sábado, 4 de novembro de 2017

A morte do domador (Conto), de Virgílio Várzea


A morte do domador

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Cedo, muito cedo, naquele domingo de entrudo, os rapazes da freguesia e lugarejos próximos começaram a afluir ruidosamente, em bandos, para o pasto do Manoel Luís onde o Zé Pedro, o velho tropeiro “guasca”, pusera desta vez a cavalhada que trouxera do sul, das estâncias de Mostardas e Santo Antônio da Patrulha. Arrastava-os até ali esse entretenimento alegre e rústico das tropas percorrendo os sítios pelas quadras festivas e, sobretudo, a notícia que se espalhara de que, naquela manhã, iam ser experimentados o Picaço do Estêvão e o Tordilho do Claudino, dois parelheiros que, segundo corria, esses abastados lavradores tinham há muito encomendado para o serviço de sela e para um desafio à Corruíra, a famosa égua do Teixeira, que nas costumadas corridas da praia se tornara invencível. Mas a esses rapazes atraía principalmente, e com mais entusiasmo, o espetáculo — querido entre todos pelos roceiros — da domação de um potro xucro, em que ia montar o Miguel, um jovem campeiro dos Zimbos, que se criara a bem dizer sobre os lombilhos, não só no arraial onde nascera como no Rio Grande e na região serrana catarinense — em Lages, Curitibanos e São Joaquim.

Na véspera à tarde o Alexandre Bastos, depois de regatear longo tempo, forcejando por obter uma pechincha, porque “não pagava vontades”, nem que lhe obrigasse “o Divino” — escolhera entre os “baguais” da tropa um belo potro zebruno, de três anos, que muito lhe agradara pelo largo peito musculoso, a linda “tábua” de pescoço, as grandes patas, fortes e bem encascadas, e as suas patas, fortes e bem encascadas, e suas formas esguias, revelando prontidão de movimentos e uma ligeireza de veado. E, feito o negócio, o Alexandre falara logo ao Miguel, que viera passar a festa com a noiva em casa do Pinheiro, para dar-lhe o primeiro “repasso” naquela manhã de domingo.

À proporção que os rapazes chegavam, a algazarra crescia no terreiro do Manoel Luís, onde já se aglomeravam pessoas da vizinhança, jovens e velhos, alegres e expansivos em meio à zurzinada das crianças — meninos de oito a doze anos — que desenvoltamente estrafegam, nesses dias de descanso, ao longo de caminhos e atalhos cortando planícies e montes.

Em frente, no imenso pasto verde alongando-se a perder de vista, manchado aqui e além pelos homens a correr de um para outro lado entre altas macegas de rinchão — ouvia-se já, por entre o vivo latir dos cães de gado, a sonora toada dos tropeiros, reunindo a cavalhada dispersa e tocando-a em direção à porteira. Homens bem montados surgiam, às vezes, em disparadas infrenes na orla das capoeiras: e os cavalos irrompiam de baixo, do mato, galopando com estrépito, destacando na planura do pasto, sobre grama rasteira como num rodeio dos pampas. Eram o Alexandre Bastos, o Miguel e o Zé Pedro, que andavam a ajudar os peões na faina de juntar os animais no potreiro, porque o pasto extremava com o campo e a cavalhada, durante a noite, internara-se pela tiririca e o matagal dos banhados.

Quando a tropa se reuniu, já o sol ia alto e o céu cobria-se todo de um pó de ouro flamante. As cigarras chiavam, traspassadas de calor, no crivo verde dos ramos. E os homens e rapazes que inundavam a estrada, esperando a domação, depois do rude e esfalfante trabalho de atacar os cavalos, estiravam-se agora, todos rubros e suando, sob as árvores do terreiro, as latadas da horta e os galhos bastos das cercas que estendiam sobre o chão uma estreita renda de sombra, malhada de pingos de ocre e que vagamente tremia, na areia, ao balanço das ramagens ao vento.

O intenso alarido de vozes esmorecera por momentos, transformando-se num murmúrio surdo de conversação zumbidora. As próprias crianças, esquecida por instantes a sua perpétua e invencível inquietude, repousavam também junto aos homens, numa posição derreada de fadiga e silêncio. E só ficaram ao longe, no pasto, o ladrar vigoroso dos cães e a zoada sonolenta e nostálgica dos peões, separando os animais.

Mas, de repente, o rumor violento de uma disparada estalou no caminho, para os lados da porteira — e o potro zebruno do Alexandre apareceu, aos galões e aos trancos, numa nuvem de pó denso.

