quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A pedra dos namorados (Conto), de Humberto de Campos


A pedra dos namorados

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Fugindo ao clima intolerável da cidade, os dois amigos inseparáveis resolveram passar, este anuo, o verão em Paquetá. As dificuldades, como era natural, foram enormes. Ao fim de algum tempo encontraram, porém, duas casas na mesma praia, as quais se comunicavam pelo quintal, e foram alugadas, não só entre as demonstrações de alegria de D. Adalgisa, esposa do Dr. Archimedes, como entre as de D. Eleonora, mulher do tenente Pedreira.

— Magnífico! — aplaudiu a primeira, batendo as mãozinhas finas, brancas, de dedos afilados.

— Esplêndido! — confirmou a segunda, com as mesmas demonstrações de contentamento.

Mudados para a ilha encantadora, saíram os dois casais, uma tarde, a passeio, juntando conchas pela praia, até que foram ter ao local em que se levanta, entre a terra e o mar, um penedo de três ou quatro metros de altura, em cujo cimo se amontoava uma infinidade de pedras pequeninas, equilibrando-se com dificuldade.

— Olha, ali! Que é aquilo? — exclamou D. Eleonora, radiante com aquela vida de liberdade, apontando, com a sombrinha fechada, no rumo da pedra.

— Ah! É a "pedra dos namorados"! — explicou o Dr. Archimedes. — Essa pedra tem uma história curiosa.

E contou:

— É corrente aqui, na ilha, que este rochedo anuncia os casamentos. Os namorados que passam por aqui, atiram-lhe ao cimo uma pedra pequena, uma concha, ou coisa semelhante. Se ficar lá em cima, a pessoa terá de casar-se; se não, se a pedra rejeitar o objeto atirado, fazendo-o rolar para o chão, é sinal de que a pessoa não se casará.

— Que graça! — rouxinoleou, rindo, Dona Adalgisa.

E, voltando-se para os companheiros:

— Vamos experimentar?

— Mas... nós já estamos casados! — obtemperou a amiga.

— Não faz mal. Vamos!

Apanhados quatro seixos, aproximaram-se do penedo, e atiraram, cada um por sua vez. O primeiro ficou. O segundo, igualmente. O terceiro, da mesma forma. O quarto, também.

— Todos ficaram! — exclamou, com a sua jovialidade infantil, a linda D. Eleonora.

E acentuou, espichando-se, nas pontas dos pés:

— Olhem: a minha pedrinha ficou junto da do Dr. Archimedes, e a da Adalgisa bem juntinho da do Pedreira!

O tenente olhou, sério, o bacharel. O bacharel fitou, grave, o tenente. Sorriram, os dois.

E continuaram, os quatro, o seu passeio, apanhando, felizes, na areia úmida, as pequeninas conchas da praia...

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