasileiro de Basto.

— O pequeno é galante. Parece-se com o nosso Heitor. Não achas?

— Não reparei.

Daí a minutos, dizia-lhe Leonor:

— Vais tão calado e triste! Que tens tu, Vasco?

— Que hei de eu ter, filha?... É o demônio da política...

— Estavas tio alegre ao almoço... Ah! uma coisa... Dá-se baile nos anos da Piedade?

— Responderei à tarde. Ainda não sei se o Banco de Portugal me reforma a letra dos cinco contos...

— Mas eu já escolhi o meu vestido e os das pequenas.

— Se escolheste os vestidos, nem por isso é obrigatório o baile.

— Sim... — redarguiu a Viscondessa com disfarçado despeito. — Em todo o caso, não digo nada, por enquanto, à prima Penafiel, nem à prima Ponte, que mandaram saber...

— Sim, não digas nada.

— Mas é esquisito...

— O que é esquisito, Leonor?

— Que se falasse nisto na soirée do primo Fronteira...

— Quem falou não fui eu.

— Consultei-te primeiro.

— Em suma, Leonor — concluiu o visconde com desabrimento —, pela vigésima vez te anuncio que estou mal de fortuna, que, em vendendo cinco quintas que me restam, a casa do teu pai volte à miséria antiga.

— À miséria! Essa é boa! Eu nunca soube o que era miséria... Que delicadeza tão provinciana!... Para! — bradou ela ao trintanário, à entrada da Rua do Ouro, e saltou do coupé com as filhas.

A mais velha, Maria da Piedade, perguntava baixinho à mãe:

— Ó mamã, o papá disse que nós estávamos na miséria?

— Não, tola.

***

Quem vira Leonor de Mascarenhas, no solitário e caduco palácio de Andaluz, dez anos antes, modesta, paciente, sem invejas, escusando-se com os achaques do pai quando a convidavam para a sala ou para o camarote; disfarçando com o amor filial a míngua do vestido, do chapéu e dos somenos atavios que as filhas das criadas do seus avós desperdiçavam — quem prediria então que aquele anjo meigo do lar, assim que respirasse o esbraseado ambiente das salas, queimaria as asas, e em vez delas se faria uns voadouros de brilhantes farrapos para esvoaçar-se ao ponto culminante da elegância, do fino gosto, da bela extravagância, do renome de figurino?

Nos primeiros anos era o marido que a instigava, envaidecido da primazia que os localistas lhe decretavam, especialmente o Agapito; depois eram as amigas invejosas que a rivalizavam, apanhando de salto o segredo das modistas mais a ponto informadas do último baile do Louvre; por fim, quando Vasco Pereira, cheio de melindres, lhe disse a medo que os filhos eram já muitos e os rendimentos desfalcados com a exorbitância do luxo, Leonor já não podia entregar-se vencida às suas competidoras e consentir que a modéstia divulgasse que a rainha dos bailes abdicara por falta de quatrocentas libras anuais, em que o seu reino estava tributado no balcão da suserana Lavaillant.

No transcurso de dez anos, a grande casa dos Marramaques adelgaçara-se por maneira que não rendia o lucro dos capitais levantados no Banco de Portugal e no Hipotecário. Os dois irmãos de Leonor exercitavam o comunismo em família e o conde de Cabril presenteava o príncipe proscrito com os dinheiros do genro, consentindo todavia que no palácio de Andaluz se pensasse liberrimamente em política. Os filhos tresandavam a cocheira e república, prometendo esfaquearem os burgueses com veemência tal de palavras iracundas que pareciam os dois Gracos; o genro bamboava-se na redouça de todas as seitas liberais à espera de cair uma vez sobre a pasta da Marinha; quanto ao conde, a Rússia movia-se, e não dizia mais nada. Estava idiota e fazia a corte às amas de leite dos netos.