Ergueu-se então um berreiro. E logo dum salto, todos se puseram de pé e, com os braços ao ar, cercavam o animal, impelindo-o para dentro do terreiro onde o Miguel, no seu baio encerado, o laço ainda na cilha, procurava arrastar o potranco, que empacara na estrada a um dos lados da cerca.

As moças, das janelas e portas, num alvoroço e ridentes, agitavam os lenços claros, buscando também espantar o cavalo, que se mantinha esticado, o pescoço recurvo no ar e eriçado de crinas, muito erguida e atenta a pequena cabeça bem feita, os olhos em sangue, as narinas dilatadas, respirando fortemente. Em torno dele contínuos brados atroadores, de envolta com o latir agora amiudado dos cães, feriam o ar morno e dormente:

Eh potranco! Eh demônio! Eh! Eh!...

Mas o animal não se movia, de olhar enraivado, oblíquo nas órbitas, todo o pelo em fremência.

O Miguel, escarlate e numa impaciência, gritou então para os homens, numa voz estridente:

Metam-lhe um pau de porteira! Desanquem-no, rapazes! Desanquem-no que ele há de espirrar duma vez!...

Todos, a uma, se lançaram à porteira e, arrancando das longas varas polidas, começaram a malhar o potranco, fisgando-o pelas virilhas, a garupa, os flancos. Súbito, o poldro, agredido, jogou-se aos saltos para a frente.

O Miguel apeou-se logo e destramente, num abrir e fechar de olhos, deitou-lhe a focinheira dando, em seguida, com o seio rijo do laço, uma volta firme e forte no guapurubu do terreno. E puxando de uma guasca arrochou-o de bico contra o grosso tronco da árvore: com as outras voltas do laço, peritamente, envolveu-lhe, primeiro, as patas traseiras, depois as da frente, com segurança, pelos machinhos. Em seguida, agarrando-o pelas pernas, enquanto o Alexandre e o Zé Pedro o amparavam pelas ancas e o ventre — jogou-o ao chão, de pancada, quedando-se aí o animal, imóvel, de focinho preso.

O Inácio, o velho preto carreiro do Manoel Luís, correu imediatamente à casinha dos arreios e volveu num pulo, com um antigo lombilho alongado, recurvo e de grandes cabeças, cujos loros de couro cru findavam por um pedaço polido de pau, à laia de estribo, atravessado embaixo aos extremos. De volta com isso vinham também os apeiros: um espesso xergão de lã a quadrados brancos e negros, a cilha forte de guasca, as duas canas das rédeas e a larga carona ressequida, toda malhada e de pelos

Então o Alexandre começou a encilhar o potro, que parecia dormitar, os olhos cerrados, atado de pés e mãos. Não obstante, o Zé Pedro, por precaução, segurou-lhe ainda o focinho, enquanto os outros calcavam nos cascos inquietos, que riscavam continuamente o terreiro.

O povo apinhara-se em torno, sob a ampla e alta parreira ensombrando largamente o terreiro, e sob as frondes ramalhosas dos cafeeiros e laranjeiras próximas. Moças enxameavam encantadoramente no patim da alta escada de velhas pedras musgosas, e às grades da varanda.

Pronto o animal, o Miguel preparou-se para montar, sacando as grossas botas amarelas e o “pala” de listras brancas, enquanto o Manuel Luís corria a buscar o relho de “chiquerá” e as chilenas de ferro, de rosetas acutângulas. Ao voltar, o rapaz, decidido e risonho, ereto no seu porte elevado, de fortes músculos possantes, tomou-lhe presto os objetos e, armando-se para a montaria, gritou ao Alexandre:

Vamos, homem! Tira as voltas do laço ao potranco, e solta-o para vermos essa “dança”!...

Lesto, num perfeito lidar de campeiro, o Alexandre desfez as voltas ao laço, deixando apenas a que prendia o poldro ao palanque.

A multidão, sábia e previdente, como sempre nos momentos supremos, recuou para os lados, esvaziando o terreiro para dar “campo” ao potranco.

Este, ressurgido de repente, ergueu-se aos roncos do chão e, curvando-se desesperadamente, atirou-se em medonhos corcovos, o lombo encolhido em constantes contrações, procurando arrancar o lombilho e mordendo-se, em reviravoltas vertiginosas e torceduras terríveis, pelo peito e pelos flancos. Após isso, como um raio, rojou-se em cheio no chão, rebolando-se no pó, patas e queixo no ar, num furor rodopiante. Debateu-se assim meia hora, finda a qual quedou-se exausto, o ventre túmido a arfar, as crinas densas em novelos, o pelo todo arrepiado, num suor abundante.

