domingo, 26 de novembro de 2017

Apologética do Feio (Conto), de Lima Barreto


Apologética do Feio
(Bilhete à baronesa de Melrosado)
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Mas... de que serve a beleza nos homens?
A. A.
  
Minha Senhora:

Só ontem soube pelo Soares da razão por que vossa excelência me recusava a honra de uma valsa no último baile dos Diários: por me achar excessivamente feio!

Os meus amigos vão rejubilar! É uma velha pendência esta, minha senhora, quase secular, a de saber qual dentre nós é o menos belo e vossa excelência com o motivo da recusa veio dar ganho de causa aos meus contendores.

Creia porém vossa excelência que eu não me magoei absolutamente com o epigrama. Este meu físico ingrato, esta plástica infeliz — um torso de salamandra ridiculamente encimado por uma cabeça de batráquio — são, de natureza, eu concordo, a afugentar os mais tímidos.

Vossa excelência porém, se não foi injusta, foi pelo menos impensada... Porque eu também tenho os meus títulos nobiliárquicos:... sou o descendente de uma família muito antiga e muito nobre, de uma nobreza e antiguidade sob todos os pontos de vista veneráveis — a venerabilíssima família dos Feios.

Remontando pela minha genealogia acima, não se admira vossa excelência se eu só me detiver em nosso antepassado Adão.

Aquele indivíduo feito de argila, aos assopros e sopapos e de mais a mais com uma costela de menos, não podia deixar de ter uma cor acentuadamente terrosa e uma plástica deplorável.

Se vossa excelência quisesse ter a bondade de me acompanhar nesta pitoresca jornada ficaria, desde já, conhecendo, entre os meus antepassados, o aventuroso imperador Sesóstris, o insigne filósofo Zoroastro e o venerável profeta Habacuc, da tribo dos Zabulous. Receio porém tornar-me fatigante; estaco em Sócrates.

Sócrates, minha senhora, o mais sábio e o mais virtuoso dos homens, era, se não mentem os velhos códices, profundamente feio; tinha o nariz esborrachado, a testa deprimida, as omoplatas côncavas — era disforme!*

No entanto, desde Platão até Xenofonte (com escala pelo oráculos de Delfos) todos lhe gabam “a beleza de sua moral, a largueza de seu espírito, a doçura e segurança de suas relações”.

E nenhum povo, minha senhora, foi mais artista do que o povo grego, nenhum possuiu como ele e em tão elevado grau, no dizer de Taine, o sentimento estético, o sentimento inato da beleza.

Aristófanes, o desabusado autor das Nuvens e dos Cavaleiros, o fundador deste culto em que mais tarde pontificaram o inimitável Karv e o incomparável Eça — era um aborto.

Teócrito tinha a espinhela caída e o corpo era corcunda, mas ninguém reparava nas desgraças físicas do bardo de Siracusa ou do fabulista frígio quando lhe ouviam os bucólicos idílios e os conceituosos apólogos.

Arnóbio, Jâmblico, Orígenes e Bede, o Venerável; Apuleio, o do Burro de Ouro, e Apolônio de Tiane, o taumaturgo; Paracelso, o do Homúnculo, e Raymond Lulle, o da Ars Magna — foram tipos clássicos de fealdade mas foram todos eles ou homens de espírito ou homens de entendimento.

Quer vossa excelência exemplos da fealdade heroica?

Bayard, o cavaleiro sans peur et sans reproche; Du Guesclin, o cavaleiro bretão, e todos os cavaleiros da Ordem da Calatrava, que não primavam por uma plástica impecável. O Condestável então tinha um rosto desconforme e ele próprio se gloriava de ser o mais feio homem de França. Mas que de cutiladas memoráveis! Se isto poderá vossa excelência perguntar aos ingleses e mouros daqueles tempos cavalheirescos.

O grande conde — o herói de Rocroy: tinha o crânio excessivamente estreito, chegava a ser ridículo.

E a fealdade clássica de Guy de Patin?

