segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Amores no claustro (Conto), de Almachio Diniz


Amores no claustro
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Um ar tépido, cheio de luzes meridionais, rico de aromas novos, instigador do sensualismo mais humano e menos animal, era o excelente conforto da cela de Frei Patrício.
Um leito acolchoado recebia em cheio a réstia do sol poente, e, de dedos enclavinhados, um em frente do outro, o habitante do claustro e o seu afetuoso irmão de ordem, Frei Tomásio, palravam gostosamente de coisas alegres...
***
 —Assim foi que me decidi, sem espanto dos meus, e por uma resolução improvisada...
— Pois eu, não! Lutei contra uma grosseira série de vontades, e não venci: fui derrotado.
— Não posso crer facilmente.
— É a verdade, irmão Tomásio... Fiz como um cadáver que entra no sepulcro. Para aqui trouxe o meu corpo, e, lá fora, borboleteando, sem parar, a minha alma... viveu sempre muito longe das carnes que ela animava. Enquanto moço, nas minhas preces só o nome de uma mulher viçava triunfante...
— Também a mulher...
— Sim. Preconceitos, preconceitos! A baronia estulta de uma família asfixiou sem dó a ventura de duas almas... E eu de falar-te, inda hoje, tremo de cólera. Pudesse eu e a vontade amorosa de Marina, por entre hinos e bendições, tê-la-ia levado, não à cova, sublevando-se contra os pais, sim ao himeneu, triunfando o seu amor. Desde que nos vimos, sem cuidados naquilo que outros apreçavam—a feeria dos títulos nobiliárquicos—vivemos apenas pelas sugestões do sentimento que nos venceu...
— Os teus lábios tremem, irmão Patrício, as tuas pupilas se inflamam e olham por sobre nós para tempos bem distanciados...
— Realmente! Fuzilam-me eternamente os desejos da vingança que exerci contra mim mesmo, enclausurando-me. Quando aqui cheguei, Marina vivia ainda, mas respirando balões de oxigênio. Artifícios da ciência! E três dias depois, desta mesma janela, vi passar, ali embaixo, naquela tortuosa e acidentada vereda, vi passar o coche branco, portador do esquife em que desapareceu para sempre a matéria que tanto amei... A vista anuviou-se-me e, balouçadas pela brisa, as rendas do esquife me disseram um adeus aflitivo, como as despedidas de uns lenços muito brancos, molhados de lágrimas... Sucumbi diante da falsa visão e esmaeci... debruçado sobre aquele leito, onde chorei incansavelmente irado—Deus me perdoe!—como o mais pecador dos homens...
— Tanto pode o amor!
— A mola do mundo, Frei Tomásio, é a mulher. Não há um burel aqui dentro que não seja trazido por uma delas. E em tudo, como dizem corriqueira e profanamente os franceses, chercher la femme... Porventura não professaste como os outros?
— Sem tirar nem pôr na causa.
— Sempre assim.
— Mas, tu procuraste o claustro como um eleito do amor que te distinguiu entre os outros homens e te elegeu o seu preferido.
— Ah! por certo.
— Quem me dera!
— E que te faltou, Frei Tomásio?
— Justamente o amor.
— Intrigas-me deveras.
— Vou contar-te, pois, a minha história. Lembras-te de que professei mocinho?
— Se me lembro!...
— Pois bem! O meu acontecimento foi de alguns anos antes... Eu era menino, e se me dissessem que o helianto foi obra da pretensão e do desabuso de Hefaestos querendo, como um Deus, criar sóis e mais sóis, todo o crédito eu daria, porque não tinha discernimento para me salvar das tentações humanas...
— Que são as verdadeiras tentações da serpente no Paraíso...
— Fazendo estudos, eu ia, quotidianamente, para os cursos, como o carreiro que passe todo o dia pela mesma estrada em busca de acendalhas e ramos para sustentar a lareira aquecida e feliz... Tinha eu ambições de saber... Embriagavam-me os livros, e neles mesmos comecei de ler as primeiras coisas de amor...
— E não lias o Cântico dos Cânticos!
— Ah! não! Fui sabendo que, como Eva fora criada para acompanhar o primeiro homem, a mulher vivia para funcionar no amor. Os arrebatamentos vieram pouco a pouco. E dei para olhar as raparigas com olhos de escaldo...
— Que maganão!
— E não peco porque te falo a mais pura verdade. No rebanho de nossas amizades havia uma ovelhinha, que, por ser linda e mansa, recebia o cortejo dos mocinhos de minha idade. Se as suas companheiras não tinham as calenturas de um amor, ela abrasava na abundância das pretensões exaltadas: todos à porfia lhe disputavam a preferência... Tolamente eu era conduzido entre os fascinados pelo olhar da moçoila cortejada.
— Estou vendo que eras o preferido...
— Não sei, porque não tive capacidade para aquilatar, bem como porque—e daqui se originou a minha principal história—troquei logo essa expetativa de amor bem aventurado por uma efetividade de amor bem triste... Mas sei que os olhares dos meus velhinhos caíam sobre nós dois como punhados de olorosos jasmins, quando eles nos viam, quais dois noivos conscientes, em falações na varanda arborizada de nossa casa, amorosamente iluminados pela lua...
