segunda-feira, 27 de novembro de 2017

As borboletas (Conto), de Wenceslau de Moraes


As borboletas

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)


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 A lenda das borboletas.
São tão lindas, as borboletas! Quem as vê, que não lhes queira? aí vagabundando pelo azul dos campos, rasando as corolas frescas, amando-se, beijando-se, libertas da larva abjeta, como almas de amantes despidas da miséria terreal, a viajarem no infinito... São tão lindas, as borboletas!...
Mas na China são talvez mais lindas do que todas. É um deslumbramento surpreendê-las na quietação dos bosques, voejando aos pares, que se tocam, que se abraçam, e enfiando pelas sombras misteriosas dos bambuais, com as suas longas asas palpitantes, lanceoladas, em matizes maravilhosos, de negros aveludados, de azuis meigos, de amarelos quentes, como se as loucas vestissem cabaias de cetim, de sedas de alto preço...
Choc-In-Toi, a deliciosa Choc-In-Toi, habitava, há longos séculos, uma pacífica aldeia do Yang-tsze-kiang, não longe do lugar que hoje se diz Xangai. Como fosse muito dada a estudos literários e as escolas do seu sexo não lhe satisfizessem a ambição, conseguiu que seus pais lhe permitissem o disfarçar-se em homem, e assim abalou, a ir frequentar a mais famosa universidade do império. Volveu ao lar após três anos; volveu tão pura como fora; da sua inocência há provas irrecusáveis. Para não divagar muito nestas páginas, basta dizer a quem me queira ouvir, que um lenço de seda branca, que ela enterrara na lama em presença duma sua cunhada predisposta a vaticinar-lhe rudes lances, foi depois tirado sem uma só mancha e sem um só farpão, branco, puro, como a alma da donzela; e basta saber que as flores da sua preferência, que ela deixara no jardim, rogando aos deuses que as conservassem frescas como ela, assim se conservaram durante a longa ausência, embora, como consta, a cunhada as fosse regando com água quente tirada da chaleira.
Durante os três anos de seu estudo, um companheiro, por nome Leun-San-Pac, intimamente se lhe afeiçoou. Era o seu camarada inseparável, o seu irmão; dormindo juntos, conversando juntos, estudando juntos, divagando, sonhando; e o lorpa do mocinho nunca se apercebeu que tinha a seu lado uma mulher.
Quando soou a hora das despedidas, cortava o coração ver o rapaz, lamentando o futuro isolamento, a perda dum amigo como aquele. A moça consolava-o. A moça pousava-lhe nos ombros as suas mãos gentis, e exortava-o a que se enchesse de coragem, a que se entregasse ao amor do estudo, até alcançar um alto grau de sapiência. — “E depois, dizia-lhe ela entre soluços, e depois, se com saudade te recordares ainda de mim, abala, vem ver-me à minha aldeia.” — E dava-lhe indicações precisas do lugar. Despediram-se, entre choros.
A donzela esperou, esperou, esperou, — quem poderá descrever esse tormento? guardando da família o seu segredo; e o moço não aparecia. Segundo os usos do país, os pais destinaram-lhe um marido; e ela, a desolada, escrava da obediência filial, obediência cega, indiscutível, que é a base da vida inteira moral do povo china, inclinou-se, aceitou, sem que uma só queixa proferisse.
Três dias decorridos depois do contrato nupcial, eis que chega à aldeia o pobre Leun-San-Pac; pobre, porque a desventura se lhe acerca; mas rico de erudição, de uma alma culta, e ocupando um lugar proeminente. Encontra o seu amigo, encontra o seu irmão; mas agora sem disfarces, na graça plena dos seus enlevos femininos, na gentil elegância das vestes que lhe são próprias, e com grinaldas de flores na trança negra. De começo, este enigma, pouco a pouco explicado, confunde-o, desnorteia-o; mas tudo se aclara; da amizade ao amor o salto é rápido. Oh! ele ama-a agora, ele ama-a de todas as forças do seu ser; e no olhar de fogo transluzem mil mistérios de adorações e de desejos!... É tarde. A palavra dada ao feliz noivo não se quebra. Os velhos pais prezam mais do que tudo, a própria honra.
Ele parte; ele parte para um lugar vizinho, louco, com a alma embebida no fel dos desesperos. É ainda ela, a doce pomba obediente, que tenta consolá-lo. Ela escreve-lhe; ela diz-lhe que a vida não é eterna; que a piedade filial arrasta-a a um consórcio que só lhe vaticina dores e prantos; mas que as almas são livres, emigram duns corpos para outros; encarnam-se noutros seres; que ele sossegue, aguarde outra existência, para a qual ela lhe jura será a sua companheira, toda fidelidade e toda amor. Leun-San-Pac lê, faz um bolo dessa carta, onde tão demoradamente pousara a mão da sua bela, e engole-o, e sufoca-se com ele, e exala assim na solidão o último suspiro. Um pouco além, sobre a montanha, se lhe elevou a sepultura.
Soam bátegas festivas, estalejam nos ares fogos de gala, de alegria; e pela longa estrada em zigue-zague, bordada aqui e ali de bambus e bananeiras, doirada pelo sol do meio-dia, serpeia em rutilantes teorias o monumental cortejo do noivado, caminho do lar feliz.
O estilo de há mil anos é o mesmo estilo de hoje. São os grandes balões, os estandartes, conduzidos por moços vestidos de vermelho. São os enxovais primorosos, as cabaias, a coleção dos sapatinhos, tudo disposto nas liteiras luzentes dos esmaltes. São as colossais peças de doçaria, castelos de açúcar, dragões de açúcar, coisas espantosas. São os porcos assados, louros, deliciosos, espalmados sobre os tabuleiros, com laços de fita nos focinhos. São as orquestras estridentes, de flautas, de rebecas. São as crianças ataviadas em cetins, em alegorias de cenas de outros tempos, cavalgando alimárias pachorrentas. É finalmente a liteira da noiva, toda ela ouros, toda ela esmaltes, fechada como um cofre, furtando à vista dos curiosos o precioso fardo, Choc-In-Toi.
A noiva solicita do cortejo um curto desvio na sua marcha. A noiva, antes de entrar no lar e de ser esposa e escrava, quer abeirar-se, além, daquela sepultura esquecida na montanha, e orar junto dos restos do que morreu por ela. Quem lhe recusaria tal licença? Ei-la que desce da liteira, nas suas cabaias deslumbrantes; e ei-la que se prostra, ei-la que beija a terra...
A terra abre-se então, carinhosa, mãe; a terra traga-a, chama-a a si, chama-a para junto dos ossos do seu querido. A comitiva pasma do milagre. As mãos avançam a detê-la; mas só logram colher um pedaço do vestido, que se rasga, e é tudo... O pedaço de seda, de mil matizes, transforma-se de súbito numa borboleta de mil cores, que voa das mãos rudes, e desaparece no azul, desaparece!... É desde aquela época que há borboletas neste mundo, tão lindas, tão cheias de matizes!...
Eu não lhes estou contando uma mentira, meus amigos. Ainda hoje se vê a sepultura, esboroada pelos séculos, daqueles amorosos. E as esposas desprezadas além vão em romaria, e daquela terra bendita se suprem às mãos cheias, e dela provam, e disfarçada com o arroz a ministram aos maridos. Consta que o estranho tempero, aquela terra, que em alguma coisa participa da essência dos amantes que ali jazem para sempre, tem virtude consigo, e é sempre eficaz em trazer ao bom caminho os mariolas, os maridos.

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