domingo, 26 de novembro de 2017

A nova classe de cirurgiões (Conto), de Lima Barreto


A nova classe de cirurgiões
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

---


Vou ao barbeiro duas vezes à semana.

Ele é um tipo distinto, asseado. É italiano, calvo, magro, usa o bigode raspado à americana e não exala nunca o famoso hálito de alho que foi causa de grande aborrecimento para Thackeray, o qual afirmou, mesmo, ser tal coisa um dos apanágios dessa honesta gente. Além disso o seu elegante casaco de alpaca está sempre delicadamente perfumado.

É bem hábil no ofício, e, se me submeto com paciência às rápidas evoluções depilatórias de uma aguçada navalha — aço Sheffield puro —, faço-o, contudo, um pouco desconfiado.

Respiro, tranquilo, ao findar-se cada operação...

Mas o bom do homem possui um defeito, comum a muitos barbeiros: é loquaz. Fala muito, exageradamente, com todos os fregueses sobre todos os assuntos, enxertando, com frequência, termos exóticos, alemães, ingleses, franceses, e até de esperanto, nas suas prolixas orações que se tornam, afinal, verdadeiras saladas de palavras, intencionalmente confusas... capazes de fazer ao V. de O Paiz ralar-se de inveja se as ouvisse...

A princípio eu respondia:

— Foi mau!...

A operação era logo suspensa. O meu Fígaro interrompia-a para melhor ouvir e melhor poder objetar.

Ah! ele sempre objetava! Às vezes risonho, com ares superiores; quase sempre, porém, de sobrolho contraído ele aproximava do meu assustado nariz o afiado gume, ameaçador e firme.

Essas emoções me enervavam. Resolvi, então, calar-me.

Ainda algumas vezes esgotou ele a sua facúndia, mas percebendo que me desagradava, foi diminuindo, até cessar por completo, os seus discursos.

Pude, pois, durante certo tempo, gozar do seu mutismo ao me barbear... prazer, na realidade calmo e delicioso!

Em princípios do ano findo fui obrigado a retirar-me do Rio para terras longínquas e selvagens. Depois de muito viajar fiz alto em um arraial, o de Santo Antônio dos Silveira do Pomba, lugarejo perdido nos confins de Minas.

Só aí foi que senti a falta do meu italiano! O barbeiro do local era feroz, e mais feroz ainda a navalha dele!

Que navalha, santo Deus! Tirava-me cada laca de pele que me fazia estremecer. O homem era dos tais que tiram pele e deixam cabelo!... Mas ai! que podia eu fazer contra? Se eu o censurasse tenho certeza de que ele me mataria!...

Assim torturado passei lá ano e meio, quase. Até que, em meados de junho, em noite úmida e escura, desço na Central... cheio de saudades e cheio de vontade de liquidar a espessa barba que deixara crescer havia duas semanas...

Mudara-se o meu amigo. Abandonara o andar térreo à rua Ouvidor e fora instalar-se em soberbo prédio à avenida Central... Só ele ocupava dois pavimentos!

Confesso que hesitei... Assim, porém, que vislumbrei o meu falador amigo, desocupado, animei-me e atravessei o luxuoso salão iluminado à eletricidade com ventiladores a girar etc... e sob os olhares altamente analisadores de alguns elegantes encostados às ombreiras, em palestra...

Custou-lhe reconhecer-me!... O meu grande estado hirsuto fê-lo estranhar-me.

Depois indagou das minhas viagens, das causas delas, do seu resultado etc...

Que linguagem diferente, a dele!... A frase era polida, cuidada, bem construída, isenta dos antigos anglicismos, galicismos etc...

A atitude, os gestos dele eram bem outros! Muito parecidos com os de um 2º secretário!...

Por sobre isso a maravilhosa instalação a me intrigar! Que melhoramentos! Que rios de dinheiro teria custado!... Indaguei, medroso, do motivo de todo aquele aparato de luz e progresso...

— Eu lhe explico, senhor Anacleto. A causa disso é a reforma da instrução.

— Que reforma?

— Pois não sabe? Há outra reforma da instrução. Brevemente será publicada com todas as minúcias. Nem se compara às outras...Verá!

Olhe... sempre a nós, barbeiros, feriu-nos esse tratamento pejorativo...

Nenhum comentário:

Postar um comentário