segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Depois do Cometa (Conto), de Almachio Diniz


Depois do Cometa
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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De olhos pisados e presos num halo de violeta cinta, Alexandrina ergueu-se da “steeple-chaise”, e beijou a mão da velha senhora D. Carolina, que acompanhava Mimi, naquela matutina visita de núpcias.
Ao depois, como duas flores de uma só haste separadas para sempre que se reencontrassem, a recém-casada recebeu alacremente nos braços a figura da amiga e beijaram-se fartamente.
De outro lado, Artur, o novel esposo, enfardado no seu dolman de brins brancos, cumprimentara, cerimoniosamente, a Dona Carolina e com um sorriso prazenteiro aplaudiu as brejeirices de Mimi.
Esta e Alexandrina, ao depois de afáveis cumprimentos gerais, confidenciavam numa janela, por detrás de arrendadas cortinas, onde se foram acastelar para a permuta de segredos...
***
— A que horas despertaste?
— Nem sei mesmo...
— Não é possível.
— Palavra!
— Então ferraste no sono, e...
— Ao contrário: não dormimos.
— É esquisito.
— Como te enganas! Não calculas o que seja a estafa de um dia de noivado.
— O dia mais belo da mulher...
— Parece-te?
— Esta é boa, Alexandrina! Sou eu quem deve perguntar-te: não te sentiste extraordinariamente feliz?
— Ah! sim... Casei-me por meu gosto...
— Olha que já me pareces outra com tanta sisudez e secura...
— Não é, Mimi. Artur e Dona Carolina nos olham insistentemente. É preciso que não me tenham na conta de alguma leviana: já hoje em dia, minha amiga, tenho segredos que te não posso falar...
— Proibiram-te de dizermos..
— Não! Nem sei explicar-te, mas há tanta alteração na vida de uma mulher que se casa, dentro das primeiras vinte e quatro horas de sua vida conjugal, que nem sei como me reconheceste hoje... Já viste, no craveiro, o botãozinho verde; o casulo de folhas, como, na manhã seguinte, está um perfumoso cravo, uma flor distinta? Se te dessem as duas coisas, pela vez primeira, tu contestarias o fato como inverídico...
— Mas eu te vejo a mesma boniteza...
— Sim! É questão de alma. Supõe que adormeceste no começo de uma viagem e que quando despertaste estavas numa terra de estranhos. O teu corpo seria o mesmo, a tua lindeza não seria transformada, mas o teu coração palpitaria diversamente na sociedade desconhecida a que aportaste. As tuas amigas ficariam noutra parte. Se quisesses vê-las, seria preciso que regressasses ou que elas viajassem para onde foras. Assim no casamento: viajei para muito longe de ti. Para nos irmanarmos como dantes, ou voltarei à minha imaculabilidade de ontem, o que seria impossível, ou tu ascenderás ao matrimônio para o que faço votos.
— Tens razão!
— Não te parece?
— Falas e procedes tão judiciosamente que não me atrevo a duvidar das alterações por que passaste... Eu, porém, serei capaz de repudiar o casamento para não me esquecer tão depressa das intimidades com as minhas amigas...
— Não me esqueci. És injusta! Não te darei novas confidências: as velhas, entretanto, ficarão acariciadas como um sonho de felicidades na vida de uma mulher inditosa.
— Pois pensei que me dirias tudo...
— Tudo... quê?
— Ora!
— Denuncias que pensas em algumas coisas que não são verídicas, ou, pelo menos, não o foram para mim.
— Foste diferente das outras!
— Ofendes-me.
— Não te ofendo, não. Desconheço-te.
— Que quererias tu que eu te falasse?
— Não sei. Se soubesse, desnecessário seria que me referisses.
— Objetiva o que queres saber... e depressa, porque Artur me acompanha com um olhar seriamente investigador e tua mãe franze o sobrolho para mim... Um há de supor-me indiscreta para te comunicar tolices... e a outra... corrupta para te ensinar... loucuras...
— Não! Deixa...
— És má! Tens talento e não queres compreender a minha situação, especialmente no dia de hoje.
— Já te compreendi: e estou pelo que tu quiseres...
— Amuas sem razão.
— Com que direito a planta exige viço da flor que já foi colhida? Compreendo, perfeitamente, agora, que entre nós duas existe a alma do Sr. Artur...
— Não exageres...
— Podes ouvir de mim o maior segredo, bem como ouvirás dele também. Os meus serão contados, sílaba por sílaba, aos ouvidos do Sr. teu esposo, porque não deve haver um conhecimento novo que não pertença a ambos: os dele... morrerão contigo, porque não deves trair à tua fé conjugal...
— És incondescendente!
— Sim, sou incondescendente na verdade das coisas.
— Em parte, minha amiga.
— Não. Em tudo.
— Veremos.
