quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Cerimônias nupciais (Conto), de Humberto de Campos


Cerimônias nupciais

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Em um congresso de jurisconsultos, reunido, há alguns anos, em Berna, o delegado da Suécia, se bem me lembro, sugeriu a uniformização do Direito Civil, dando-se às leis peculiares aos costumes de certos povos uma feição de instituto internacional. Essa medida constituiria um passo para a fraternidade humana, acabando-se, de vez, com as complicações decorrentes da desigualdade dos códigos. A cerimônia do casamento, principalmente, se tornaria mais simples e respeitável, como observava, e muito justamente, um destes dias, o Sr. Comendador Paulino Sampaio, em uma palestra erudita com algumas senhoras inteligentes.

— É, realmente, absurda — observava o honrado capitalista, essa desigualdade de critério. Não seria mais razoável que o casamento, aqui, fosse igual ao casamento na China ou na Arábia? Para que, pois, essas diferenças fundamentais, nesse processo de reunir o destino das criaturas que se querem?

E, para demonstrar o que é a desordem nessa matéria, lembrou, documentando o seu pensamento:

— Na África, por exemplo, são adotados os processos mais esquisitos, e, até, mais repugnantes. Em certas regiões daquele continente, a cerimônia consiste, mesmo, no seguinte: a noiva enche de água uma vasilha, e leva-a ao noivo, para que lave as mãos. Feito isso, a noiva toma a cuia entre os dedos e bebe o resto da água servida. Feito isso, estão casados.

As senhoras entreolharam-se, espantadas, e o Comendador continuou:

— Em outras regiões, a coisa é ainda pior: em vez de dar as mãos a lavar, o noivo dá os pés, tomando a noiva, depois, solenemente, os restos da água. É horrível! Não é?

As senhoras entreolharam-se de novo, escandalizadas, e o velho capitalista insistiu:

— Esses costumes dão ensejo até, às vezes, a crimes inomináveis. Ainda em 1918, após uma lavagem dos pés do noivo, uma rapariga bebeu a água, na forma da tradição. E, momentos depois, caiu fulminada!

— Onde foi isso, Comendador? — indagou Madame Costa Pinho, penalizada.

O capitalista sorriu, e explicou, gentil:

— Na África Portuguesa, minha senhora!

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