O dinheiro de Vasco Pereira cicatrizara umas úlceras e fizera repercutir outras piores. Ele, pela sua parte, lançou-se no jogo como financeiro. Estreou-se com felicidade naquele sistema de suprimentos à quebra das rendas. Teve noites cheias na banca do conde de Farrobo, posto que lhe repugnasse concorrer àquela tavolagem com merceeiros e cômicos, como se no estalão das paixões infames não fossem iguais todos os homens. Depois, atraiçoado pela fortuna, passou a emparceirar-se com o marquês de Nisa, que esvaziava o estanque das torrentes de ouro que confluíram para ele, através de quatro séculos, desde Vasco da Gama, e, navegador audaz do revolto oceano dos vícios, afrontava o cabo da desesperação como o seu ínclito avô o cabo da Boa Esperança. Releve-se o gongorismo para uma justa indignação!

***

O visconde de Agilde não melhorou com o falecimento do sogro em 1868, nem tom o estabelecimento dos cunhados em alquilarias e carros de transporte. Naquele ano, o Banco Hipotecário absorveu-lhe três quintas nas margens do Tâmega e reduziu-o a pouco mais de um conto de renda. Agilde era já propriedade de um brasileiro. Ele mesmo gelou de espanto quando assim, aos quarenta e quatro anos de idade, se viu desvalido com seis filhos, com a importância política perdida, desacreditado em todos os grupos, porque a nenhum era útil nem temível. Os seus constituintes provincianos preferiram-no — ah! crê-lo-eis, Pisões? —, preferiram-no àquele Juvenal de Cabeceiras, ao correspondente do Nacional, ao mordacíssimo informador de Álvaro, em suma, ao versista que começara a popularidade de Vasco por aqueles dois versos:

Ó bardo de Celorico,
Quem te deu tamanho bico?

A Viscondessa, à volta dos quarenta anos, caiu em si e praticou o heroísmo de vender as suas joias para pagar dívidas ignoradas do marido. Dois filhos do visconde, Heitor e Rui, eram guardas-marinhas, devassos e caloteiros; o mais novo era pensionista no Colégio Militar. Havia três meninas: Maria da Piedade era a primogênita e orçava por dezasseis anos, quando o visconde deliberou transferir-se para uma quinta nos arrabaldes de Braga.

E partiram.

D. Leonor de Mascarenhas estremeceu quando por entre um carvalhal sem folha, numa tarde de vento glacial, em novembro, viu a casa expiatória onde ia amarrá-la a corrente da pobreza. Era uma renque de quinze janelas de sacada com portadas vermelhas, peitoril de pau e caixilhos de vidraças empenados pelo sol e podres da chuva. Por sobre o telhado erguia as suas ameias escuras um simulacro de torre de menagem varada por duas janelas sem portas, mas tapadas por dois molhos de palha pança, que, vistos de longe, pareciam homens de borco a precipitarem-se da torre. Estava aberto um postigo do portão de carvalho; o vento sacudia-o contra o batente e fazia uma compassada e aspérrima toada de matraca. No grande terreiro interior corriam espirrando duas cabras espavoridas e estacavam às vezes voltando de esconso para os desconhecidos adventícios as narinas fumegantes. Por uma cancela tosca de passagem para a quinta entrava o caseiro carregado de erva; e, vendo os patrões, atirou o molho sobre um carro com o cabeçalho ao alto, desbarretou-se, coçou-se e disse:

— Isto por aqui é novidade!

O visconde, para não desdizer da desordem dos seus hábitos, nem avisou o caseiro, nem perguntou se a casa da quinta ainda estava de pé.

Entraram na sala de espera. E como quem entrava na casa da neve das Rodas do Marão. O coração tremia de frio. As três meninas olhavam espavoridas para a mãe, aconchegando os capuzes das capas ao rosto. O vento assobiava mugidos nas cavernas dos forros; dois enormes ratos atravessaram a vasta quadra, velozes e de focinho baixo, como dois vadios de boa família que passaram a noite em orgia, e foram surpreendidos pelo sol alto. Leonor sentou-se num escano de espaldar brasonado e não pôde ter as lágrimas. O marido, esquivando-se àquele espetáculo, passou para o interior da casa, ao passo que o caseiro ia abrindo as janelas.

Pouco depois, chegaram alguns carros de baús e mobília, com criados, que ajuizavam assim dos domínios senhoriais do patrão:

— Que diabo de casa é esta? Aqui há lobos!

O escudeiro dizia que não matara ninguém para se sujeitar a tal degredo. A cozinheira, vendo a primeira sala, exclamou:

— O que não será a cozinha!