— Pois experimenta!
— E se eu te provar?
— Pago-te com um beijo...
— Oh! Pois então a mulher que se casou pode beijar outra pessoa que não seja o seu esposo?
— Deste modo, Mimi, não chegaremos a um acordo. Há beijos como há conversas... O que te conversei até ontem, não conversarei jamais com o meu esposo. O que te converso agora, não conversarei jamais com a tua mamã. Beijos!... Os que te dou são da ordem dos que sempre te dei...
— Bem te compreendo. A mulher casada tem duas existências.
— Não sei se somente duas, mas, a solteira, antes do matrimônio, nem sei quantas tem...
— Contudo, conto-te eu um incidente de minha intimidade feminina. Dizes ou não ao teu marido?
— Conforme.
— Não é caso de dubiedades. Dizes ou não?
— Se for só do teu interesse, não.
— Faço-te justiça, minha boa Alexandrina: a tua gentileza obriga-te ao falseamento agora, somente agora, do teu dever. Contarás tudo o que te disserem, ou serás uma perjura na fé conjugal. Eu mesma duvidaria de tuas intenções, se ocultasses do teu marido o menor acontecimento que te revelassem. E, por fim, em tudo quanto te falarem hás de descobrir sempre esse interesse que não é exclusivo da pessoa que te falou, para contares tudo ao teu companheiro. Deixemos essas coisas de parte, e afetemos a nossa convivência hipócrita, como tu queres...
— Dou-te razão, minha amiga. O mundo é esse mesmo e não serei eu quem o modificará.
— Estavas bela, Alexandrina, nas tuas vestias de noiva!
— Achaste?
— Encantadoramente bela!
— E tu me viste?
— Sim. Passaste bem junto de mim quando saltavas da carruagem à porta da igreja. Tinhas um rubor nas faces de matar de inveja.
— Era a última nota do meu pudor de virgem!
— A tua costureira fez o teu vestido a capricho e o teu cabeleireiro assentou-te a grinalda como uma coroa de rainha. Agradou-me a tua elegância. E, por que não te censurar? só não gostei de trazeres os olhos humildemente baixos... Faltava-te o sol do teu olhar esplêndido.
— Lisonjeira!
— Eu traria os olhos bem iluminados, fascinando as multidões que se dominavam com a curiosidade de ver-me...
— Tens razão. Naquela hora, eu temia os olhos de tanta gente... sem saber que... mais tarde...
— Dize... dize...
— Dir-te-ei... mais tarde... eu teria sobre o meu corpo olhares mais algozes...
— Deveras?
— Sim, minha amiga! Não calculas o olhar de Artur quando ele... Oh! Digo-te demais! Perdoa se te ofendo...
— Desculpo-te. Senhora de mim, sei dispensar-te das leviandades que, ainda há pouco, condenavas. Onde puseste o teu véu?
— Guardei-o já para oferenda a uma Santa.
— Quem to tirou?
— A mamã... Artur conversava no salão com o papá e dois amigos retardatários... Sentia-me alquebrada. Também já era alta hora da madrugada. Duas ou três, não sei.
— E o teu vestido? Era primoroso...
— Está no armoire-àglace...
— Muito amarrotado?
— Não. Quando o despi... chorei! Como é que uma mulher só se veste tão bem uma vez na vida?!...
— Choraste, Alexandrina?
— Sim.
— É de mau agouro. Dizem que morrerá primeiro aquele que chora...
— Não sabia.
— Nem que morrerá antes do outro o que se deitou por primeiro?
— Também não! E por isso também serei eu quem morrerá antes...
— Ah! já estavas deitada quando ele apareceu na alcova?
— Sim. Ele se abeirou de mim e, segurando-me uma das mãos, tratou do sucesso das festas de nosso casamento. Recapitulamos toda a seroada, desde as asperezas do juiz casamenteiro, até às melifluidades de voz do sacerdote, quando fez a prática sobre a felicidade conjugal. Recompusemos a sociedade que aqui esteve. As danças, o serviço de buffet, a cerimônia do chá... Tudo se conservou. Ele dizia uma coisa, eu lembrava outra. Sorríamos-nos, comentávamos, com seriedade, as incorreções dos outros...
— E o tempo se passava...
— É exato, Mimi. O tempo se escoava enganadoramente. Não sabes, porém, como foi oportuna a nossa conversação. Quando estremecemos, ouviu-se o tiro das cinco horas...
— E então?
— Artur lembrou-se do cometa... Já o viste?
— Ainda não!
— Pois é belo! Artur mostrou-mo... Que lindo esteve ele na madrugada do meu casamento?!... Se todos vissem o cometa como eu vi...
Interrompidas por Dona Carolina, Mimi e Alexandrina, dando-se as mãos, nervosamente, passaram ao recinto da sala e entraram na conversação comum...

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