— Bem feliz que ias para a vida entrando, irmão Tomásio?
— Devo crer-te, muito mais ainda quanto entre os que mais choraram a minha desdita foi ela a que mais lágrimas chorou... Ora, se a intuição de amar crescia e eu me tentava a ser amado, olhos outros, mais fulgentes e chispantes, me sensualizaram todo e a carne arvorou-se em maior do que o sentimento...
— O pecado!
— Verdadeiramente, o pecado! Nas idas e vindas dos meus cursos, às vezes ainda peando cigarras e apedrejando, com rudes instintos, os inofensivos gaturamos, fui prendendo-me às ardências das esbraseadas pupilas de uma mulher fácil... A princípio, quando o seu olhar incidia sobre mim, eu cerrava os olhos, abaixava a fronte, e, sem o querer, pensava nas ternuras da outra. Nada mais. Os dias repetiam-se e as cenas mudavam-se, crescendo as investidas e diminuindo a resistência. Ao depois, os meus olhares chocavam-se com os da agressora, eu sentia uma purpuridão nas faces, mas incólume prosseguia o meu caminho... Mais tempo, e duas, três, quatro vezes, voltava-me para trocar sorrisos... Em casa, a presença da outra, começou de aborrecer-me. À noite, por sobre as páginas abertas dos meus livros, dançavam cabrioladamente as imagens das duas mulheres. E eu me decidia fragorosamente pela menos conhecida. Um dia, notei que os lábios da estranha se moviam. Nada percebi, no entanto. Que ela falava, eu estava certo. Nas passagens seguintes, com os olhares e os sorrisos, ouvi um termo esquisito. Duas silabas apenas, e, se não te ofendo nem abuso de tua condescendência, irmão Patrício, dir-to-ei já...
— Faço mesmo questão de sabê-lo...
— Já que queres ouvir-me, continuarei...
— Continua...
— A deslumbrante mulher dizia-me apenas: “Tico”...
— Olá!... Olha que eu velho assim nunca ouvi esse vocábulo...
— Nada sei explicar-te, Frei Patrício, senão que corri os dicionários dos meus estudos, e que todos eles me negaram o conhecimento do termo convencional. Valeram-me as amizades colegiais, e um condiscípulo investigador, depois de algumas pesquisas fora da convivência dos colegas, soprou-me segredadamente: “Tico é um convite... E quando ouvires, responde taco...” Corei diante da revelação e maldei de tudo. O meu primeiro impulso foi abandonar o meu caminho habitual para me furtar às seduções de Almira...
— Que belo nome, e lendário!
— Tive, porém, de ceder à contingência dos fatos. Não era possível andar por outras ruas sem alongar o meu viático, diante do que desisti da ideia e afrontei a tentação. Com o tempo fui cedendo. E, um belo dia, como se diz lá fora, escorreguei... “Tico!”, disse-me ela, e eu lhe opus murmuradamente quase: “Taco!” Em resposta, ouvi: “Amanhã!” Que noite, Frei Patrício! Se há caldeiras para queimar almas, nós as experimentamos quando fazemos a espera de alguma coisa. Não dormi, confesso. E, para encurtar as razões, só acordei, efetivamente, quando, advertido por ela de que lá iria chegar o seu homem, me vi escondido por detrás e entre panos e panos de sacos vazios. Desse esconderijo ouvi as suspeitas do esposo aparecido, suspeitas que cresceram e motivaram uma busca nos panos que me ocultavam. Que criatura perversa! Foi às bastonadas, meu Reverendo, que o bisonho animal me arrancou de debaixo das pilhas de sacos, às bastonadas, Frei Patrício...
— Ah!... ah!... ah!... ah!
— Não rias, Irmão!
— Não te zangues, Frei Tomásio. Não me posso conter... A tua história é alegre... Ah!... ah!... ah!... ah!...
— Nem sei como de maus tratos não me acabaram naquela hora furiosa... E quanto tempo me esbarrei inutilizado sobre o leito... nem me lembro mais!
— Pudera!... Ah! ah! ah! ah!...
— Aliás, não foi tudo, pois que, tempos depois, restabelecido já, e voltando aos cruzeiros dos meus estudos, a demônia me repetia: “Taco?”... e eu a repelia instintivamente... “Nem tico, nem taco... nem lá dentro do teu saco...”
— É boa, é boa!... Ah!... ah!... ah!... ah!...
— Em seguida...
— Sim...
—... senti-me humilhado, porque, por toda a parte, a mofa dos conhecidos me estigmatizava com o escândalo, e sofri, abrasadoramente. Ninita, escandalizada com a minha queda, definiu-se por outro, que a recebeu como esposa perante Deus! Por tudo isto, tive nojo de mim mesmo... O mundo era um tédio... Então pensei no vício...
— Misericórdia!
— Mas, não era?... Para abafar uma miséria moral, só outra maior... ou o passo que dei...
***
A brônzea sineta da confraria, não se retendo na missão avisadora, chamava a Ordem para a humilde refeição da noite.
E quando Frei Patrício chegou ao salão, na companhia de Frei Tomásio, já se liam, enfaticamente, as consoantes orações da hora.

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