E logo o Miguel, endireitando-se para ele de chicote em punho e colhendo resolutamente o fiador, fê-lo súbito levantar-se com um relhaço nas ancas e, tapando-lhe os olhos com as canas das rédeas, uma das mãos às crinas, firmou-se rápido nos pés juntos onde tiniam as chilenas, e cavalgou dum salto, com vigorosa destreza.

O povo, entusiasmado, rompeu numa aclamação.

E o potro, outra vez sublevado sob aquele corpo de homem que o suplantava fortemente, atirou-se aos galões para a estrada, saltando o cercado da horta, vencendo tudo de arranco. A multidão, apupando, jogou-se atrás do cavalo que, com o dorso curvo e enrijado, a cabeça oculta entre as mãos, rodopiava violentamente, eletricamente, bem em frente à casa do Manuel Luiz, a velhaquear, sem cessar, num turbilhão de poeira. O Miguel, firme e forte na sela, apesar das negaças do poldro que não parava um instante, malhava-lhe a relho a cabeça e metia-lhe as esporas no ventre que escorria sangue.

Das janelas do prédio caiado, faiscando ao sol ardente, as raparigas roceiras, todas risonhas e rubras em umas vestes frescas, contemplavam alegremente a cena, com olhares de admiração e afeto para o bravo domador.

Mas o animal não parava, o olhar em brasa, a boca espumante lacerada aos cantos pelas laçadas das rédeas arrochando-lhe os beiços empinava-se, jogava-se em ímpetos para trás, para a frente, e, negaciando sempre contra a Parede da casa, em esbarradas brutais, tentava deitar fora o cavaleiro. O rapaz, entretanto, na sua perícia campeira, assim que o potranco encumeava, sentando de anca no chão, boleando-se — saltava presto da sela e, apenas o animal endireitava, galgava-a, vivo, outra vez.

Nisto o potro arrancou num ímpeto para a sede da freguesia, para o grande largo da igreja. A multidão, num frêmito, abalou atrás em avançadas de gamo, a gritar fortemente com as suas notas roceiras:

— Eh puna! Eh puna! Lá vai o raio perdido! Aquilo esbarra-se na primeira cerca! Esbarra-se mesmo, o demônio! É desta vez que o Miguel “benze” o chão!

E o potranco, envolto num véu amarelo de poeira dançante, sumia-se por entre as voltas da estrada, na galopada tremenda, seguido da multidão entusiasta, acompanhando-o numa corrida álacre e ruidosa, velada também num vulcão de pó denso.

O Miguel só conseguiu abancar na Ladeira de Fora, já no adro da igreja, em frente à casa do Pinheiro, onde estava a Luizinha, “o seu bem”. Fatigado, apeou-se um momento, indo amarrar o potro para um recanto do largo, ao galho de uma laranjeira. E atirando-lhe um relhaço à garupa, aproximou-se da janela, a falar à noiva, muito rubro e num enternecimento.

Das vivendas vizinhas muita gente acudiu a ver, atraída pelo rumor da galopada e pelo grosso vozear do povo que chegava a correr...

Era meia tarde quando o Miguel voltou de novo a montar. O ajuntamento, que se quedara a descansar sobre a grama da praça, ergueu-se logo, contente. A casa do Pinheiro, como os demais prédios vizinhos, regurgitava já cheia, pois que a notícia da domação, espalhando-se eletricamente, fizera ainda afluir para ali bandos e bandos de gente.

A Luizinha, feliz na sua adoração pelo noivo, sorria, em meio de um grupo de amigos, ao ouvir os elogios que se faziam ao Miguel como agarrador e domador valente: e nem um instante despregava os olhos do rapaz que, rodeado do povo, se encaminhava para a laranjeira onde o poldro, apenas se viu de novo cercado, ergueu o pescoço, tomando uma atitude selvagem e, com o olhar ainda em sangue, entrou a voltear a árvore, ressabiado e aos roncos. Os homens romperam então num berreiro:

Olha o lonca ainda às cócegas! Olha o estupor! E não é ainda desta que ele endireita, rapazes! O diabo vai dar “coisa”!...

A poucos passos dali, o Manoel Luís e o Pinheiro comentavam o caso, mirando bem o animal, que reputavam “má compra”. Entretanto o Alexandre conhecia os cavalos como poucos, pois fora muitos anos peão; mas agradara-se daquela “estampa” e não olhara dinheiro. A eles é que o “bicho” não conseguira lograr com as suas “pinturas” e manhas... Aquilo fora uma verdadeira espiga para o Alexandre. E agora era aguentá-la, não havia remédio. Não se fiasse ele, porém, porque cada vez que o montasse a “cova estava aberta no chão”...

