sábado, 11 de novembro de 2017

Os colchetes (Conto), de Humberto de Campos


Os colchetes

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Eram cinco horas da tarde, quando, fechado o escritório, o Dr. Godofredo entrou no seu palacete do Flamengo, para levar a mulher a passeio. Enveredando pela casa com a sua liberdade de marido jovem, foi ele encontrar a encantadora senhora de pé, diante do "psyché", recebendo os últimos retoques no seu vestido novo, pronta para sair. Ajoelhada no tapete de pelúcia cor de ouro, a costureira, a boca repleta de alfinetes, pregava aqui, repregava ali, endireitava acolá, ajustando, como o artista ao seu quadro, as últimas curvas, as últimas ondulações da fazenda naquela maravilhosa estátua de carne.

Sentando-se no canapé do quarto de "toilette", o moço olhava, em silêncio, a meticulosidade da costureira, a perfeição do seu trabalho e a paciência do seu modelo, quando, diante daqueles toques e retoques infindáveis, lhe aflorou à boca uma observação:

— Sílvia, dizes-me uma coisa?

— Que é? — atendeu a moça, sem voltar-se, com os olhos no espelho.

— Por que é que os vestidos das mulheres, em geral, abotoam para trás?

A costureira riu, cuspindo os alfinetes na mão, estranhando a pergunta; a estátua que ela retocava apressou-se, porém, em explicar-lhe o caso, sorrindo-lhe pelo cristal do "psyché".

— Você, então, não sabe?

E explicou:

— O momento mais glorioso da vida da uma mulher, é aquele em que ela se prepara para sair. Diante do espelho, refletindo-se na lâmina lisonjeira, ela se glorifica a si mesma, olhando-se, mirando-se, namorando-se. Antes de agradar aos outros, ela quer agradar-se a si mesma; e daí as horas que passa diante do espelho, mirando-se, remirando-se, quando lhe seria mais vantajoso estar na rua, no salão, no passeio, recebendo ou fazendo visitas, para ser vista, louvada, admirada.

E depois de uma pausa, forçada por uma recomendação à costureira:

— Com essa paixão por si mesma, pelas suas "toilettes", pelo namoro da sua própria figura, a mulher não poderia admitir, evidentemente, que, ao ir vestir-se, outra mulher se pusesse entre ela e o espelho, para abotoá-la. Seriam momentos de autocontemplação que ela perderia, e que ela evitou, relegando para trás os botões, os colchetes, os alfinetes, as pressões, e, com eles, a costureira, que deixa de lhes fazer sombra diante do espelho.

Horas depois regressavam os dois do passeio, durante o qual o jovem advogado estivera a meditar sobre a vaidade feminina, refletindo sobre o que lhe dissera a esposa em relação à origem do feitio dos vestidos, quando compreendeu que era mentira tudo quanto ela, à tarde, lhe contara. Foi quando a mulher, preguiçosa e risonha, lhe voltou as costas pedindo:

— Desabotoa aqui?


A origem daquele costume era, positivamente, aquela. As mulheres puseram os colchetes e pressões dos vestidos para trás, unicamente para os maridos lhes beijarem as espáduas...

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