E a clássica fealdade de Cyrano?

Aqueles dois narizes truculentos e rutilantes, desproporcionados, insólitos! Eram de uma fealdade agressiva mas eram dois homens de espírito.

Recorda-se vossa excelência da cena do balcão?

J’eus comme Buckingham des souffrances muettes
! C’est vrai; je suis beau, j’oubliais

Exemplos da fealdade artística?

A de Miguel Ângelo Buonarroti — o arquiteto da cúpula de São Pedro de Roma, o pintor do Juízo Final e o escultor de Moisés — a sua fealdade, já é de si olímpica.

A de Dante, o transmigrado do Inferno de quem fugiam apavoradas as crianças de Ravena.

E a de Beethoven, o compositor daquelas sonatas deliciosas que vossa excelência interpreta com tanto sentimento?

Científica? Filosófica?

A de Descartes. Tenho-lhe em casa um retrato (edição do Apostolado); um beque de águia colado ao meio do rosto entre dois olhinhos muito vivos e enérgicos. Ah! Minha senhora, como é feio o homem do Discurso sobre o método e da Geometria geral!

A de Kant — o da Crítica do juízo e da Razão pura. Devo-lhe porém uma dívida de gratidão; muito só e muito feio, conseguiu enfeixar o Belo em três leis sumárias; e o Feio... nunca!

Vossa excelência conhece as leis do Belo de Kant...

I - O Belo é o que agrada universalmente e sem conceito.

II - O Belo é essencialmente desinteressado.

III - O Belo é uma finalidade sem fim.

E as leis do Feio, conhece-as vossa excelência por acaso?

Vossa excelência é capaz de apontar uma definição, um traço; uma característica em suma que possa servir de base a uma “Teoria positiva do Feio”? Não o é, eu aposto; e não o é por dois motivos:

1º - Porque o Feio é indefinível.

2º - Porque o Feio é pessoal; depende de uma série de circunstâncias a que não são estranhos o ponto de vista, o lugar geográfico, a influência do meio e até o momento histórico.

Outras fossem as circunstâncias mesológicas, étnicas, psicológicas e físicas, e vossa excelência não me teria recusado a honra daquela valsa.

Se até hoje nem sequer conseguiram os imbecis traçar uma linha neutra, uma linha divisória, um biombo sobre o qual se pudesse com segurança declarar que todos aqueles que se encontram além são Belos; todos aqueles que se encontram aquém são Feios! Daí a nossa superioridade: um campo de ação mais vasto; daí a minha audácia: pretender valsar com a baronesa de Melrosado!

Que vossa excelência me perdoe estas divagações filosóficas que não dizem com o meu temperamento nem estão nos meus hábitos. Reminiscências do tempo em que fui colaborador da Revista de Arte e Filosofia.

Mas... reatemos o fio da meada. Diderot? Balzac? Comte? Spencer? Claude Bernard? Max Müller? Saint-Beauve? Tolstói? Nietzsche? Ibsen? Todos eles Feios, minha senhora, e alguns horríveis.

Propositalmente guardei para rematar este rol de Feios — e que vossa excelência me agradeça a lembrança — a fealdade irônica. Ah! Nos domínios da ironia a regra é geral. Tomo para exemplos os três vultos mais simpáticos:

Heine — o ironista alemão;

Kavv — o sumo pontífice da verve gaulesa — e Eça, o incomparável.

Trindade adorável e horripilante! O Intermezzo! Les femmes! Os Maias! E tem-se dito tudo.

Não lhe falo de Mark Twaim, Swinburne, Spencer porque não tenho de momento dados positivos que me assegurem de suas infelicidades físicas, mas estou eu que são da família.

Vê pois vossa excelência que se pode ser feio, sendo-se homem de espírito, de ação e entendimento.

Mas vossa excelência não foi simplesmente impensada.

Vossa excelência foi cruel. Vossa excelência procurando ferir-me lançou uma mão cheia de cinza e fel sobre veneráveis carcaças do vosso próprio sexo.

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