Esta crise foi-se modificando a pouco e pouco. Parte da casa foi reparada e confortavelmente trastejada. Uma das salas tinha um fogão antigo com colunas de bronze, mandado vir de Itália por D. José de Meneses, arcebispo de Braga. A Viscondessa e as filhas passaram ali quatro meses chorando sempre as lágrimas azedas que o fumo da lenha lhes estilava dos olhos. O visconde passava os dias na cama, lendo os jornais da oposição e fumando charutos de vintém com magnânima coragem. Seis meses depois embranquecera-lhe o bigode, refegaram-se-lhe as pálpebras, espamparam-se-lhe os músculos faciais.

Maria da Piedade era a sua filha adorada que o acariciava e de mãos postas lhe pedia que tivesse paciência. Imaginando que o pai envelhecia e definhava na soledade do seu quarto, pediu-lhe licença para lhe comprar, com o produto das suas poucas joias, um cavalo que o levasse a passeios. 

— De que me servem estas pulseiras e estes broches que me deu a madrinha Lavradio! — dizia ela. — Mande-os vender, o meu papá, e compre um cavalo. Depois, se tornar a ser rico, dê-me outras joias, sim?

Ele estreitava-a febrilmente ao coração e murmurava:

— Como eu vos desgracei, os meus queridos filhos!

Maria da Piedade ameigava-o com pueris carinhos e dizia-lhe:

— Não tenha pena de nós, que ainda podemos ser muito ricos.

— De quem esperas tu a riqueza?

— A riqueza é não precisar dela, o meu papá; não sei onde li isto...

***

No ano seguinte, o visconde de Agilde foi a Basto a fim de demandar uns foreiros remissos de Chaves e terras de Barroso. Raposa aos grilos.

Hospedou-se na vila do Arco e lembrou-se que devia estar aí Tomásia, a mestra de meninas. Perguntou por ela ao seu procurador.

— Há seis anos que essa pessoa saiu de cá — esclareceu o procurador. — Não sei se a vossa excelência sabe que ela mandou o filho para o Brasil...

— Sei.

— Levou-lho o Álvaro Enjeitado, um capitalista que...

— Bem sei.

— Depois, quando o Abade de Pedraça morreu, a Tomásia, que era para ele como se fosse filha, apesar do que dizia o patife do boticário da Ponte de Pé — que já o levou o Diabo com um tiro que lhe deu o irmão da Ruça de Gandarela, uma linda rapariga que o malandro seduziu...

Como lhe faltasse a respiração e a gramática, o procurador tomou fôlego, e, começando oração nova, continuou:

— A Tomásia caiu doente, esteve a tocarem tísica, veio cá o filho, levou-a consigo para o Brasil e para lá foi, vai em seis anos. Já depois que lá está, mandou uma doação da casa de Agilde para uma criada velha e tem mandado esmolas a várias pessoas. Ouço dizer que o filho também está rico como um porco, porque é sécio do outro. É o que consta.

***

Temos que acrescentar a estas informações que Álvaro Ribeiro, sócio de Álvaro Afonso da Granja, faleceu em 1869. Um dos seus legatários e testamenteiros foi o filho de Tomásia. Liquidada a parte do sócio, que avultou a duzentos contos — cifra que ninguém hoje em dia reputa riqueza —, Álvaro Afonso começou a sentir a infinita tristeza da doença que fere todas as fibras e as vai matando uma para uma, minuto por minuto. Não tinha ainda vinte e dois anos. A mie perguntava a Deus se do fundo do seu cálix de expiação havia de beber ainda a última lágrima do filho moribundo.

A medicina mandou o enfermo a ares pátrios. Era uma esperança, que se afigurou à pobre mãe remédio seguro. Em Março de 1870 desembarcaram em Lisboa. Era Primavera, não a dos poetas, mas a Primavera em Portugal, fria e nublosa. Álvaro Afonso tiritava e aquecia o rosto com as palmas ardentes das mãos.