Suspenderam-se para olhar o Miguel que, já montado e bem firme nas curvas, esporeava fortemente o potranco nesse instante empacado — quando o Alexandre passou por eles, furioso, brandindo uma vara de cerca, em direção ao animal, que entrou a malhar às mãos ambas.

Então o Manoel Luís, vendo iminente uma arrancada terrível para algum lado perigoso, ia gritar-lhe cessasse — quando o potro atirou-se, qual raio, pela íngreme ladeira pedregosa que ia dar ao costão. Houve um arrepio no povo, seguido de um silêncio que empalideceu a todos. Às janelas das casas, as mulheres, invadidas também de um temor, tinham uma ansiedade nos olhos e uma vaga lividez no rosto.

Mas já o Manoel Luís e o Pinheiro atiravam-se para a ladeira, gritando:

Acudam, rapazes! Acudam que o Manoel vai ao chão!...

A turba jogou-se logo, seguindo os dois homens.

Do meio do morro avistava-se o Alexandre que já descia adiante, em direitura às pastagens da praia, toda fechada entre cômoros. Então, cada um entrou a investigar miudamente a ladeira pedregosa, batendo a verdura das bandas, quando o irmão da Luizinha e outros deram com um rastilho vermelho que levava a uma gruta entre rochas, onde jazia o corpo do rapaz, numa larga poça de sangue. Todos correram bradando:

Olha o Miguel desacordado! Olha o Miguel como morto!...

E desceram à grota, a suspender o corpo, que estava ainda quente — o pescoço caído, uma grande brecha na fronte. Agarraram-no em braços e o levaram para a casa do Pinheiro, enquanto o Manoel Luís, muito consternado, corria a chamar o vigário. A maior parte do povo, passada a emoção do primeiro momento, outra vez em alvoroço, tomou para a praia, onde o Alexandre procurava, por toda a parte, o potranco...

Quando o corpo do Miguel chegou à casa e foi postado na sala sobre uma velha marquesa, a Luizinha precipitou-se sobre ele, soluçando e cobrindo-o de beijos. Os parentes e pessoas amigas acercaram-se também, num coro de lástimas plangentes. O Pinheiro, triste e aturdido ante tudo aquilo, nem sabia o que fazer: maquinalmente, porém, pegara de um vidro de arnica e com um pedaço de pano, apanhado ao acaso, aplicava-a à cabeça do rapaz, num gesto trêmulo das mãos.

Em pouco, chegou o vigário. Era um velhote alto e seco, a face cavada e cidrenta, todo corcunda dos anos. Examinou o Miguel, e amarrando-lhe a testa com um lenço ensopado em arnica, tirou da velha batina um vidro de outro remédio, do qual vazou-lhe três colherinhas seguidas na boca lívida e inerte. E olhando as pessoas em roda e a Luizinha, que chorava ininterruptamente agarrada às mãos insensíveis do noivo, murmurou surdamente uma frase de consolo. Aproximou-se ainda da moça e, com os seus dedos ósseos e longos, ameigou-lhe docemente a fronte, dizendo:

Não chores, menina! Deus é bom e poderoso!...

De novo examinou o rapaz, cujas feições murchavam pouco e pouco, perdendo a delicada expressão das linhas num regelado palor. Apalpou-lhe um dos lados — o do coração — espalmando sobre ele uma das mãos muito magras e, com a outra, tateava o braço todo procurando as pulsações fugitivas. Permaneceu assim um instante, concentrado e atento. Depois, a uma furtiva estremeção do ferido, sacudiu tristemente a cabeça e, cerrando os olhos com recolhimento, como em prece íntima e fervorosa, murmurou compungido esta frase de dor:

Já não sofre! Expirou!...

Todos, em volta, se lançaram de joelhos, clamando desolamente:

Está morto! Está morto!

A Luizinha então ergueu-se de um salto, os olhos desvairados, toda desgrenhada, como uma louca:

Ai! que ânsia! Ai! que ânsia, meu Deus!...

E foi cair, sem sentidos, entre os braços das amigas, que a cercaram com amor...

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Nesse instante, lá fora, na estrada, à luz fria do ocaso afogando-se em sombras, ouvia-se, como o rugir do mar em tormenta, o grosso vozear da multidão, perseguindo o potro para o matar a tiro. O clamor perdia-se ao longe, na extensa paisagem serena, como um eco prolongado de desolação...

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