segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A Taverna de Madame Berthon (Conto), de Almachio Diniz


A Taverna de Madame Berthon
 Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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No terraço do “Café Leontina”, agasalhados em seus lanzudos pardessus, Odorico e Wenceslau, dois tipos mundanos, essencialmente mundanos, conversavam surdamente...
Súbito, passou por eles e sumiu-se portas a dentro, uma figurinha de sacudida mulher, muito morena e muito sensual, despejando olhares cupidos por todas as bancas.
Odorico enlanguesceu-se, e, como uma reação, assinalou, assim, a passagem da esquisita-mulher com uma rememoração cruel...
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— Sempre é curioso este “Café” em matéria de mulheres. Não vejo esta “Menina Leontina”, como a chamam, que não me recorde logo da infeliz Madame Berthon.
— E tu, meu caro Wenceslau, és bem a crônica viva de toda a feminidade desta terra. Não há uma mulher de quem não tenhas informações, anedotas, segredos, sobre quem não lances um episódio de curioso entrecho.
— Não conheceste também a Madame Berthon?
— Somos os dois extremos: nada escapando ao teu saber e tudo me sendo ignorado...
— Era uma vaporosa cópia de Helena, capaz de mover guerras, e tentar a inspiração do artista mais rude para produzir uma obra-prima.
— Alguma divindade incógnita...
— Não, mas a causadora de duas mortes: um assassínio e um suicídio. Quem a visse na simplicidade das suas vestias, no comum dos seus gestos, e na temperança dos seus costumes, não diria jamais que era a senhora absoluta de um corpo de estátua, para ser coipiado pelo cinzel mais inspirado... Não se julgue a felicidade dos fins pelas venturas que povoam a estrada por que trilhamos. Muitas vezes, um momento de tranquilidade agora é a sementeira de um incomensurável estado de atribulações mais tarde. Madame Berthon despejava invejas a todas as mulheres do seu conhecimento. Desta casa tirava ela os meios de sua subsistência. Vi-a muitas noites, e sonhei com o taciturno aspecto de seu semblante. Taciturno, sim, porque, no meio da mais ruidosa alegria, aquela mulher era como uma virgem pálida a que nenhum excesso dê o rubor das faces... Sorria, mas o seu sorriso revestia-se de uma algoz cambiante de tristeza. Tinha a corte de poderosos pretendentes, mas decidia-se ordinariamente pelos mais fracos. Se ouvia a repulsa de alguém, era, ao depois, de um excessivo carinho para com o repelido. E, se a ninguém prometia, a nenhum negava, e a todos faltava... Curiosíssima mulher! Os seus hábitos eram os de uma leviana, mas a sua alma contrastava com a sua existência costumeira. Esquisita mulher, Odorico, muito esquisita, senhora de muitos corações se tivesse querido, entretanto escrava de um só que a levou, finalmente, à sepultura. Durante algum tempo a sua tragédia foi a nota do dia. Um assassínio e um suicídio...
— Foi sempre assim: em cada mulher há o gérmen de uma fatalidade, mas, em algumas, há a sementeira de muitos casos fatais.
— Espera, Odorico, espera. Não condenes a desventurada pelos primeiros tons de sua história. Juiz mais severo do que eu, não conhecerás, por certo, para o julgamento dessa gente que pisa sobre escândalos, que veste escândalos, e que escandaliza o próprio escândalo. De ordinário, a mulher é o algoz, parecendo a extrema fraqueza. Neste caso, porém, Madame Berthon foi, apenas, a vítima. Se crime ela teve, foi o de amar o homem que a assassinaria mais tarde. E amou... conjugalmente, porque nunca traiu aquele com quem coabitava. Às desoras, lá para as tantas, assim numa hora de madrugada quando o vigilante galo de Ares cantaria tatalando, como dois esposos, ela e o amante daqui saíam e recolhiam-se calma e honestamente. De feio que era, o homem haveria de enciumar-se até de si mesmo, descrendo de ser ele o galã de uma fêmea tão jeitosa. No mundo dos amores, há, entretanto, essa espécie de compensações: o feio é conjugado com o bonito, e reciprocamente, o bonito com o feio... Daí a naturalidade daquela união de Gaspar com a Madame Berthon. Mais de noventa noites durou aquele consórcio espontâneo. Aqui vinha eu, e naturalmente, cortejava à mulher gentil, espionando sempre o amante. Os homens todos, Odorico, saudavam-na com um mesmo entusiasmo viril, como os armentios saudariam, com ardente fé, a vinda do outono, porque é a estação das colheitas. Na manhã de um domingo, porém, no ninho dos dois amantes, lá para as águas furtadas de um sobrado, foi ouvido um movimento oucubo. Vizinhos, espicaçados pela anormalidade, atenderam ao que se passava na moradia de Madame Berthon. Depois de acalorada discussão, durante a qual o assassino descera as vidraças, cautelosamente, para não ser ouvido pelos estranhos, os estampidos de dois tiros indicaram um triste acontecimento no interior daquela casa. Momentos após, Gaspar, conduzindo uma bolsa de mão, descia os dois lances de escadas, abria as portas, e saía, meticuloso e tranquilo, trancando às suas costas a entrada no sobrado em que cometera o assassinato de Madame Berthon. E, como um homem feliz, lá se fora rua abaixo. Quem o visse, não lhe diria o autor de um crime, muito menos quando, no desempenho de um hábito, asseava os botins, e olhava serenamente o movimento das ruas...