Alugou e mobiliou casa em Lisboa. Tomásia não mostrava desejo de voltar ao Minho. Passeavam em carruagem. A mãe gostava do arvoredo do Campo Grande. Lembrava-lhe Agilde, os castanheiros seculares da quinta de Vasco, as avenidas fechadas de álamos. Também o via a ele, no rosto do filho, quanto pode semelhar-se um rapaz alegre e saudável a outro de olhos mortiços orlados de manchas azuis que davam relevo aos ossos. E afastava-se de Álvaro, a fim de embeber as lágrimas.

Um dia desceram a pé a Travessa dos Carros. Álvaro, no Largo de Andaluz, parou em frente de um palácio. Reconhecera o pátio da casa em que vira o pai. Lá estava um coupé à porta, domo onze anos antes. Estremeceu. Ia ver, segunda vez, o pai. Passados minutos, viu entrar no trem um homem baixo, sobre o redondo, com óculos de ouro e duas grossas cadeias no colete de veludo azul-ferrete. A mãe sentara-se num banco assombrado por uma árvore enfezada que a flora fantasiosa dos Lisboetas chama o Jardim de Andaluz.

“Não morará ele aqui já?”, pensou Álvaro Afonso.

O sujeito dos óculos disse ao cocheiro:

— Vamos em casa do Sr. Visconde de Gandarinha, hein? E passe você no Chiado, onde comprei o guarda-lama e pede ele, hem?

Era língua de brasileiro, sem dúvida nenhuma.

Ficou à porta o guarda-portão em mangas de camisa e colete de listas amarelas e escarlates. Álvaro perguntou-lhe:

— Quem mora nesta casa?

— E o Sr. Comendador Barcelos.

— É dele o palácio?

— É muito dele: comprou-o ao visconde... visconde não sei de quê...

— De Agilde?

— Isso.

— Onde está esse visconde, sabe?

— O boleeiro que ali vai no nosso cupé foi dele. Acho que o visconde está lá para o Minho. Esta casa foi-lhe penhorada e vendida em praça. Deu cabo de três milhões, o tal banabóia.

— Obrigado — disse Álvaro. Chamou a sege e foi buscar a mãe pelo braço.

— Que estavas tu a conversar com aquele criado? Pareces-me mais pálido!

— Não, a minha mãe; como me pareceu conhecer o homem que entrou no cupé, fui perguntar-lhe quem era.

Até aos dez anos, Álvaro lembrava-se de ter ouvido a sua mãe falar-lhe de Vasco, em conversação com o Abade; mas nem no Brasil nem em Lisboa lhe ouvira proferir tal nome, nem lhe ocasionava modo a que ele satisfizesse uma dolorosa curiosidade.

Tomásia lia o Jornal do Comércio e sob a epígrafe Má estrela viu a notícia da prisão de D. Telo Mascarenhas, por ter anavalhado um fadista na taberna do Dafundo. O localista acrescentava:  Há fatalidades inexplicáveis. O conde de Cabril, egrégio fidalgo dos arraiais legitimistas, teve três filhos. Um, D. Nuno, morreu há dois anos da marrada de um touro no Cartaxo; a filha, D. Leonor, que reinou nos salões do seu tempo, casou com um provinciano perdulário que esbanjou o seu e o alheio: escusamos nomeá-lo. O terceiro entrou hoje no Limoeiro, e ali esperará monção de passar à África entre matadores da sua têmpera. Os avós de D. Telo também iam para a África, mas na qualidade de governadores, como D. Fernão de Mascarenhas em 1480, D. Jorge Mascarenhas em 1562 e D. Fernando Mascarenhas em 1628.

Tomásia relia a notícia, com o rosto coberto de lágrimas.

— Que é, a minha mãe? — perguntou Álvaro, curvando-se sobre o ombro dela.

— Aí tens, lê!... Deus é severo com todos os culpados... Aí verás o que o mundo pensa... do teu pai.

E, levantando-se, foi a soluçar para o seu quarto.

Passados instantes, Álvaro entrou serenamente na alcova, pôs a mão amoravelmente no ombro da mãe e disse-lhe:

— Se houvesse um meio delicado de eu socorrer... O meu pai!

Ela apertou-o ao seio, beijou-lhe com arrebatamento as faces e balbuciou:

— Abençoado sejas tu, o meu anjo, o meu adorado filho!... Vinga, vinga a tua mãe.

