domingo, 5 de novembro de 2017

As cruzes (Conto), de Humberto de Campos


As cruzes

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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As senhores grazinavam, como periquitos em roçado, em torno da mesa do chá, quando Madame Gama Simpson se curvou, rindo com alarido, sobre a toalha de linho bordada de cegonhas vermelhas, numa escandalosa explosão de alegria. Segurando em uma das mãos a taça de porcelana e na outra, fechadinha como um botão de rosa, uma torradinha cor de ouro, a linda criatura ria despreocupadamente, agitando-se na cadeira, quando, com o movimento do corpo, lhe saltou do colo de neve e rosa, pela janela de seda do decote, a sua custosa cruz de brilhante, fugindo-lhe para o ombro, com o risco de perder-se.

— Cuidado com a cruz, madame! — avisou, atencioso, do outro lado da mesa, o conselheiro Atanásio, que observava, sem perder um movimento do solo, as ondulações do Calvário e os arredores da Jerusalém.

D. Lisete olhou o decote, apanhou a cruz fugitiva, e, aconchegando-a à carne rosada, queixou-se, risonha:

— Também, que ideia esta, de inventar cruzes para o colo da gente!

— Vossa excelência não sabe, então, o que elas significam, na opinião de Tabarin?

As senhoras mostraram-se curiosas de conhecer a origem daquele costume, e o antigo palaciano começou, medindo as palavras:

— Na Idade Média, quando eram deficientes os meios de comunicação de cidade para cidade, de aldeia para aldeia, de um castelo para outro castelo, os monges, que dominavam nos países barbarizados da Europa tomaram a si a incumbência de marcar os caminhos, cujas direções eram assinaladas por meio de cruzes. Ao deparar, na mata ou na montanha, um destes símbolos da cristandade, o viajante já sabia que não errara o seu roteiro, e que a estrada era, mesmo, por ali...

— Mas... — interrompeu, impaciente, Madame Souza Batista.

— Espere... — implorou o conselheiro.

E continuou:

— Mais tarde, com o advento das modas femininas, e com o aproveitamento, por parte das mulheres, de todas as conquistas do homem, entenderam elas de utilizar o mesmo símbolo, com a mesma significação.

— A cruz no colo das mulheres quer dizer, então, alguma coisa? — interrompeu, franzindo a testa, Madame Werther.

— Evidentemente, minha senhora! — tornou o conselheiro.

E explicou:

— Elas estão dizendo, como nas montanhas antigas, que... o caminho é por ali!

Quando o conselheiro terminou a sua narrativa, Madame Simpson procurou a sua cruz de brilhantes, e tomou um susto. Com os seus modos estabanados, a cruz havia, de novo, abandonado o decote, e fugido para trás...

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