sábado, 11 de novembro de 2017

O vestido (Conto), de Humberto de Campos


O vestido

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Uma das minhas primeiras crônicas nesta folha, há três ou quatro anos, versou, se bem me lembro, sobre o milagre realizado por certas senhoras elegantes, as quais, tendo recebido do esposo um simples corte de seda, conseguem fazer com ele, por processos que só dias conhecem, quatro ou cinco vestidos de cores diferentes. Os esposos que ignoram, em absoluto, esses curiosos fenômenos de química, fecham os olhos, inteiramente, a todos os prodígios desse gênero; outros querem, porém, apoderar-se do segredo, e o resultado é tentarem obtê-lo à força, esgaravatando a esposa com uma faca ou, o que é menos bárbaro, com uma bala de revólver.

Deste último gênero, fiscalizando a mulher como quem fiscaliza uma fronteira ameaçada era, felizmente ou infelizmente, o Dr. Cantidiano de Sampaio Gutterres, figura tão conhecida no foro da cidade, e, principalmente, nas altas rodas mundanas. Chefe de família exemplaríssimo, o notável advogado não admitia que lhe entrasse em casa, sequer, um alfinete, sem o seu consentimento. As compras, as mais insignificantes, era ele quem as fazia pessoalmente, e isso, menos pelo temor de ser enganado no preço dos objetos adquiridos do que pelo programa, que se traçara, de tomar conhecimento de tudo que lhe entrasse no lar.

Desse cuidado do ilustre advogado, dá ideia, para honra sua, o episódio que lhe ia perturbando, há poucos dias, a vida doméstica, depois de doze anos de casado. O Dr. Gutterres havia comprado para a mulher, há um mês antes de partir para São Paulo, um vestido de seda verde, de uma que esteve em moda, no máximo, oito dias. De regresso, ao entrar em casa, sem ser esperado, encontrou-se, na escada, com a esposa, que vestia uma "toilette" nova, e, essa, amarela, gema de ovo, e sobretudo, riquíssima. Ao defrontarem-se, ficaram, os dois, mais amarelos do que o vestido.

— Que quer dizer isto, senhora? — trovejou o esposo, crispando os dedos, de cólera.

D. Antonieta encarou-o, sem dizer palavra.

— Que significa este luxo, na minha ausência? — tornou, terrível, o marido. — Quem lhe deu esse vestido?

— Foi você... — sussurrou a pobre senhora, tremelicando o beicito vermelho de "rouge".

— Eu? O vestido que eu lhe dei, então, não era verde? Como é que, agora, a senhora se apresenta com um vestido amarelo?

Ao cérebro da moça acorreu, de súbito, uma ideia, que fugiu logo, deixando apenas o rastro. Os olhos brilharam-lhe, vivos, úmidos, penetrantes, numa floração de luz, tornando-a mais jovem, mais fresca, mais linda.

— Era... — confirmou a moça

O marido encarou-a, esperando a confissão abominável. O rosto de dona Antonieta irradiou, de repente, no anúncio de uma surpresa, que podia ser um sorriso, ou uma lágrima.

— Era verde, sim... tornou, baixando os olhos: — mas...

E, perturbadíssima, sem encontrar outra saída:


— Amadureceu, Cantidiano...

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