***

Era Abril.

O visconde de Agilde assistia aos trabalhos de jardinagem da sua filha Piedade. A Viscondessa, sempre a tremer de frio com as mãos forradas num regalo velho e esfumado, não sala do fogão. As outras meninas polcavam de chinelos numa grande sala, cantarolando a música, muito esbofadas e vermelhas. Paravam às vezes abraçadas e achavam-se ridículas.

O visconde e a filha viram apear de um garrano, ria testada do portão, um sujeito mal entrajado.

— Quem é aquele homem? — perguntou Piedade.

O pai entalou a luneta no olho direito e disse:

— Algum foreiro dos executados que vem pedir espera, talvez.

Aproximava-se o adventício com o velho chapéu de feltro na mão.

— Jesus! — exclamou Piedade. — Que parecenças ele tem com o mano
Heitor!

— Quer alguma coisa? — perguntou Vasco Marramaque no tom usual e impertinente destes interrogatórios.

— Alguns minutos de atenção, se a vossa excelência mos concede.

— É sobre negócios de foros?

— Não Sr. Visconde.

— Suba. Ficas, Piedade? — Fico, papá — e não desfitava os olhos do rapaz que tinha o rosto e o timbre de voz do mano Heitor.

O visconde subiu as escadas que levava à saia de espera. Álvaro seguia-o. Passou o fidalgo para uma segunda sala e, entrando primeiro, disse:

— Entre.

Quando entrou, já Piedade, pé ante pé, atravessava o salão e cingia-se escutando.

— Escutar! Por quê? — pergunta a discreta e positiva leitora. — Pressentimento misterioso?

— Não, a minha senhora; simplesmente curiosidade, e curiosidade na aldeia que é capaz de nos fazer andar, para encher tempo, a escutar por portas o que dizem os vizinhos.

Eis o que ela escutou:

— Devo dizer a vossa excelência o meu nome: chamo-me Álvaro Afonso da Granja; sou filho de Tomásia Afonso, de Agilde.

O visconde não se descompôs, não esbugalhou os olhos, nem expeliu os ahs aspirados dos grandes espantos.

— Bem... — disse ele. — E um pequeno que foi para o Brasil...

— Há onze anos. Tive então a honra de ser apresentado a vossa excelência por Álvaro Ribeiro...

— Recordo-me.

— Fui infeliz. Uma doença pertinaz, resultante da constituição fraca, não me deixou trabalhar. Voltei pobre e doentíssimo. Disseram-me os médicos que talvez ares pátrios me restaurassem. Estou na Pátria, mas careço de meios com que possa tratar-me.

Venho, pois, pedir um favor a... O meu pai... Não sei se a vossa excelência consente que eu lhe dê este nome...

— Não nego que sou o seu pai — respondeu o visconde com fina e plácida naturalidade. — Que posso eu fazer no seu benefício?

— Permitir-me que eu convalesça ou morra na sua companhia — respondeu Álvaro sofreando o transporte de contentamento — na minha companhia é impossível. Creio que sabe que sou casado e tenho filhos.

— Sei.

— Nesta casa não há a felicidade que chamam fortuna, nem sequer a outra que chamam paz. Sou infeliz, ter-lho-ão dito; infeliz em todos os sentidos. Desejo, porém, concorrer para o seu restabelecimento com os meios escassos de que disponho. Está em Braga?

— No Bom Jesus.

— Em hospedaria?

— Sim, senhor.

— Lembro-me que no Hospital de São Marcos há quartos particulares com excelentes médicos e ótimo tratamento. Eu escrevo ao meu primo Magalhães, que é o provedor da Misericórdia, e responsabilizo-me pelo pagamento.

— Obrigado a vossa excelência, mas não venço a repugnância que me fazem hospitais.

— Pois então, conserve-se onde está — respondeu secamente o visconde.

— Em todo o caso, se eu fizer pouco no seu auxílio, creia que não posso fazer mais.

