segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A alforreca (Conto), de Wenceslau de Moraes


A alforreca
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Fala a lenda japonesa.
Antigamente — e quem sabe se ainda hoje! — no seio do oceano era o reino faustuoso dos dragões. Por longos anos, o senhor deste reino, o dragão real, viveu celibatário, numa existência descuidosa; e sabem só os deuses, e não nós, quantas noites de dissipação, em companhia de tartarugas e lagostas ligeiras de costumes, que lhe cantavam trovas ao som do shamicen e lhe iam servindo saké em ricas taças, quantas noites ele passou em travessas intimidades amorosas!...
Verdores, que passam breve. Um belo dia, resolveu casar-se, o bom soberano. A noiva escolhida foi uma jovem dragoazita, dezesseis anos apenas, adorável, digna pelos seus mil encantos de ser a consorte feliz de tal senhor. Esplêndidas foram as bodas por essa ocasião, segundo consta: sem já falar na corte íntima, toda a bicharia aquática, peixes, mariscos, moluscos, todos vieram processionalmente, em cardumes, em belos kimonos de sedas encarnadas, oferecer seus respeitos e presentes; e foram, durante longos dias, estupendos rega-bofes, em danças, em músicas, em banquetes...
Mas nem os dragões escapam às duras provações da existência! Ainda bem um mês se não passara, quando a augusta soberana caiu doente; e tais cuidados inspirou desde logo o seu estado, que era uma lástima observar as trombas compungidas dos fidalgos, comentando baixinho, em lamentações do seu ofício, o triste caso. Reuniram-se os doutores em conferência; falaram muito, discutiram muito, sem chegarem a acordo, como sempre sucede; consultaram-se abalizados alfarrábios de terapêutica; as barbatanas incansáveis rabiscaram um milhão de receitas milagrosas, e todas as tisanas se serviram. Baldado intento; a soberana extinguia-se; e afinal os focinhos dos sábios, num trejeito de piedade e desengano, tiveram de ser francos, de declarar que a ciência — já naquela época se enchia a boca com a ciência — que a ciência nada mais podia fazer, e que um angustioso desfecho era de esperar-se.
Do seu leito de enferma, de entre os futon, as fofas colchas de cetim, agita as trêmulas patinhas a rainha; chama junto de si o esposo, e diz-lhe estas palavras ao ouvido: — “Uma só coisa me salvará: arranquem o fígado a um macaco vivo, e consintam que o devore; recuperarei a saúde...” — O rei não pode reprimir um gesto de surpresa, quase de enfado, e todo se lhe eriçou o bigode façanhudo: — “Um fígado de macaco! estás louca, minha querida!...” — Ela prontamente retrucou: — “Louca, porquê? Vossa majestade esquece porventura, que nós, o grande povo dos dragões, no mar vivemos sempre; enquanto que os macacos, muito longe daqui, vivem na terra, nos bosques, entre as árvores, nutrindo-se de frutos... No fígado do mono alguma coisa virá que participe desse mundo, tão diverso, tão outro; e essa partícula estranha, senhor, me salvaria!...” — E a rainha, a quem as lágrimas acodem, prossegue num tom repreensivo e lastimoso: — “Uma insignificância, um nada, pedi, e esse nada vossa majestade me recusa. Julgava merecer-lhe mais afetos. Dispa-me destas pompas de soberana, não as quero; dê a coroa a outra esposa, mais digna, mais formosa; consinta que volva ao ninho carinhoso de meus pais...” — A voz sufoca-se em soluços, não pode mais proferir uma só queixa...
O rei dos dragões não queria passar, entre damas, por um dragão cruel; por demais conhecia ele os caprichos pueris do sexo frágil, mas perdoava-os complacentemente, por sistema; e sobretudo adorava a esposa, cujas lágrimas desejaria poupar a todo o transe. Satisfaça-se pois o capricho da rainha. Mandou chamar a sua escrava mais fiel e dedicada, a alforreca, e disse-lhe o seguinte: — “Vou dar-te uma espinhosa tarefa, minha velha, mas confio na tua dedicação nunca mentida; preciso que empreendas uma longa viagem, que nades até junto da terra, e ali convenças um macaco a vir contigo a estes meus reinos; fala-lhe, para o resolveres, da mágica beleza destes sítios, tão diferentes dos seus, e da gentileza destes meus súbditos felizes; mas o que eu realmente quero neste caso, é que se arranque o fígado das entranhas de tal mono, e se sirva como medicamento à tua jovem ama, que, como decerto sabes, se acha em perigo de vida, a desditosa.”