— Revolto-me já contra esse perverso.
— Pois bem! O móvel do crime fora o roubo e todas as poupanças daquela operosa mulher estavam furtadas na bolsa que Gaspar segurava zelosamente. Em torno da casa de Madame Berthon, com o caso estranho dos dois tiros, populares encostavam-se nas redondezas do edifício suspeito, arrastando-se como lêmures amerios em trilhas brancas de areais desertos. Vozes surdas contavam as suposições de um crime; a suspeita avolumou-se... O rochedo nu da desconfiança vestiu-se fartamente com os ouropéis das espumas brancas dos comentários. Pelas janelas descidas, olhos mais perspicazes queriam ver logo os indícios vivos do bárbaro crime. E o tempo era bastante para que o assassino asseasse as botas e penetrasse no Hotel onde tinha hospedagem oficial. Nos populares tressuou a vontade da denúncia, e um indicou a presença próxima de um delegado. Era preciso ânimo também para se ir retirar a fescenina autoridade do seu aninhamento concupiscente ao lado de uma concubina... Tudo o mais foi rápido. Num instante abriu-se com violência a entrada. Um obstáculo apareceu: a porta estava presa, como que escorada por dentro. Que seria que obstava o seu movimento? Uma cabeça afoita enfiou-se por uma nesga, e voltou transfigurada, anunciando somente: “Está morta”. Outros tipos mais curiosos vieram, ajeitaram-se e penetraram com a autoridade. Estatelada sobre o chão, Madame Berthon, numa nuesa arrebatadora ainda não tinha a gelidez dos cadáveres, mas já era morta. O seu tórax derramava coalhos de sangue escarlate. E sobre as suas formas nuas, nada, senão as meias presas com atilhos de fitas rubras, e as pequenas sapatinhas...
— Que miséria!
— Já conheceste a vítima. Daí por diante a ação foi sobre o agente. A perseguição popular foi ter ao Hotel, e, quando os primeiros perseguidores foram percebidos, com a mesma arma, alvejando as suas próprias têmporas, Gaspar era um suicida... Não calculas a impressão que esse crime deixou no meu espírito. Eu vi a nudez de Madame Berthon, e senti que o assassino não tivesse ficado vivo para pagar com a reclusão da vida a barbaridade do assassínio de uma mulher, cujo corpo escultural seria capaz, como o de Mnezarete, de vencer austeros Areópagos... se desvendado fosse tal como eu o vi... E nota, Odorico, que um corpo morto, por mais belo que seja, é menos do que o vivo, porque, quando nada, lhe falta essa umidade quente que é o fluido mais sensual do mundo. Diante de carnes como as de Madame Berthon, só naturezas muito fortes não cederão à necrofilia... Então ela que possuía um nevo sobre o quadril direito...
— Sensualizas tudo, Wenceslau!
— E que é que escapa, neste mundo, da sensualidade? A própria morte, como tu deves saber, é um pedaço de sensualismo microbiano... Quantas fecundações danadas na hora extrema de um ser?!... Por que, senão pela força dos sexos, baqueou a inditosa Madame Berthon?!... Recorre à instância do amor que toparas com a absolvição da mulher, e carregarás a mão na dosagem da condenação do homem algoz.
— Contudo, sou contra sempre a defesa da mulher. Esta tem sido condescendentemente tratada. Menos liberdade para ela, mais rigor no senhorio dos homens.
— E como influiria tudo isto para que Gaspar não vitimasse Madame Berthon?
— Seria preciso, Wenceslau, que eu te contasse a história desde o começo do mundo, e é coisa que não se sabe é a data da primeira traição da mulher, de tão distantes tempos vem ela.
— Andas atrasado nisto, Odorico. A mulher teve o seu primeiro ato numa traição do homem, e formada de uma traição, porque foi necessário que Adão adormecesse para que Jeová, traindo à perfectibilidade da sua obra, lhe tirasse uma costela do corpo a fim de formar Eva, ela não poderia ser contrária à sua origem...
— És rigoroso demais...
— Não sou, não, meu caro. Um grande filósofo, cuja obra leio todos os dias e quanto mais leio mais ela me ensina, observou bem o que te digo e escreveu precisamente: “As mulheres têm sido tratadas até aqui, pelos homens, como pássaros que, descidos de uma altura qualquer, se perderam no meio deles: como qualquer coisa de estranho, de delicado, de frágil, de selvagem, de doce, de arrebatador—mas, igualmente, alguma coisa que é necessário engaiolar para que se não vá embora num voo”... Que é isto senão o reconhecimento do espírito traiçoeiro de nossas Evas?... Ao demais... estamos muito fora dos eixos... Que bebemos agora?...
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Fora do terraço do “Café Leontina”, solenemente encapotados, dois policiais nem tinham alma para andar, tamanho era o frio da alta noite...

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