Álvaro não sentia os raptos que nos dramas desenlaçam situações análogas. A verdade é pouco dramática. Ele queria desfigurar-se subitamente, manifestar-se rico, sem frases arredondadas de antemão.  Premeditara o que quer que fosse na hipótese de ser bem ou mal recebido; mas o gélido sossego com que o pai lhe falava impunha-lhe moderação no artifício dos arrebatamentos filiais. De mais a mais enganara-se, pensando que o sangue dos filhos, na presença dos pais, golfava aquelas tempestades que os dramaturgos levantam nas cenas do reconhecimento. Sentia-se a falar com aquele pai como com qualquer outro visconde. Se Álvaro fosse crendeiro até à parvoíce, duvidaria se com efeito Vasco Pereira era o seu progenitor, visto que a natureza não gritava.

O visconde, proferidas as últimas palavras, dera tento que era escutado. Suspeitou da Viscondessa. Ergueu-se de ímpeto e foi à porta. Viu Maria da Piedade.

— Escutei, escutei, papá; peço-lhe perdão — disse ela, entrando — o meu papá disse ainda agora que era infeliz em todos os sentidos. Não me queixo; mas esqueceu-se de mim... Já me tem dito que eu sou a sua consciência e a sua vontade... Pois então, se eu sou a sua vontade, deixe ficar o seu filho nesta casa...

— É impossível. Não conheces o gênio da tua mãe?

— Não se diz à mãe quem este senhor é; diga-lhe que é filho de um o seu caseiro da quinta de Arnosa. Conhece-se que está muito doente — dizia Piedade olhando compadecidamente para o irmão. — Quando o mano Heitor veio do Cruzeiro, vinha assim. Precisa de ser tratado com desvelo. Eu encarrego-me disso, que sou sempre a enfermeira nesta casa.

Estas palavras comoveram Álvaro. Sentia agora o coração que estivera atrofiado face a face do pai. Não era a irmã: era a mulher formosa. Nestes conflitos é que a natureza costuma fazer prodígios. Borbulharam-lhe as lágrimas, e disse balbuciando:

— A minha senhora, a sua compaixão e a compaixão da minha mãe ser-me-iam um divino amparo, se eu pudesse viver.

— Tem mãe? — perguntou Maria da Piedade.

— Sim, tenho, a minha senhora.

— Ah! tem?! — e olhou para o pai, como a interrogar-lhe mudamente o coração. — E não pode estar com ela... por que são pobres?

Álvaro, abaixando os olhos, fez um gesto afirmativo.

— Deixe estar... — disse ela —, tudo se há de remediar... Está no Senhor do Monte, não está?

— Sim, a minha senhora.

— Deixa-me lá ir amanhã, papá? É um passeio... Vou visitar o meu mano Álvaro...

— E estendeu-lhe a mão, que ele levou aos lábios. — Tem febre!... Que mão tão quente!

Amanhã conversamos, sim?

— Mas que vais tu fazer ao Bom Jesus? — interveio o visconde. — Eu sei o que é; mas podes cumprir o teu desejo sem lá ir.

— Posso; mas se o papá consente, quero lá ir...

— Vai.

— Que caminho segue a vossa excelência? — perguntou Álvaro Afonso.

— Ora a vossa excelência? "Que caminho segue a mana Piedade?” é como deve dizer. Vou daqui às primeiras capelas a cavalo na burrinha do caseiro; se me parece, dou a volta a cavalo; senão, subo as escadas.

— Eu virei esperá-la às primeiras capelas — disse Álvaro.

— Pois sim; mas veja lá que se não fatigue.

Ouviu-se então no interior da casa uma voz áspera, gritando:

— Não se almoça hoje nesta casa? Onde está metido o Sr. Visconde e a Piedade?

— Lá vamos, mamã! — respondeu Maria.

Álvaro, apertando a mão do pai, beijou-lha e disse-lhe:

— O ouro já não pode dar a felicidade a vossa excelência. Quem tem esta filha perdeu o direito a esperar outra riqueza.

***

Quando Maria da Piedade avistou o pórtico do Santuário, viu parado um coupé com dois criados na almofada. Perguntou ao escudeiro se conhecia aquele trem.

— É de um brasileiro que está no Bom Jesus há oito dias. Ainda ontem à tarde o vi neste carro na Senhora à Branca. Parece-se muito com o mano da vossa excelência.

— Com o mano Heitor?!

— Sim, a minha senhora, principalmente quando veio de África, há seis anos.