Lá vai, oceano fora, vento em popa, a alforreca, emissária obediente e ufanosa do encargo. Por aqueles tempos, a alforreca, como qualquer bicho das águas, era um animal gracioso, de contornos esbeltos, com cabecinha, com olhinhos, com mãozinhas, e com a competente cauda titilante; e ficava-lhe tão bem o fato de marujo!... Lá vai, oceano fora, olhar sereno e cogitador, rompendo a vigorosas braçadas a onda fria. Não tarda muito a abeirar-se do país onde vivem os macacos; por felicidade, um além está, um lindo mono, saltando de ramo em ramo, dependurando-se das árvores que enraízam nos penedos e se debruçam sobre o mar. — “Bons dias, senhor macaco. Eu venho aqui expressamente para falar-lhe dum país longínquo, muito mais belo do que o seu; é ele situado além das ondas e conhecido pelo reino dos dragões; ali, não há estações, é eterna a amenidade do clima; ali, nas copas das árvores repolhudas, constantemente amanhecem aveludados frutos saborosos, é colhê-los, não há outra tarefa; para cúmulo do conforto, essas criaturas malfazejas, homens chamados, não pisam tais paragens. Se lhe agrada vir comigo, eu serei o seu guia; não tem mais que fazer do que saltar desse tronco para cima do meu lombo...” O macaco achou gracioso isso de ir ver novos países. Vá lá mais esta extravagância à conta da boêmia  simiesca. — “Ao largo, amiga!” — E lá foram os dois; porém, a meia travessia, pensou tardiamente o mono na temeridade do seu feito, expondo-se assim ao arbítrio dum estrangeiro, e abandonando a sua pátria. Decidiu-se enfim a perguntar: — “Que pensa você que vão fazer de mim na sua terra?” — A alforreca deveria agora ser discreta, encapotar as respostas em evasivas; mas ouçam lá o que ela deu em troco: — “Eu lhe digo: meu amo, rei dos dragões, ordena ao senhor macaco que arranque o próprio fígado, o qual vai ser servido à nossa soberana, hoje enferma, e salvá-la da morte.” — Então o mono, guardando para si os comentários que o caso sugeria, disse cortesmente, que era para ele uma alta honra e um inesperado prazer, o assim tornar-se útil a sua majestade; acrescentou, porém, que agora se lembrava de ter deixado o fígado dependurado num tronco de árvore, aquele mesmo castanheiro donde saltara para as costas da alforreca. Continuou discursando em linguagem fluente, de orador emérito, descendo a explanações minuciosas; e explicou como o fígado era uma coisa bastante pesada, embaraçosa, um quase alforje de peregrino, um empecilho que ele costumava pôr de parte, durante o dia, para se entregar mais à vontade aos seus exercícios de acrobata; hábitos de família, já seu avô fazia o mesmo; e concluiu, que o melhor que tinham a fazer neste momento, era voltarem para trás, e na árvore encontrariam o fígado em questão.
Não pôs objeções a nadadora. Voltando à terra, o macaco saltou ao castanheiro com uma ligeireza nunca vista, nem mesmo entre macacos, acompanhando o pulo duma alegre careta e dum gesto que traduzia o júbilo do bestunto, coisa que passou estranha à alforreca. Procurou entre as folhas o seu fígado. Não o encontrou. Explicou então do alto, à alforreca, que provavelmente algum companheiro o levara para longe, o que o obrigava a mais demoradas pesquisas pelo bosque; no entretanto que fosse ela contar o caso ao seu senhor, que devia estar ansioso por vê-la chegar antes da noite.
Assim procedeu o bicho.
El-rei, que a esperava, e que a escutou, enraivecido por tamanha ingenuidade — para não lhe chamar coisa mais feia, — mandou logo vir da maladia um bando dos seus mais soberbos samurais, e ordenou-lhes que malhassem no bicho à pancada, até cansarem. O castigo foi cumprido, e com esse vigor de braços de vilões, que miram aos aplausos do monarca. É esta a razão porque a alforreca, hoje em dia, não tem pernas, nem cabeça, nem cauda, nem barbatanas: tanta pancada levou, que ficou reduzida a esta miséria, massa informe, um farrapo, um pedaço de gelatina, boiando desprezivelmente à mercê do turbilhão das vagas.
Com respeito à soberana, reconsiderando no disparate do seu capricho, concluiu que o melhor que tinha a fazer era erguer-se da cama e pôr-se boa; e assim fez, com grande pasmo dos doutores.
A história da alforreca está contada, na sua simplicidade comovente. É verídica esta história, como tudo que o povo relata de memória; creia nela quem crê. Fica-se já sabendo entretanto, — e é isto dum proveitoso ensinamento, — que os japoneses tão prodigamente propensos ao perdão para tantos pecadilhos de alma e de costumes, castigam os patetas.
Diga-se francamente: esta desgraça da alforreca, no país do Sol Nascente, era inevitável; e o caso presta-se a interessantes comentários, que eu vou resumir em poucas linhas. Os japoneses — povo de artistas — são os grandes amorosos da criação, da forma, da vida; ninguém como eles conhece os segredos da ave, do inseto, do réptil, do peixe, dos moluscos, do verme, de todos os seres da terra; a animalidade graciosa desses seres, estudada com percepções especiais, que nos escapam, constitui o tema mil e mil vezes variado, dos seus primores de arte. Mas esse monstro, essa disformidade, essa alforreca que se apresenta como única exceção da lei geral da gentileza da vida, e parece resumir em si o enfado inteiro dum dia de mau humor do Omnipotente, devia ter deixado impressões tristes nos primeiros japoneses que a avistaram; e foi preciso arranjar logo uma explicação condigna do fenômeno, e é a que ficou descrita nestas linhas.
É ainda interessante recordar de passagem a aproximação, pela desdita, da alforreca japonesa com a medusa mitológica da Grécia, não merecendo esta melhor tratamento dos deuses olímpicos. Curiosa coincidência!

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