domingo, 26 de novembro de 2017

Manoel de Oliveira (Conto), de Lima Barreto


Manoel de Oliveira

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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A história da mágoa que o levou a uma semiloucura, ele me contou muitas vezes de um modo inalterável. Cabinda de nação, ele viera muito menino da Costa d’África e um português hortelão o comprara e lhe ensinara o ofício de plantar couves.

O seu senhor tinha uma grande horta pelas bandas da rua do Pinheiro, no Catete, e logo que o pobre Manoel — era esse o nome do meu cabinda — cresceu um pouco, pela manhã, com verduras cuidadosamente contadas pelo senhor, ele saía para o Catete e Botafogo a vender couves, repolhos, cenouras etc. Levavam as verduras e legumes preços marcados, mas ele as podia vender mais caro, ficando para si o excedente. Durante anos, Manoel de Oliveira, pois, como era costume, veio a usar sobrenome do senhor, fez ele isso, ao sol e à chuva, juntando nas mãos do senhor os seus lucros diários. Quando chegou a certa quantia estipulada, o Oliveira, dono da horta, deu-lhe a sua carta de alforria.

Não sabia da companhia do seu antigo senhor e com ele continuava a trabalhar, mediante salário.

Habituado a economizar, continuava a fazê-lo, mas não sem que, de quando em quando, comprasse o seu “gasparinho”. Um belo dia, a sorte bafejou-o e a loteria deu-lhe um conto de réis, que ele guardou nas mãos do patrão.

Por esse tempo, veio Manoel de Oliveira a conhecer uma pretinha escrava que acudia pelo nome de Maria Paulina. A comborça interessou-o e ele, à vista das condições de fortuna em que estava, resolveu agir os preliminares indispensáveis, tomar estado. Libertou a rapariga, comprou uns móveis toscos, alugou um tugúrio e foi morar com a Maria Paulina. As coisas correram bem até certo tempo. De manhã, lá ia Manoel de Oliveira para a horta, apanhava o tabuleiro e corria à freguesia.

Aí, pelas onze horas, meio-dia, passava pela sua casa, almoçava com a Maria Paulina, voltava para a horta, após o almoço, a fim de molhar os canteiros do patrão.

Assim, ia correndo a sua vida, quando ele teve a honra, na sua humildade, de ser objeto de drama. Maria Paulina fugiu...

O fato abalou o pobre preto em todo o seu ser. Ficou meio pateta, deu em falar sozinho, abandonou a horta e deixou-se errar a esmo pela cidade, dormindo aqui e ali.

A polícia apanhou-o e meteu-o no asilo de mendigos. Daí foi enviado para a ilha do Governador e internado numa espécie de colônia de pedintes que o governo imperial fundou nos seus últimos anos de existência.

Vindo a República foram essas colônias, pois eram duas, transformadas nas atuais de alienados.

Meu pai foi, em 1890, nomeado para um pequeno emprego delas. Fomos todos morar lá e foi então que eu conheci Manoel de Oliveira.

Sóbrio, trabalhador e disciplinado, o velho preto cabinda não sofria nenhum constrangimento. Era até encarregado de uma seção importante que superintendia com o mais acrisolado devotamento. Manoel dirigia a ceva dos porcos e, para eles, cozinhava.

Vivia independente de toda e qualquer vigilância, debaixo do terreiro anexo ao chiqueiro, vigiando a caldeirada dos suínos, resmungando e balbuciando a sua dor eterna.

Muito menino — eu tinha nove anos —, apesar de não ser muito regular, corria toda a colônia e dependências.

O edifício principal era um antigo convento de beneditinos. A igreja dividia duas alas desiguais; e tudo olhava o sol levante. A ala direita era quase toda ela guarnecida de largas janelas em arco pleno; mas a esquerda era mesquinha e sem interesse.

Tendo passado a minha primeira meninice na cidade, aqueles aspectos eram para mim inteiramente raros. As árvores, os pássaros, cavalos, porcos, bois, enfim, todo aquele aspecto rústico, realçado pelo mar próximo, enchia minha meninice de sonho e curiosidade.

O velho Oliveira dava-me sempre mimos. Era uma fruta, era um bodoque, era uma batata-doce assada no braseiro do seu fogão, ele sempre tinha um presente para mim. Eu o amei desde aí e, quando, há anos, o levei para o cemitério de Inhaúma, foi como se enterrassem muitas esperanças da minha meninice e a adolescência, na sua cova...

Apesar dos rigores regulamentares, ele ia até nossa casa levar isso ou aquilo; e às vezes, lá se demorava, fazendo este ou aquele serviço.

Por fim, o médico deu-lhe alta e ele veio morar definitivamente conosco. Pude então conhecê-lo melhor e apreciar a grandeza de sua alma e a singularidade de suas opiniões.

Coisa curiosa! Oliveira tinha em grande conta a sua dolorosa Costa d’África.

Se eu motejava dela, o meu humilde amigo dizia-me:

— Seu “Lifonso”, o senhor diz que lá não há quem saiba ler. Pois olhe: os doutores daqui, quando querem saber melhor, vão estudar lá.

Além de ter este singular e geral orgulho pela África, ele tinha um particular pela “nação”. Para ele, cabinda era a nacionalidade mais perfeita e superior da Terra. Nem todo negro podia ser cabinda.

— Manoel, Nicolau é cabinda?

— Qual o quê! Aquele negro feiticeiro por ser cabinda; aquilo é congo ou boca de benguela.

As suas opiniões políticas eram curiosas. Tinha, como todo o nosso homem do povo, uma grande veneração pelo imperador, até exagerada.

Ele me dizia:

— Seu Lifonso: não houve no mundo imperador como o daqui; todas as nações tinham inveja do Brasil por causa dele.

Entretanto, e apesar de não gostar da República, ele informava que o governo de sua terra era melhor que o daqui, porque lá havia, ao mesmo tempo, imperador e presidente da República.

O seu grande amor era a horta. O seu antigo senhor tinha-lhe inventado esse gesto que não o largou até a hora da morte.

Havia muita coisa de singular e curioso nessa pobre alma de negro que me acompanhou durante quase trinta anos, através de todas as vicissitudes.

Devo-lhe muito de amor e devotamento.

Conto um pequeno fato. Quando minha família atravessou uma crise aguda; quando veio a nossa tragédia doméstica, Manoel de Oliveira chegou-se a mim e emprestou-me cem mil-réis que economizara.

Muitos outros fatos se passaram entre nós dessa natureza, e, agora, que o desalento me invade, não posso relembrar essa figura original de negro, sem considerar que o que faz o encanto da vida, mais do que qualquer outra coisa, é a candura dos simples e a resignação dos humildes...

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