Maria, insensivelmente, sofreou as rédeas do jumento, que dou se a olhar para o escudeiro e a dizer pausadamente:

— Parece-se com o mano Heitor?

— E como um retrato. Há casos assim, a minha senhora.

Ia perturbada.

A pouca distância do coupé, viu abrir-se a portinhola por dentro e descer Álvaro.

Soltou uma exclamação e retraiu-se dos braços que lhe ofereciam amparo para apear-se.

— Vejo que a minha irmã somente aceita de bom rosto a mão dos seus irmãos pobremente vestidos! — dizia ele sorrindo. — Tem a bondade de continuar o seu passeio na minha sege?

Piedade desceu, aceitou-lhe o braço e entrou na carruagem. Na perturbação com que entrara, deixou cair no tapete de zibelinas um lenço branco que continha cuidadosamente atado pelas pontas um voluminho pesado.

Álvaro levantou-o, e, como ela se desse pressa no receber, negou-se a entregar-lho.

— Que é isto? Saibamos, mana Piedade; o que aqui está parece-me que é a prova real do seu sobrenome — é a piedade fraternal; é uma esmola que vai aqui para um irmão doente e pobre, não é?... 

— Eu pensei que... — balbuciou Maria.

— Pensou que já se não faziam romances, principalmente de homens ricos a fingirem-se pobres? Tem razão, mana Piedade, eu sou um desmentido a todos os costumes. Agora, dê-me licença que eu examine todas estas coisas que são as minhas — e desatava as pontas do lenço.

— Não veja — acudiu ela —, não, veja... peço-lhe...

— Não verei, mas guardo-as: isto é o meu. Se tenho alguma riqueza que me enche a alma, é isto. Olhe, Piedade, olhe para mim... Não lhe parece que estou melhor? Veja o que é a felicidade! Não me dói o peito, não tenho febre, e até sinto — desculpe-me a prosaica franqueza —, sinto vontade de jantar... Tenho saúde! Quer que eu lhe diga tudo o que se vai formando na minha inteligência, na minha consciência e no meu coração? Entrei aqui há oito dias sem fé, achava tudo isto uma irrisão da desgraça. Sinto-me agora religioso. Preciso de orar... Hei de ir ajoelhar-me diante da imagem de Jesus Cristo, há de ir comigo, sim? Peço-lhe que me dê saúde, que me deixe viver para poder amá-la, a minha querida irmã; peça-lho a chorar, como eu estou chorando...

E, soluçando, abafava o rosto no lenço que continha as joias de Maria da Piedade.

Quando apearam no terraço do Hotel da Boa Vista, uma senhora gravemente vestida de seda escura avizinhou-se da carruagem.

— É a minha mãe — disse Álvaro; e, descendo, beijou-lhe a mão.

***

As lágrimas da fé, se Deus não existisse, fariam comover o Nada.

Maria da Piedade e a mãe de Álvaro choraram prostradas à cruz de Jesus Cristo.

Pediram a saúde do filho e do irmão, abraçadas aos pés do Redentor.

Álvaro restabeleceu-se.

Foi a felicidade que o salvou? Foi aquele amor de irmão, amor indefinível e santíssimo, que o distraiu da morte e o encheu das forças vitais que a ciência nega ao milagre e concede ao mistério?

Eu, espírito apoucado, tenho a audácia de me erguer até Deus, e não faço grande conta das ciências médicas quando me não dizem porque processo fisiológico se salvou o enfermo que elas me asseveraram moribundo.

Álvaro Afonso da Granja deu pelas joias de Maria da Piedade as quintas do visconde de Agilde penhoradas pelo Banco Hipotecário. Piedade fez presente das quintas ao seu pai, com a condição da deixar viver seis meses de cada ano em Lisboa com o seu mano Álvaro. Tomásia chama-lhe a sua filha; e D. Leonor de Mascarenhas, quando fala de Álvaro, chama-lhe o bastardo. O visconde de Agilde nunca mais viu a filha do boticário; mas, se um dia puder furtar-se à vigilância da esposa, há de ir ajoelhar-se-lhe aos pés, a confessar a saudade e aliviar o peso da vergonha e do remorso.

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